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1. A regulação do setor minerário

1.3. Arranjo institucional do setor

1.3.1. Governo

1.3.1.5. Falhas do modelo institucional

O que se percebe, portanto, é que os órgãos administrativos possuem aparente completude organizacional, uma vez que possuem designações claras sobre a competência de cada órgão e se complementam nos repasses das informações e criação de dados.

O DNPM, mais especificamente, possui superintendências ao longo do território nacional e departamentos que possuem ampla competência setorial, indo desde a independência para realizar a cobrança de taxas e emolumentos (que em 2010 atingiu o

valor de R$1,21 bilhão112) até a elaboração de pesquisa sobre a economia mineral

passando pela outorga dos títulos minerais e fiscalização da exploração.

No entanto, a prática não tem seguido a lógica desenhada nas leis. Apesar de existir previsão legal para a realização das fiscalizações, um dos elementos mais importantes de uma regulação bem sucedida, pois sem a fiscalização não há enforcement, essas têm deixado muito a desejar devido ao pequeno corpo funcional e baixo orçamento do DNPM. O relatório de auditoria do TCU constatou um estoque elevado de relatórios finais de pesquisa e relatórios de lavra para serem analisados.

e empresas e organismos privados, destinado a promover o desenvolvimento da tecnologia mineral e sua assimilação pela indústria nacional, mediante o exercício, dentre outras, das seguintes atividades: a) realização de pesquisas, estudos e projetos de tratamento, beneficiamento e industrialização de bens minerais; b) planejamento e montagem de instalações-piloto e laboratórios para atuação nas áreas relacionadas com a tecnologia mineral; c) prestação de serviços e de assistência técnica às atividades de mineração de entidades públicas e privadas; d) estímulo ao desenvolvimento e capacitação de recursos humanos qualificados para o setor; e) colaboração com o Ministério da Ciência e Tecnologia na formulação e execução da política nacional de tecnologia mineral.

111 BENVINDO DA LUZ, Adão (editor). CETEM 30 anos: a história contada por seus

fundadores.Disponível em file:///C:/Users/ANA%20CLAUDIA/Downloads/cetem-30-anos-a-historia- contada-por-seus-fundadores.pdf

43 A dificuldade do DNPM em lidar com a elevada demanda, no entanto, não é momentânea. Isso porque a média dos protocolos realizados anualmente (966) é superior a média de análises que o órgão consegue realizar no mesmo período (784), fato que indica que, caso o órgão não receba maior suporte não conseguirá lidar com a demanda e o passivo tenderá a aumentar anualmente. Em 2011, ano em que o relatório foi realizado, o órgão já acumulava um passivo de 3.842 Relatórios Finais de Pesquisa, alguns pendentes de avaliação a mais de dez anos.

Tal situação é alarmante na medida em que os relatórios são, na atualidade, os meios mais eficazes para fiscalizar as empresas mineradoras, seja na fase da pesquisa quanto na da lavra.

Observe que as demandas apontadas pelo Tribunal de Contas são muito similares às constatadas pelo Plano Plurianual de 1994, que apontou como pontos de desenvolvimento do DNPM os seguintes:

“Agilizar a implantação do sistema de informatização integrada do ‘controle de áreas’, bem como do protocolo e dos setores responsáveis

pela movimentação dos processos: análise, disponibilidade de áreas, exigências e fiscalização;

- Equipar suas unidades regionais, visando agilizar e aperfeiçoar os trabalhos de vistoria de campo, isto é, na fiscalização das áreas de pesquisa, de lavra e de garimpagem.

- Avaliar o recente implemento da isenção de cobrança de emolumentos no ato dos requerimentos para pesquisa mineral, que tem provocado um excesso de solicitações, ou alternativamente, ampliar a extensão das áreas requeridas para reduzir o número de processos;

- Exercer uma fiscalização eficaz no cumprimento da legislação em vigor, sempre como o objetivo de bem administrar os recursos minerais do País.”

Ciente dessa situação, os proprietários de títulos minerais acabam mantendo as áreas sob o seu domínio com fins especulativos, de forma a aguardar a valorização do mineral que se deseja explorar, aguardar o esgotamento de outra mina de sua titularidade

44 que já esteja em operação ou para evitar a pesquisa e exploração do bem por mineradora concorrente, conforme aponta o mesmo relatório:

62. Das entrevistas e análise documental, identificamos subterfúgio utilizado pelas empresas de mineração que permite o monopólio e a especulação em áreas de elevado potencial econômico, sem, contudo, a realização de quaisquer trabalhos de pesquisa ou, em alguns casos, apenas estudos superficiais.

Não bastasse o problema narrado, o baixo efetivo do DNPM gera outros prejuízos para o setor, como a ausência de mapeamento do subsolo brasileiro com base nos relatórios de pesquisa apontados. Lembra-se que uma das grandes falhas de mercado do setor é a assimetria de informações provocada pela ausência de informação pública sobre a geologia mineral.

Tal falha poderia ser mitigada na medida em que os relatórios de pesquisa fossem apresentados, devidamente fiscalizados in loco (atividade que já é competência do

DNPM113) e compilado em um banco de dados. No entanto, dada a falta de corpo técnico,

o banco de dados não pode ser alimentado.

Os funcionários do CPRM e do CETEM possuem uma crítica em comum: ausência de verba suficiente para dar prosseguimento às pesquisas que lhe foram incumbidas. O CPRM não possui condições de mapear a geologia de todo o setor.

Estima-se que o valor de mapeamento de uma folha pelo CPRM é de R$ 950.000,00, sendo R$150.000 gastos com os custos operacionais e R$800.000 em salários e encargos e demora cerca de dois anos para ser finalizada. Para fins comparativos, em 2009 o Brasil possuía 2,96% do território nacional mapeado na escala 1:100.000, o que

equivale a 84 folhas114.

113

Art. 32. Realizada a pesquisa e apresentado o Relatório referido no inciso VIII do art. 25 e no art. 26 dêste Regulamento, o D.N.P.M. mandará verificar "in loco" a sua exatidão e em face do parecer conclusivo da Divisão de Fomento da Produção Mineral, proferirá despacho: a) de aprovação do Relatório, quando ficar demonstrada a existência de jazida aproveitável técnica e econômicamente; b) de não aprovação do Relatório, quando ficar constatada insuficiência dos trabalhos de pesquisa ou deficiência técnica na sua elaboração, que impossibilitem a avaliação da jazida; c) de arquivamento do Relatório, quando ficar provada a inexistência de jazida aproveitável técnica e econômicamente. Parágrafo único. A aprovação ou o arquivamento do Relatório importará na declaração oficial de que a área está convenientemente pesquisada.

114 LADEIRA, Eduardo A. Análise da Informação Geológica do Brasil: Relatório Técnico Nº 10 -

Informação Geológica do Brasil. Disponível em:

http://www.mme.gov.br/documents/1138775/1256660/P04_RT10_Informaxo_Geolxgica_do_Brasil.pdf/4 1f84ab2-8d1b-431a-85db-99294453bec6. Acessado em 20 de novembro de 2015.

45 Não fosse suficiente o elevado valor para elaborar uma folha, o CPRM acumula outras atividades, como o mapeamento geológico de outros bens minerais a exemplo da água. Por vezes, portanto, o orçamento que já é limitado para fazer frente às despesas de pesquisa é revertido para algum programa de estudo ou aproveitamento de água.

Dessa forma, apesar da estruturação adequada dos órgãos nos dispositivos legais, há enorme dificuldades dos mesmos em cumprirem as funções que lhe foram imputadas devido a falta de efetivo e de recursos.