“...a dificuldade que existe de apreender a pós-modernidade nascente, ...é reduzir o real denso e complexo a uma “realidade” mensurável. Ao compartimentar sua abordagem em disciplinas separadas e exclusivas entre elas, chega-se a uma “vida social” de onde a própria vida está ausente.”
Iniciamos essa etapa situando a família no período de transição compreendido entre a modernidade e o que se convencionou chamar de pós-modernidade. Segundo Bridi (2005), as primeiras manifestações de mudança no paradigma se fizeram a partir das artes e da literatura e os limites entre a modernidade e a pós-modernidade já são indícios do processo de transição.
Parece ser difícil definir o período cronológico que compreende o início da modernidade, pois se trata de um período histórico que é ao mesmo tempo passado e presente, é um processo de transformações do pensamento ocidental iniciado no século XVI com a ruptura da tradição medieval (CRUZ; CARDOSO, 2011).
Segundo Hansen (2000), a compreensão da modernidade no mundo se faz a partir da valorização da subjetividade e da razão como instância da definição dos parâmetros sociais, políticos, culturais e cognitivos. Outra característica da compreensão da modernidade é a secularização. Não é mais a vontade de deuses ou entidades que define os propósitos e o sentido das ações humanas, mas é o próprio ser humano quem passa a atribuir significado ao tempo e ao lugar no qual está inserido. A vida ganha uma dimensão de responsabilidade para com a condução do destino da espécie humana, bem como com relação ao uso e domínio da natureza em suas várias formas de manifestação. O ser humano cria instituições a partir das quais vai gerenciar a vida em sociedade e tais instituições passam a ter a legitimidade de sua atuação amparada em argumentos e motivos racionalmente válidos. Já não se aceita a legitimidade de uma decisão ou ação com justificativas que apelem para divindades ou que remetam a instâncias supra históricas.
Sendo assim, a ciência moderna nasceu da esmagadora ambição do homem de conquistar a natureza e subordiná-la às necessidades humanas. A curiosidade científica que teria levado os cientistas a irem onde nenhum homem havia ousado em ir, nunca foi isenta da estimulante visão de controle e administração, de fazer as coisas melhores do que são (isto é, mais flexíveis, obedientes, desejosas de servir). A natureza significava algo que deveria ser subordinada à vontade e razão humana, um objeto passivo da ação com um propósito, à espera de absorver o objetivo injetado pelos seres humanos (BAUMAN, p. 48, 2001).
Este momento histórico denominado de positivismo submeteu todos os elementos da natureza a sua razão científica e foi aplicado a todas as ciências inclusive
as ciências sociais. Nesse contexto, Maffesoli (2010b, p. 57) ao se referir sobre as influências do positivismo sobre as ciências sociais, destaca a afirmativa de Durkheim referindo-se ao significado da sociologia frente ao positivismo que “o fato social é mensurável e, assim pode-se comparar sua força e sua grandeza do mesmo modo que se faz com a intensidade das correntes elétricas ou de focos de luz”.
Apesar dessa afirmativa ter despertado estranhamento por se referir a uma ciência social no qual ocorre nivelando do fato social à objetividade positivista, Durkheim mais uma vez surpreende quando revela que cada época possui seu sistema de investigação e de interpretação do ambiente social e natural, sendo sempre difícil proceder-se à abstração da tendência dominante (MAFFESOLI, 2010b).
A modernidade foi à época em que a alma se retira do mundo das coisas e recolhe-se no mundo dos homens, bem como a época em que os homens acreditam ser fortes e poderosos. A razão é de fato assume a condição de fundamento a partir do qual o mundo deve ser organizado. É ela quem dava unidade e sentido a todas as esferas que da existência humana (HANSEN, 2000).
Desse modo, a luz fornecida pela razão permitiria a decolagem para o pensamento científico através de uma dissecação do mundo, da realidade, para a descoberta de leis e fenômenos. A verdade, agora lapidada pelo sujeito da razão, configura um domínio que tem na ciência seu fundamento legítimo. Dessa forma, a razão enquanto conjunto de conhecimentos, verdades e princípios, representava o passaporte necessário e suficiente para a instauração de um pensamento crítico sobre a realidade visando transformá-la (MOREIRA, 1999).
