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CAPÍTULO 3 METODOLOGIA

3.2 Local e sujeitos da pesquisa

3.3.1 Fase Exploratória

Quando realizamos o estágio curricular numa escola de Ensino Fundamental, ciclo I, percebemos que crianças vindas dos serviços de acolhimento sentiam um profundo temor diante da possibilidade de algum funcionário da escola os denunciar, pelo seu mau comportamento, para um dos responsáveis por elas, na instituição em que moravam (sentiam esse temor somente diante de um nome). Outro fator curioso eram suas representações simbólicas em desenhos, a maioria dessas crianças, quando solicitadas a um desenho livre, desenhavam figuras religiosas. Em face desse quadro, optamos por investigar como estava ocorrendo a educação moral e qual era o tipo de relação interpessoal que predominava nessas instituições, verificar qual o nível de juízo moral das crianças e adolescentes em situação de abrigo, a fim de identificar se esse era influenciado pelas relações existentes na rotina da instituição.

Fizemos um levantamento dos principais serviços de acolhimento da cidade, na época, identificando quatro principais (e mais “famosas”) instituições. A instituição em que viviam as crianças que inspiraram a pesquisa não pôde ser investigada, porque não foi possível contatarmos a assistente social responsável e apresentar o projeto: tivemos conhecimento de que essa instituição estava em processo de fechamento. Outra instituição não era aberta para pesquisas. As outras duas instituições de acolhimento nos atenderam prontamente e abriram a instituição para nossa pesquisa.

Desse modo, realizamos a investigação como parte do Trabalho de Conclusão de Curso de Pedagogia (TCC), em duas instituições da cidade, as quais chamaremos de A e B. O tempo

dessa primeira pesquisa foi de aproximadamente oito meses (elaboração do projeto, observação nas instituições, aplicação das entrevistas, redação final com os resultados do projeto), dela participando crianças e adolescentes com idade entre 06 e 12 anos e os funcionários, que, em seu cargo, mantinham relação direta e contínua com as crianças e adolescentes; utilizamos, para a coleta de dados, entrevista clínica com as crianças e adolescentes, entrevista semiestruturada com os funcionários e observação da rotina. Notamos que, apesar de a rotina das instituições A e B serem diferentes, havia nas duas a predominância da relação unilateral para com as crianças e adolescentes e, consequentemente, o juízo moral desses participantes da investigação, em sua grande maioria, se encontrava no nível primário do desenvolvimento moral, no respeito unilateral, em que defendiam a autoridade adulta acima de qualquer situação.

Os resultados do estudo descrito acima (TCC) nos instigou à necessidade de investigar melhor a rotina dessas instituições e verificar o juízo moral nas crianças em relação à noção de justiça. Iniciamos, então, uma pesquisa com o caráter de Iniciação Científica. Para esse estudo, optamos por investigar, dentre as duas entidades pesquisadas, a instituição A, a qual acolhia as crianças e adolescentes por um período mais longo, pois a B tinha um caráter temporário breve, ou seja, acolhia apenas por três meses, período que, na época, era necessário para os trâmites judiciários (voltar para a família ou ir para um serviço de acolhimento). Acreditávamos que, na instituição A, poderíamos estabelecer uma relação mais profunda com as crianças e adolescentes, que pudesse influenciar em seu desenvolvimento moral por conta da educação moral estabelecida em sua rotina pelos funcionários da instituição.

Essa investigação foi de diagnóstico, a fim de entender se o ambiente da instituição estava favorecendo o desenvolvimento moral das crianças e adolescentes em situação de abrigo. Teve duração de seis meses, consistindo da execução do projeto, observação, aplicação das entrevistas e redação final com as discussões dos resultados obtidos. O método utilizado foi a observação da rotina, entrevistas semiestruturadas junto aos funcionários e às crianças e adolescentes, com o objetivo principal de identificar qual o tipo de relação interpessoal predominava no dia-a-dia da instituição, além de entrevista clínica com as crianças e adolescentes, para verificar o nível do juízo moral apresentado por eles, sobretudo em relação à noção de justiça.

