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A participação da família de estudantes com deficiência em escolas regulares

ainda não se apresenta, nessas instituições, como uma condição necessária, apesar

da busca pela autonomia do estudante se fazer constantemente presente no

ambiente escolar e pelo fato de que a família “deve funcionar como apoio, para

que esta enfrenta inúmeras barreiras nesse processo” (SANTOS; SILVA, 2014, p.

101).

Em muitos casos, a família sequer é convocada para explanar informações

sobre a pessoa com deficiência ou ser informada de ações que podem beneficiar o

sucesso escolar e social da mesma. Silveira, Santos e Silva (2014) e Amiralian

(2003) afirmam que a participação da família na escola é desencorajada, sobretudo

em escolas públicas, em virtude do pouco conhecimento sobre deficiência, direitos e

cidadania que os familiares possuem, fazendo predominar nos pais um sentimento

de serem elementos perturbadores nos processos de ensino e aprendizagem.

Família e escola possuem como objetivos e funções de semelhança e

proximidade: proteger e educar, dar autonomia à criança, buscar acertos e

corrigir erros. É necessário entender que a relação mantida pelo aluno na

escola tem a ver com o tipo de família e, também, com a relação que seus

membros mantêm entre si. Por esses motivos, a parceria entre essas duas

instituições é fundamental para que o processo de aprendizagem tenha

sucesso. (SANTOS; SILVA, 2014, p. 104)

Saraiva e Wagner (2013) também concordam que, apesar de existir

comprovação científica sobre os benefícios da proximidade da família no ambiente

escolar, “ainda existem muitos empecilhos para que esta relação seja eficaz”

(SARAIVA; WAGNER, 2013, p. 739), tais como a família não se achar capaz de

auxiliar os estudantes em virtude de desconhecer aspectos pedagógicos e da escola

acreditar que informações referentes à vida pessoal do estudante não são

nescessárias para a criação de metodologias que maximizem seu desenvolvimento

acadêmico. Amiralian (2003) evidencia que há uma grande dificuldade na

comunicação entre aqueles que participam do processo de escolarização da pessoa

com deficiência visual, fazendo com que a escola e outros atores (famílias,

assistentes sociais, médicos, psicólogos etc.) não dialoguem sobre informações

necessárias para a integração de dados que poderiam proporcionar uma melhor

compreensão e desenvolvimento desses estudantes, melhorando, assim, seu

desempenho escolar. “A família, que deveria ser o elemento nuclear e o eixo

unificador de todos os procedimentos e intervenções indicados e propostos, é

frequentemente pouco participante e raramente chamada a opinar sobre os

procedimentos a serem utilizados com seu filho” (AMIRALIAN, 2003, p. 108). Isso

acontece, também, devido à inexistência, em muitas escolas, de profissionais com

formação em educação especial e o desconhecimento sobre a importância de

oferecer um serviço multidisciplinar em prol do sucesso escolar da pessoa com

deficiência.

A instituição educacional “não se limita mais às tarefas voltadas para o

desenvolvimento intelectual dos alunos, estendendo sua ação aos aspectos

corporais, morais, emocionais, do processo de desenvolvimento” (NOGUEIRA, 2005,

p. 575). A escola tem, além da função de escolarizar, o papel de “preparar tanto

alunos como professores e pais para viverem e superarem as dificuldades em um

mundo de mudanças rápidas e de conflitos interpessoais, contribuindo para o

processo de desenvolvimento do indivíduo” (DESSEN; POLONIA, 2007, p. 25). Isso

se intensifica nos casos que envolvem estudantes com deficiência, pois as

mudanças e conflitos se mostram constantes e, em alguns casos, tomam proporções

maiores do que deveriam, afetando diretamente a participação da pessoa com

deficiência nas atividades escolares e, desse modo, o seu processo de

aprendizagem de conteúdos acadêmicos e sociais. Em virtude disso, a participação,

contribuição e compreensão de todos aqueles que fazem parte do processo de

aprendizagem, inclusive a família, são de fundamental importância. “É necessário

que os pais e os profissionais da escola trabalhem da mesma forma, estabelecendo

os mesmos princípios que irão permitir uma articulação harmoniosa na educação”

(CUNHA, 2012, p. 127).

Segundo Cia e Barham (2009) e Escobedo (2006), é possível associar o

sucesso escolar do estudante e sua dedicação aos estudos à interação e

participação familiar nas atividades escolares. Geralmente, os estudantes que têm

apoio da família apresentam maior envolvimento com as atribuições escolares em

virtude do estímulo que recebem. “Quando a família, por qualquer motivo, ainda que

justificável, não consegue cumprir a sua parte, o aluno fica desprovido de atributos

que o preparam para a aprendizagem escolar” (CUNHA, 2012, p. 126).

