2 A CULTURA ORAL E VISUAL NO PAÍS SEM LEITORES
2.4 FAITS DIVERS: A POPULARIDADE DO EXTRAORDINÁRIO
Tão imagético e expressivo quanto o romance de folhetim, o fait divers13 foi nomeado pela primeira vez na obra de Roland Barthes (Essais Critiques, 1964). A
13 Em francês, no singular.
publicação de notícias extraordinárias, no entanto, não era novidade. Barthes (1971) sistematiza o conceito o divide em duas categorizações: causalidade14 e coincidência15. No Brasil, os faits divers adquirem características específicas à mídia do país, e são definidos por Angrimani (2004, p. 25) como “uma rubrica sob a qual os jornais publicam com ilustrações as notícias de gêneros diversos que ocorrem no mundo”. A imprensa brasileira apropria esta tradição – também vinda da França – e, sem surpresa, conquista o público brasileiro, apaixonado pelo barroco e reprodutor da cultura carnavalesca como observa Meyer (2001, p. 178). O faits divers é quase como uma prova de que a história folhetinesca acontece, também, na vida real.
A vida real está cheia delas, só que, agora, não precisam se passar apenas nos subúrbios rodriguianos16 ou se limitar a adultérios. Estão em toda parte: nos arraiais científicos, no mundo tecnológico, no reino animal e, com frequência, em todos esses universos ao mesmo tempo (CASTRO, 2004, p. 11).
Horror, poesia e humor são os principais ingredientes da rubrica, que raramente abarca alguma notícia que não tenha elementos de pelo menos um destes três temas.
É a previsibilidade que, somada ao extraordinário, – um extraordinário que poderia acontecer com qualquer um – interessa a um público que também busca entretenimento nos jornais. “A imprensa sensacionalista, como a televisão, o papo no bar, o jogo de futebol, servem mais para desviar o público de sua realidade imediata do que para voltar-se a ela” (ANGRIMANI, 1995, p.15).
Esta repetição é cômoda e agrada ao brasileiro que, como descrito anteriormente, não tem o hábito de enxergar a leitura como forma de prazer. Quando o assunto é cômico, o jornal se transforma, também, em entretenimento.
14 É dividido entre causa perturbada (quando uma causa normal surte grande efeito) e causa esperada (quando a causa é normal, mas os personagens têm grade nível de dramaticidade) (BARTHES, 1971).
15 Pode se manifestar por repetição (quando o igual se reproduz com alguma particularidade ou
diferença) ou antítese (quando duas perspectivas antagônicas formam uma única realidade) (BRATHES, 1993).
16 Ruy Castro (2004) refere-se a Nelson Rodrigues, especialmente às crônicas publicadas no jornal Última Hora, na coluna A Vida como Ela é....
O leitor é logrado, porque compra jornalismo, mas recebe em troca literatura popular, maquiada e vendida para se passar por jornalismo. No entanto, [...] o leitor do jornal sensacionalista é conivente com a “cascata” e parece não só aceitá-la, como também estimula a publicação, acrescentando novas versões (ANGRIMANI, 1995, p. 104-105).
A diferenciação entre a reportagem sensacionalista e as demais aparece, ainda segundo Angrimani (1995 p. 41), na linguagem. O uso de clichês que aproximam o leitor emocionalmente do fato relatado, causando identificação mesmo que inconsciente com a situação, podem resultar em sensacionalismo.
A visão pejorativa do sensacionalismo, que o considera uma forma de entretenimento de “baixa cultura”, não é recente. Os faits divers eram, já no século XVIII, bastante difundidos nos jornais americanos. Apesar de populares, eram considerados uma forma “fácil” de diversão. Acreditava-se – e a ideia ainda é difundida por diversos autores – que um concerto de Beethoven exige muito mais esforço intelectual do público para ser apreciado do que uma música de rock, por exemplo (DEJAVITE, 2001, p. 5). A mesma ideia é também aplicada aos faits divers, quando considerados entretenimento.
