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5 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

5.5 Custo humano do trabalho

5.7.2 Falta de reconhecimento

A falta de reconhecimento está relacionada com os seguintes fatores: o não reconhecimento do esforço e desempenho, a indignação, a injustiça, a desvalorização, a discriminação e a desqualificação do trabalhador (MENDES; FERREIRA, 2007).

A categoria Falta de Reconhecimento consiste em 20,11% dos conteúdos codificados na dimensão Vivência de Sofrimento no Trabalho, da qual emergiram as subcategorias: ‘indignação’ 13,66% e ‘injustiça’ 9,32%, como apresentado por meio da TAB.2.

5.7.2.1 Indignação

Quanto à subcategoria ‘indignação’, está relacionada com a imposição das empresas em relação às corridas, sem considerar as argumentações dos motoristas, pois a liberdade de expressar opiniões é negligenciada. Os motoristas M48 e M64 comentam:

(...) eles só olham o lado deles. Não querem saber de periculosidade/risco. Só querem que aceitemos todas as corridas (M48).

O cidadão que inventou o aplicativo fica atrás de uma mesa e enquanto isso tem gente se ferrando com esse pouco caso deles (M64).

Outro fator que causa indignação são as cobranças excessivas de taxas pelas empresas, 26% dos motoristas relataram que se sentem lesados. O motorista M04 e M66 comentam:

Eu peguei a corrida compartilhada, no total de três pessoas, a corrida deu 50 reais, a empresa ficou com 26 reais 52%, o que é isso! Não tem condições um negócio desse não! (M04).

O km que recebemos é pouco, eles [Aplicativos X e Y] teriam que rever o km que eles pagam. Eles não deveriam estar brigando por valor, porque isso reflete em nós, eles reduzem os preços e nós recebemos menos. Um sozinho não vai aumentar o valor, tem que ser os 2 juntos, são eles que dominam o mercado de App’s aqui (M66).

Os relatos vão ao encontro do que preconiza Bezerra (2019), ao afirmar que existe exploração do trabalho de motoristas por aplicativo, já que a liberdade deles é monitorada por meio de controle e vigilância do aplicativo, aliado à falta de garantias trabalhistas, demonstrando, assim, características de precarização do trabalho.

A avaliação do passageiro que acaba rebaixando a nota do motorista no aplicativo também é causa de ‘indignação’ da maioria dos motoristas, os quais não têm a liberdade de contestar a avaliação realizada pelo passageiro. A explanação indignada dos motoristas M97 e M03 demonstra essa condição. Já o M87 estimula os outros a participarem de manifestação promovidas pelos motoristas de aplicativos.

(...) estou cortando mesmo. Estou nem aí para a nota. Se quiser reclamar que reclamem. Nós motoristas podemos estar certos de que a empresa

sempre vai ficar a favor do passageiro. Eles cortam sua conta, mas não perdem o passageiro (M97).

A minha nota não durou nem 24 horas, teve uma mulher lá em Neves que pediu para desligar o ar e abrir a janela, o lugar estava com uma poeira dos infernos, eu falei que não, porque só faltava 3 minutos para acabar a corrida, a gente já está finalizando; aqui, só pode ser ela, tem certeza de que foi aquela gorda f*** (M03).

Iremos fazer paralização às 15:00 horas, deixando a avenida Antônio Carlos totalmente fechada nos dois sentidos, em protesto sobre a segurança para todos nós, motoristas de aplicativos, que têm sido roubados e muitos, infelizmente, acabando sendo mortos, sem ter a quem recorrer; não podemos mais ficarmos de braços cruzados enquanto tudo isso acontece. Precisamos dar um basta nisso!! (M87).

Relatos esses que está de acordo com Shapiro (2020), quando afirma que somente a mobilização e a união dos motoristas para reivindicar acesso às informações e melhores condições de trabalho pode resolver a situação. O autor cita que os trabalhadores sob demanda têm-se organizado na Itália e em Londres, na Inglaterra. Sendo primordial demonstrar que as exclusões da plataforma constituem práticas comerciais desleais e, em segundo lugar, exigir que das empresas que melhorem significativamente os ganhos dos motoristas, proporcionando melhor qualidade de trabalho.

Segundo Dejours (2020), a subcontratação, o trabalho temporário e trabalhadores independentes têm sido usados na Europa e América Latina, especialmente no Brasil, Argentina e Chile, como meio eficaz de contornar a legislação trabalhista.

5.7.2.2 Injustiça

A ‘injustiça’ emergiu do sentimento de descontentamento e da própria injustiça com as condições de trabalho que são relatadas quase todos os dias pelos motoristas de aplicativos pesquisados. Desde o fato da banalização da violência, como no caso do medo de ser assaltado, até o alto custo de transitar com um veículo na RMBH. Eles se sentem desvalorizados, o que atenua o sentimento de injustiça. Os relatos a seguir vão nessa direção.

Assaltante que assalta Apps é burro, quanto você leva no bolso, 100,00 150,00, telefone, que não vale nada pra eles hoje em dia. O carro quase sempre é rastreado. O motorista se fode todo, compra outro telefone, conserto do carro, mais o psicólogo e outras coisas. Os que temos que nos

preocupar agora é com o ganho que é baixíssimo, têm que rever, no momento, é nossos ganhos. Uma multa leva quase toda a semana de trabalho. Entrar numa Oficina para fazer um orçamento, é pedir para morrer! (M66).

(...) se fosse um ganha pão meu, eu já tinha procurado outra profissão, mas como é um acréscimo! Deixa me roubar até eu cansar de ser roubado! (M56).

Segundo Zwick (2018), grandes empresas-plataformas de transporte por aplicativo exploram trabalhadores mais economicamente vulneráveis, com a intenção de reduzir salários e evitar pagamentos e benefícios. Essas empresas buscam leis federais e estaduais para obter vantagens competitivas.

Dejours (2017) aponta que, quando o trabalho causa desestabilização por meio de constrangimentos, sobrecarga, injustiça, medo e ameaça de perder o emprego, as consequências são insalubres para o ambiente privado, permeado por conflitos generalizados.

Em síntese, a dimensão Vivências de Sofrimento no Trabalho está relacionada à organização e às condições de trabalho do grupo pesquisado. A insegurança está presente devido à falta de garantias e às incertezas constantes na relação com o trabalho, que apesar de exigir alto desempenho e o investimento financeiro por parte do trabalhador, não permite o controle do ajuste de preços nem a liberdade de escolher as corridas e os locais mais convenientes ao motorista. O ambiente de dominação é palco de frustração, indignação e de sentimento de injustiça. Já o medo se deve à exposição do motorista à violência que atinge a RMBH, o que faz do transporte de privativo uma função de risco nessa região.

5.8 Danos relacionados ao trabalho

Os danos relacionados ao trabalho são caracterizados por danos físicos, psicológicos e danos sociais (MENDES; FERREIRA, 2007).

As palavras mais frequentes que corroboram as subcategorias que emergiram nesta dimensão foram: ter (60); falar (56); mulher (53); horas; ser (52); ver (52); aplicativo

(51) dinheiro (44); pessoa (34); pegar (30); peguei (30). Conforme apresenta a FIG.10 a seguir.

Figura 10–Nuvem de palavras sobre ‘danos relacionados ao trabalho’

Fonte: Dados da pesquisa, 2020.