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Metodologia de Análise do Desempenho Térmico da Parede de Trombe

4.2 Metodologia experimental

4.2.1 Fase de projecto

4.2.1.1 Configuração da célula de teste

Na fase de projecto da célula de teste começou-se por analisar os trabalhos de investigação que envolviam resultados experimentais em condições ambientais reais, para caracterizar o desempenho térmico de elementos construtivos, nomeadamente de sistemas passivos [136,

138-140]. Uma das referências nesta área diz respeito ao procedimento que caracteriza as células de teste PASSYS desenvolvido pelo PASLINK Network a partir do projecto europeu

Passys (Passive Solar Components and Systems Testing) [139, 141, 142]. Para este tipo de

célula foram definidas as suas características geométricas, nomeadamente ao nível da área e do volume do compartimento testado e as características construtivas dos elementos da envolvente. A fachada orientada a Sul inclui o elemento construtivo a analisar. No que respeita aos materiais, destaca-se a elevada espessura de isolamento com 30 cm colocada nos restantes elementos construtivos que não são alvo de análise, para garantir ao máximo a redução da transmissão térmica a partir desses elementos da envolvente. Para além destes elementos, a medição das diversas grandezas associadas ao clima exterior e à transferência de calor através do elemento construtivo em análise são asseguradas pela instrumentação da célula de teste [139, 141, 143, 144]. Apesar de as características deste tipo de células, terem servido de referência à célula de teste implementada para a realização do trabalho experimental, factores económicos não possibilitaram a sua execução tal como definido nas células PASSYS, tendo sido por isso necessário ajustar as suas características de tal forma que permitisse o desenvolvimento dos trabalhos. Assim, a célula de teste teve por base a utilização de um contentor de armazenamento construído em aço, cedido por uma empresa de construção, a partir do qual foi concebida a célula de teste.

A escolha do local de implantação da célula de teste resultou da compatibilização do espaço disponível no Campus da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro com a exposição solar mais adequada à realização dos ensaios e com a facilidade de acesso rápido ao referido dispositivo no decorrer dos trabalhos. Esta foi portanto implantada de forma que a parede de Trombe pudesse ser construída orientada a Sul, sendo minimizados os efeitos de sombreamento por obstáculos exteriores. Na Figura 4.1 é possível observar a vista aérea do local de implantação da célula de teste.

Figura 4.1 - Local de implantação da célula de teste (Google Earth).

A escolha do contentor que serviu de base à construção da célula de teste permitiu obter 2

38 m3 de volume) [142], tendo este as dimensões aproximadas de 6 m x 2,4 m x 2,3 m, perfazendo uma área de cerca de 14 m2 e um volume aproximado de 32 m3. Estas dimensões correspondem à área e volume úteis da célula após a introdução de isolamento térmico nas diversas faces do contentor.

A colocação de isolamento térmico foi necessária para reduzir as perdas e os ganhos através da envolvente do contentor. Uma vez que não era comportável o custo associado à colocação de camadas de isolamento térmico com cerca de 30 cm em todos os elementos da sua envolvente tal como sugerido nas células PASSYS [142], a solução encontrada para resolver o problema passou pela determinação da espessura mínima de isolamento térmico para elementos horizontais e verticais exteriores, de acordo com os valores de referência do coeficiente de transmissão térmica definidos no Regulamento das Características do Comportamento Térmico dos Edifícios (RCCTE) [36]. Para Vila Real, ou seja para a zona climática I3V2N, os valores de referência são de 0,50 W/m2ºC para elementos exteriores verticais (paredes) e de 0,40 W/m2ºC para elementos horizontais (pavimentos e coberturas).

Assim, os valores do coeficiente de transmissão térmica dos elementos construtivos foram calculados segundo a norma ISO 6946:1996 [124] e recorrendo à publicação ITE50 do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) [131] para a obtenção dos dados necessários à sua aplicação. Para as paredes exteriores, com excepção da fachada Sul, obteve-se o valor de 7 cm de espessura de poliestireno extrudido (XPS) e para a cobertura e o pavimento 9 cm. No sentido de uniformizar as espessuras de XPS a aplicar nas diferentes faces do contentor, optou-se por colocar placas de isolamento térmico de 4 cm de espessura, o que corresponde à aplicação de 8 cm nas paredes exteriores e de 12 cm na cobertura e no pavimento exteriores. Para estas espessuras de XPS, os valores dos coeficientes de transmissão térmica obtidos foram de 0,43 W/m2ºC para as paredes exteriores e de 0,30 W/m2ºC para a cobertura e para o pavimento. Na Figura 4.2 apresenta-se um desenho esquemático das características da célula de teste construída.

