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CAPÍTULO II – DISCURSO, SILENCIAMENTO E TOMADA DE PALAVRA:

2.6 Falar sobre si: vivência e representatividade

Mais um corpo tombou... Ainda me resto e arrasto aquilo que sou. Conceição Evaristo, em Olhos D’água Em 14 de março de 2018, um atentado ceifou a vida de Marielle Franco, vereadora eleita pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) do Rio de Janeiro, e do motorista Anderson Gomes, que estava a trabalho com a vereadora. Horas depois, repercutiria por meio de diversas mídias, jornais, programas televisivos, redes sociais, em todo o mundo, a seguinte descrição da vítima: “mulher, negra, mãe, cria da Maré” - modo como Marielle se apresentava enquanto pessoa pública. Em seu último dia de vida, a vereadora participara de um debate intitulado “Jovens negras movendo as estruturas”, na Casa das Pretas, Rua dos Inválidos, 12270. Tratava-se de uma atividade de mulheres negras, acadêmicas e ativistas, organização da vereadora como contribuição à campanha 21 dias de ativismo contra o racismo71.

Bastante conhecida no Rio de Janeiro, Marielle Franco denunciava casos de abusos policiais vinculados a assassinatos de moradores das favelas; dava assistência a famílias de moradores das comunidades que tivessem entes perdidos em função da violência policial; dava assistência a famílias de policiais que fossem vítimas da criminalidade; organizava campanhas contra assédio sexual de mulheres; compunha atos em defesa da comunidade LGBTQI+; organizava ações de combate ao racismo, com debates voltados para políticas públicas para a população negra e pobre, dentre algumas de suas ações. Enfim, efetivamente, uma defensora dos Direitos Humanos.

Sem dúvida, as pautas de Marielle Franco eram fundadas em seu próprio pertencimento aos segmentos de que tratava nas esferas públicas. A atuação da vereadora não se restringia à Câmara de Vereadores, mas era corpo a corpo: militava em ruas das favelas, debates acadêmicos, paradas LGBTQI+, praias, reuniões políticas, ou seja, transitava por diferentes espaços, ocupando-os politicamente com seu corpo simbólico. Em muitas de suas

70 Mais informações no site: https://www.mariellefranco.com.br/quem-e-marielle-franco-vereadora. 71 Mais informações na página do evento: https://www.facebook.com/events/651932505137717/.

falas, a militante do PSOL descrevia o dia a dia de mulheres negras e pobres do Rio de Janeiro, falava sobre elas, falava por elas, falava como se fosse elas, já que era uma delas.

Entendemos que as narrativas que um sujeito político faz de si, enredadas em uma construção discursiva, que carregue efeitos de sentido de compreensão de problemas vividos e indignação com situações adversas naturalizadas socialmente, são modos de enunciar que se fundam nas vivências do enunciador. Nesses casos, a vivência congrega distintas materialidades feitas presentes no próprio indivíduo que, quando filiado a uma posição que lhe permite reconhecer o estado social das coisas para indivíduos do meio em que está inserido, torna-se sujeito de si, para si e para os outros. Referimo-nos a materialidades presentes no corpo, na língua, na voz do sujeito, que se estendem a práticas sociais, modos de manifestar-se, modos de sobrevivência, modos de resistência.

Existem mecanismos sociais de contenção das práticas sociais que apontam aqueles que não se adequam às normas como se fossem “os outros”72

. Essa alteridade forçada, já fora tratada em manifestos de movimentos feministas, manifestos de movimentos negros, manifestos de movimentos indígenas, dentre tantos, porque, comumente, o homem-branco- rico é o padrão. Seguindo nesta linha discutida ao longo deste trabalho, os sujeitos aqui mencionados ou mais detalhadamente pensados são sujeitos históricos que tomaram para si um protagonismo de suas próprias histórias, ou seja, ocuparam espaços de poder por meio de disputas históricas que não se iniciam com eles. Percebe-se um processo de autorreflexão, consciência de si, consciência de quem são os outros, seguidos de uma não-aceitação de sua condição social subalternizada.