Esses aspectos mencionados denotam a importância da participação da família

nos processos escolares de estudantes com deficiência. Não é possível conceber

uma educação na qual a vivência familiar, incluindo as situações negativas, como a

culpabilização da pessoa com deficiência pelas dificuldades familiares, é

marginalizada. Uma escola que coloca em segundo plano todo o histórico familiar

dos estudantes com deficiência, desconsiderando o fato de que estes passam

grande parte do seu tempo imersos no convívio familiar e que vivenciam problemas

afetivos recorrentes em virtude da deficiência, deixa de realizar objetivos

fundamentais do processo educativo, o que afeta diretamente a qualidade da

aprendizagem e as notas dos estudantes.

A família tem papel fundamental e uma contribuição no processo educacional,

sendo necessário analisar a sua relação/parceria com a escola. “[…] a família e a

escola emergem como duas instituições fundamentais para desencadear os

processos evolutivos das pessoas, atuando como propulsoras ou inibidoras do seu

crescimento físico, intelectual, emocional e social” (DESSEN; POLONIA, 2007, p.

22).

Isso não significa que a presença da família no ambiente escolar, ou que a

realização de constantes questionamentos dos profissionais da escola sobre o

convívio familiar, irá fazer com que o estudante tenha melhor êxito. Considera-se,

aqui, a necessidade de cada instituição fazer sua parte, não subjugando o papel da

outra e nem tomando para si toda a responsabilidade pelo processo educativo. O

sucesso escolar depende da participação de todos aqueles que convivem com o

estudante, cada um exercendo suas atribuições, sem esquecer que aquele indivíduo

é um ser social, participante de vários meios que influenciam suas atitudes, decisões

e emoções.

Assim, sob o argumento da necessidade de se conhecer o aluno para a ele

ajustar a ação pedagógica, o coletivo de educadores da escola

(professores, orientadores e outros) busca hoje ativamente e detém

efetivamente informações sobre os acontecimentos mais íntimos da vida

familiar, como crises e separações conjugais, doenças, desemprego, etc.

(NOGUEIRA, 2005, p. 573)

Segundo Dazzani e Faria (2009), o fracasso escolar pode estar relacionado

com as características emocionais do indivíduo e de seus familiares. O ambiente

familiar de estudantes com deficiência, devido a fatores de superproteção, de

incompreensão da mudança de rotina de um de seus membros ou até o misto de

sentimentos que sempre circunda todos, pode causar alterações emocionais no

estudante prejudicando, assim, seu aprendizado (DAZZANI; FARIA, 2009).

O desempenho acadêmico dos alunos, durante seu processo de escolarização,

está diretamente relacionado às avaliações escolares (verificações da

aprendizagem), ao convívio com outros estudantes, envolvimento com professores e

equipe técnica e até com o sentimento de pertencimento ao espaço escolar em que

se encontra. Também tem relação direta com o que acontece fora do ambiente

escolar (DAZZANI; FARIA, 2009), no seio familiar, pois quando a família enfrenta

problemas financeiros, de saúde ou não acredita na possibilidade de crescimento do

estudante, percebe-se o reflexo em seu desempenho.

A relação da escola com a família de estudantes com deficiência também está

regada por fatores que dependem dos conhecimentos sobre a deficiência que

ambas não possuem. Thin (2010) analisa a relação de dominação entre famílias

populares com a instituição escolar, e esse relacionamento pode ser associado com

as famílias de estudantes com deficiência. Quando se trata de famílias com baixo

poder aquisitivo, estas se afastam da escola em virtude de sua baixa escolarização

(THIN, 2010) e algo semelhante pode acontecer com aquelas que possuem

membros com deficiência, por não se sentirem capazes de lidar com especificidades

acadêmicas relacionadas à Educação Especial.

Mesmo quando há, por parte da família, desconhecimento de fatores

pedagógicos necessários para o processo de escolarização de estudantes com

deficiência, isso não inviabiliza a participação das mesmas, em virtude da

necessidade de elas se integrarem à vivência escolar para que possam

compreender, aceitar e auxiliar nos avanços educacionais e sociais desses

estudantes. Trata-se de um processo duplo de dependência. A família necessita da

escola para que seja instruída sobre procedimentos pedagógicos a serem adotados

fora do ambiente escolar. De forma semelhante, a instituição escolar precisa da

família para compreender especificidades do processo de socialização que o

estudante vivenciou no seio familiar, bem como entender as características da

deficiência que são particulares de cada estudante.

Nesse processo, é preciso perceber que mesmo estas duas instituições

possuindo um objetivo comum, que é o sucesso escolar do estudante, esta relação

ocorre de forma assimétrica dada a maneira como a escola compreende a família no

contexto da educação e vice versa. A existência de dissonância entre os atores,

devido a diferenças das certezas pedagógicas18 e incertezas da socialização

18

Certezas pedagógicas são as orientações acadêmicas e pedagógicas que os profissionais em

Educação Especial julgam serem necessárias para o melhor aproveitamento do estudante com

deficiência.

familiar19, é inevitável. O importante é perceber que não se trata de relações de

dominação, e sim de diferentes saberes que devem ser compartilhados, debatidos e

unificados. Os pais não podem se sentir coagidos, eles precisam perceber a

importância da colaboração e realizar isso de forma voluntária. A escola necessita

reconhecer que, sem a família, o processo educativo é incompleto e pontual, não se

estendendo a toda vida do aluno.