A Cabelinho Escuro como um disco rígido apagado pela metade? Era horrível, mas parecia a verdade nua e crua.
— Sou formado em inglês, mas quando jovem li bastante sobre psicologia — o Diretor disse a eles. — Comecei com Freud, é claro, todo mundo começa com Freud... depois Jung... Adler... a partir deles, fui passando por todo o campo de batalha. Por trás de todas as teorias de como a mente funciona, existe uma teoria maior: a de Darwin. No vocabulário freudiano, a idéia da sobrevivência como diretriz primária é expressa pelo conceito do id. Em Jung, pela idéia um tanto mais grandiosa da consciência do sangue. Creio que ninguém discordaria da hipótese de que se todo o pensamento consciente, toda a memória, toda a habilidade de raciocínio fossem apagados da mente humana em um determinado momento, o que sobrasse seria puro e terrível.
Ele fez uma pausa, olhando em volta à espera de comentários. Ninguém falou nada. O Diretor assentiu como se estivesse satisfeito e concluiu.
— Embora nem os freudianos nem os jungianos digam isso com todas as letras, eles sugerem vigorosamente que talvez tenhamos um núcleo, uma
freqüência básica em comum ou, usando a linguagem com a qual Jordan está mais habituado, uma linha de código que não pode ser apagada.
— A DP — disse Jordan. — A diretriz primária.
— Sim — concordou o Diretor. — No fundo, não somos nem um pouco Homo sapiens. Nossa diretriz primária é matar. O que Darwin foi educado demais para dizer, meus amigos, é que dominamos a Terra não porque éramos os mais inteligentes, ou mesmo os mais cruéis, e sim porque sempre fomos os mais loucos, os mais desgraçados homicidas da floresta. E foi isso que o Pulso demonstrou cinco dias atrás.
17
— Eu me recuso a crer que éramos lunáticos e assassinos antes de qualquer coisa — disse Tom. — Meu Deus, cara, e o Parthenon? E o Davi de Michelangelo? E aquela placa na lua que diz: “Viemos em paz para toda a humanidade.”
— Aquela placa também tem o nome de Richard Nixon escrito nela — disse Ardai com aspereza. — Um quacre, mas dificilmente um homem de paz. Sr.
McCourt, Tom, meu intuito não é acusar a humanidade. Se fosse, diria que para cada Michelangelo existe um Marquês de Sade, para cada Ghandi, um Eichmann, para cada Martin Luther King, um Osama Bin Laden. Vamos nos limitar ao seguinte: o homem dominou o planeta graças a dois traços essenciais.
Um é a inteligência. O outro é a completa disposição para matar tudo e todos que possam vir a impedi-lo.
Ele se inclinou para frente, estudando-os com aqueles olhos brilhantes.
— A inteligência humana finalmente conseguiu superar o instinto assassino, e a razão dominou os impulsos mais insanos. Isso também foi uma questão de sobrevivência. Creio que a batalha final entre os dois se deu em outubro de 1963, por conta de um punhado de mísseis em Cuba, mas isso é conversa para outra ocasião. O fato é: a maioria das pessoas sublimou o que há de pior nelas até o Pulso chegar e apagar tudo, exceto aquele núcleo vermelho.
— Alguém tirou o diabo-da-tasmânia de dentro da jaula — murmurou Alice.
— Quem?
— Isso também não é do nosso interesse — respondeu o Diretor. — Imagino que eles não tinham idéia do que estavam fazendo... ou da magnitude do que estavam fazendo. Tomando como base o que devem ter sido experiências feitas às pressas nos últimos anos, ou talvez nos últimos meses, é possível que tenham pensado que iriam desencadear uma onda destrutiva de terrorismo. Em vez disso, desencadearam um tsunami de violência inenarrável, que está em processo de mutação. Por mais horríveis que os dias de hoje pareçam, é provável que mais tarde os consideremos uma calmaria entre duas tempestades. Talvez eles sejam a nossa única chance de causar algum impacto.
— O que o senhor quer dizer com processo de mutação? — perguntou Clay.
Porém, o Diretor não respondeu. Em vez disso, voltou-se para o menino de 12 anos. — Quando quiser, meu jovem.
— Certo. Bem. — Jordan parou para pensar. — A mente consciente usa apenas uma pequena percentagem da nossa capacidade cerebral. Vocês sabem disso, certo?
