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Como parte final e pouco mais breve de análise, propõe-se um comparativo da

realidade apresentada pela FDUFBA em relação à Faculdade de Direito da UFRGS,

somente na visualização que as pessoas entrevistadas possuem destas instituições,

tal como feito no subtópico 4.1. Ou seja, tendo por base a FDUFBA como instituição

que não possui qualquer relação com pessoas trans, com o(s) movimento(s) e

ativismo(s) trans, uma vez que as pessoas entrevistadas – Jenny, Yuretta, Be e

Francisco – da comunidade discente da UFBA, enquanto representantes de um

grupo sociopolítico, não enxergam este local como possibilidade de acesso,

pretende-se verificar se tal configuração está colocada para a Faculdade de Direito

da UFRGS.

De acordo com as pontuações feitas pelas pessoas entrevistadas da UFRGS,

de início, já se nota a diferença na visualização da Faculdade de Direito desta

universidade como espaço de acesso/serviço prestado em prol da população trans

local. Isso se coloca pela existência de um grupo, dentro de uma dos projetos de

extensão desta Faculdade, que é voltado ao trabalho jurídico-prático e levantamento

de debates sobre gênero e sexualidade. Trata-se do G8-Generalizando, do Serviço

de Apoio Jurídico – SAJU/UFRGS.

O G8-Generalizando é referido por ambas as pessoas entrevistadas

estudantes da UFRGS não como serviço e/ou espaço que já foi utilizado/acessado,

mas como espaço que se tem conhecimento que desempenha trabalhos com

pessoas trans, sobretudo na questão pertinente à retificação do registro civil.

Destaca-se, então, que o conhecimento sobre a existência deste grupo, da

Faculdade de Direito da UFRGS, é publicizada a nível de ser o G8-Generalizando

tido como viabilidade, de ser lembrado mesmo não se tendo recorrido a tal, inclusive

sendo ressaltado com um serviço de qualidade, inobstante seja gratuito, como

pontua o Entrevistado UFRGS.

Isto demonstra que a configuração da Faculdade de Direito da UFRGS, em sua

relação com as pessoas trans, pelo atendimento de demandas do movimento(s) e

ativismo(s) trans, por se propor a refletir sobre as complexidades trans, não tendo

uma atuação limitada à questão do registro civil, mas, conforme publicações na

página

virtual

do

grupo,

na

mídia

social

facebook

(disponível

em:

https://www.facebook.com/G8Generalizando/), também atua prestando assistência

jurídica gratuita a pessoas LGBT, inclusas pessoas trans, que se encontram em

casos de violência e/ou vulnerabilidade.

Vale enfatizar que a atuação do G8-Generalizando não é recente. Funciona

desde 2006, com desenvolvimento de projeto exclusivamente voltado às pessoas

trans, intitulado “Direito à Identidade: Viva seu nome!”, iniciado em 2012 e já tendo

ocorrido por nove edições. Segundo postagem na página virtual do grupo (disponível

em: https://www.facebook.com/G8Generalizando/; publicado em 21 de julho de

2017), este projeto consiste num mutirão de retificação de registro civil de pessoas

trans. Por meio deste, o G8-Generalizando convoca as pessoas trans, levando ao

conhecimento destas o trabalho desenvolvido para que elas possam proceder com

sua retificação de registro civil – do nome e do gênero – gratuitamente. Este projeto

aparece na fala da Entrevistada UFRGS, a qual apenas não o havia utilizado, à

época da entrevista, por ainda não ter decidido qual nome adotaria. Inobstante, de

acordo com a postagem ora referida, o projeto está, temporariamente, suspenso, por

ter surgido uma nova demanda de documentação arbitrária e invasiva do juízo

competente, reforçando a patologização sobre as pessoas trans.

Verifica-se que a FDUFBA conta com um SAJU, da mesma maneira que a

Faculdade de Direito da UFRGS. Os funcionamentos destes grupos são similares e

não há de se ter receios em tentar experiências que têm sido bem sucedidas e

colaborado com a população trans, em outros espaços acadêmicos, pelos lados de

cá. Espelhar-se em trabalhos e projetos considerados de qualidade e que se

aproximam das pessoas trans, inserindo-as na instituição e debatendo suas

existências, desde que entendendo as particularidades de um possível

desenvolvimento na FDUFBA, é oportuno e pode contribuir para inícios de

construção e consolidação de uma relação desta instituição com pessoas trans, com

movimento(s) e ativismo(s) trans, com as demandas destas pessoas sujeitas de

direito.