Na perspectiva de Maffesoli (2010b), compreender a vida em sociedade a partir da matemática não deixa de ter sua grandeza. Transformar leis da fisiologia em leis sociais constitui um projeto que certamente terá muitas adesões, no entanto, torna-se suspeito no momento em que se pretende fazer a experiência ou a referência insuperável do mundo do pensamento. Pois, é uma tentativa de fazer de uma verdade local uma verdade universal sem fronteiras no tempo e no espaço.
O universalismo moderno transformou em verdade absoluta os valores culturais de um mundo cuja perenidade está longe de ser uma certeza. De acordo com o pensamento moderno, a maneira de viver e de pensar em relação a determinado objeto é universal não considera como verdade as diferenças existentes nos objetos de análise (CASALEGNO, HUGON, 2004).
A transformação a partir da razão pós-moderna apresenta repercussões nas atividades políticas, econômicas, sociais e na religiosidade, sem, no entanto, se desprender de alguns comportamentos do modelo anterior. Esses fatos também foram observados na evolução histórica da família.
O termo “família” foi criado pelos romanos para designar um novo organismo social, cujo chefe mantinha sob seu poder a mulher, os filhos e certo número de escravos, com o pátrio poder romano e o direito de vida e morte sob todos eles. O primeiro efeito do poder exclusivo dos homens no interior da família, já entre os povos civilizados, é o patriarcado, uma forma de família que atrela o matrimônio à monogamia. A família monogâmica coincide com o triunfo da civilização nascente. Baseia-se no predomínio do homem, o qual tem como finalidade procriar filhos cuja paternidade seja indiscutível; exige-se essa paternidade porque os filhos, na qualidade de herdeiros diretos, entrarão na posse dos bens de seu pai (ENGELS, 1984).
Sendo assim, o período medieval que antecedeu a modernidade, a rigidez hierárquica refletia-se nas práticas de representação social e normas rígidas de comportamento. Durante o século XV ainda era grande a falta de afeto dos adultos com as crianças (esse comportamento serviu como base para fortalecer a soberania dos pais para com os filhos e com a mulher) (VIANNA, BARROS, 2005a). Nesse sentido, segundo Ariés, Duby (1990), a família era uma realidade moral e social, mais do que sentimental e afetiva.
Os pais biológicos enviavam seus filhos para outras famílias quando esses completavam sete anos, idade em que a criança era batizada. Entretanto, nessa outra família a qual eram enviadas, recebiam ensinamentos para o trabalho e para o serviço doméstico. Esse aprendizado era difundido por todos, independentes da classe e da condição social da família (DEMENECH, 2013).
Os melhores registros da família deste período foram representados pela iconografia analisada por Ariés (1981) do século XVI ao XVII no qual conclui que os laços de sangue não constituíam um único grupo, e sim dois, distintos, embora concêntricos: a família que pode ser comparada a família conjugal moderna, e a linhagem, que estendia toda sua solidariedade a todos os descendentes de um mesmo ancestral. A família embora não se estendesse a toda linhagem, compreendiam todos os elementos que viviam juntos, e às vezes casais que viviam na mesma propriedade. Essa tendência não durava mais que duas gerações e deram origem as teorias tradicionalistas do século XIX sobre a grande família patriarcal.
Quanto ao comportamento político, econômico e social, das famílias dessa época, os membros da classe dominante perseguiam a sua sobrevivência através do individualismo que caracterizava a propriedade privada; e, mesmo quando articulavam ações conjuntas para a defesa de seus interesses de classe, cada um almejava apenas o enriquecimento pessoal. Desse modo, a exploração do homem pelo homem e a concorrência passaram a predominar na vida social, não mais era possível que a criação e a educação das crianças, que a preparação dos alimentos e da moradia, etc. permanecessem como atividades coletivas, passaram a ser atividades privadas. Foi assim que a família se deslocou do coletivo e se constituiu em núcleo privado: essa nova forma de organização de família foi denominada de família monogâmica ou família nuclear (LESSA, 2012).