— Sim — disse Tom, com certa complacência. — Já li sobre isso.
Jordan assentiu.
— Mesmo se acrescentarmos todas as funções automáticas que ele controla, e mais as coisas inconscientes, ou seja, os sonhos, os pensamentos involuntários, o impulso sexual, toda essa conversa, nosso cérebro trabalha muito pouco.
— Holmes, você me impressiona — disse Tom.
— Não banque o espertinho, Tom — falou Alice, e Jordan olhou para ela com os olhos decididamente brilhando.
— Não estou bancando o espertinho — disse Tom. — O garoto é bom.
— Ele é mesmo — disse o Diretor secamente. — Jordan às vezes escorrega no inglês, mas não ganhou bolsa por ser um ás no dominó. — Ele notou o desconforto do menino e despenteou carinhosamente o cabelo de Jordan com os dedos ossudos. — Prossiga, por favor.
— Bem... — Clay viu que o garoto se esforçou para conseguir retomar o ritmo. — Se o nosso cérebro for mesmo um disco rígido, estaria quase vazio. — Ele percebeu que somente Alice havia entendido. — Em outras palavras: a barra de informações diria algo como 2% em uso, 98% de espaço livre. Ninguém sabe ao certo para que servem os 98%, mas o potencial deles é grande. Por exemplo, vítimas de derrame... às vezes elas acessam áreas do cérebro que estavam dormentes para voltarem a andar e falar. É como se o cérebro delas se conectasse em volta da área danificada. Áreas semelhantes do cérebro são ativadas, mas do outro lado.
— Você estuda essas coisas? — perguntou Clay.
— É um produto natural do meu interesse por computadores e cibernética — disse Jordan, dando de ombros. — E eu também leio bastante ficção científica cyberpunk. William Gibson, Bruce Sterling, John Shirley...
— Neal Stephenson? — perguntou Alice.
Jordan abriu um sorriso radiante.
— Neal Stephenson é um deus.
— Voltando ao assunto... — ralhou o Diretor... mas com ternura.
Jordan deu de ombros.
— Se você formatar o disco rígido de um computador, ele não pode se regenerar espontaneamente... exceto talvez em um romance de Greg Bear. — Ele sorriu de novo, mas desta vez apenas por um instante e, pensou Clay, com
nervosismo. A culpa era em parte de Alice, que obviamente deixava o menino gamado. — Com pessoas é diferente.
— Mas há uma grande diferença entre voltar a andar depois de um derrame e ser capaz de ligar um monte de mini systems por telepatia — disse Tom. — Uma diferença monstruosa. — Ele olhou em volta constrangido quando a palavra telepatia saiu da sua boca, como se esperasse que rissem dele. Ninguém riu.
— É verdade, mas uma vítima de derrame, mesmo se for grave, é muito diferente do que aconteceu com as pessoas que estavam usando o celular durante o Pulso — retorquiu Jordan. — A gente acha, quer dizer, nós achamos, que, além de limpar o cérebro das pessoas até aquela linha de código impossível de apagar, o Pulso também ativou alguma outra coisa. Algo que provavelmente estava lá dentro há milhões de anos, enterrado naqueles 98% de disco rígido inativo.
A mão de Clay se moveu furtivamente para a coronha do revólver que ele pegara no chão da cozinha de Beth Nickerson.
— Um gatilho — disse ele.
Jordan abriu um sorriso.
— Isso, exatamente! Um gatilho de mutação. Não poderia acontecer sem essa... tipo, limpeza total em grande escala. Porque o que está emergindo, o que está surgindo naquelas pessoas lá fora... só que elas não são mais pessoas, o que está surgindo é...
— Um único organismo — interrompeu o Diretor. — Essa é a nossa teoria.
— Sim, mas é mais do que um simples bando — disse Jordan. — Porque o que eles conseguem fazer com os CD-players pode ser apenas o começo, como uma criancinha aprendendo a amarrar os sapatos. Imaginem o que eles podem conseguir fazer em uma semana. Ou em um mês. Ou em um ano.
— Você pode estar errado — disse Tom, mas a voz dele saiu tão seca quanto palha.
— Ele também pode ter razão — disse Alice.
