O Desenvolvimento da Pesquisa
3.3 Fases de Desenvolvimento da Pesquisa
3.3.2 Fase 2 - A Construção de uma Nova Metodologia para Uso do Computador nas Classes da AACD Computador nas Classes da AACD
Tabela 3.2: Roteiro para observação do desenvolvimento pedagógico e uso do computador em sala de aula.
OBSERVAÇÕES REALIZADAS
Relação dos conceitos com a vida cotidiana do aluno Postura do Professor – instrucionista/construcionista Afinidade com a tecnologias
Percepção do professor frente a sua prática pedagógica Material pedagógico usado
Professor
Relacionamento com os alunos Participação em sala de aula O envolvimento social em sala Participação social do aluno Relação aluno escola
Aluno
Forma de uso da tecnologia
Uso instrucionista ou construcionista Tipos de software
Dinâmicas de uso Localização física
Nesta fase, junto com as professoras, tentávamos definir como poderíamos trabalhar para melhorar o processo educacional fragmentado que ocorria nas duas sala de aula, apesar de estarem em níveis diferente com relação ao uso do computador. Por exemplo:
• na 2ª série - a professora desenvolvia o projeto de informática, junto com a professora suporte. Nesta sala, procurávamos, por meio de dinâmicas com atividades variadas, diminuir o número de alunos por máquina;
aproveitar o tema que estava sendo trabalhado buscando relacioná-lo com o contexto e vivência das crianças; formalizar os conceitos curriculares; ligar as atividades da sala com visitas a estabelecimentos onde ocorre convívio social; estimular as várias formas de expressão dos alunos; entre outros.
• na 3ª série – o projeto de informática era praticamente desenvolvido pela professora suporte. Nesta sala, buscava capacitar a professora titular em relação ao uso do computador e, por meio de leitura e discussões, questionava a sua prática pedagógica, exemplificava com as mudanças que ocorriam na outra sala para estimulá-la a perceber os benefícios que teria se ela acreditasse no trabalho que procurávamos iniciar e favorecer a troca.
Com este objetivos, investigamos: como desenvolver projetos junto com os alunos para que a aprendizagem dos conceitos ocorressem a partir das vivências, de forma significativa e contextualizada; como usar o computador para favorecer a construção do conhecimento, descobrindo estratégias para articular a aprendizagem dos conceitos do currículo, potencializando as produções dos alunos, para que eles se tornassem cada vez mais independentes.
Assim, em parceria com as professoras e coordenadora de informática, iniciamos a construção de uma metodologia que atendesse aos nossos desejos e expectativas. Nesta construção, as professoras foram autoras e co-autoras, uma vez que desejava que ela fosse desenvolvida de acordo com a
realidade que tínhamos. O meu papel foi o de observadora, incentivando a reflexão e com intervenções, buscando auxiliar as mudanças no processo educacional e dar um sentido ao uso do computador.
A coordenadora de informática teve uma participação direta nesta fase, já a coordenadora pedagógica participou por meio de acompanhamentos e diálogos. A participação das coordenadoras foi fundamental, pois desejávamos construir uma metodologia de forma efetiva, e acreditávamos que para tanto seria necessário que o desenvolvimento fosse em parceria com o professor e os coordenadores.
A participação das professoras e das coordenadoras no processo de construção era importante para aliar os aspectos teóricos e práticos para o desenvolvimento da metodologia. As aulas sempre foram ministradas pelas professoras e eu, como pesquisadora, acompanhava o trabalho das mesmas e intervinha por meio de reflexões e questionamentos. Assim, procurava incentivar o professor a ser investigador de sua própria prática, usando a reflexão como instrumento para esta investigação, o meu papel era o de mediar a reflexão e auxiliar na construção, contribuindo com pressupostos teóricos.
Cabe salientar que, embora eu tivesse um ponto inicial, ou seja, acreditava na prática pedagógica Construcionista, Contextualizada e Significativa do professor, somente após as observações que antecederam esta fase e no decorrer dela, consegui junto com as professoras e coordenadoras descobrir o “como fazer”. Percebíamos assim, nesta construção gradualmente, quais e como os elementos novos poderiam ser inseridos. Neste processo, apesar de eu não ser a pessoa que estivesse dando as aulas, na função de pesquisadora, estaria acompanhando, intervindo e definindo uma linha de ação com os professores por meio das reflexões, fazendo-os pensarem ou reverem continuamente. Assim, de uma comunicação comigo mesma, em seguida, com as professoras e coordenadoras e, por extensão, com os alunos, pais e comunidade, em uma espera vigiada, tornávamo-nos cada vez mais parceiros para a construção da metodologia.
Nesta construção, que objetivava uma mudança no processo ensino-aprendizagem, buscando responder às perguntas da investigação, durante o segundo semestre de 1998 o trabalho foi desenvolvido semanalmente nas duas salas, resumido na tabela 3.3 e consistiu-se em:
• observação todas as segundas-feiras, no período diurno, das aulas normais da professora da terceira série do primeiro grau;
• capacitação do professor da terceira série e da coordenadora de informática, às segundas-feiras, no período da tarde, no uso do software Micromundos. Nesta capacitação, fazíamos também reflexões e discussões sobre as aulas realizadas e como explorar a Matemática e usar o computador de maneira a contribuir com o desenvolvimento dos alunos, articulado aos conceitos do currículo, leituras de textos8 sobre o fazer pedagógico do professor, usando a Informática;
• acompanhamento das aulas da segunda série, às terçasfeiras -considerado o dia de informática, que contava com a participação de uma professora suporte de informática;
• observação e acompanhamento da capacitação do professor da segunda série, pela coordenadora de informática, com o objetivo de se incentivar a continuidade do trabalho em desenvolvimento. Esta atividade era realizada às terças-feiras, à tarde;
• acompanhamento da capacitação dos professores da AACD realizada pelo coordenador de informática, quando dialogávamos sobre os materiais que ele iria utilizar e, em seguida, dialogávamos, refletíamos e depurávamos sobre as ações desenvolvidas.
