Capítulo 3 – Comissionamento
3.3. O Processo de Retro Comissionamento
3.3.1. Fases do Processo de Retro Comissionamento (PRC)
Fase de Planeamento (FP)
A FP fornece a orientação inicial para o desenvolvimento do projeto. A Tabela 13 apresenta as tarefas principais do processo nesta fase.
Tabela 13 – Tarefas fundamentais da fase de planeamento [31]
Fa se de Pl an ea men to (FP )
a) Desenvolver e transmitir os objetivos b) Escolher a equipa e contratar a AC
c) Analisar e atualizar a documentação do edifício
d) Desenvolvimento de um plano de retro comissionamento
a) Desenvolver e transmitir os objetivos
É necessário definir, documentar e transmitir de forma clara os objetivos pretendidos. Idealmente, esses objetivos devem estar listados por ordem de prioridade, estimando o custo- benefício que de cada um poderá provir. Os objetivos que podem constituir um processo desta natureza são [31]:
Obter poupanças de energia de baixo custo;
Atingir o desempenho energético ótimo e reduzir custos operacionais com recurso à identificação e recomendação de melhorias nas estratégias operacionais e nos procedimentos de manutenção;
Identificar e solucionar questões relacionadas com a segurança e conforto traduzidos pelos sistemas AVAC;
Obter informação para o desenvolvimento de um plano de orientação e organização do programa de gestão de energia;
Eliminar os problemas relacionadas com o conforto interior e com a qualidade do ar; Aumentar significativamente o tempo de vida dos equipamentos;
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Reduzir o tempo despendido na resolução de problemas;
Proporcionar melhores condições e competências aos técnicos da operação e manutenção;
Atualizar a documentação do edifício;
Efetuar uma avaliação de benchmarking do estado operacional dos sistemas e dos equipamentos.
b) Escolher a equipa e contratar a AC
A EC é responsável por atingir os objetivos previamente definidos para o projeto. Nesta fase a composição da equipa passa pelo proprietário do edifício e os seus representantes, pelo empreiteiro e pela AC. A AC deve trazer consigo a capacidade de resolução de problemas, avaliação de diagnósticos, realização de testes e perícia para identificar questões óbvias mas que se encontram ocultas e que devem ser resolvidas para que se possam atingir os requisitos impostos [31].
c) Analisar e atualizar a documentação do edifício
Nesta fase a AC tem a responsabilidade de avaliar toda a documentação existente do edifício. Esta entidade irá solicitar aos técnicos responsáveis pelo funcionamento e manutenção do edifício informação contida nos seguintes documentos [32]:
Telas finais;
Lista de equipamentos instalados e respetivas especificações;
Manuais de operação e manutenção bem como relatórios de testes de desempenho funcional;
Sequência de operações e esquemas de controlo; Manuais de formação;
Relatórios ou estudos prévios de engenharia; Histórico de alterações e planos futuros;
Histórico dos registos de procura da manutenção;
Capacidade do sistema de gestão centralizada e histórico de reparações; Registo das queixas relativas ao conforto;
Requisitos funcionais exigidos para as instalações.
Sempre que entender necessário, a AC deve atualizar a documentação por forma a ter todos os elementos sobre as instalações completos. Uma vez completa a documentação, esta servirá de suporte para uma ágil resolução dos problemas, tornando a tarefa mais rápida e económica [31].
d) Desenvolvimento de um plano de retro comissionamento
O plano de retro comissionamento é da responsabilidade da AC que deve procurar junto do proprietário e dos técnicos do edifício informação relevante. É com base na partilha de informação durante as reuniões iniciais que se irá desenvolver um plano que pretende resumir
os objetivos mais importantes para o projeto. Esse plano também deve ser capaz de refletir os desejos específicos do proprietário e dos operadores para o funcionamento e manutenção do edifício, desejos esses que irão guiar o PRC [32].
