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Fase de escrita e reescrita do texto introdutório

“O mundo todo é um palco, E todos os homens e mulheres meros atores: Eles têm suas saídas e suas entradas: E um homem a seu tempo desempenha muitos papéis, [...]”

William Shakespeare

Corroborando a teoria crítica pós-estruturalista (GIROUX, 1986; FOUCAULT, 1979), e as reflexões de Paulo Freire sobre ler a palavra e ler o mundo (FREIRE, 1982), foi solicitado aos alunos que escrevessem textos em português nos quais iriam além do signo e significado das palavras contidas nas peças. Numa proposta mais dialógica, como teoriza Bakhtin (1995, 2003), entre o signo e o contexto, interlocutor e contexto, eles escreveriam, então, textos críticos, analisando nas entrelinhas os personagens e seus papéis sociais. Assim, estabeleceriam paralelos entre os personagens das peças e os atores sociais que interagem na atual situação política do Brasil. As primeiras versões dos textos foram entregues a nós com antecedência para que pudéssemos orientar aos alunos quanto à adequação dos mesmos. Os textos que cumpriram de forma mais abrangente a proposta foram lidos antes das apresentações e assim, favoreceram o entendimento das peças diante da audiência. Desta forma, essa fase proporcionou aos alunos práticas de letramento crítico concernentes à produção de textos na língua materna.

Para esta análise, selecionamos dois dos textos escritos pelos alunos. Os dois textos escolhidos foram escritos pelas alunas L. S. C. e B. V. (ANEXO C). A aluna L. S. C. escreveu sobre a peça “The True Story of The Three Little Pigs”, contada pelo lobo mau, que tenta o tempo todo inocentar-se com suas falas e com a ajuda dos narradores. Mas, na última fala ele se entrega quando diz: “But, maybe you could loan me a cup of sugar” (Mas, talvez você possa me emprestar uma xícara de açúcar). Esta última fala indica que apesar de o lobo ter comido os porquinhos e tentar se inocentar com sua versão não acurada dos acontecimentos e com a ajuda dos narradores, ele ainda está à procura do açúcar e consequentemente à procura de novas vítimas. O açúcar para fazer o bolo da vovozinha seria apenas uma desculpa para abordar as suas vítimas.

A aluna L. S. C. estabeleceu uma comparação entre a história dos 3 porquinhos e a situação vivenciada pelas pessoas na nossa sociedade com relação às crises que enfrentamos e especialmente com relação aos políticos corruptos que trazem tanto prejuízo a nós. O Lobo Mau é comparado aos políticos corruptos que só aparecem nos momentos de campanha para fazerem

promessas que não podem cumprir e acabam enganando o povo e roubando os cofres públicos. Ela escreveu:

Esta história dos famosos “3 porquinhos”, no meu ponto de vista, seria o que realmente a nossa sociedade passa no dia-a-dia, tanto em relação aos nossos políticos, como em relação às crises que tanto nos afetam socialmente. (Aluna: L. S. C.). A figura do Lobo mau, aponta para os políticos corruptos, aqueles que nos roubam, nos enganam, fazem promessas falsas e nunca as cumprem (Aluna: L. S. C.). Além dessa ponte feita pela aluna, ela também relacionou os porquinhos e os narradores com outros indivíduos na nossa sociedade.

Os porquinhos somos nós, a sociedade que acaba sendo atingida, prejudicada e enganada. O que acontece na história é basicamente tudo o que vivenciamos, ou seja, os “sopros” do lobo refletem os golpes com que somos atingidos diariamente. São como os altos impostos que pagamos para recebermos um serviço de má qualidade em troca, o prejuízo que a má utilização do dinheiro público traz para as nossas vidas (Aluna: L S C).

Os porquinhos, então, foram comparados aos demais indivíduos de nossa sociedade que são prejudicados e enganados. Outro dado interessante é a comparação feita entre os sopros do lobo e os golpes com os quais somos atingidos diariamente (altos impostos, serviços públicos de má qualidade, má utilização do dinheiro público).

No final, a aluna fez um alerta para que pensem bem em quem elegem e não sejam enganados com promessas.

Os membros da nossa sociedade, sim, precisam parar, pensar, e não acreditar em qualquer um político. Falar bem todos eles falam, mas cumprir nem todos cumprem. Então, devemos prestar muita atenção em quem elegemos, permanecendo atentos sempre, como fez o porquinho sábio (Aluna: L. S. C.).

Finalmente, concluímos que está na hora de abrirmos os nossos olhos e pararmos de acreditar em qualquer um que faz muitas promessas que não vai cumprir (Aluna: L. S. C.).

O texto da aluna L S C em sua forma final após o processo de retextualização se encontra no apêndice C, página V. Já a aluna B. V. fez uma associação muito pertinente entre a peça que apresentou e a realidade vivenciada por nós na questão política. Ela comparou o lobo com os políticos que nos enganam com falsas promessas para conseguirem nossos votos, e, indo além, comparou os narradores que colaboram para inocentar o lobo com os advogados que os defendem.