8 “Reflexões sobre o uso do computador na Educação”, Almeida (1997).
“Diferentes usos do computador na Educação”, Valente, J.A (1993b).
“Ensinar e aprender com o computador”, Almeida (1998).
Tabela 3.3: Resumo das atividades Semanais da 2ª Fase da Pesquisa
Dia Local Atividade
Segunda-feira – manhã
Sala da 3ª série Acompanhamento, observação e reflexão na ação.
Segunda-feira - tarde Laboratório de Informática
Capacitação da professora da 3ª série e da coordenadora de Informática, reflexão sobre a ação.
Terça-feira - Manhã Sala da 2ª série Acompanhamento, observação e reflexão na ação.
Terça-feira - Tarde Laboratório de Informática
Acompanhamento da capacitação da professora da 2ª série realizada pela coordenadora de informática, reflexão sobre a ação.
Observação: as intervenções ocorriam durante as reflexões.
Na capacitação das professoras e da coordenadora de informática com relação ao software de autoria MicroMundos, procurei oferecer também embasamentos teóricos sobre a atitude interdisciplinar do professor9, as mudanças em suas práticas pedagógicas e o uso do computador, cada vez que era pertinente. No decorrer dos diálogos, sempre que eu sentia a necessidade ou que era oportuno, discutia textos que versavam sobre estes temas. Com esta atividade, objetivava primeiramente que o professor revisse a sua prática pedagógica à luz do que estava acontecendo com a criança que permanecia apática, tentando experimentar formas de agir que levasse o computador a tornar-se um componente com características que as professoras não estavam percebendo.
Assim, explorávamos o software, fundamentávamos a teoria e fazíamos reflexões na ação e sobre a ação para depurar o processo de
9 “Interdisciplinaridade: História, teoria e pesquisa”, Fazenda (1995).
“A construção de fundamentos a partir de uma prática docente interdisciplinar”, Fazenda (1998a)
aprendizagem que estava ocorrendo, delineando as mudanças necessárias para uma nova prática pedagógica baseada no construcionismo. Essa formação era feita na ação e contínua, tendo como meta o uso do computador em Educação Especial, de modo a propiciar o desenvolvimento total e integrador da criança com necessidades especiais.
Portanto, nesta fase, junto com as professoras e coordenadoras, desenvolvíamos uma abordagem metodológica que pudesse levar a transformação desta realidade, com o objetivo da construção de uma nova forma do professor conceber a sua aula e usar o computador. Tal procedimento poderia proporcionar a criação de uma nova abordagem metodológica baseada no construcionismo, articulado ao cotidiano da sala de aula. Neste momento, descobríamos o “como fazer” que estaríamos construindo e depurando ao longo da investigação.
Além disso, as coordenadoras co-participavam da construção dos procedimentos metodológicos e tínhamos, consequentemente, o apoio delas e da direção, que entendiam a mudança na prática pedagógica. Este apoio foi fundamental uma vez que, com a vivência nos Projetos de Educação Continuada – PEC (Almeida, Hernandes, Schlünzen, Morelatti & Schlünzen, 1998; Pellegrino, Schlünzen, Schlünzen, Almeida, Morelatti & Hernandes, 1998), verifiquei que quando existe um envolvimento da direção e da coordenação da escola os resultados alcançados são significativamente melhores. Com esta abrangência, as outras salas do setor podiam também beneficiar-se deste procedimento, não restringindo-se apenas a algumas salas ou com práticas isoladas de professores que desejavam esta mudança.
Dessa forma, nestes momentos, junto com as professoras e a coordenadora de informática, pudemos ousar e desenvolver uma metodologia que propiciasse uma aprendizagem a partir da vivência das crianças, buscando torná-la significativa e contextualizada. Além disso, propiciamos às crianças dentro das possibilidades, a participarem da sociedade da qual estavam distanciando-se. Esses momentos foram aproveitados para ensinar, ou seja, dar significado ao que estava sendo aprendido.
A análise desta fase, em parceria com as professoras e coordenadoras, foi realizada sobre os relatos dos alunos, das próprias professoras, das coordenadoras e das voluntárias de cada sala que participavam das atividades no dia em que havia o acompanhamento da investigação.
Em resumo, nesta fase, a partir do projeto de Informática, o trabalho desenvolvido com as duas professoras possibilitou modificar a forma de ver o computador e trabalhar com as crianças e os resultados foram bons. Elas puderam perceber como fazer para que os conteúdos ganhassem significado, contextualizando melhor e relacionado-os com o dia a dia, podendo trabalhar os conceitos curriculares por meio do desenvolvimento destes projetos.
No entanto, senti a necessidade de realizar uma terceira fase, uma vez que na segunda fase, a construção ocorreu em dias isolados. Contudo, desejava ampliar o trabalho e que a mudança na prática do professor não fosse em dias estabelecidos.
Assim, parti de novas questões: Como seria o trabalho que as professoras fariam após a suas participações na construção da metodologia? Como atuaria uma terceira professora que não tinha participado desta fase?
Na terceira fase, que seria uma expansão da segunda, os professores mudariam sua forma de trabalhar, atuando diariamente no desenvolvimento de projetos, uma vez que esta fase as havia motivado para uma revisão da sua prática pedagógica e aberto uma perspectiva do “como fazer” para integrar e formalizar os conceitos curriculares com o uso do computador.