O plano deve conter [31] [32]:
Informação geral das instalações – descrição geral do local, resumos das atividades que tomarão parte ativa durante a fase de investigação e informação relativa à equipa de comissionamento;
Objetivos e âmbito do projeto;
Breve descrição do edifício e dos sistemas – inclui histórico de operação e manutenção do edifício, descrição detalhada do edifício e dos sistemas a serem comissionados, função do edifício, ano de fabrico e datas de remodelações ou alterações de funcionalidades, área útil dos espaços, controlos dos sistemas e prioridades de investigação;
Tarefas e responsabilidades dos intervenientes no processo; Calendarização das tarefas iniciais;
Documentação existente e atualizada;
Descrição do processo a implementar – fases de planeamento, investigação, execução e transição.
O desenvolvimento deste plano é contínuo. Apesar do seu início ser na FP, nas fases posteriores pode e deve ser alvo de atualização em conformidade com as tarefas já executadas e a realizar [31].
Após a conclusão desta fase de planeamento, é expectável que dela resultem a documentação enunciada na Tabela 14.
Tabela 14 - Documentação concluída no final da fase de planeamento [31]
Documentação e informação resultante
Plano de retro comissionamento Atas das reuniões preliminares
Fase de Investigação (FI)
A FI é caracterizada pela compreensão do funcionamento e da manutenção dos sistemas, pela identificação das anomalias e potenciais melhorias e pela seleção das correções mais rentáveis do ponto de vista do custo-benefício. É a fase do PRC que é mais demorada e que incorre em maiores custos. As tarefas fundamentais a desenvolver nesta fase estão descritas na Tabela 15.
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Tabela 15 – Tarefas fundamentais da fase de investigação [31]
Fa se de In ve st ig aç ão ( FI
) a) Execução de uma avaliação no local
b) Desenvolver uma lista de anomalias e potenciais melhorias c) Planear e executar diagnósticos de monitorização e testes de
desempenho funcional
d) Recomendar melhorias de baixo custo provenientes do PRC
a) Execução de uma avaliação no local
É fundamental realizar uma avaliação no local com o objetivo de compreender totalmente como é que os sistemas e os equipamentos operam e são alvos de manutenção, porque é que eles operam de determinada forma e quais as anomalias mais relevantes que são indicadas pelos técnicos e ocupantes. Essa avaliação, genericamente, passa por [31] [32]:
Investigação profunda que engloba compreender como o edifício deve operar, conhecer os sistemas alvo e a forma como eles interagem de forma integrada, avaliar se os sistemas de controlo operam de forma eficiente, compreender o estado dos equipamentos, colecionar informação suficiente para redigir um plano de diagnóstico de monitorização e um plano de testes;
Consumo e procura globais de energia do edifício e respetivas áreas de maior consumo e procura;
Reuniões com os técnicos de operação e manutenção para tomar consciência das necessidades atuais e dos desafios relacionados com a operação e manutenção dos sistemas;
Especificações, intenções operacionais e sequências de controlo de cada equipamento presentes no projeto atual;
Informação sobre o estado atual dos equipamentos baseada, praticamente, na observação direta do estado de ventiladores, grelhas e outras superfícies que incorrem em riscos de contaminação, facilidade de manutenção de filtros, correias, válvulas, condutas, conexões, isolamentos, na condição física dos equipamentos ao nível da corrosão, desgaste, etc., na existência de fugas de ar ou de água, na presença de ruídos ou odores estranhos que os equipamentos possam emanar, nos níveis de controlo e de iluminação, etc.;
Compreensão dos requisitos atuais das instalações, que devem indicar, genericamente, informação sobre a ocupação e finalidade atual do espaço, registos sobre mudanças quanto ao propósito de utilização do espaço, documentação de alterações dos sistemas AVAC, requisitos climáticos interiores atualmente exigidos, requisitos sobre classificação e sustentabilidade do edifício, informação sobre horários de funcionamento dos sistemas, condições sobre energia e eficiência e outras questões relacionadas com a operação e manutenção;
Problemas de controlo e operacionais mais graves;
Localização no edifício dos locais com maiores problemas associados ao conforto; Analisar a faturação do consumo energético do edifício, que para uma análise ideal de
b) Desenvolver uma lista de anomalias e potenciais melhorias
Durante a execução da avaliação das infraestruturas, a AC deve iniciar a realização de uma lista das deficiências encontradas e das potenciais melhorias que podem ser implementadas. Esta lista é considerada uma importante ferramenta na tomada de decisão, até em relação a projetos futuros, e está em constante atualização até à FE. A AC deve caracterizar cada anomalia num de quatro tipos diferentes de problema: manutenção, operação, projeto ou instalação. Esta inclusão da anomalia num destes tipos permite que se obtenha uma maior perceção sobre em que setor os custos de reparação serão mais elevados e onde se deve implementar melhorias, em última análise, em projetos futuros. Por exemplo, registaram-se problemas, maioritariamente, na categoria da instalação, o que permite concluir que é fundamental que haja um maior esforço no futuro para aplicar o PC na nova construção ou nos novos equipamentos instalados [31].
