CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DE DADOS
4.4 FASES DE COP PERCEBIDAS NO GRUPO ESTUDADO
As Comunidades de Prática, segundo Wenger et al (2002), tanto aquelas que emergem espontaneamente, quanto as fomentadas, apresentam fases: potencial; coalescência; amadurecimento; mordomia e transformação.
A primeira etapa é marcada pela descoberta uns dos outros entre os integrantes de um grupo formado intencionalmente ou que haja começado a se juntar despretensiosamente pela congruência de interesse dos sujeitos envolvidos. Nesse momento começa ocorrer a identificação entre participantes e de cada um com o grupo como um todo. As formas de realizar tarefas, as correntes de pensamento que seguem, a imagem mental de cada participante com relação ao propósito do grupo são expressas nesse estágio.
No grupo Taba Móvel Redigir essa etapa pode ser exemplificada com os excertos que se seguem:
(excerto 60) – P12: Sou P12, moro em Sete Lagoas. Estou terminando a Licenciatura em portuguêse professora de língua inglesa. Estou super feliz em fazer parte do grupo e poder trocar experiências com vocês professores.
[...]
P07: P07. Graduado em letras inglês/português pela FTC e inglês pela UNEB BA. Leciono inglês 60 hs semanais. Moro atualmente na BA, minha cidade natal Fortaleza. Ótimas ferramentas as TICs como ferramenta pedagógica, sempre que possível uso recursos tecnológicos
[...]
P10: Olá, sou P10, professora de línguas na escola técnica da UFTM. Espero compartilhar muitas experiências e aprender muito com todos vocês.
As interações replicadas aqui aconteceram no primeiro dia de curso, quando a primeira tarefa propunha o envio de uma selfie com legenda de apresentação pessoal. Os participantes foram logo registrando suas expectativas com relação ao curso e expondo a ideia preconcebida por alguns do grupo como ambiente de troca de experiências e aprendizagem, no entanto, a informação da qual dispunham era de que se tratava de um curso de formação.
Sequencialmente, é a fase onde ocorrem as aglutinações, ou seja, quando as relações são desenvolvidas a fim de gerar confiança mútua, compartilhamento de conhecimento e percepção de valores da CoP. A seguir, apresentamos como as medidas sugeridas por Wenger et al (2002) para esse estágio foram pensadas no Taba Móvel Redigir:
• estimular o interesse por meio de apresentação da reputação de individual dos membros do grupo: a tarefa inicial mesclava o uso de um gênero digital – a selfie – a abordagem desse aspecto.
• iniciar as atividades da CoP de forma empolgante: o grupo foi montado com antecedência e a data de início ficou programada para nutrir expectativa nos participantes; alguns elementos rudimentares de gamificação, como narrativa com o tema viagem em todos os posts do curso; imagens relacionadas ao tema; ranking de participação das tarefas; e desafios com premiações virtuais em formato de selos condecorativos.
• agregar mecanismos motivacionais; além dos elementos supracitados e da possibilidade de certificação como curso de extensão, os mediadores do curso estavam sempre online para estimular a participação; comentar e apreciar as interações.
• manter regularidade de determinados eventos (familiaridade) e equilibrar com elementos novos; legitimar os coordenadores ou instituições relacionados à CoP: desde o formato estabelecido dos posts; à periodicidade de tarefas semanais equilibrada com percepção do fluxo de interações dentro de cada bloco de tarefas para lançar outra atividade no grupo; até a vinculação do curso aos projetos de extensão Taba Móvel e Redigir (Letras – UFMG), foram formas atender esse quesito.
• estimular o vínculo entre os membros da CoP, o compartilhamento de ideias e a localização de valores: tanto a intervenção quanto a ‘ausência’ proposital dos mediadores tinham o objetivo de acender o envolvimento entre participantes, pois, em alguns momentos, quando um deles solicitava ajuda ou inquiria sobre algo, e os mediadores não se manifestavam, a relação entre pares se fortalecia. Em diversos trechos de interação, inclusive daqueles já explorados anteriormente neste texto para ilustrar outras características, há partilha de ideias, planejamentos, experiências e até produtos de projetos realizados.
Na fase de “amadurecimento” a troca de conhecimento é intensa e reafirma a consolidação dos relacionamentos. No curso, isso foi observado por volta da terceira semana, quando se podem denotar indícios de interação extra grupo; e as relações de confiança entre os pares se solidificam sendo demonstradas em solicitação de ajuda, de opinião sobre o contexto pessoal de docência e uso de recursos digitais. Outro marco dessa etapa da CoP é a atribuição de valor por meio de ensejo pela expansão da comunidade com a entrada de novos membros. Por se tratar de uma CoP grupo de pesquisa não estava prevista essa possibilidade, mas ela foi demandada por um membro:
(excerto 60) – P35: Boa tarde. Vocês poderiam add uma colega aqui.
Me chamo P35. Sou mestranda em Letras na Uesb.
A penúltima etapa é chamada de “mordomia” devido ao grau de maturidade e o nível de energia das atividades na CoP se estagnar. Após o encerramento das tarefas do curso, parecia que o valor da CoP, seu domínio estava se perdendo, uma vez que começou a surgir algumas postagens de temas desalinhados com o foco da comunidade. Embora uma participante houvesse sugerido a manutenção do grupo para compartilhamento de aprendizado, era final de ano, época comum de reflexões, votos, etc.
O grupo foi mantido de forma fluida, sem imposições de regras ou cerceamentos. Alguns participantes saíram. Depois a comunidade ficou silenciosa por um tempo e as postagens retornaram restabelecendo o foco na troca de experiências e conhecimento acerca de recursos digitais. Assemelhando-se, assim, ao que Wenger et al (2002) coloca como “comunidade de melhor prática”, isto é, uma comunidade onde se prima pela divulgação e preparação de novas práticas.
O ideal para impulsionar a energia da comunidade seria a abertura para novos membros, projetos, etc., entretanto, a investigação se ampliaria muito. Contudo, o grupo no qual essa pesquisadora testemunhou a emergência de uma Comunidade de Prática, existe, um ano após sua organização, com 31 participantes, sendo catorze (14) participantes do curso de formação e dezesseis (16) integrantes de bastidores (mediadores, observadores e orientadores dos projetos de extensão). Dessa forma, passamos a partir desse momento, a nos referir ao Taba Móvel Redigir como uma Comunidade de Prática autêntica e não somente em potencial ou como um grupo.
A despeito de o grupo permanecer formado, a fase “transformação” - quando a energia da comunidade chega ao nível de falência e é diluída, ou quando ocorre distorção
completa do objetivo da CoP - parece estar em processo. As postagens são bastante escassas e de temas difusos. Matérias de política e de interesse público, como “novembro azul”, ocupam espaço no ambiente enquanto ocorre a análise de dados aqui descrita.
Todavia, em consequência da pesquisa e da importância de um desfazimento modesto (WENGER et al, 2002), a comunidade de prática – grupo Taba Móvel Redigir 2 – permanece com um ambiente para interação: o WhatsApp. E isso, como salienta o próprio Wenger, não desabona ou diminui a relevância da CoP. Nem tampouco, remete a qualquer inconsistência enquanto Comunidade de Prática. Pelo contrário, testifica que por ser um organismo vivo, dependente da prática, está sujeita a ciclos de vida.
No próximo tópico debruçamo-nos de forma mais específica aos elementos referentes à aprendizagem por meio de dispositivos móveis, pois até agora foram somente pincelados quando enredados nos exemplos de princípios de CoP apresentados.
4.5 ASPECTOS RELACIONADOS À APRENDIZAGEM MÓVEL NA FORMAÇÂO