5 CONCLUSÃO

O trabalho proposto buscou entender como se coloca a instituição Faculdade

de Direito na inserção de pessoas trans no seu cotidiano acadêmico, na sua

comunidade, nos seus discursos, no seu funcionamento, por meio de uma possível

relação com o(s) movimento(s) e ativismo(s) trans. Não se encerrando no pensar

esta relação entre instituição e movimento(s)/ativismo(s) trans, para chegar à

questão da inserção, o trabalho também se voltou a compreender quais as

demandas colocadas pelo(s) movimento(s)/ativismo(s) trans, portanto pelas pessoas

trans em suas multiplicidades; o atendimento, ou não, destas reivindicações pela

FDUFBA; quais vias a serem adotadas para que se possam abarcar estas pautas

das pessoas trans por um ambiente acadêmico que guarda potencial para ser

utilizado como transformação. Complementarmente, trouxe-se um comparativo entre

a realidade da FDUFBA e da Faculdade de Direito da UFRGS, sobre o aspecto da

relação entre instituição e movimento(s)/ativismo(s) trans.

Entendendo-se necessário uma abordagem sobre identidade de gênero e os

exercícios de poder hegemônico, especialmente no que se refere às identidades de

gênero não inseridas no limitado espectro da dominância, procurou-se trazer

algumas noções sobre tais construções de expressão das subjetividades e

coletividades políticas. Posteriormente, tratou-se da relação existente entre direito e

pós-modernidade, como crítica aos paradigmas construídos na modernidade e que

resultaram num grande distanciamento entre direito e corpo social. Não à toa, foram

abordados os novos movimentos sociais que surgiram e ainda vem tomando corpo

como crítica à luta atrelada, somente, à dicotomia de classe, trazendo-se breve

histórico do(s) movimento(s) e ativismo(s) trans como um desses grupos

sociopolíticos com propostas de discussões mais amplas.

Estabelecidas as bases teóricas, com a análise dos dados coletados nas

entrevistas semidiretivas, realizadas com estudantes de graduação da UFBA, foi

possível compreender a inexistência de uma relação entre a FDUFBA e

movimento(s)/ativismo(s) trans, pelo que não está ocorrendo inserção de pessoas

trans neste ambiente acadêmico. Entendeu-se que a referida instituição está

colocada como parte do processo de epistemicídio contra a população trans,

contribuindo ao apagamento cultural e intelectual destas pessoas, além de estar

exercendo, fortemente, um poder voltado à (re)produção de corpos conformados à

estrutura da heterossexualidade compulsória e cisgênera, como únicas

possibilidades inteligíveis dentro do mundo do direito, seja enquanto pessoa

operadora do sistema jurídico, seja enquanto pessoa sujeita de direito.

No

que

diz

respeito

às

reivindicações

pautadas

pelo(s)

movimento(s)/ativismo(s) trans, entendida a sua diversidade de vertentes,

geralmente associada às particularidades das identidades trans, foram ressaltadas

as pautas voltadas ao reconhecimento da existência/vida trans, das necessidades

de serem redistribuídas as oportunidades de acesso aos serviços públicos e

espaços formais de sustentação econômica, incluso o mundo do trabalho. Porém,

colocou-se que o(s) movimento(s)/ativismo(s) trans têm propostas

– ou não

propostas – no viés para além da estrutura imposta, para além da proposição de

uma nova estrutura, pois a estrutura é a forma de opressão pela preservação de

alternativas restritas de ser.

De tal forma, percebeu-se, também, que a FDUFBA não tem se colocado em

prol das reivindicações trans, sendo urgentes os questionamentos e reformulações

pelas diversas esferas que compõem este espaço/comunidade acadêmica, junto

com pessoas trans, sejam elas parte, ou não, da instituição, formalmente. O corpo

docente pode exercer seu papel, conjuntamente com discentes

– não se

esquecendo das pessoas trans, jamais –, de repensar os currículos e ementas das

disciplinas ministradas na Faculdade, para que a realidade trans venha a ser tratada

na multiplicidade do mundo do direito, sem abordagens apartadas. O corpo discente,

com foco principal nos Coletivos Madás e LGBT, podem vir a reforçar a dimensão de

atuação discursiva, trazendo à tona os debates sobre transgeneridade, sobre

pessoas trans em suas múltiplas formas não finitas, nas suas complexidades, sem

se encerrar na questão do “nome social”, juntamente com pessoas trans, para que o

fazer não seja para e nem pelas pessoas. As instâncias administrativas, por seu

turno, foram facultadas como opções de incentivos pela concessão de espaços

físicos e fomento de contratação de profissionais trans.

