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2. Revisão de Literatura

2.2. Tecnologia do Sêmen

2.2.1. Métodos de Coleta Seminal

2.2.1.1. Eletroejaculação

2.2.1.1.8. Falha na obtenção do ejaculado e ejaculação

1978). O reflexo de micção requer uma integração complexa e coordenada entre três sistemas nervosos: simpático, parassimpático e o somático. A integração destes sistemas resulta em contração do músculo destrusor da bexiga urinária e o relaxamento da musculatura lisa e estriada da uretra. As vísceras pélvicas possuem três pontos principais de inervação: nervo pélvico, o pudendo e o hipogástrico, ou seja, os mesmos nervos envolvidos no processo ejaculatório. O músculo destrusor da bexiga relaxa-se pela estimulação simpática e contrai-se por estimulação parassimpática. O esfíncter uretral interno contrai pela estimulação simpática e o externo contrai via nervo pudendo (CAZES, 2006; TUDURY et al., 2006). A contaminação por urina, portanto, parece ser independente da escolha do anestésico e ser conseqüência da proximidade das vias neurais que controlam as funções da bexiga e da ejaculação (HOWARD, 1999).

2.2.1.1.8. Falha na obtenção do ejaculado e ejaculação retrógrada

Para felídeos, os relatos de obtenção de ejaculado na coleta por EEJ vão de 60,6 a 80% no gato doméstico e 100% dos procedimentos de EEJ na onça pintada e no gato-do-mato-pequeno (PLATZ e SEAGER, 1978; MORATO et al, 1998; ERDMANN et al., 2005; LEITE et al., 2006). Em guepardos, de 22 animais, 18 ejacularam (WILDT et al., 1983). Em gatos domésticos, 20% dos animais não ejacularam em nenhuma das séries (LEITE et al., 2006). Embora a obtenção de ejaculado seja freqüente, a presença de espermatozóides no ejaculado, nem sempre é observada. Erdmann et al. (2005) relatam que em gato-do-mato-pequeno, todas as coletas resultaram em ejaculado contendo espermatozóides, mas a obtenção de somente plasma seminal foi relatada em 20% dos procedimentos EEJ para onças pintadas (MORATO et al., 1998).

A ejaculação retrógrada é freqüentemente observada durante ejaculação natural ou EEJ no gato doméstico, com percentuais de 15 a mais de 90% (DOOLEY et al., 1991). A realização de cistocentese com a visualização de células espermáticas na urina colhida é a forma de determinar a ocorrência deste tipo de ejaculação. A visualização de pequena quantidade de espermatozóides na urina colhida por cistocentese é normal mesmo sem o uso de qualquer contenção farmacológica ou estímulo ejaculatório (DOOLEY et al., 1991; TEBET, 2004; ZAMBELLI et al., 2007). O uso da xilazina comprovadamente induz uma maior freqüência de ejaculação

retrógrada em cães (DOOLEY et al., 1990) e suínos (MARTIN et al., 2003). Um α-2 agonista semelhante à xilazina, a medetomidina, sem uso de qualquer estímulo copulatório induziu em gatos domésticos a ejaculação retrógrada semelhantemente à cetamina isolada (ZAMBELLI et al., 2007).

Na ejaculação antrógrada observa-se três eventos: a emissão seminal, o fechamento do colo da bexiga e a expulsão seminal pela uretra peniana. Na ejaculação retrógrada, há o fechamento inadequado do colo da bexiga. Assim, não há aumento de pressão dentro da uretra prostática e o sêmen segue o caminho de menor resistência, indo para o interior da bexiga. Qualquer processo que interfira na inervação simpática do sistema reprodutor e da bexiga pode resultar em retroejaculação (ROMAGNOLI et al., 1999).

O sucesso de uma coleta de sêmen em felídeos por EEJ envolve a combinação de múltiplos fatores (QUEIROZ et al., 2004). As variações na obtenção de ejaculados, com ou sem espermatozóides, podem estar vinculadas a vários fatores, como os diferentes procedimentos anestésicos realizados entre autores. Além das variações promovidas pelas combinações anestésicas utilizadas para as diferentes espécies e protocolo de voltagens utilizado, deve-se considerar a variação individual, o posicionamento e tamanho da sonda, a presença de fezes no reto. Para gatos domésticos, deve ser inserido cerca de 7 a 9 cm no reto tomando-se o cuidado para que fiquem voltados em sentido ventral, a fim de promoverem adequada estimulação do plexo pélvico (PLATZ e SEAGER, 1978; MOREIRA eMORATO, 2007).Na EEJ é esperado o reflexo de extensão das patas traseiras e exposição das unhas. Se o reflexo nas primeiras sub-séries não é observado, ou a reação for exacerbada, a posição da sonda pode não estar sendo adequada ou há interferência no estímulo elétrico pela presença de fezes no reto (SILVA et al., 2004a; PLATZ JR. e SEAGER, 1978). No momento da aplicação dos estímulos elétricos, a contração simétrica dos membros posteriores deve ser observada como indicativo da aplicação dos estímulos elétricos de forma satisfatória (HOWARD et al., 1984). A sonda deve ser pressionada contra o assoalho da ampola retal e o aprofundamento ou a exteriorização dessa não deve ocorrer. No intervalo das séries, a sonda deve ser retirada, as fezes da sonda devem ser limpas e uma nova lubrificação dos eletrodos feita a cada nova inserção (PLATZ e SEAGER, 1978).

