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3. Metodologia

3.2 Fase II: desenvolvimento do framework

O desenvolvimento do framework foi realizado seguindo um método de modelagem. Primeiramente, o escopo do framework foi definido (A11) (o seu objetivo, usuário, como e quando ele é aplicado). Então, uma primeira versão do framework foi elaborada (A12), onde foram estabelecidos os seus três elementos: passos a serem seguidos, métodos e entregas (de PDP e do arquivo de engenharia de usabilidade). Os passos adotados no framework tiveram como referência as etapas do processo de engenharia de usabilidade da NBR IEC 62366 e algumas fases de desenvolvimento de conceito de modelos de PDP. Os métodos de gestão de requisitos que foram incluídos provêm da análise de nível de detalhamento (fase I da pesquisa) juntamente com informações de quais métodos já eram adotados pelas empresas (levantadas pelo estudo de caso exploratório). As entregas de PDP, por sua vez,

foram retiradas dos modelos de PDP analisados na revisão bibliográfica desse trabalho, e as entregas para o arquivo de engenharia de usabilidade foram retiradas da NBR 62366.

A maioria dos métodos de UCD sugeridos no framework provêm também da literatura, entretanto, ao longo da revisão da literatura e do desenvolvimento do framework, foram encontrados alguns gaps e aspectos da teoria que necessitavam de modificações, como a falta de métodos específicos para determinados objetivos. Dessa forma, três dos métodos do framework são propostas da autora: mapa dos usuários, mapa piramidal e teste de conceito. Além disso, foi elaborado também nessa fase do trabalho um guia de aplicação (chamado de material de apoio) para cada método de UCD sugerido, visto que a literatura carece de um material desse tipo e que os profissionais da área de P&D ainda possuem pouco conhecimento sobre eles. A elaboração dos novos métodos e do material de apoio é descrita a seguir.

3.2.1 Mapa dos usuários

Devido a uma escassez de métodos com objetivo de levantar os usuários de um determinado produto, foi elaborado o método “mapa dos usuários” (método nº 1 do Apêndice L), tendo como base o método “mapa de stakeholder” (Mitchell et al., 1997). O mapa dos usuários consiste de um diagrama Venn com categorias e descrições baseadas nas definições de usuário e processo de engenharia de usabilidade das normas NBR IEC 60601- 16 e NBR IEC 62366.

A primeira versão do método foi testada com duas turmas de alunos de graduação da USP. A primeira, com 43 alunos do curso de engenharia de materiais, estava desenvolvendo um novo conceito de inalador em parceria com uma empresa real, e a segunda turma, com 43 alunos do curso de engenharia de produção, estava desenvolvendo novos conceitos de produtos para a Santa Casa de São Carlos. Os alunos tiveram que elaborar o template do método e a seguir começaram a sua aplicação, que durou aproximadamente 2 horas. Todos os alunos preencheram um questionário sobre o método (Apêndice H), e com o feedback obtido, foi elaborada sua nova versão, com melhorias na descrição das categorias.

A segunda versão do método foi testada no projeto de Tecnologia Assistiva (TA) (o mesmo que foi aplicado o método user stories) e em um projeto de bomba de infusão com uma empresa de São Paulo. A aplicação do método com a equipe de TA contou com três membros da equipe de desenvolvimento de produtos do projeto e durou cerca de 1 hora; a aplicação no projeto de bomba de infusão também contou com três membros da empresa: uma supervisora de certificação, um gerente de projetos e uma gerente de regulatória. O template do método foi levado pronto para os membros da empresa, e sua aplicação durou 1 hora e meia. Os membros também responderam ao mesmo questionário e com esse

feedback, uma terceira versão do método foi elaborada, apenas com um adicional de definição de usuário. Essa terceira versão foi utilizada na primeira versão do framework.