A família monogâmica ou nuclear é constituída pela união entre o homem e a mulher e selada como eterna ou até a morte, como diz o padre na eucaristia do casamento “até que a morte vos separe”, mas sua finalidade principal é mesmo a reprodução. A conveniente manutenção deste grupo é realizada pelo pai, provedor financeiro, e a mãe, provedora dos cuidados domésticos (BOARINI, 2003).
A escola passa a ser instrumento normal da iniciação social, da passagem do mundo da infância para o mundo dos adultos. Essa época é marcada pelo nascimento e desenvolvimento do sentimento de família, reconhecida como um valor e formada pelos pais e filhos (VIANNA, BARROS, 2005b).
Segundo Ariés (1981), o ingresso das crianças na escola não foi vista inicialmente com naturalidade pelos pais, pois os adultos acreditavam que a educação doméstica facilitaria os cuidados com a saúde e o aprendizado seria mais rápido. Mas, eles entendiam que a educação doméstica tinha os inconvenientes dos mimos dos pais, das visitas frequentes que interfeririam nos estudos.
As intensas mudanças políticas, econômicas e sociais continuaram alterando os padrões familiares. No período que antecedeu a revolução industrial, o surgimento das indústrias caseiras e da economia da agricultura determinou o adiamento do casamento e formação de novas famílias e consequentemente menos filhos. Esse fato justificou-se pela dependência da terra para sobrevivência da família, e da espera por muitos anos para ter acesso (por herança ou pela generosidade do patriarca) ao capital econômico mínimo necessário para o casamento (FONSECA, 1989).
No contexto marcado pela ascensão da nova ordem capitalista que se estabeleceu as bases da estrutura familiar da atualidade, destaca-se a necessária valorização do
trabalho preconizada pela classe burguesa, a moralização do lucro, a concorrência, a expropriação dos trabalhadores, dentre uma série de outros fatores, significaram profundas transformações na família (VIANNA, BARROS, 2005a).
A industrialização ocorrida com a Revolução Industrial foi um fenômeno histórico-social complexo, que incluiu tanto o sistema de fábrica, o trabalho assalariado como processos de urbanização, inovações tecnológicas assim como o domínio e criação de novos grupos, ou classes sociais. Englobavam também, os fenômenos demográficos de amplas dimensões, como as migrações do campo para a cidade, da exploração demográfica, formas de divisão do trabalho e novas maneiras de relações entre os sexos e as gerações (SARACENO, 1997).
A consolidação do capitalismo representou uma ressignificação dos papéis dos membros da família. As mulheres e as crianças passaram a desempenhar, junto com os homens, as funções ligadas à geração de recursos para a própria sobrevivência do núcleo familiar. Sobretudo, no caso da mulher, tais modificações levaram ao processo de emancipação do sexo feminino. Dessa forma, ao ingressar no mundo identificado como masculino e da força de trabalho, as mulheres gradativamente passam a reivindicar participação política, cultural e até religiosa (VIANNA, BARROS, 2005a).
Essas transformações ocorreram após as duas guerras mundiais e a revolução industrial, nas décadas de 50 e 60. A família de características hierarquizadas foi se estruturando como uma família onde os conceitos de igualdade passaram a predominar, contribuindo para isso o surgimento de uma nova perspectiva sobre as questões de gênero. A família após a industrialização passou a ter maiores possibilidades de se constituir através da livre escolha dos cônjuges, no amor conjugal (HINTZ, 2001).
De acordo com Hintz (2001 p. 10), nessa configuração as diferenças de gênero do casal foram mantidas, com suas atribuições específicas. As relações entre os membros do casal tornaram-se mais semelhantes relativamente às questões do exercício de mando. Houve uma reformulação dos papéis masculino e feminino na relação conjugal, o que propiciou o surgimento de novos modelos de comportamento para ambos os gêneros, tendo o movimento feminista contribuído de forma significativa para que isso ocorresse.
Nesse momento histórico percebemos que houve uma saturação das estruturas e formas anteriores, e novas configurações e comportamentos sociais, econômico, religioso e nas artes começam a modificar, inaugurando dessa forma, o que os
sociólogos e antropólogos denominam de era pós-moderna. Segundo Maffesoli (2012), a saturação da modernidade inicia-se no ano de 1950.