Para gatos domésticos Platz e Seager (1978), descreveram que em alguns casos ejaculados não eram obtidos antes do terceiro bloco de estímulos. Segundo o descrito para animais de produção, a emissão do sêmen se produz geralmente depois do terceiro ou quarto choque. O animal tanto pode ejacular com pênis flácido, como fazê-lo em ereção, dependendo do alcance dos estímulos. A excitação mais posterior (região lombo-sacra) implica em resposta de ereção, e excitações dirigidas para a área mais anterior (região lombar propriamente dita) produzem um efeito mais acentuado de ejaculação. A excitação da região sacra ou lombo-sacra produz além do efeito eretivo, a expulsão das secreções das glândulas acessórias. Os nervos eretores possuem origem exatamente nesta região, constituindo-se pelo 1°, 2°, e 3° pares sacros, e dependem do plexo hipogástrico. O plexo mesentérico posterior se relaciona de um lado com o hipogástrico, e de outro com o espermático, desempenhando seu papel na ejaculação. A disposição destes nervos explica porque se pode obter sêmen com pênis flácido, o que ocorre freqüentemente; com pênis em ereção ou semi-ereção; apenas ereção sem ejaculação ou simplesmente ejaculação de glândulas anexas. Assim, a EEJ possibilita um resultado falso na avaliação andrológica, ou seja, falha na coleta de um macho fértil que poderia fornecer ejaculação integral se coletado por vagina artificial (MIES FILHO, 1982). A ausência de ejaculação em um procedimento isolado não deve, no entanto, caracterizar a incapacidade de produção espermática pelo animal. Dois procedimentos de EEJ são necessários para uma boa avaliação andrológica de um animal pelo procedimento de EEJ (PLATZ e SEAGER, 1978).

2.2.1.2. Vagina artificial

A coleta de sêmen por vagina artificial não é considerada um método prático de avaliação andrológica de animais em ambiente clínico, já que há necessidade do treinamento de 2 a 3 semanas do animal, e este treinamento é bem sucedido em somente 60 a 70% dos casos (PLATZ e SEAGER, 1978). O gato mesmo que treinado, se colocado em ambiente que não é o seu usual, provavelmente não ejaculará (AXNÉR e LINDE-FORSBERG, 2002). Este método é útil para gatos domésticos de colônias (AXNÉR e LINDE-FORSBERG, 2002) e nestas condições já foi utilizado por vários autores (SOJKA et al., 1970; PLATZ et al., 1978; PLATZ e SEAGER, 1978; TANAKA et al., 2000ab; TSUTSUI et al., 2000a; 2000b; 2001; SÁNCHEZ e TSUTSUI, 2002;

VILLAVERDE, 2007), entretanto, em alguns gatos com temperamento mais agressivo e em felídeos selvagens, esta é uma prática que oferece inúmeros riscos às pessoas que irão manipular o animal (MORATO et al., 1998; STORNELLI e STORNELLI, 2001; AXNÉR e LINDE-FORSBERG, 2002). Uma exceção foi a coleta relatada de guepardos por Watson em 1978 (WATSON e HOLT, 2001).

A vagina artificial para gatos domésticos é manufaturada a partir da parte superior de borracha de um conta-gotas, cuja ponta bojuda é cortada e acoplada a um tubo de ensaio ou coleta, podendo este ser plástico do tipo Eppendorf® sem tampa. O tubo com a borracha deve ser encaixado em uma garrafa de polietileno de 60 mL contendo água a 52°C, permitindo uma temperatura interna de trabalho de 44 a 46°C. Na entrada da vagina artificial é espalhado lubrificante íntimo de uso humano. O macho é posto em contato com uma fêmea em estro natural ou induzido e no momento da ereção do pênis para a cópula, encaixa-se a vagina artificial, onde o ejaculado será depositado (SOJKA et al., 1970). A coleta se completa em 1 a 4 minutos (ZAMBELLI e CUNTO, 2006).

O mesmo resultado também é obtido sem o uso da garrafa (AXNÉR, 1998; TANAKA et al., 2000ab; VILLAVERDE e LOPES, 2007), tornando o procedimento mais prático. Neste caso sem a garrafa, a vagina artificial é fixada entre os dedos indicador e médio (TANAKA et al., 2000a). TANAKA et al. (2000a) descrevem a colocação da borracha na região interna com a fixação ao tubo com parafilme. Quando a cobertura aquecedora (garrafa) é utilizada, o cuidado deve ser redobrado no momento de desencaixe do tubo, afim de que a água não entre em contato com o sêmen (SOJKA et al., 1970). Alguns autores sugerem que a vagina artificial mesmo sem a cobertura aquecedora, deva estar aquecida a 36 °C (STORNELLI e STORNELLI, 2001), ou ainda utilizar o tubo plástico diretamente, sem borracha, contendo 100 μL de diluidor aquecido (STORNELLI, 2007- comunicação pessoal). STORNELLI e STORNELLI (2001) consideram a coleta por vagina artificial um procedimento dificultoso, já que mesmo treinados previamente e já coletados por vagina, os gatos podem não aceitá-la em um novo procedimento. Assim, indica-se a sociabilização e o treinamento do gato desde a puberdade para um melhor sucesso na coleta (STORNELLI e STORNELLI, 2001). Coletas com manequins inanimados (bichos de pelúcia) já foram relatadas em machos bem treinados (VILLAVERDE, 2007).

A coleta por vagina artificial apresenta a vantagem de permitir a sua realização de forma diária, ou em intervalos curtos regulares, diferentemente da EEJ. Intervalos de coleta dupla (2 coletas consecutivas intervaladas por 5 a 10 minutos) por vagina artificial de 24, 48 e 72 h foram testadas quanto ao seu efeito na qualidade seminal, e demonstrou-se que a qualidade seminal não é afetada por até 10 dias de coletas diárias (TANAKA et al., 2000a).