c) Planear e executar diagnósticos de monitorização e testes de desempenho funcional
Após a avaliação de diversos fatores e situações, e de se terem identificadas várias necessidades de intervenção, urge-se o desenvolvimento de diagnósticos de monitorização e um plano de testes por forma a completar toda a informação relativa a um determinado sistema ou equipamento e concluir, claramente, sobre a se o sistema está a operar corretamente e da maneira mais eficiente [31].
Há três tipos de diagnósticos típicos, o diagnóstico de tendência de dados fornecido pela GTC, o diagnóstico baseado num armazenador portátil de dados e o diagnóstico resultante de testes de desempenho funcional. Usando os dados fornecidos pela GTC é preciso garantir que os sensores instalados estão devidamente calibrados e instalados em pontos de medição que são úteis para a análise dos dados. Quando o edifício não é dotado de uma GTC ou quando os sensores estão localizados em pontos que podem limitar a avaliação dos dados, instalam-se sensores portáteis. Esta situação é ideal para monitorizações de curto prazo. A terceira situação decorre da necessidade de compreender o funcionamento de determinado sistema ou equipamento em situações que habitualmente não acontecem durante o funcionamento corrente das instalações. Os testes conseguem simular essas condições especiais [31].
Os pontos que devem ser monitorizados devem ser criteriosamente selecionados. Deve ter-se em linha de conta as seguintes condicionantes [32]:
Uso de energia relativa do sistema, o que afeta diretamente o potencial de poupança de energia;
Número de ocupantes ou dimensão da área afetada;
Histórico de problemas conhecidos de funcionamento e/ou manutenção; Histórico de reclamações sobre conforto e qualidade do ar interior; Conformidade com os códigos e normas;
Preocupações particulares com a saúde dos ocupantes.
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d) Recomendar melhorias de baixo custo provenientes do PRC
Após a identificação das anomalias e deficiências no funcionamento e manutenção dos sistemas, há que decidir sobre que sistemas podem proporcionar o máximo de poupança após intervenção. O ideal será procurar resolver todas as questões assinaladas na lista de anomalias, contudo, face à possibilidade de incapacidade para solucionar tudo, pelo menos no imediato, é importante priorizar as melhorias de acordo com a relação custo-poupança. Cabe à AC efetuar essa avaliação e consequente priorização. [31]
Após a conclusão da fase de investigação é expectável que dela resultem a documentação enunciada na Tabela 16.
Tabela 16 - Documentação concluída no final da fase de investigação [31]
Documentação e informação resultante
Documento completo da avaliação do local Diagnósticos de monitorização e planos de testes
funcionais
Lista de deficiências e potenciais melhorias
Lista de melhorias a aplicar de imediato, juntamente com os custos e retorno associados
Fase de Execução (FE)
Ao passo que, durante a FI foram reparadas as questões mais simples, mais óbvias e menos dispendiosas, durante a FE leva-se a cabo a resolução das questões mais complexas e aquelas que acarretam maiores custos. Para além da resolução dos problemas, nesta fase também se procede à discussão da aplicação de melhorias e à verificação dos resultados obtidos [31]. Na Tabela 17 pode-se observar as tarefas que compõe a FE e que consistem, acima de tudo, em implementar as melhorias mais significativas e em analisar e avaliar os resultados obtidos.
