3. Conflitos Ambientais e seu atravessamento por assimétricas relações de poder: uma
3.5 A fala como lugar de poder: breves apontamentos sobre discurso
Nestes percursos investigativos, imergiremos em alguns dos artefatos de produção de crenças que geram obediência, que retiram (ou procuram retirar) da percepção do outro sua capacidade de dissentir e resistir.
Enquanto expressão da capacidade de dominação e como estratégia para imposição de significados é que estudaremos os discursos no licenciamento ambiental, tendo como principal (mas não única) fonte as audiências públicas. Este estudo procura perceber as estruturas de forças, ou seja, as expressões do poder e suas assimetrias.
Em suas teses, Daniel Bensaid afirma que “a discordância social não é solúvel na harmonia comunicacional” (BENSAID, 2008, p.43.), problematizando um dos pilares da Teoria Comunicacional, qual seja, a idéia de consenso e harmonia entre os atores envolvidos na comunicação. O autor afirma que
Enquanto os sujeitos consensuais da comunidade comunicacional ideal aparecem como anjinhos etéreos e ectoplasmas sem emoções nem paixões, a
língua é um lugar em que os “falantes” se enfrentam: o discurso peremptório
dos dominadores e a palavra subalterna dos dominados. “O agir
comunicacional” não escapa dos conflitos e das relações de força.
(BENSAID, 2008, p. 44) (grifo nosso)
O debate público conduzido pelo licenciamento postula-se, em sua concepção normativa, como um espaço de produção do consenso, de esclarecimento de dúvidas, de participação igualitária dos sujeitos sociais, conforme se verá em análise detalhada das audiências públicas do Projeto Santa Quitéria. Tais marcos epistêmicos, na prática, denotam profundas contradições.
Pierre Bourdieu, em sua Economia das trocas lingüísticas, 1977, realiza uma crítica à lingüística, propondo a substituição da noção de gramaticalidade pela de aceitabilidade, de relações de comunicação pelas relações de força simbólica e de sentido do discurso pela questão do valor e poder do discurso. (BOURDIEU, 1977, p.2)
Em sua crítica, Bourdieu recusa a autonomização da produção lingüística. Para ele, “a linguagem é uma práxis” (BOURDIEU, 1977, p.3), feita para ser falada adequadamente. Mais que a gramática, importa saber quais são as condições de utilização adequada da fala, o que caracteriza a competência prática dos sujeitos, adquirida na prática social, competência esta cuja outra face é a capacidade de se fazer escutar (aceitabilidade).
O discurso é a “expressão particular da estrutura das relações de força entre os grupos que possuem as competências correspondentes” (BOURDIEU, 1977, p.3). Toda compreensão semântica permeia a apreensão de intenções, práticas e formas específicas dadas em um contexto determinado. Sendo uma expressão do Poder Simbólico, a fala autorizada, legitima, se produz em relação. Tal relação de produção configura-se a partir da importância do capital dos interlocutores envolvidos, importância esta medida por valores que se atribuem dentro de uma lógica de mercado, o mercado das falas autorizadas.
Nesta compreensão de aceitabilidade, algumas falas são mais aceitáveis, ou detém mais legitimidade social, valor ou capacidade de se fazer ouvir do que outras. Daí decorre a constatação de que
A língua é também um instrumento de poder. Não procuramos somente ser compreendidos, mas obedecidos, acreditados. Daí a definição completa
de competência como direito à palavra, isto é, à linguagem legítima como linguagem autorizada, como linguagem de autoridade. A competência implica o poder de impor a recepção. (BOURDIEU, 1977, p.6) (grifo nosso)
A competência adequada, portanto, além de instrumentalizar uma relação de poder, também se lastreia a partir das condições esperadas para recepção. Ou seja, é preciso também produzir a aceitação, a crença no que se diz a partir de contextos específicos de escuta. Por isso, diversas vezes vários elementos da linguagem não querem senão reforçar a própria autoridade de quem fala. Com estas lições de Bourdieu (1977) que pretendemos interpretar características dos distintos discursos travados no conflito em análise.
Os discursos, que não se desligam das práticas sociais, imprimem um padrão de justificação a grandes empreendimentos. Além disso, dependem das condições de
aceitabilidade e do contexto social para produzirem a eficácia esperada (e programada) pelos empreendedores. Neste ponto, discurso e rito se aproximam. As idéias embutidas nas falas e o formato dos espaços públicos de debate se associam dentro das estratégias de produção da aceitação social.
O discurso positivo a respeito dos empreendimentos tem sua eficácia atrelada aos contextos rituais de sua enunciação e não pode funcionar independente deles. O discurso e a palavra não são dissociáveis do
ritual, em que os sujeitos falantes e seus enunciados adquirem eficácia.
(BRONZ, 2011, p.162) (grifo nosso)
Assim como a autora, não pretenderemos analisar em detalhes as distintas performances e as nuances cerimoniais dos espaços de fala e participação. Pretendemos observar as condições que estimulam ou interditam a fala, as condições sociais que delimitam o campo do dizível e, portanto, o horizonte do possível nas críticas formuladas nos espaços de debate sobre grandes empreendimentos. Seria possível a todos os sujeitos sociais, indistintamente, formular e expressar a inteireza do potencial de crítica a determinado projeto? Os espaços públicos de debate dão suporte a um questionamento profundo aos projetos de desenvolvimento? O marco epistêmico destes espaços institucionais, como as audiências públicas, considerados pela legislação como espaços fomentadores da participação, poderiam evidenciar e desconstruir as desigualdades práticas de discursar, ouvir e valorar as distintas falas? Como as distintas valorações de discursos apresentam-se na vivência deste espaço institucional? Estas nos parecem questões relevantes para compreensão dos conflitos ambientais.
Para seguir refletindo sobre o tema, temos que destacar que correlato à produção social do discurso, encontra-se a produção do silêncio, ou das censuras.
O discurso é uma formação de compromisso resultante da transação entre o interesse expressivo e a censura inerente às relações de produção lingüísticas particulares que se impõe a um locutor dotado de uma competência determinada, isto é, de um poder simbólico mais ou menos importante sobre essas relações de produção. (BOURDIEU, 1977, p.9)
Importa, ainda, dizer que não se pode salvar o lugar privilegiado da fala sem salvar as relações de poder que envolvem os interlocutores, por isso trazemos tais reflexões para esta pesquisa. A lógica de produção do discurso, como um bem simbólico que recebe distintas valorações a partir de condições específicas, tal como a competência do sujeito que fala, envolve o discurso em condições sociais de produção e valoração. Para Bourdieu, “o discurso deve sempre uma parte muito importante do seu valor ao valor daquele que o domina”, muito mais do que o quanto o agente social
domina a gramática que fala. Toda estrutura social está presente na fala, pois “o que fala nunca é a palavra, o discurso, mas toda a pessoa social”.
Feita esta explanação introdutória sobre algumas dimensões da assimetria de poder nos conflitos ambientais, com destaque para a noção de interesses, lutas simbólicas e de significação, o papel do Estado e seu poder de nomeação, o discurso como espaço de poder, partiremos para análise do conflito em si, seguindo o roteiro analítico dos objetivos específicos desta pesquisa.
4. AS DISPUTAS EM TORNO DAS NARRATIVAS QUE JUSTIFICAM O