A observância dos aspectos teóricos na recolha do material biográfico, o trabalho posterior consiste na passagem de um relato oral a um texto escrito, colocando-se novas
questões na medida em que, como refere a autora citada, "o que se escreve a partir das
falas não consegue registar o clima e todos os sentimentos e aspectos culturais que envolvem a situação de entrevista" (DEMARTINI,1995:14).
Não se perdendo de vista que se pretende recolher e obter um conhecimento e não a réplica de uma forma oral, é possível proceder a ajustamentos, conservando-se, no entanto, a sua originalidade. Admitindo que em toda a transcrição se opera inevitavelmente uma desnaturação e conscientes da necessidade de tornar a versão apresentada tão próxima da original, seguimos a proposta POIRIER e ai (1983):
Transcrição do material recolhido
Tarefa longa e pormenorizada - a transcrição - correspondeu ao registo integral do discurso, com as repetições, erros de linguagem, pausas e silêncios. Torna-se útil presevar margens largas para anotar o texto, recolhido numa situação de interlocução, dos elementos significativos da comunicação não verbal;
A releitura
Operação destinada ao preenchimento dos espaços deixados em branco e à confirmação do registo escrito, à qual se seguem processos de ajustamento, conservando-se, no entanto, a sua originalidade.
Elaboração da narrativa
A necessidade de passar uma história de vida falada para um texto escrito, conduz a um conjunto de operações, nomeadamente: supressão das interjeições, das repetições inúteis, o restabelecimento da ordem dos termos e a rectificação da pontuação, ajustamentos gramaticais e homogeneização das formas verbais.
Nesta fase do trabalho, procurou-se que o texto escrito traduzi-se a sinceridade, subjectividade e significação da narrativa oral.
Organização da narrativa
Tratando-se de um documento qualitativo revelador de uma vivência singular, pessoal, social, elaborado na desordem que caracteriza o processo de (re)interpretação e reconstrução de um passado presente, procedeu-se nesta fase à arrumação dos diferentes segmentos discursivos.
Procurando colocar à disposição uma narrativa mais legível, compreensiva e autêntica, tentou-se conciliar na organização do texto uma ordem temática e cronológica.
A análise de conteúdo apresentou-se como um instrumento para efectuar uma série de operações, num registo multiforme e abundante de informações, sem reduzir a lógica própria de cada autobiografia: um testemunho vivido num tempo pessoal e histórico; "apresenta a vida nas dimensões significativas para aqueles que a viveram", como indicam ANGELL e FRIEDMANN (citado por POIRIER e ai, 1983:130).
Apresentação final da história de vida
Seguidas neste percurso as indicações de Poirier et al, procedeu-se à relação dialéctica entre teoria e história de vida, procurando nesta vivência o significado e os modos de apropriação pelo sujeito dos espaços/tempos de vida, dos momentos relacionais, das situações de confrontação/autonomia/implicação que preenchem o percurso formativo vivido.
Na categorização, utilizamos excertos da História de Vida que identificamos com o símbolo (HiVi), seguido da página em que se encontra a referida citação.
3.6 - A análise de conteúdo
Da utilização das entrevistas como estratégia de recolha, deparamos com um elevado volume de dados, com a riqueza e diversidade dos discursos, colocando-se dificuldades quanto à forma de os ordenar e organizar. Com efeito a análise de conteúdo parece-nos a técnica de pesquisa mais adequada aos nossos objectivos e também à natureza da própria informação.
Como consequência as etapas seguintes são uma aplicação das técnicas de análise de conteúdo. Como refere BARDIN (1977:38), "a análise de conteúdo aparece
como um conjunto de técnicas de análise das comunicações, que utiliza procedimentos sistemáticos e objectivos da descrição do conteúdo das mensagens'^, declinando-se para
uma vertente mais quantitativa ou qualitativa. Assim, para a primeira, a importância reside no repetitivo, no que se apresenta muitas vezes (o número de vezes é o critério),
sendo importante para a segunda a novidade, o interesse, o valor de um tema (critério naturalmente subjectivo).
Todo o documento escrito ou falado contem potencialmente uma quantidade de informações sobre a pessoa que é o seu autor, sobre o grupo a que pertence, sobre os factos e acontecimentos, pelo que a análise de conteúdo ao efectuar a exploração dos dados informacionais comporta os riscos de interpretação subjectiva.
Neste sentido surgem um conjunto de operações práticas que passam pela construção de grelhas ou quadros categoriais que pretendem dar uma ordem lógica à narrativa.
Objecto nuclear da análise de conteúdo, a escolha das categorias constitui a primeira etapa da técnica a seguir para a análise de conteúdo. Operação de tipo classificatório, a categoria, segundo o mesmo autor, tem "por objectivo, fornecer pela
condensação uma representação simplificada dos dados brutos" (ibidem: 120),
facilitando uma arrumação sintéctica e significante do conteúdo da narrativa.
Habitualmente composta por um termo-chave que indica a significação central do conceito que se quer apreender (VALA, 1986:110), a construção de um sistema de categorias apresenta contornos estruturalistas e taxonómicos, podendo realizar-se à priori ou à posteriori. Ao seguirmos por analogia o princípio definido pelo autor "as
referências teóricas do investigador orientam a primeira exploração do material, mas este por sua vez, pode contribuir para a reformulação ou alargamento das hipóteses e das problemáticas a estudar" (1986:112), estabelecemos categorias que no decorrer do
processo de análise e interpretação dos dados, por sucessivos ensaios, fomos fazendo e desfazendo, revendo e analisando em função das ideias força que ressaltam de uma leitura «flutuante» e exploratória dos discursos produzidos e da influência do quadro teórico.
CAPÍTULO IV - A FORMAÇÃO E A SUA ARTICULAÇÃO COM UMA