— Oh, eu tenho certeza de que ele tem razão — atalhou o Diretor. Ele bebericou seu chocolate quente batizado. — É claro que eu sou um velho e meu tempo está se esgotando de qualquer maneira. Acatarei qualquer decisão que vocês tomarem. — Ele fez uma pequena pausa. Seus olhos bruxulearam de Clay para Alice e então para Tom. — Desde que seja a decisão correta, obviamente.
Jordan falou:
— Os bandos vão tentar se unir. Se eles já não conseguem ouvir uns aos outros, vão conseguir logo, logo.
— Besteira — disse Tom, apreensivo. — Histórias de fantasmas.
— Talvez — disse Clay —, mas vamos pensar no seguinte: agora, as noites são nossas. E se eles decidirem que precisam de menos horas de sono? Ou que não têm tanto medo assim do escuro?
Ninguém falou nada por vários instantes. O vento estava ficando mais forte lá fora. Clay bebericou o chocolate quente, que nunca tinha estado mais do que morno e já estava quase frio. Quando voltou a erguer os olhos, Alice tinha deixado de lado sua caneca e estava com o talismã da Nike nas mãos.
— Eu quero exterminá-los — disse ela. — Os que estão no campo de futebol, quero exterminá-los. Não digo matá-los porque acho que Jordan tem razão, e não quero fazer isso pela raça humana. Quero fazer pela minha mãe e pelo meu pai, porque ele está morto também. Sei que está, posso sentir. Quero fazer pelas minhas amigas Vicky e Tess. Elas eram boas amigas, mas tinham celulares, não saíam para lugar nenhum sem eles, e tenho certeza de que estão como eles agora, e que estão dormindo: em algum lugar igual àquela porra de campo de futebol. — Ela olhou para o Diretor, corando. — Perdão, senhor.
O Diretor afastou a desculpa dela com um gesto.
— Podemos fazer isso? — ela perguntou ao velho. — Podemos exterminá-los?
Charles Ardai, que estava encerrando sua carreira como diretor interino da Academia Gaiten quando o mundo acabou, revelou seus dentes carcomidos em um sorriso que Clay daria muito para ter capturado em um desenho; não havia uma gota de piedade nele.
— Srta. Maxwell, nós podemos tentar — disse.
18
Às quatro da manhã do dia seguinte, Tom McCourt sentava-se em uma mesa de piquenique entre as duas estufas da Academia Gaiten, que haviam sido bastante danificadas desde o Pulso. Os pés dele, agora usando os Reeboks que calçara ainda em Malden, estavam em cima de um dos bancos e a cabeça estava pousada nos braços, que descansavam sobre o joelho. O vento jogava seu cabelo primeiro para um lado, depois para o outro. Alice sentava-se na frente dele, com o queixo apoiado nas mãos e fachos de várias lanternas desenhando ângulos e sombras no seu rosto. A luz dura a deixava bonita, apesar do cansaço evidente; na idade dela, qualquer luz ainda era lisonjeira. O Diretor, sentado ao lado de Alice, parecia apenas exausto. Na estufa mais próxima, dois lampiões a gás flutuavam como espíritos inquietos.
Os lampiões convergiram na saída da estufa. Clay e Jordan passaram pela porta, embora enormes buracos tivessem sido abertos nas paredes de vidro em ambos os lados. Pouco depois, Clay se sentou perto de Tom e Jordan retornou ao seu posto habitual ao lado do Diretor. O menino cheirava a gasolina e fertilizante; cheirava ainda mais a desânimo. Clay largou vários molhos de chave na mesa em meio às lanternas. Para ele, as chaves poderiam ficar ali até algum arqueólogo as descobrir quatro milênios mais tarde.
— Desculpem-me — disse baixinho o Diretor Ardai. — Parecia tão simples.
— Pois é — falou Clay.
Parecia simples: bastava encher os pulverizadores da estufa com gasolina, colocar os pulverizadores na traseira de uma picape, dar a volta no estádio Tonney, encharcando os dois lados no caminho, e acender um fósforo. Ele pensou em falar para Ardai que a aventura de George W. Bush no Iraque também devia ter parecido simples — carregar os pulverizadores, acender um fósforo — e não era. Seria uma crueldade sem sentido.
— Tom? — perguntou Clay. — Você está bem? — Ele já tinha percebido que Tom não tinha grandes reservas de energia.
— Tudo bem, só estou cansado. — Ele ergueu a cabeça e sorriu para Clay. — Não estou acostumado com o turno da noite. O que a gente faz agora?