Tabela 17 - Tarefas fundamentais da fase de execução [31]
Fa se de Exe cu çã o , FE a) Implementar melhorias b) Analisar e avaliar resultados
a) Implementar melhorias
A implementação de medidas corretivas, essencialmente as que acarretam uma maior poupança e maiores benefícios, é considerado o principal objetivo da implementação do PRC. Aliás, sem estas medidas corretivas o PRC permanece incompleto. As ações são levadas a cabo pelos técnicos de operação e manutenção do edifício, quando estes possuem capacidades para tal, ou por entidades independentes. Contudo, é fundamental que a AC supervisione todas as ações, pois a AC possui um conhecimento mais aprofundado sobre os sistemas e uma experiência mais alargada, sendo uma mais-valia na poupança de tempo e na redução de custos [31].
b) Analisar e avaliar resultados
Após a implementação das melhorias e das correções previstas é necessário proceder a novos testes de desempenho para confirmar os benefícios expectáveis. Os resultados obtidos nesta fase devem ser comparados com os testes executados na FI e devem ainda ser sujeitos a uma análise de benchmarking. A realização de novos testes e monitorização permite ainda que se estime, agora de forma mais precisa, a poupança energética que resultará da aplicação do processo [31].
Após a conclusão da fase de execução é expectável que dela resultem a documentação enunciada na Tabela 18.
Tabela 18 - Documentação concluída no final da fase de execução [31]
Documentação e informação resultante
Registo de todas as melhorias e reparações efetuadas Documentação sobre valores estimados de poupança energética provenientes de testes e avaliações finais
Fase de Transição (FT)
Embora seja a última fase do processo, não deve ser encarada como o finalizar dos esforços para manter os efeitos do retro comissionamento. Aliás, é nesta fase que se definem as recomendações e os procedimentos que devem ser integrados na operação e manutenção e no programa de gestão de energia do edifício durante a sua vida útil e que permitem que se obtenha o máximo de benefícios da aplicação do PRC [31].
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Tabela 19 - Tarefas fundamentais da fase de transição [31]
Fa se de Tr an si çã o (FT )
a) Elaboração do relatório final
b) Manter os benefícios do investimento c) Reunião de encerramento do projeto
a) Elaboração do relatório final
A elaboração do relatório final pretende compilar toda a informação e documentação sobre o trabalho que foi desenvolvido durante todas as fases precedentes à FT. Um relatório final típico inclui [31]:
Sumário executivo;
Análise das principais conclusões e resultados obtidos; Descrição dos sistemas e do edifício;
Âmbito do projeto de retro comissionamento;
Lista de melhorias implementadas, incluindo necessidades de formação e recomendações de ações de manutenção e informações de custos e poupanças obtidas; Plano de retro comissionamento original com as respetivas atualizações efetuadas ao
longo do processo;
Planos e resultados da monitorização e respetivos diagnósticos;
Todos os testes de desempenho funcional e os consequentes resultados.
Juntamente com o relatório final deve ser desenvolvida uma lista que recomende estratégias e medidas que visam poupanças energéticas que se possam obter no futuro, quando surgir a oportunidade e a capacidade de investimento para as colocar em prática.
b) Manter os benefícios do investimento
É importante que sejam desenvolvidas estratégias que perdurem os efeitos benéficos da aplicação do conceito de comissionamento. Devem ser concebidos um conjunto de procedimentos de recomissionamento, métodos de acompanhamento de resultados e formação contínua dos operadores [31].
c) Reunião de encerramento do projeto
Após a conclusão do relatório final e da entrega deste ao proprietário do edifício para análise, é aconselhável a realização de uma reunião para discutir o que funcionou ou não e sobretudo para registar todos os ensinamentos que se retiraram da aplicação do processo e que devem ou não ser implementados em futuras aplicações do retro comissionamento. A verificação e aceitação do relatório final por parte do proprietário encerra a FT [31].
Após a conclusão da fase de transição é expectável que dela resultem a documentação enunciada na Tabela 20.
Tabela 20 - Documentação concluída no final da fase de transição [31]
Documentação e informação resultante
Relatório final de retro comissionamento
Documentos que recomendem futuros investimentos Atualização final da documentação do edifício
Plano de recomissionamento