Qualquer que seja a futura atuação da FDUFBA, para que se repense a

posição que a Faculdade estabelece em relação à população trans, é preciso que se

permita que as pessoas trans falem sobre suas realidades e vidas; é preciso quebrar

a barreira da pretensão científico-moderna do “cientista” que fala por todas as

existências, como se tivesse total capacidade de compreendê-las na sua

integralidade, perdendo de vista que estas estão sendo repensadas a todo o tempo

para além da dimensão do gênero. A transgeneridade não encerra a existência de

uma pessoa – com complexidade de outras naturezas – mesmo que esta existência

seja toda transpassada por isto.

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APÊNDICE

APÊNDICE A – Entrevista Jenny Müllher

[Renon] A priori, Jenny, eu queria saber como foi a sua trajetória acadêmica. Como foi a sua passagem pelo ensino básico, nas primeiras séries, ensino fundamental, ensino médio... Como se deu esse processo de você entender qual curso queria fazer na universidade, se você queria ingressar na universidade, como se deu esse interesse seu, como você chegou, por exemplo, até a UFBA? Queria realmente saber sua vida nesses termos, como o estudo. O que você quiser comentar sobre isso, à vontade.

[Jenny] Eu não me assumi enquanto criança, como uma pessoa transgênero na infância. Então, eu cresci “normal”, assim, sem violências diretas – claro, com algumas violências porque a gente acaba... O ambiente escolar reproduz a nossa sociedade, então a gente acaba sofrendo violência, sim, mas eu sempre fui uma pessoa extrovertida, muito comunicativa, participativa. Então eu sempre participei de eventos, participei de tudo que estava envolvido na área de artes e, daí, sempre soube que iria para a área de artes. Eu estudei até a 4ª série em colégio particular, com bolsa, aqui em Salvador – é, sou daqui de Salvador – até os 10 anos de idade. E, aí, a partir da 5ª série, eu ingressei – aí fui morar no interior, porque minha família se mudou – na escola pública. A partir daí, a minha visão de mundo e conceitos de educação mudaram, porque o colégio público, no interior, é bem diferente do colégio daqui (Salvador) e, independente do lugar, o colégio público é totalmente diferente do colégio privado. Então eu senti que eu ganhei uma certa liberdade, mas que eu perdi um certo apoio escolar que eu tinha na escola privada. Então eu sempre participei, sempre me fiz presente, sempre tirei notas boas, sempre fui... Muito bagunceira! Sempre fui, mas sempre estive envolvida em tudo no colégio, então... E isso, desse envolvimento, acabou me fazendo pensar sobre as possibilidades de áreas para seguir. Pensava muito em Letras. Eu queria, nesta época, entre meus 14 a 16 anos, ser professora, porque acho que o trabalho de professor é o mais importante da sociedade hoje. Qualquer pessoa tem que passar por um bom professor, então acredito que é um trabalho incrível. Então, até o 2° ano, mais ou menos, eu queria e ainda tinha uma intenção em seguir na área de Letras para trabalhar como professora. Mas eu estava muito envolvida com projetos de artes e, uma professora minha, Cleunice – lembro dela até hoje – ela virou pra mim uma vez, me chamou pra conversar – eu estava no colégio participando de um evento de artes que era um concurso – no qual, ela me inscreveu – ela não me perguntou, ela disse assim: “Você gosta de desenhar, desenha bem, então já paguei a sua taxa de inscrição” – então, todas a deixas que eu poderia dizer pra não participar, ela cobriu. Ela me deu material, deu tudo e ela falou: “Você participa.” E eu estava lá e ela me chamou pra conversar de boa, não como professora, ela tinha um posicionamento muito horizontal, não tinha aquela professoria hierárquica (ela em cima e os alunos embaixo) e ela me perguntou: “Qual curso vai fazer?” Respondi que iria fazer Letras e ela era professora de Português e Literatura, só que formada em História da Arte, também, e ela: “Não! Você não tem que fazer letras, você tem que fazer Artes. Você é de Artes! Você está envolvida em teatro, música aqui no colégio. Vejo você uma das pessoas que mais movimenta arte aqui, então, acredito que você tem que seguir com isso.” Aí, a partir daí, eu decidi que, realmente, o que eu sempre quis fazer, foi Artes. Por um tempo, eu anulei essa possibilidade, porque desse preconceito que tem, de que artista não ganha dinheiro e que Artes é apenas um hobby. Eu tinha, também, esses preconceitos em mim. Então, eu acreditava que Artes seria meu último caminho, que seria apenas algo mais para hobby do que profissão.