4.2.1.2 Caracterização da parede de Trombe

Na fase de projecto, foram definidas as características geométricas e construtivas da parede de Trombe a construir com base na revisão bibliográfica efectuada. De acordo com o estudo realizado por Martins [5] para uma parede de Trombe ventilada, o material da parede acumuladora que permite obter melhor desempenho para uma espessura de 34 cm é a alvenaria composta a 1 ½ vez, de tijolo cerâmico maciço, quando comparado com o granito e com o betão. Este estudo foi realizado para a zona climática I3V2N, para as estações de aquecimento e de arrefecimento com base na Norma ISO13790:2008 [6]. No sentido de dar continuidade aos estudos nesta área, optou-se por analisar uma parede de Trombe com as características acima referidas, no que respeita ao material e à espessura da parede acumuladora. A área da parede de Trombe corresponde à área da parede lateral orientada a Sul, com uma área exterior aproximada de 6 m2, valor este que se mostra compatível com a área de parede de Trombe necessária por área de compartimento que serve referida na bibliografia estudada, tendo em conta a temperatura média da estação de aquecimento para a zona climática em estudo [5, 67].

No sentido de aumentar a capacidade de absorção da parede acumuladora [23, 24, 78, 79], foi prevista a pintura da sua superfície exterior com tinta preta, cujo coeficiente de absorção é de 0,8.

O sistema de ventilação é garantido pela introdução de quatro aberturas na base e de quatro aberturas no topo da parede acumuladora, tendo sido garantida a maior distância possível entre as aberturas inferiores e superiores para permitir o aumento do caudal de ventilação. Por outro lado, segundo os estudos apresentados no Capítulo 3, um maior número de aberturas com dimensões mais reduzidas é mais adequado do que apenas uma abertura no topo e na base com dimensões superiores, pois aumenta a transferência de calor por convecção [143]. No que respeita à área das aberturas relativamente à área da parede de Trombe e tendo em conta que os estudos realizados a este nível apresentam valores bastante díspares [8, 143], optou-se por garantir que a área das oito aberturas fosse aproximadamente 2% da área da parede de Trombe, tendo cada um dos orifícios cerca de 0,019 m2 de área, apesar de as aberturas inferiores após a construção, apresentarem uma área ligeiramente inferior, o que segundo a literatura até é desejável [94]. Para analisar a influência das aberturas na transferência de calor através deste sistema passivo, foram previstos tampos de fecho amovíveis para estas aberturas.

A espessura do espaço de ar entre a parede acumuladora e o envidraçado exterior é de cerca de 6 cm, enquadrando-se desta forma nos valores referidos no Capítulo 3, [8, 26], apesar de também relativamente a este parâmetro os resultados obtidos nos diversos estudos serem variáveis.

Quanto ao elemento exterior colector de radiação de solar, foi prevista a colocação de um vidro duplo incolor, de espessuras 5 mm + 12 mm + 5 mm, por forma a possibilitar o armazenamento de energia na caixa-de-ar e a evitar as perdas de calor do interior para o exterior, sempre que ocorra a inversão do fluxo de calor no sistema [65, 84-87, 109].

Neste trabalho não foi utilizado qualquer tipo de caixilharia, uma vez que a existência desta iria diminuir a área útil do envidraçado, o que por sua vez iria contribuir para a redução da capacidade de acumulação de calor na caixa-de-ar, influenciando assim a área necessária de parede de Trombe relativamente à área útil da célula de teste.

No sentido de analisar a influência dos sombreamentos no desempenho da parede de Trombe, foi prevista na fase de projecto a instalação de uma persiana exterior de cor branca, como elemento de obstrução à entrada de radiação solar durante os dias de Verão e da saída de calor para o exterior durante as noites de Inverno [5, 42, 43, 45, 47, 48, 70].

Na Figura 4.3 representa-se esquematicamente as características dimensionais e materiais da parede de Trombe em estudo, acima referidas.

Figura 4.3 - Desenho esquemático da parede de Trombe.