Os resultados obtidos indicaram que a educação moral junto às crianças e adolescentes se fundava, nessa instituição, especialmente em relações de respeito unilateral à autoridade e às regras estabelecidas, as quais não promovem a responsabilidade interior e a vida cidadã. O

cumprimento das regras nem sempre solicitava, por parte das crianças e adolescentes, a necessária tomada de consciência das suas ações. E sabemos que a participação na elaboração e exercício consciente das regras é absolutamente necessária para o seu cumprimento responsável.

Quanto ao não cumprimento das obrigações pela criança no dia-a-dia, na instituição, as atitudes tomadas por alguns funcionários, segundo seus relatos, eram as seguintes:

As crianças que deixam de cumprir os seus deveres, elas deixam de ganhar alguma coisa boa, pelo menos esse é o meu ponto de vista. [...] Então eu acho que tirando alguma coisa que ela gosta, de um passeio, por exemplo, ela vai se conscientizar, é difícil, mas o adulto tá aí pra batalhar a respeito né. (fala de um dos funcionários).

As crianças pesquisadas não mantinham um espaço social e coletivo em que pudessem agir e experienciar valores de respeito mútuo. Assim, as relações entre crianças, via de regra, não se pautavam pelo respeito mútuo e pelos laços de solidariedade, pelo contrário, eram marcadas pela competição, que se sobrepunha a essas relações.

As noções de justiça detectadas junto às crianças/adolescentes evidenciaram que essas noções se fundamentaram no respeito à autoridade adulta e não em laços de cooperação entre iguais, de solidariedade e respeito mútuo. Esses dados mostram que as relações havidas no interior da instituição (entre adultos e crianças e entre as próprias crianças) não estavam promovendo a autonomia moral dessas crianças e adolescentes e/ou não estavam conseguindo alterar os efeitos das práticas educativas vividas no seio das suas famílias e noutros centros educativos.

Uma grande queixa por parte dos funcionários era a falta de entrosamento entre eles. Diziam ocorrer uma falta de comunicação e uso de linguagens diferentes no tratamento educacional com as crianças e adolescentes, e acreditavam que isso estava gerando uma falta de ordem e que prejudicava o desenvolvimento moral das crianças e adolescentes, como se referiu uma funcionária:

[...] comigo eles têm um tipo de relacionamento, com a outra, é totalmente diferente. Se todos falassem a mesma linguagem, batessem na tecla em relação ao limite, às regras, eu acho que o respeito não taria tão tumultuado como tá.

Com o resultado dessa pesquisa mais profunda, agendamos uma reunião com a diretoria da época e com alguns funcionários, pudemos discutir e refletir sobre eles em conjunto, pesquisadores e sujeitos participantes.

Em síntese, os resultados do TCC e da Iniciação Científica possibilitaram que verificássemos que o desenvolvimento moral das crianças e adolescentes da instituição A, no aspecto da justiça, se caracterizava como predominantemente ligado à obediência à autoridade, ao respeito unilateral e a não participação na elaboração de regras. No que tange à educação moral, notaram-se práticas baseadas na autoridade e em procedimentos verbais, sendo a sanção predominante a do tipo expiatória. O relacionamento entre os funcionários não favorecia que se entendessem com relação às ações educativas a serem estabelecidas por todos, o que levava a frequentes desentendimentos e a uma postura derrotista frente às possibilidades de resolução de conflitos e problemas.

Vale ressaltar que, nesse momento, nasceu o problema de pesquisa que subsidiou a presente Dissertação, ou seja:

Sendo a moralidade um processo de construção que se dá entre as pessoas e que se desenvolve à medida que os valores morais são construídos, será possível promover um ambiente favorável à tomada de consciência das regras de convivência que promovam o desenvolvimento moral dos abrigados?