Do texto é possível fazer comparação entre os personagens e a nossa realidade: o lobo seria o político corrupto da nossa sociedade, pois está sempre encobrindo os seus crimes, querendo disfarçar sua culpa, e enganando as pessoas (Aluna: L. S. C.). Os narradores seriam os advogados dos corruptos, que encobrem e fazem de tudo para tirar a culpa e acobertar os crimes dos seus clientes defendendo-os até o fim (Aluna: B. V.).

Outra comparação estabelecida por ela foi entre os porquinhos e nós, os eleitores. Achei muito interessante ela mencionar uma mudança de postura da nossa parte como eleitores, enfocando que temos que deixar uma postura passiva de lado e assumirmos uma postura mais ativa, na qual nos tornaremos protagonistas de nossa trajetória.

Já os porquinhos seríamos nós, os enganados, que votamos e depois nos arrependemos. Os ludibriados que sofrem as consequências. Os primeiros porquinhos acabam sofrendo as consequências por serem preguiçosos e não procurarem o melhor para eles, se contentando com pouco ou tomando decisões precipitadas. Porém, quando somos bem informados, temos força de vontade, e corremos atrás dos nossos objetivos, é possível termos uma vida melhor sem nos iludirmos com falsas promessas (Aluna: B. V.).

A questão da leitura nas entrelinhas sob uma perspectiva crítica foi contemplada pela pedagoga que ratificou a importância da leitura crítica do texto.

Nesse aspecto, assim. Com certeza o projeto ele vai muito, foi realmente para além desse processo de aprendizagem só da língua. Porque ele conseguiu fazer aquilo que é proposto mesmo na LDB. Que é fazer com que o aluno se torne crítico, né, um leitor crítico que ele possíveis, é, representar, né, ou se vê representado numa ação que o leve à reflexão. O teatro permitiu que o aluno refletisse, não só sobre a língua, sobre o processo de aprendizagem daquela língua, mas também de pontos que são reais, que eles vivem no dia-a-dia, e foram capazes de apresentar né, essa, acho que não foi uma resenha crítica, acho que foi mais uma produção de texto e que eles muito bem conseguiram externalizar algo que está implícito no teatro. E conseguiram fazer com que os ouvintes, os expectadores também percebessem isso. Com certeza é muito legal porque na escola a gente tem que trazer realmente esse trabalho para além do conteúdo em si. A gente tem outros objetivos que é formar esse aluno critico que ele possa atuar como cidadão, que ele tenha oportunidade de se inserir no mundo de trabalho, ou caminhar né, rumo ao ensino superior, a uma vida acadêmica. E, esse projeto, ele com certeza colabora positivamente para essa proposta (Pedagoga: T. P.).

A pedagoga menciona as propostas da LDB ressaltando que os alunos conseguiram realizar o que a lei propõe. Mencionou também que os participantes conseguiram exprimir a visão crítica através dos textos que criaram.

Voltando a nossa atenção ao texto escrito pela aluna B. V. (ANEXO C – segundo texto), percebemos que ela acrescenta ao seu texto crítico algumas reflexões sobre as práticas com o TL. Ela faz menção de como o TL a ajudou no processo de aprendizagem. Ela pontua a questão do entendimento de novos termos empregados no contexto, bem como a melhora da pronúncia

das palavras e da fluência na leitura. Por fim, outra questão mencionada pela aluna no que tange à dinâmica dos ensaios, traz à luz a importância do trabalho dialógico na prática de ensino. A dialogia entre alunos e professor durante todo o processo proporcionou maior dinâmica aos ensaios contribuindo para o sucesso de todo o projeto. A questão da união entre os alunos proporcionada pelos ensaios e pelo diálogo foi também apontada pela aluna. A prática do TL é construtiva e coletiva. A fala da aluna alude à união em torno de um só objetivo: o aprendizado coletivo. Eles perceberam que o sucesso da peça dependia da união de todos e do aprendizado de todos, e por fim contribuíram para que todos alcançassem seus objetivos. Interessante é que a aluna não menciona a palavra aula, e sim ensaios. Isto é, o diálogo estabelecido e a dinamicidade do processo descaracterizou o encontro com o outro como uma aula monológica tradicional com quadro negro, giz e livro didático. Tudo foi muito construtivo, a participação dos atores/leitores e a mediação do processo por parte do professor e por parte dos alunos que também eram ouvidos com suas sugestões e opiniões.

Os ensaios para a peça de teatro foram muito dinâmicos e uniram os alunos. O fato de ser em inglês, causou estranheza no começo, mas deu mais fluência aos alunos que participaram. Os ensaios foram muito construtivos e nos trouxeram maior conhecimento sobre palavras e pronúncias novas no nosso vocabulário (Aluna B V).

Essa opinião de B. V. foi corroborada por seus colegas na Roda de Conversa que realizamos no início do ano seguinte. A análise da Roda de Conversa com os alunos participantes do TL encontra-se no item 8.12.3.