O contexto histórico pós-moderno (ou, a condição pós-moderna) caracteriza-se por profundos desenvolvimentos e transformações que estão acontecendo no campo tecnológico, na produção econômica, na cultura, nas formas de sociabilidade, na vida política e na vida cotidiana. Nesta nova realidade social, precisamos nos apropriar de novos conceitos e categorias que se tornaram imprescindíveis para a compreensão das atuais configurações e seus movimentos, e para tomadas de decisão (SIQUEIRA, 2002).
Na pós-modernidade o ideal racionalista de uma sociedade progressista guiada pela moral do “dever ser” legitimada pelos conhecimentos científicos unívocos não parece dar conta da fluidez societal (REZENDE, 1995 p. 22).
A lógica da racionalidade universal imposta pela modernidade foi duramente criticada por Nietzsche (1886 p.38) no livro “Para além do bem e do mal ou prelúdio de uma filosofia do futuro”, quando afirma que a “[...] farsa que se representa uma vez caído o pano, prova de que a grande tragédia propriamente dita terminou [...]”, e que o “[...] conhecimento, não é predestinado a ele [...] ”.
Segundo Rezende (1995), esse novo tempo requer posturas científicas e atitudes intelectuais com abordagens maleáveis. Nessas abordagens a ciência pós-moderna percebe que o real não mais aceita ser submetido às molduras da verdade científica.
Nessa mesma direção, Maffesoli (2012 p. 3) nos diz que a saturação da racionalidade é um processo quase químico, pois ocorre desestruturação de um dado corpo, seguida de uma reestruturação com os próprios elementos do que foi desconstruído. Esse processo pode ser observado na filosofia, na literatura, na política e na existência quotidiana “numa relação íntima entre o que se destrói e se reconstrói em todas as coisas”.
Sendo assim, a fase de transição da ciência é marcada pela ambiguidade e complexidade do tempo cientifico, onde se reportam as discussões entre o conhecimento ordinário e vulgar e sobre a concretização dos achados científicos para a prática quotidiana.
Nesse mesmo sentido, Morin (1998), faz uma reflexão sobre o desafio da complexidade que permaneceu por muito tempo à margem das discussões sobre a racionalidade cientifica. Ele identificou alguns maus entendidos como: conceber a complexidade como receita e confundir a complexidade com completude, ao invés de entendê-la como incompletude e incerteza do conhecimento.
Nessa perspectiva, Morin (1998) enumera os caminhos que conduzem ao desafio da complexidade, a saber: o da irredutibilidade do acaso e da desordem, onde a ordem e a incompreensibilidade não podem ser provadas, o próprio acaso não está certo de ser acaso; o da transgressão onde a singularidade, a localidade e a temporalidade são eliminadas; o da complicação em que fica entendido que o problema da complicação surge a partir do momento em que os fenômenos biológicos e sociais apresentam um número incalculável de interações; o da ordem, da desordem e da organização em que a ordem estatística surge a partir de fenômenos desordenados e aleatórios; o da organização onde o todo organizado é mais que a soma das partes, e o empirismo pode ser constatado sem serem dedutíveis logicamente; o do holograma que contesta a visão do olhar das partes ou do todo, pois a compreensão do todo depende da compreensão das partes e vice e versa; o da organização recursiva que pretende unir o princípio hologramático cujos efeitos e produtos são necessários a sua própria causação e a sua própria produção; a dos conceitos fechados e claros onde as verdades surgem da ambiguidade e da aparente confusão.
Minayo (2001), também fez uma revisão sobre a decadência da racionalidade científica sobre o conceito de estrutura e sujeito, e sua transformação através de uma abordagem compreensiva, fenomenológica e interacionista e da ação e algumas correntes filosóficas.
Segundo Minayo (2001), o pensamento do sociólogo Weber tem relevância histórica quando defende a corrente de que o ser humano é autor e ator da realidade porque define e cria situações podendo criar, manter ou transformar as estruturas sociais. No marxismo instrumental o sujeito exerce uma ação coletiva organizada (sujeito histórico). A reflexão filosófica sobre o lugar da subjetividade na historia foi enriquecida por Sartre dentro do que se convencionou chamar de marxismo existencialista onde é importante se conhecer o caráter histórico dos acontecimentos dados pelo papel do ser humano na qualidade de grupos, classes e indivíduos na construção social. Schaff discutiu profundamente o viés ideológico do marxismo mostrando que é o ser humano que dirige as condições objetivas em maior ou menor protagonismo. Citando Kosic (1969), reforça que o ser humano confere sentido e transformam a realidade, fazendo-a passar pela subjetividade.