— Vamos para cama, eu acho — disse Clay. — Vai amanhecer daqui a uns 40 minutos. — O céu já começara a clarear ao leste.
— Não é justo — disse Alice. Ela esfregou com raiva as bochechas. — Não é justo, a gente se esforçou tanto.
Eles tinham se esforçado muito, mas nada era fácil. Cada pequena (e, no fim das contas, inútil) vitória tinha sido o tipo de luta encarniçada que a mãe de Clay chamava de ralação bolchevique. Parte de Clay queria muito culpar o Diretor... e também a si mesmo, por não ter ouvido a idéia do pulverizador de Ardai com um pouco mais de malícia. Agora, parte dele achava que acatar a idéia de um professor de inglês de incendiar um campo de futebol era meio como levar uma faca para um tiroteio. Ainda assim... bem, parecera uma boa idéia.
Isto é, até descobrirem que o tanque de gasolina da garagem da frota de veículos estava dentro de um barraco trancado. Eles passaram quase meia hora no escritório revirando à luz de lanternas um monte de chaves irritantemente sem etiquetas em um mural atrás da mesa do supervisor. Foi Jordan quem finalmente encontrou a chave do barraco.
Então eles descobriram que “basta puxar um plugue” não era exatamente o caso. Havia uma tampa, e não um plugue. E, como o barraco em que o tanque estava, a tampa estava fechada à chave. Voltaram ao escritório, remexeram mais à luz de velas e finalmente encontraram uma chave que parecia servir. Foi Alice quem observou que, uma vez que a tampa estava no fundo do tanque, para garantir que a força da gravidade empurrasse a gasolina caso faltasse energia, eles iriam entornar tudo se não usassem uma mangueira ou um sifão. Passaram então uma hora procurando uma mangueira que servisse e não acharam nada que fosse remotamente parecido. Tom encontrou um pequeno funil, o que deixou todos levemente histéricos.
E, uma vez que nenhuma das chaves das picapes estava etiquetada (pelo menos não de maneira que não-funcionários da frota de veículos pudessem entender), localizar o molho certo se tornou outro processo de tentativa e erro.
Pelo menos isso foi mais rápido, pois havia apenas oito picapes estacionadas atrás da garagem.
Por fim, as estufas. Lá eles encontraram apenas oito pulverizadores, e não uma dúzia, com capacidade não de 110 litros, mas de 35. Talvez até conseguissem enchê-los com a gasolina do tanque, mas o processo os deixaria encharcados e o resultado seria menos de 300 litros de gasolina útil. Foi a idéia de exterminar mil lunáticos dos celulares com menos de 300 litros de gasolina comum que levara Tom, Alice e o Diretor à mesa de piquenique. Clay e Jordan ainda rodaram mais um pouco, procurando por pulverizadores maiores, porém não encontraram nada.
— Mas encontramos alguns pulverizadores de jardim — disse Clay. — Sabem, aqueles que as pessoas costumavam chamar de bombas de Flit.
— E além disso — disse Jordan —, os pulverizadores grandes lá de dentro estão todos cheios de fertilizante, adubo ou algo do gênero. Primeiro teríamos que jogar tudo fora, e ainda precisaríamos de máscaras para não nos intoxicar, ou sei lá o quê.
— Que dureza — disse Alice, emburrada. Ela olhou para o tênis de bebê por um instante e então o enfiou no bolso.
Jordan pegou as chaves que eles descobriram servir em uma das picapes.
— Podemos ir até o centro — disse ele. — Tem uma loja de ferragens lá. Eles devem ter pulverizadores.
Tom balançou a cabeça.
— Fica a quase 2 quilômetros daqui e a pista principal está cheia de carros acidentados e veículos abandonados. Talvez a gente consiga desviar de alguns, mas não de todos. E dirigir pelos gramados está fora de questão. As casas são muito grudadas. As pessoas estão todas viajando a pé por um motivo. — Eles haviam visto algumas pessoas de bicicleta, mas não muitas. Mesmo as que tinham farol eram perigosas se você acelerasse o mínimo que fosse.
— Será que um caminhão pequeno conseguiria passar pelas ruas laterais? — perguntou o Diretor.
Clay disse:
— Imagino que a gente possa explorar essa possibilidade na noite de amanhã.
Poderíamos antes inspecionar um caminho a pé e voltar para pegar o caminhão.
