APRESENTAÇÃO 25 1 INTRODUÇÃO
3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
3.1. FAMÍLIA COMO CONTEXTO DE DESENVOLVIMENTO HUMANO
O processo de socialização das crianças é permeado pela aquisição de valores, normas, papéis costumes e conhecimentos transmitidos e regulados pela sociedade. É consenso na literatura especializada que na maioria das sociedades ainda se confere à família um papel central na preparação dos indivíduos para a integração social, tornando-a contexto principal de desenvolvimento da criança e um lugar privilegiado na criação, proteção, apoio e manutenção de relacionamentos (Dessen, & Polonia, 2007; Gomes,1992; Keller, 1998; Kreppner, 2000).Um aspecto imprescindível a destacar é o entendimento de que a família é mediadora entre a criança e o mundo e que ela (a família) internaliza e é influenciada a todo momento pelos valores, significados e práticas socioculturais. Assim, os pais ou cuidadores, ao oportunizarem situações interativas entre seus membros, revelam suas crenças, valores e cognições que estruturam as estratégias de criação dos filhos. Neste sentido, a compreensão do desenvolvimento infantil passa necessariamente pelo conhecimento do seu contexto primário, espaço no qual ela ingressa em um mundo social – que é a família - , incluindo práticas de cuidado que a criança vivencia, assim como as crenças, valores e metas que estão implícitos nas ações cotidianas, nos julgamentos e nas escolhas e decisões dos pais.
Parte-se da compreensão de que os bebês humanos são, entre todas as espécies animais, os que mais dependem de outros para organizar sua própria sobrevivência e desenvolver, são também os que mais tempo levam para amadurecer (Vieira, & Prado, 2004). Estudiosos têm refletido sobre o significado que tem o alargado período da infância para o desenvolvimento próprio da espécie (Geary, & Flinn, 2001; Seidl-de-Moura, Donato,& Vieira,2009). Uma explicação plausível é a necessidade de adaptação do bebê humano a um ambiente cultural complexo em que nascem, fazendo-se necessária uma enorme expansão da capacidade de aprendizagem que se realiza com a estreita colaboração de sujeitos mais experientes, no caso os pais. Em síntese, a função da imaturidade seria precisamente garantir a transmissão de saberes de cuidadores para as crianças por meio de um prolongado e intenso tempo de cuidados e aprendizagens.
O lento processo de desenvolvimento do ser humano e a consequente dependência física e psicológica dos bebês exigem a
presença de outro mais experiente que lhe forneça as condições necessárias para a sobrevivência. Em várias culturas são os pais os principais encarregados de cumprir esta função. Dessa forma, a relação que constroem com seus filhos pequenos tem uma profunda repercussão nos processos de socialização, compreendida como um meio pelo qual a criança se apropria de conhecimentos, crenças e formas de se relacionar que lhe permite construir uma identidade individual, ao mesmo tempo em que lhe possibilita participar como sujeito competente em distintos contextos.
Considerando a importância dos estudos da família para a ciência psicológica contemporânea e motivada pelo papel estruturante dos pais no desenvolvimento dos filhos, estudiosos têm se interessado pela família e pela parentalidade3 (parenting) e, mais especificamente, os construtos que lhes estão intrínsecos, assim como as suas causas e consequências em todos os elementos e em toda a estrutura familiar. Os estudos têm procurado de forma mais adequada e ampla analisar os significados de ser pai ou ser mãe e estudar o comportamento parental dos filhos. Neste sentido, décadas de investigação possibilitam a aproximação com perspectivas teóricas e investigações empíricas que em muito tem enriquecido a área. Do ponto de vista da Psicologia do Desenvolvimento, o estudo da parentalidade envolve a análise dos processos por meio dos quais os cuidadores, como principais responsáveis pela criança, influenciam o seu desenvolvimento (Cruz, 2013).
Muito embora parentalidade seja um conceito relativamente recente e que começou a ser utilizado a partir da década de 60, na literatura psicanalítica francesa, sinteticamente, diz respeito ao processo de construção do exercício de ser pai e mãe. Trata-se de um conceito amplo definido como um conjunto de ações desenvolvidas por todos os envolvidos no cuidado e educação dos filhos que considerem as necessidades da criança, potencializando seu desenvolvimento da forma mais abrangente possível, usando, para tal, os recursos que possuem no interior e exterior da família, ou seja, na comunidade em que estão inseridos (Cruz, 2013). Ressalta-se, ainda, que a parentalidade possa assumir significados diferentes de acordo com a cultura em que está inserida (Keller, Borke, Yvosi, & Jensen, 2005), em especial
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Apesar dos primeiros estudos de conceptualização da parentalidade remontarem a década de 1970, o seu significado permanece não consensual para diversos autores, podendo surgir na literatura como sinônimo de paternidade, paternal, patriarcal ou monoparental (Martins et al.,2013).
relacionada ao nível da distância interpessoal e de acordo com os objetivos de socialização (ex. independência versus interdependência).
Numa tentativa de compreender os modelos de orientação de self presentes nos contextos familiares, parte-se nesta investigação do conceito de parentalidade e busca-se modelos teóricos que partem da compreensão dos aspectos biológicos e culturais do desenvolvimento humano, mais precisamente a relação entre inato e adquirido. Trata-se de uma discussão contemporânea complexa e importante travada entre diferentes áreas do conhecimento e que contribui para a compreensão do impacto da evolução cultural e biológica na trajetória do desenvolvimento humano.
O conceito de inato – natural refere-se àquilo que o indivíduo possui desde o nascimento, o qual foi adquirido por meio de um processo de transmissão genética. Por outro lado, adquirido expressa o que o ser humano adquire por intermédio de um processo de interação com o meio ambiente. O inato ou biológico e o ambiental ou cultural são fatores que influenciam no processo de desenvolvimento humano, os quais não podem ser estudados separadamente. Dentro desta perspectiva, na interação entre aspectos ambientais e biológicos, há uma variedade de fatores que influenciam o desenvolvimento do indivíduo, tais como aspectos sociais, ambientais, culturais e biológicos.
Entre as perspectivas teóricas que estudam essa interação, hão de ser citadas a Psicologia Evolucionista e o modelo de nichos de
desenvolvimento propostos por Harkness e Super (1995), que
consideram não somente as práticas dos pais propriamente ditas mas também as crenças que estão vinculadas aos diferentes contextos culturais.
A Psicologia Evolucionista contribui na compreensão dos cuidados dispensados pelos pais, que podem ser considerados tarefas do desenvolvimento universais, por se mostrarem relevantes na manutenção e sobrevivência da espécie (Keller,2007). Contudo, estudos têm verificado que, apesar da universalidade dos cuidados, a maneira com que os pais os exercem pode variar conforme os diferentes contextos ecológicos nos quais a família está inserida (Keller et al., 2004; Keller et al., 2007).
3.2. PSICOLOGIA EVOLUCIONISTA E PSICOLOGIA DO