Nesse contexto, a pós-modernidade se caracteriza pela pluralidade, rejeitando qualquer ideia de totalidade, aceita a existência de códigos e de mundos em diferentes campos do saber, marcadas pela heterogeneidade. A pluralidade de discursos ou teorias
científicas corresponde à complexidade da sociedade contemporânea, com sua heterogeneidade social. Não se acredita mais que exista uma resposta certa para uma mesma pergunta. A constituição dos sujeitos contemporâneos, que possam realizar socialmente seu potencial de diferença, significa reconhecer que os diferentes indivíduos existem enquanto pluralidades complexas (VAITSMAN, 1995).
A pós-modernidade nos estudos de Maffesoli, aponta para a expressão de formas imaginárias como potências produtoras de vida social. A pós-modernidade deve ser compreendida a partir dos sentidos vividos em comum no aqui-e-agora; no espaço- tempo-presente (GIOSEFFI, 1997).
Na visão de Maffesoli, a pós-modernidade “é um campo de vivências lúdico- afetivas, de socialidade conflitiva, de disputas e diferenças, de relativismo e éticas tribais, no sentido do reconhecimento e legitimidade dos particularismos no contexto das nações, e um investimento nas pulsões vitais. A modernidade pressupõe a unidade final a partir do dualismo presente” (SILVA, 1993 p. 17).
A pós-modernidade reinsere na quotidianidade aspectos relacionados à vida em grupos. Outra expressão desta recorrência é a realiança e o reencantamento sobre o território, ambos relacionados a grupos primários, de origem, fundados na afetividade que seria a marca do espírito pós-moderno (DACOSTA, 1997).
Nesse contexto, Maffesoli (2006), faz alusão às mudanças históricas referentes à vida em sociedade, nos grupos, nas tribos, na vida em comunidade onde as relações e interações entre as pessoas que privilegiam a unicidade, a sensibilidade ecológica, a ajuda dos vizinhos, as manifestações de caridade, as culturas de empresa, a divisão do trabalho, são situações percebidas numa nova forma de solidariedade social e natural crescente nos dias atuais.
As mudanças históricas percebidas na pós-modernidade com relação à vida em sociedade, nos grupos, na comunidade também são percebidas no grupo social, família. Segundo Bourdieau (1996), a família é entendida como uma construção da realidade social, comum a todos os agentes socializados, princípio comum de visão e de divisão. Esse princípio é um dos elementos constitutivos de nosso habitus, uma estrutura mental que, de certa forma, é ao mesmo tempo individual e coletiva, uma lei da percepção e da prática que fundamenta o consenso sobre o sentido social fundamental ao senso comum.
Os hábitos das famílias na pós-modernidade acompanham a intensa evolução social observados nos dias atuais. A família de hoje, ainda em evolução, apresenta
pouca semelhança com as famílias do início da modernidade. Entretanto, o viver em grupo é um consenso, independente dos modelos e dinâmicas familiares na atualidade.
Dessa maneira, a estrutura grupal das famílias, os vínculos determinados pela sensação de pertencimento e a busca por novas agregações sociais, se aproxima à ideia de Maffesoli, onde o modelo da família na contemporaneidade baseia-se, sobretudo nos vínculos estabelecidos e no sentimento de pertença.
2.1 – Configurações das famílias em tempos pós-modernos
Os estudos sobre a família identificam a pluralidade de modelos e a diferenciação da dinâmica familiar, constatando, dessa forma, uma enorme diversidade diante do modelo considerado tradicional, a família nuclear conjugal como modelo de famílias da modernidade. Essas constatações direcionam para os julgamentos morais, onde outros modelos estruturais de família são entendidos como fora do padrão de normalidade (FONSECA, 2002).
Diversos fatores concorreram para as transformações da família, como o processo de urbanização e industrialização, avanço tecnológico, maior participação da mulher no mercado de trabalho, aumento do número de separações e divórcios,