O sujeito-outro do sujeito-norma, quando apontado, volta o olhar para si mesmo: por que sou olhado, por que sou criminalizado, por que minha fala é errada, por que meu cabelo é ruim, por que minha roupa é inadequada, por que minha arte não é cultura, por que minha vida vale menos? No entanto, estes questionamentos dependem de um processo de reconhecimento de pertença a um grupo socialmente marginalizado, já que “o lugar social não determina uma consciência discursiva sobre esse lugar” (RIBEIRO, 2017, p.69). Dependem de processos de identificação que permitam ao sujeito que considere que sua vivência é partilhada coletivamente, que as adversidades que enfrenta não dizem respeito somente a si,

72 Na esteira de Grada Kilomba, Djamila Ribeiro (2017) afirma, por exemplo, que a mulher negra é o outro de

um outro, considerando que a mulher (branca) de quem comumente se fala em muitos tratados feministas é o

outro do homem (branco). Assim, a mulher negra sofre opressões que não se restringem à opressão de gênero,

mas se estendem à opressão racial, que, muitas vezes, é negligenciada nos debates feministas enquanto problema.

mas a grupos que herdam problemas sociais históricos, assim como outros grupos herdam privilégios, bens e fortuna.

Trazendo essa discussão mais especificamente a uma teorização discursiva, no artigo

“Lugar de fala”: enunciação, subjetivação e resistência, Mónica Zoppi-Fontana afirma:

Os lugares de enunciação, por presença ou ausência, configuram um modo de dizer (sua circulação, sua legitimidade, sua organização enunciativa) e são diretamente afetados pelos processos históricos de silenciamento. Esses modos de dizer mobilizam as formas discursivas de um eu ou um nós, de cuja representação imaginária a enunciação retira sua legitimidade e força performativa. É a partir desses lugares de enunciação, considerados como uma dimensão das posições- sujeito e, portanto, do processo de constituição do sujeito do discurso, que se instauram as demandas políticas por reconhecimento e as práticas discursivas de resistência (ZOPPI-FONTANA, 2017, p. 66).

Em muitos dos pronunciamentos de Marielle Franco, são observáveis tais processos de subjetivação que se filiam a práticas discursivas de resistência, que tomam por base material condições de vida adversas enfrentadas. A vereadora, ao falar de si, falava no plural, coletivizando e partilhando histórias com seus.suas representados.as, sobretudo mulheres negras pobres moradoras de favelas. Em seu modo de enunciar, marcavam-se percursos silenciados de mulheres outras que não chegaram a “fazer história”, mas que alicerçavam o caminho para que ela pudesse ali chegar e falar em nome de todas. Em 2016, quando disputou o cargo de vereadora na Câmara de Vereadores da cidade do Rio de Janeiro, narrou esse percurso:

Para nós, mulheres, luta é cotidiano. Nós sentimos todos os dias os seus reflexos. Quando levamos nossos filhos para a escola e não tem aula. Quando temos que trabalhar e não tem vaga nas creches. Sentimos quando somos desrespeitadas nos transportes, desvalorizadas no trabalho, assediadas nas ruas, violentadas no caminho. E entre os becos e vielas da favela, sobreviver é a nossa maior resistência. Agora chegou a nossa vez. Vamos ocupar o nosso lugar na cidade e na política, ter o que nos é de direito. Nossa voz, muitas vezes silenciada, terá de ser ouvida. Agora chegou a nossa vez. Agora é pra fazer valer. Sou força porque todas nós somos. Sigo porque seguiremos todas juntas. Eu sou Marielle Franco. Mulher, negra, mãe, da favela. Eu sou porque nós somos. (Marielle Franco, campanha “Eu sou porque nós somos”).

É marcante e evidente como toda a enunciação é construída em primeira pessoa do plural, como todas as adversidades vividas pelas mulheres da favela são colocadas como conhecidas e vividas pela própria enunciadora. Neste sentido, os processos de exclusão, de marginalização e de violência sofridos pelas mulheres, mães, negras, da favela, são mais que dizeres, são vivências, têm materialidade na vida de Marielle. Neste caso, a horizontalização não é produzida, é constitutiva do sujeito que fala em relação àqueles com quem fala, sobre

quem fala. Igualmente, falar sobre si mesmo é um modo de falar sobre os outros e para os outros, de modo que a legitimidade para dizer se funda naquele lugar de fala de quem se constitui historicamente junto a outros em uma mesma rede de sentidos, reconhecendo sua pertença ao grupo de que é oriundo, reconhecendo problemas enfrentados cotidianamente e coletivamente.

O enunciado reforça sentidos de coletividade ao retomar um ensinamento de filosofia Ubuntu “Eu sou porque nós somos”, parábola de matriz africana, em que todos só podem seguir adiante se estiverem juntos – a reivindicação de uma ancestralidade comumente renegada ou silenciada funciona como resgate histórico de luta do povo negro cuja história fora escrita por outros. Essas falas do cotidiano tornadas práticas de resistência por meio de retomadas históricas constituem um sujeito discursivo que irrompe processos de desestabilização da norma tácita política, de um campo majoritariamente ocupado por uma minoria que detém o controle das decisões políticas e o monopólio de poder governar a todos.