A leitura mais prazerosa deste tipo de texto atrai os leitores, que antigamente não tinham o cinema nem a televisão e procuravam diversão diretamente nos periódicos. Posteriormente, com a popularização da televisão, o gênero tende a migrar para o novo meio e se desenvolve com ainda mais força do que no impresso, tendo o fator emocional impulsionado pela imagem, que procura refletir com ainda mais semelhança a vida do cidadão.
Imagéticos e curiosos, os faits divers têm destaque neste trabalho porque reforça a tese de que o público da mídia brasileira recebe bem a notícia que pode ser facilmente reproduzida.
2.5 ALMANAQUE: O CONHECIMENTO SISTEMATIZADO
Um país de poucos leitores e muitos analfabetos não é sinônimo de um país sem conhecimento, e a oralidade tem um papel importante quando a palavra escrita
não consegue transmitir a informação. É nessa linha que surgem os almanaques, que pretendiam educar a população de forma simples e direta, facilitando a repetição do conhecimento em voz alta e dispensando a necessidade do acesso de um grande grupo de pessoas à leitura.
Com a sistematização do saber em dicas práticas que refletiam a vida do leitor de qualquer parte do Brasil, o almanaque era a grande fonte de informação no país.
Machado de Assis, ao escrever Como se Inventaram os Almanaques (In: MEYER, 2001), demonstra que o impacto deste tipo de publicação foi extremamente relevante para a população, organizando o conhecimento e, assim, tornando-o mais simplificado.
“Agora sim – disse Esperança pegando o folheto que achou na horta –, agora já não me engano nos dias das amigas. Irei jantar ou passar a noite com elas, marcando aqui nas folhas, com sinais de cor os dias escolhidos” (ASSIS In: MEYER, 2001, p. 27).
O autor realça, também na obra ficcional, o hábito de colecionar as publicações – como forma de consulta posterior, para trabalhos escolares por exemplo, ou ainda de ostentação do material de leitura que trazia status social a quem lia, como demonstrado anteriormente neste trabalho. “Guardaram naturalmente os velhos. Ao findo, outro almanaque; assim foram eles vindo, até que Esperança contou vinte e cinco anos, ou como então se dizia, vinte e cinco almanaques” (ASSIS In: MEYER, 2001, p. 27).
Por ter função didática e sistematizadora, o almanaque torna-se essencial na educação da população pouco familiarizada com a leitura. Grande parte de conteúdo era puramente prática ao dia a dia, como calendário com as principais datas do mês, fases da lua, dicas de higiene, saúde, entre outros. Decorar o conteúdo para repeti-lo posteriormente como forma de demonstrar conhecimento era muito comum. "Eles têm a mania de pegar vinte vezes nessas misérias, e, quando falam delas (o que fazem muito naturalmente), recitam, por assim dizer, palavra a palavra, os seus pequenos livros"
(CHARTIER, apud PARK, 1998, p. 4). Novamente, exemplifica-se a importância da necessidade de mostrar o que era aprendido – mais importante até do que o próprio saber.
“Ilustrado com signos, figuras, imagens, o Almanaque dirige-se aos analfabetos e a quem lê pouco” (BOLLÈME, apud PARK, 1998, p. 33). Mas não apenas. Park
(1998), ressalta que esse tipo de publicação também reunia textos eruditos, que acabavam por atingir também a população mais habituada à leitura.
Percebe-se, portanto, que os hábitos culturais destinados primeiramente à população analfabeta começam a conquistar também o público escolarizado. Como a leitura fragmentada, simplificada e com grandes doses de entretenimento era rentável aos donos dos meios de comunicação, ela começa a se disseminar entre toda a população brasileira.
Os reflexos desta herança permanecem visíveis no consumo da informação no país, e mais adiante eles serão ressaltados neste trabalho para analisar a forte relação entre texto e imagem – essencial à televisão – que a revista O Cruzeiro já havia inaugurado, antes mesmo da chegada das telinhas às casas brasileiras.