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A falta de credibilidade não é uma exclusividade deste programa Quase todas as ações em saúde pública são vistas com olhos de descrédito e com o estigma de ser estruturado para pobres. O Programa de Saúde da Família, por ser um programa governamental, im p r ^ a d o de normas e diretrizes, ainda não provou e não disse a que veio. Ainda não conseguiu mostrar outra face que não seja aquela que já conhecemos e que é marca registrada das ações em saúde púbhca O fato de ter uma equipe estruturada para o trabalho e que faça visitas domiciliares, não significa uma mudança no bom sentido, uma nova forma de pensar e fazer saúde.

Não podemos nos esquecer de que boa parte dos termos empregados (reorganização, reestruturação), já foram tentados na saúde pública com o PREV-SAÚDE, que ficou restrito ao papel. Programas semelhantes ao nosso Programa de Saúde da Famíha, já foram implantados e estão em fimcionamento em outros países, bem como no Brasil. Oferecendo uma comparação entre o PSF e o programa similar no Reino Unido é que lá o “(...)

atendimento é feito nas 24 horas do dia, 365 dias por ano e as visitas domiciliares foram reduzidas de 2 0 para 10% em 10 anos” (Allen, 1999, p. 35). Segundo o mesmo autor há

uma rede hierarquizada de serviços semelhante a que o Ministério da Saúde pretende implantar em nosso país. O fato de termos copiado idéias que não contemplam as peculiaridades do nosso povo, tanto no aspecto cultural quanto no educativo, seguramente trará dificuldades em apresentar bons resultados num curto espaço de tempo, em todo o território nacional. Não apresentando bons resultados, não tendo apoio político e econômico satisfatório e que todas as ações de saúde do município trabalhem dentro da nova filosofia o poder de resolução fica baixo, a credibilidade fica comprometida, as ações permanecem na esfera de demandas e não há progresso no sentido da promoção, prevenção e recuperação da saúde. Mas porque a população não crê na nova proposta? Provavelmente é porque todos os que nos antecederam, em tese, também, prometeram resultados similares aos que hoje prometemos. A única diferença, neste caso, é que hoje somos nós os que estão prometendo. Tam bán os outros eram pessoas bem intensionados, assim como nós hoje, e o que o povo recebeu foi um grande calote.

Mudanças de concepções culturais são dificeis de acontecer em todas as classes sociais. O PSF pretende contemplar as caracteristicas culturais da população, estimulando a cidadania, considerada como expressão da qualidade de vida ” (Brasil,

1997, p. 10). Pode-se perceber claramaite na área da saúde o que ocorreu após a aprovação da Constituição de 1988 e esta cultura é devida aos profissionais de saúde. Antes da aprovação da lei todos atribuíam o mau atendimento no serviço públicos em virtude da inexistência de lei condizente com aquilo que era preconizado pelos técnicos, gestores e govemantes.

Com o advento da “universalização conquistada em le i” (Brasil, 1998), logo a sociedade e os técnicos em saúde encarregaram-se em fazer segmentações impondo dificuldades de acesso através da limitação do número de atendimaitos por profissional bem como pelo não cumprimento dos contratos de trabalho entre o sistema de saúde e os

profissionais. Outra forma de segmentação mais refinada foi obra somente dos técnicos que passaram a oferecer um atendimaito pobre e com baixos resultados a população usuária do sistema público de saúde soido que, em contrapartida, prestavam um bom atendimento a pacientes de outros convênios. Este talvez seja o motivo que justifica o aumento do número de usuários que procuram outros convênios de saúde, chegando “(...)

aproximadamente 25% da população brasileira” (Giovanella, 1996, p. 14).

A partir de 1994, iniciou-se uma nova toitativa para reestruturar o SUS através de dois programas: O Programa dos Agoites Comunitários de Saúde e o Programa de Saúde da Família Ambos possuem, na sua essência, novos pensares relativos às formas de fazer saúde, constituindo-se em uma idéia ousada, se considerarmos a organização dos serviços de saúde pública do Brasil até 1994, e que a primeira vista deveria ser recebida com bons olhos pela comunidade. Na prática nem sempre isto acontece. Então veremos, aquilo que deveria receber com aquiescência porque é a melhor proposta até então concebida, em alguns aspectos é rejeitada, ignorada, pela população. Aos profissionais que sempre reclamaram muito do sistema, também coube parte do entrave das novas propostas, desta nova idéia. O que eu quero dizer é que as mudanças de concepções culturais são dificeis de acontecer e por vezes impossíveis. Para podermos provocar mudanças de hábitos de vida devemos ter continuidade, persistência e mostrar que é possível modificar condutas para se ter uma vida melhor, e não nos abatermos com possíveis derrotas. Para o PSF estas mudanças ocorrerão no “(...) convívio com a comunidade” (Brasil, 1997, p .10) e desta com a equipe de saúde.

A credibilidade entre a equipe de saúde e o cliente ou comunidade pode ser alcançada quando ambos percebem a interdependência existente entre as necessidades do cliente de um lado e o conhecimento técnico-científico acumulado do outro e a carência de ajuda deste com a “(...) imperiosa necessidade em experimentar e de fa to aplicar

determinado conhecimento ou técnica” (Almeida, 1995, p. 76). Acredita-se que o resgate

da credibilidade social só será conseguido à medida que a equipe de saúde apresentar-se sem “paramentação”, inclui-se aqui a máscara e o gorro, que ficou como uma marca registrada do ambiente hospitalar. Também no relacionamento social, deveremos esquecer 0 procedimento através de uma máquina, com a qual nos “relacionamos” com os clientes, transformando-nos em simples operador de aparelhos.

Não podemos ignorar que esta metodologia utilizada pode ser eficaz e necessária em um ambiente segregador e impessoal como o existente em determinadas áreas hospitalares, mas que o ser humano, no seu ambiente natural, dificilmente concordará com este método de trabalho. Estes obstáculos afetam toda a equipe de saúde na convivência com a comunidade.

Ao analisarmos os resultados de alguns setores da saúde púbhca brasileira, cumpre- nos concordar com a população em relação à credibilidade desta com o sistema. Deve ser questionado também se a equipe de saúde de fato acredita na sua capacidade em solucionar os agravos de saúde da população, daitro desta modahdade, sem ser “contammada” pelo tecnicismo, estarem dispostos a abrir mão da condição social de auto-suficiência absoluta e da auto-atribuição de um saber incontestável.