— Ele refletiu. — Provavelmente uma loja de ferragens também tem mangueiras de todo tipo.
— Você não me parece muito animado — disse Alice.
Clay suspirou.
— Qualquer coisa pode bloquear uma rua pequena. Acabaríamos fazendo muito trabalho de burro de carga mesmo se tivermos mais sorte do que hoje à noite. Talvez a idéia pareça melhor depois que eu descansar um pouco.
— É claro que vai parecer — concordou o Diretor, mas não soou convincente.
— Para todos nós.
— E o posto de gasolina em frente à escola? — perguntou Jordan, sem muita esperança.
— Que posto de gasolina? — perguntou Alice.
— Ele está falando do Citgo — respondeu o Diretor. — O mesmo problema, Jordan: muita gasolina nos tanques embaixo das bombas, mas nenhuma energia.
E duvido que os contêineres deles possam encher mais do que algumas latas de
gasolina de 8 ou 20 litros. O que eu acho mesmo é... — Mas o velho não disse o que achava mesmo. Ele parou de falar. — O que foi, Clay?
Clay estava se lembrando do trio à frente deles, que passara mancando por aquele posto de gasolina, um dos homens com o braço em volta da cintura da mulher.
— Citgo da Academia Grove — disse ele. — É este o nome, não é?
— É...
— Mas acho que eles não vendem apenas gasolina. — Ele não só achava, tinha certeza. Por conta dos dois caminhões parados em frente do posto. Ele os tinha visto e não achara nada de mais. Não naquela hora. Não tinha motivo.
— Não sei o que você... — o Diretor começou a falar e então se interrompeu.
Os olhos dele encontraram os de Clay. Seus dentes carcomidos apareceram mais uma vez naquele sorriso excepcionalmente impiedoso. — Oh — ele disse. — Oh. Minha nossa. Minha nossa, é claro.
Tom olhava de um para outro com uma perplexidade cada vez maior. Alice também. Jordan apenas aguardava.
— Vocês se importariam de dividir com a gente o que estão pensando? — perguntou Tom.
Clay estava prestes a fazê-lo — ele já via claramente como iria funcionar, e era bom demais para não compartilhar com os demais — quando a música no estádio Tonney cessou. Ela não parou com um clique, como geralmente acontecia quando eles acordavam pela manhã; o som despencou, como se alguém tivesse chutado a fonte para o fundo de um poço de elevador.
— Eles acordaram cedo — disse Jordan em voz baixa.
Tom agarrou o antebraço de Clay.
— Está diferente — disse ele. — E um daqueles malditos estoura-tímpanos ainda está tocando... Dá para ouvir, bem baixinho.
O vento estava forte, e Clay sabia que ele vinha da direção do campo de futebol por conta dos cheiros pungentes que trazia: comida em decomposição, carne em decomposição, centenas de corpos sem banho. Trazia também o som fantasmagórico de Lawrence Welk e os Champagne Music Makers tocando Baby Elephant Walk.
Então, vindo de algum lugar a noroeste — talvez a 15 ou 50 quilômetros de distância, era difícil saber desde onde o vento conseguia carregá-lo —, veio um gemido espectral, de alguma forma parecido com o som de mariposas. Depois silêncio... silêncio... e, em seguida, as criaturas não-despertas e não-adormecidas no campo de futebol Tonney responderam da mesma forma. O gemido delas era
muito mais alto, um grunhido espectral, surdo e retumbante que subia em direção ao céu escuro e estrelado.
Alice cobriu a boca. O tênis de bebê saltou das suas mãos. Ela arregalou os olhos para ele. Jordan jogara os braços em volta da cintura do Diretor e enterrara o rosto nas costelas do velho.
— Veja, Clay! — disse Tom. Ele se levantou e cambaleou até o gramado entre as duas estufas destruídas. — Está vendo? Meu Deus, está vendo?
Um brilho laranja-avermelhado tingira o horizonte a noroeste, de onde o grunhido distante tinha surgido. Ficou mais forte à medida que ele observava; o vento trouxe aquele som terrível novamente... e mais uma vez foi respondido com um grunhido semelhante, porém muito mais alto, vindo do estádio Tonney.
Alice se juntou a eles, seguida pelo Diretor, que andava com os braços em
Alice se juntou a eles, seguida pelo Diretor, que andava com os braços em