4 OS AUTORES E SEUS MANUAIS DE ORIENTAÇÃO AO ENSINO DE
4.3 A circulação dos manuais portugueses no Brasil em tempos de Escola Nova
4.3.4 Faria de Vasconcelos e a defesa de uma linha progressista na Escola Nova
Faria de Vasconcelos, ao que parece, defende uma linha progressista, mais à esquerda, politicamente falando, no que se refere ao movimento da Escola Nova. Essa ideia justifica-se pelo motivo de que esse autor tenta implantar o ideário escolanovista da escola modelo, criado por suas ações na América Latina.
Para Vasconcelos “o problema da educação e da instrução popular está na ordem do dia em todos os países cultos”. O autor português preocupa-se com a falta de conhecimentos úteis que, para ele, é o resultado de uma educação que “age mais sobre a memória do que sobre a inteligência” (VASCONCELOS, 1986, p.93 apud DINIZ, 2002, p.1).
A preocupação deste intelectual com os interesses sociais inicia-se, antes mesmo de se doutorar em Ciências Sociais na Bélgica. No ano de 1903, Vasconcelos elabora uma memória sobre a psicologia das multidões infantis em que defende uma reorganização das escolas para controlar a emergência da criminalidade infantil.
Faria de Vasconcelos aprofunda-se em estudos sobre a influência da psicologia individual nos grupos sociais, cuja sensibilidade social depende da forma como os comportamentos sociais se integram e se contratualizam formal ou informalmente em função do tamanho e da organização do grupo social.
No início do século XX, este pedagogo português começa preocupar-se em formar um novo modelo pedagógico coerente com a psicologia e pedagogia. Mostrando conhecimentos que tinha estudado em Decroly. Analisava e comparava os diversos tipos de anormalidades e as suas classificações. Tinha o interesse de levar as soluções sociais adaptadas para diversos países (DINIZ, 2002, p.2).
Com sua ida para a Bolívia, a maior preocupação de Vasconcelos, era com as condições vividas pelas populações pobres. Demonstra interesse também, pelos povos indígenas daquela região.
Faria de Vasconcelos, por meio da Escola Nova, assume uma missão particular com o objetivo de libertar as culturas locais subjugadas da cultura dominante, que as obrigam a aceitar os conhecimentos que a impedem de perceber a verdadeira realidade (DINIZ, 2002). Embora essa afirmação de Diniz (2002) não esteja explicitada em seus manuais para o ensino de matemática, o autor garante que em sua vinda a América Latina, Vasconcelos dedicou seu trabalho para as questões sociais, voltando-se as ideias do movimento da Escola Nova em defesa da grande “massa”. Preocupa-se em reformar a educação em prol dos dominados, trabalhando na formação de professores primário na luta contra o analfabetismo e melhorias à educação.
As evidências desse modo esquerdista de propagar as ideias escolanovista pela América Latina, leva-nos a questionar: Esse autor português conformou um modo próprio para o ensino de matemática? Como era o discurso referente ao ensino da matemática presente em seus manuais pedagógicos para o curso primário em tempos de escolanovismo?
A busca das singularidades das propostas desse autor, para além das descrições colocadas de seus livros, como se vê anteriormente, tem como perspectiva de possibilidade estudos comparativos de autores que, junto com Faria de Vasconcelos circularam no Brasil em tempos escolanovistas. Para tal, os temas abordados por Vasconcelos serão confrontados com
as propostas de outros autores já inventariados e descritos anteriormente.
4.3.5 Algumas considerações
Faria de Vasconcelos, por meio de seus manuais pedagógicos, foi de grande importância para a divulgação do movimento da Escola Nova no Brasil. Suas ideias e vasta experiência com práticas para o ensino de matemática, que foram compiladas em manuais pedagógicos, fizeram parte da leitura e discussão na formação de professores em nosso país. Seus livros publicados no período de fundação de “escolas novas” na Europa e América Latina ficaram conhecidos em vários países.
O manual Como se ensina à aritmética: didáctica de 1933 foi adotado pelo programa de ensino dos Institutos de Educação, em SP, para o ensino de matemática em 1936, indicando ter feito parte das leituras do curso de formação de professores. Por intermédio de seus manuais pedagógicos foram propagadas as ideais escolanovistas presentes na Europa e Estados Unidos. Pelos europeus, por meio das ideias dos autores, Claparède e Ferrière e pelos norte-americanos, Dewey e Thorndike. Estas ideias estão explícitas nas orientações aos professores para a prática do ensino de Matemática nos manuais analisados.
O discurso sobre as práticas para ensino da matemática, de acordo com os princípios da Escola Nova, está presente nos manuais pedagógicos de Faria de Vasconcelos. Orienta os professores como devem ser as ações docentes em sala de aula com o objetivo de levar o aluno a raciocinar. Os exemplos de atividades sugeridas aos professores como ideal para o ensino desta disciplina, tais como as atividades de situação-problema, ensino de cálculo utilizando moedas com o objetivo de ensinar a significação social do conceito de moeda para o aluno, é uma prova de que Faria de Vasconcelos expõe em seu manual pedagógico a maneira de ensinar a matemática mediante aos critérios estabelecidos pelas ideias do movimento da Escola Nova, fazendo a sua leitura própria de trabalhar com assuntos referentes à vida do aluno. E essa “vida do aluno” para o autor tinha amplitude social.
A vinda de Faria de Vasconcelos para a América Latina, incentivado por Claparède foi um dos fatores que ajudaram a divulgar suas ideias e, consequentemente, lhe trouxeram reconhecimento internacional, principalmente com seu trabalho em Cuba e na Bolívia. Diniz (2002, p.8) afirma que “Claparède influencia não só Faria de Vasconcelos, mas ainda muitos portugueses e brasileiros, estando pessoalmente em Belo Horizonte nos finais de 1929 e início de 1930”. Confirma-se a influência de Claparède nos trabalhos de Faria de Vasconcelos.
Outro motivo que contribuiu para Faria de Vasconcelos se tornar conhecido no Brasil, ao que parece, foi por ter sido citado nos livros de Miguel Aguayo. É importante destacar que as obras de Aguayo, para Correia e Silva (2002) geraram grande repercussão no Brasil, sendo que o livro Didática da Escola Nova, de 1935 foi um dos livros que esteve entre os mais citados no período de 1930 a 1971, e entre a década de 40 a 70 superou a marca de John Dewey, passando ao primeiro lugar dos livros com maior número de citações entre professores e autores brasileiros de outros manuais pedagógicos. Aguayo, generalista, ampara- se em Faria de Vasconcelos, além de outros autores, em termos de propostas para o ensino de matemática.
4.4 O manual pedagógico de Miguel Aguayo, Didática da Escola Nova, 1935 e as