Na véspera de sua morte, no dia 13 de março de 2018, Marielle Franco publica na rede social Twitter: “Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?” (FRANCO, 2018). Em meio a tantas declarações sobre o que se passava nas favelas do Rio de Janeiro, feitas pela vereadora, este tweet ganhara uma dimensão inigualável, replicado e comentado massivamente nas redes sociais, em diversas línguas. A execução da vereadora desencadeou uma rede de manifestações em todo o mundo, começando pelo Rio de Janeiro, sua cidade73.

Nos dias posteriores ao atentado, na região da Candelária, centro do Rio de Janeiro, ecoavam vozes, sobretudo, de mulheres, de distintas faixas etárias, que entoavam em uníssono: “Marielle perguntou, eu também vou perguntar: ‘Quantos mais têm que morrer pra essa guerra acabar?’” Nesse último enunciado, deu-se uma retomada de uma memória recente, avolumada nos corpos daqueles.as que ocuparam as ruas da cidade, reivindicando e apropriando-se da dor e da luta da vereadora. Muitas das denúncias feitas por Marielle Franco tendiam não apenas ao esquecimento em razão da fluidez de comunicação das redes sociais, mas também eram invisibilizadas pelo valor social dispensado às vítimas da violência nas favelas, que mortas, tornam-se números e estatísticas – não têm nome, não têm rosto, não têm identidade.

73 Ver mais em: https://www.brasildefato.com.br/2018/03/30/manifestacoes-em-solidariedade-a-marielle-franco-

Com essa reflexão, pretendemos dizer que a corporeidade simbólica do indivíduo que enuncia, constituindo-se como sujeito, filiando-se a uma rede de sentidos que o antecedem, não depende de teatralização pontual, com usos e empregos linguístico- corporais deliberadamente pensados para configurar legitimidade e autoridade políticas. Entendemos que os laços de representatividade entre sujeitos excepcionais (que furam o bloqueio das normas tácitas de representação política) e seus representados residem em suas próprias existências, resistência e sobrevivência diante do sistema sócio-político.

Se a fala de Marielle Franco é auto-referente, entende-se que os problemas apontados em seu pronunciamento político são fundados nas experiências da população negra e pobre do país, ou seja, a enunciadora era um sujeito sócio-histórico co-construído que carregava em si mesma a materialidade da vida e do discurso que lhe conferiam legitimidade. “Sobreviver é a nossa maior resistência”: Marielle encarnava e reverberava em seu próprio corpo os sentidos de sua luta, que estava implicada em suas formulações pluralizadas e coletivizadas. Quando a voz de Marielle é brutalmente silenciada, outras vozes ecoam: a corporeidade simbólica não é da ordem da matéria, ainda que se inscreva em materialidades diversas. O corpo social

simbólico é da ordem do discurso, o que significa que não pode ser aniquilado, porque ganha

materialidade em outras falas, em outros corpos e em outras vozes.

Marielle Franco é uma dentre tantas personagens históricas que carregavam em si mesmas suas causas, reivindicando direitos para segmentos jamais ouvidos, sempre negligenciados pelos poderes estabelecidos. Nestes casos, falar sobre si constitui uma das práticas de resistência a um silenciamento historicamente dado, falar sobre si é um modo de falar sobre uma maioria cujas demandas e necessidades não são contempladas pelos defensores da dita ordem. Em suas declarações, as narrativas são denúncias sobre problemas vividos cotidianamente por grupos ditos minoritários, mulheres, negros, LGBTQI+, pobres, portanto, as questões não se restringem ao “indivíduo” Marielle.

De um modo análogo, os sujeitos desta pesquisa, Evo Morales e Lula da Silva, valem- se de uma fala sobre si como modo de falar sobre determinados segmentos sociais de seus respectivos países. Mais uma vez, nestas circunstâncias, ser auto-referente é um modo de fazer alusão a uma coletividade outrora silenciada, cotidianamente esquecida, politicamente excluída. As narrativas de vida enunciadas são histórias partilhadas coletivamente que dizem respeito não somente ao sujeito que enuncia enquanto indivíduo.

Nos capítulos III e IV, ilustraremos as discussões empreendidas anteriormente por meio das análises discursivas dos pronunciamentos de posse dos presidentes Evo Morales e Lula da Silva. Diante de um contingenciamento histórico que cerceia manifestações das

subjetividades humanas, que não comporta sujeitos que não se adequem às normas históricas de representação política, observaremos como emergem ambivalências discursivas nas falas de tais sujeitos, quando opera a confluência entre o silenciamento e a tomada de palavra.