[Renon] E você está nas Plásticas ou...?

[Jenny] Eu estou, hoje, no B.I. de Artes, eu entrei aqui em Design. Eu me inscrevi... Me preparei para entrar em Artes Plásticas, no dia da inscrição coloquei Design. Entrei em Design e me mudei pro B.I. Mudei pro B.I., porque eu estava trabalhando com performance. Então eu estava querendo muito estudar Teatro e Dança, e, aí, um amigo virou e disse: “Por que você não vai pra B.I. que dá possibilidade de ter o contato com Teatro e Dança ao mesmo tempo e não individual?!” Aí, acabei mudando. Eu também sempre tive a ideia de que arte é política. Sempre quis muito, em algum momento da minha vida, um trabalho voltado pra Artes. Então, esse é o meu trajeto até entrar na universidade. Eu já tinha passado um ano, antes de entrar na UFBA, na federal do Vale São Francisco...

[Renon] E lá você também fez Artes?

[Jenny] Eu entrei pra fazer Artes Visuais, mas licenciatura. Só que, aí, eu já não queria mais trabalhar como professora, nessa época, de Artes. Primeiro, que queria um trabalho... Meu, me enxergar, me encontrar em algum lugar, porque até lá eu tinha dúvidas; queria muito fazer Teatro, queria muito fazer Dança, mas eu já trabalhava com Artes Visuais. Então eu falei assim...

[Renon] Você já tinha produção?

[Jenny] Eu tinha! Eu desenhava... Pintura e desenho, não era muito grande, era mais... Algo pessoal, mas já era um trabalho. Então decidi, primeiro, entrar no que eu achava que era o meu caminho, mas, aí, aqui na faculdade, eu encontrei com pessoas da área de performance, me encontrei...

[Renon] Você entrou aqui na UFBA quando?

[Jenny] Eu entrei em 2013.

[Renon] Você já está na UFBA há... Quatro anos!

[Jenny] Quatro anos! Vou fazer cinco.

[Renon] E você ficou quanto tempo na EBA mesmo?

[Jenny] Na EBA fiquei cinco semestres...Mas assim, são quatro anos de UFBA, mas são dois de greve, né? (risos)

[Renon] De greve! (risos)

[Jenny]: Entrei na UFBA com greve, passei por outra greve, peguei um final de greve... Já estou com três greves, mais uma, estou num abadá (?)

[Renon] Aí você já vai fazendo todos os carnavais de greve. É maravilhoso! A UFBA realmente é maravilhosa!

[Jenny] Mas esses períodos de greves foram importante pra mim na parte acadêmica, porque eu não pensava em mudar de curso até passar por uma greve. Pegar a minha primeira greve. Eu tinha entrado, estava numa greve...

[Renon] Na primeira que você entrou?

[Jenny] Quando eu entrei, estava pegando o final da greve, que foi de 2012.

[Renon] Foi!

[Jenny] Entrei nesse período, estava tudo uma maluquice. Aí, peguei uma outra greve que teve, peguei essa última. Então foram três greves. Aí, na primeira que eu peguei, já cursando, eu me encontrei nessa dúvida, porque eu comecei a trabalhar muito com... Me envolver com Teatro, eu estava muito fugindo do trabalho de Artes Visuais. Então, aí, foi aí que... Deu essa luz e eu falei: “Não! Eu quero mudar!”

[Renon] Realmente!

[Jenny] Então foi porque da performance que eu acabei trocando de curso. Estagiei no Teatro Martins Gonçalves durantes quatro anos. Isso me influenciou, também. Eu... Me envolver com produção, com

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