4.3 Midiamorfose: a reconfiguração da rádio
4.3.3 FASE DA SOBREVIDA E DO PRINCÍPIO DA COEXISTÊNCIA (1978/1988)
Monte (2019), economista e interessado em movimentos sociais, relata que conviveu com a história da Diocese de Natal desde menino, com muitos padres conversando na sua casa com políticos, familiares. Monte (2019) relata que o pai, Osvaldo Monte, de carreira militar, foi uma espécie de braço direito do irmão Dom Nivaldo, que foi arcebispo de Natal (1967 – 1988).
Certa vez, Dom Costa (bispo auxiliar da Arquidiocese de Natal) promoveu a teatralização da Via Sacra com transmissão pela Rádio Rural de Rural. O que levou a censura a tirar a rádio do ar no início dos anos 70. Houve uma mobilização para não perder a concessão. Pois já se tinha notícia de
concessões sendo encerradas. Dom Paulo Evaristo Arns (SP) perdeu a concessão dele (MONTE, 2019, s. p.)34.
De acordo com Monte (2019), como a rádio Rural de Natal ficou na linha de tiro, tendo ficado uma semana sem operar, com muito jeito se conseguiu mudar a programação e a rádio retornou a ar com restrições a programas do MEB, SAR, mas muita música, para escapar da censura.
Muitos aqui em Natal (RN) pensavam que eu era doidão. Programava mais de 250 músicas por dia. Tocava rock pesado no programa Super Som Rural. As bandas Kraftwerk35 e Yes36. Passava o disco de música clássica de um lado para o outro. O que tinha de música pesada eu passei. Eu detonei meus ouvidos na época. Também fiz especiais de toda a obra dos Beatles37 (MONTE, 2019, s. p.).
Monte (2019) revela adorar guardar papel. De fato, no seu arquivo tem caixas e caixas de documentos do Centro de Direito Humanos e Memória Popular, acervo da Escolas Radiofônicas, documentos do Monsenhor Expedito, de Dom Nivaldo Monte, registro de presos políticos no Estado, entre outros. “Sempre fui muito ligado, atento. Peguei várias aulas de professora Carmem Fernandes Pedroza. Tenho uma caixa de fitas de rolo” (MONTE, 2019, s. p.) ao relatar que resgatou muitos documentos que estavam sendo jogados fora pela gestão da Comunidade Shalom, no meio de caixas de material, discos e fitas. Fatos confirmados por diversos funcionários da emissora – ao ponto de não se ter as atas das gestões dos diretores Otto Santana, Rui Miranda e Osvaldo Monte. Quanto ao acervo de discos, Monte (2019) explica que o da rádio era interessante, mas amigos e ouvintes contribuíam com os acervos pessoais, como Antônio Miranda, contador da RCA, que mandava caixas e caixas da RCA Disco de outras nacionalidades. “Então nós tocávamos os lançamentos de outros países” (MONTE, 2019, s. p.).
A relatar sobrea o início da Emissora de Educação Rural, Monte (2019) explica, (conforme o Anexo 8) que coube ao Padre Penha – Capelão do Colégio das Neves – relatar ao então Padre Eugênio Sales que tinha captado a Rádio Sutatenza, durante um acampamento de escoteiros em Campestre, interior do RN, e teria ouvido uma aula pelo rádio. Assim o Padre
34 Informação oral concedida por Roberto Monte ao pesquisador em questão, em depoimento gravado em 2019 em Natal/RN.
35 Influente grupo musical alemão de música eletrônica. 36 Banda britânica de rock progressivo.
Eugênio Sales se interessou pediu ao Padre Penha que pesquisasse mais. Daí em diante o Padre Eugênio Sales prosseguiu até criar a Emissora de Educação Rural.
Monte (2019) conta que pós-ditadura militar a rádio já estava em decadência. Na visão dele tudo muda. Mas resistia no final dos anos 1970 e início dos anos 80 o programa de educação política. “E o Governo Federal tinha muito receio com este programa, conduzido por Dom Nivaldo Monte. Mas daí dizer que Dom Nivaldo era comunista era de uma estupidez sem fim” (MONTE, 2019, s. p.). Ele disse que aqui e ali surtia efeito um programa o outro da Rádio Rural de Natal AM, dando uma sobrevida social, com os grupos de jovens ligados a Pastoral da Juventude no meio popular, que diminuiu gradativamente com a entrada das TVs comerciais Ponta Negra e Cabugi, em 1987. Monte (2019) também criou o programa “Boletim da Justiça e Paz”, em que entrevistava com frequência: Leonardo Boff38 e Frei
Beto39. Na época da Revolução Sandinista40, colocava para tocar o disco Guitarra Armada, dos irmãos Mejia Godoy41, as músicas ensinavam a montar e desmontar uma bomba, um
armamento FAL, por exemplo. No 1º de maio, Monte (2019) relata que ocupava todo o horário de manhã a tarde tipo um programa de Silvio Santos, com enfoque para o Dia do Trabalho.
Monte (2019) recebe e rebate críticas de que a Igreja Católica fez usos da Rede de emissoras para manter seus interesses.
Se pegar uma frase do período da Guerra do Vietnã, tipo da questão dos corações e mente. Todo mundo queria fazer isto. O Governo Federal, o Partido Comunista, as Ligas Camponesas, cada um queria pegar o seu quinhão; Djalma Maranhão (prefeito de Natal), Aluízio Alves (governador do RN), a Igreja, inclusive. Há uma certa ingenuidade, quando se diz que se faz uma coisa e está pensando numa outra coisa. Não tem assexuado nesta história. A Igreja não era diferente, todos os movimentos da época trabalharam com que há de convir, tendo como pano de fundo era combater o analfabetismo para o voto. Trabalhar para analfabeto votar (MONTE, 2019, s. p.)42.
Monte (2019) assevera:
38 Teólogo, escritor e professor universitário brasileiro e expoente da teologia da libertação no país. 39 Um frade dominicano, jornalista graduado e escritor brasileiro.
40 Refere-se à revolução popular ocorrida na Nicarágua entre 1979 e 1990, sob a égide da Frente Sandinista de Libertação Nacional.
41 São dois símbolos da revolução socialista nicaraguense e da música-política das Américas. Sandinistas, cantaram as histórias de seu povo, de seu país e de sua organização política e guerrilheira: a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN).
42 Informação oral concedida por Roberto Monte ao pesquisador em questão, em depoimento gravado em 2019 em Natal/RN.
Não sejamos ingênuos. Não era só a Igreja, todos queriam. Da mesma forma que a Igreja fez, Djalma Maranhão fez. Como Aluízio fez, quando viu que estava perdendo espaço e cooptou Paulo Freire. Todos para manter sua hegemonia. É que com a ação hegemônica todos queriam vender seu peixe. Cada um queria vender o seu e manter o seu espaço (MONTE, 2019, s. p.).
Isso que reflete com as evidências do potencial revolucionário do cristianismo elemento por Semeraro (2017) ao reforça que se é verdade que Gramsci critica duramente a religião e a Igreja, é preciso evidenciar que reconhece a marca histórica e o potencial revolucionário no “cristianismo popular” e que, em determinadas circunstâncias, a religião pode se tornar uma “formidável força de resistência moral, de coesão, de perseverança paciente e obstinada” capaz de transformar “a vontade real em um ato de fé” (Q 11, §12, p. 1388 apud SEMERATO, 2017, p. 92), de expressar a revolta das classes.