3.2.2 Mapa piramidal

Com a aplicação de métodos de identificação das necessidades do usuário (Campese et al., 2015), a equipe de desenvolvimento é capaz de coletar diversas informações dos usuários, inclusive suas necessidades. Apesar disso, elas podem ficar dispersas em meio de outros dados, ou mesmo escritas de uma forma indireta. Dessa forma, é preciso que a equipe tenha um momento no qual traduza essas informações para necessidades, e as organize. Apesar dos autores (Rozenfeld et al., 2006) mencionarem que as necessidades podem ser agrupadas e classificadas por finalidade ou de acordo com fases do ciclo de vida do produto, eles não citam especificamente um método para tal. Ademais, foge do conhecimento da autora desse trabalho um método que organizasse especificamente as necessidades dos usuários de uma forma clara e direta (uma vez que não foram encontrados métodos na literatura com esse fim). Assim, o método “mapa piramidal” (método nº 5 do Apêndice L) foi proposto, tendo como inspiração a pirâmide da teoria das necessidades de Maslow (1987) e o modelo de experiência do usuário de Hassenzahl (2003) e de Pucillo e Cascini (2014).

Antes de o mapa piramidal ser adicionado ao framework em sua segunda versão, ele foi testado com uma especialista em desenvolvimento de produto juntamente com a autora desse trabalho. Um mapa de empatia preenchido com informações de usuários reais foi disponibilizado para a especialista e então as necessidades dos usuários foram sendo transcritas para post-it e organizadas no template do método. Nenhuma alteração no método foi sugerida.

3.2.3 Teste de conceito

Visto que os métodos para validação do conceito (Campese et al., 2015) requerem que a equipe de desenvolvimento tenha o conceito do produto já adiantado, sentiu-se a necessidade de um método voltado para os usuários que testasse conceitos ainda mais iniciais. Dessa forma, o “teste de conceito” foi elaborado (método nº 8 do Apêndice L). Com a aplicação desse método, a equipe organiza as ideias de funções ou elementos que gostaria de testar com o usuário (de acordo com o nível de funcionalidade do protótipo) e direciona esse teste sendo este livre, guiado ou somente uma entrevista. Por uma questão de cronograma, não foi possível fazer um teste piloto do método, dessa forma, a sua primeira versão foi adicionada à primeira versão do framework.

3.2.4 Elaboração do material de apoio

Nos estudos exploratórios foi possível identificar que as equipes de desenvolvimento possuem muita dificuldade na aplicação de métodos, tanto os de gestão de requisitos quanto os de UCD. Portanto, foi identificada a necessidade de disponibilizar, além da orientação de qual método pode ser aplicado em qual passo, um material que contivesse um resumo, orientações (tempo de aplicação, material necessário, participantes e local de aplicação), exemplos de templates e um passo a passo dos métodos sugeridos/propostos (chamado nesse trabalho de material de apoio).

Os materiais de apoio dos métodos mapa de empatia e persona foram desenvolvidos a partir dos conhecimentos da teoria e de aplicação com alunos em uma disciplina de Ergonomia do curso de Engenharia de Produção da USP – São Carlos no segundo semestre de 2015. A partir de informações da literatura, juntamente com as dificuldades encontradas pelos alunos, foram elaborados os roteiros de aplicação (o “como” no material de apoio). Já o roteiro do método user stories, também desenvolvido com base na literatura, mas com algumas adaptações, foi aplicado como teste em um projeto de tecnologia assistiva com parceria com o hospital da Universidade Federal do Triângulo Mineiro.

O material do método análise da tarefa foi elaborado tendo como base informações da literatura (Crandall, Klein, & Hoffman, 2006; Guérin, Laville, Daniellou, Duraffourg, & Kerguelen, 2001; UXPA, 2010), não sofrendo modificações. O mesmo ocorreu com o método matriz de avaliação (Pugh, 1991). Já os métodos avaliação heurística e QFD tiveram algumas modificações na orientação base provinda da literatura. Uma vez que a avaliação heurística tem um maior foco na avaliação de software (Gerhardt‐Powals, 1996; Nielsen, 1994; Zhang et al., 2003), foram incorporadas no método algumas heurísticas para teste de produto (hardware), que também provieram da literatura (aspectos de ergonomia e usabilidade). Já o método QFD foi simplificado, uma vez que o framework tem como foco a fase conceitual. O material do mapa de conceitos, sendo uma adaptação do método matriz morfológica (Crawford & Di Benedetto, 2010; Rozenfeld et al., 2006), também foi elaborado de acordo com informações da literatura.

Já os materiais dos métodos propostos nesse trabalho (mapa dos usuários, mapa piramidal e teste de conceito) foram elaborados ao longo de seus desenvolvimentos e testes.