6.1 A empresa A
6.1.3 Importância dos fatores de continuidade ao longo do ciclo de vida
6.1.3.1 Fatores de continuidade da categoria dirigente
Seis fatores relacionados aos dirigentes contribuíram para a continuidade da empresa: características individuais (visão, dedicação, disposição, obstinação), experiência em gestão e
no setor, conhecimento gerencial, habilidades (finanças, compras, vendas e liderança), atitudes (motivação para abertura e valores), e apoio da família.
A visão dos proprietários-dirigentes e da gerência contribuiu para a continuidade da empresa. A ideia de como ganhar dinheiro atendendo as necessidades do público-alvo foi “clareando” a partir do estágio 2 e ficou mais evidente no estágio 4, quando a empresa deu um passo errado ao abrir uma loja no centro da cidade. Um ano depois, a loja foi fechada. Hoje, os dirigentes conhecem a concorrência e sabem por que a loja é respeitada e como competir.
A dedicação da proprietária-dirigente em tempo integral foi mais importante para a continuidade da empresa nos estágios 1, 2 e 3. Foi preciso abdicar dos estudos e das atividades de lazer para conseguir a tão sonhada independência e continuidade do empreendimento. No estágio 1, a empresa não tinha funcionária; no estágio 2;foi contratada a primeira funcionária para trabalhar meio período e, no estágio 3, foi aberta a segunda loja, mas o número de vendedoras foi aumentando aos poucos. Em cada estágio da empresa, os dirigentes despenderam o tempo necessário às atividades demandadas.
Não faltou disposição aos proprietários-dirigentes para realizar as atividades que contribuíram para a continuidade da empresa. Nos estágios 1 e 2, realizavam qualquer atividade e, à medida que a empresa cresceu, priorizaram aquilo de que gostam e em que têm facilidade. Hoje, os proprietários priorizam as atividades gerenciais.
A obstinação dos dirigentes também contribuiu para a evolução da empresa. Assim como a dedicação e a disposição, a obstinação foi fundamental nos estágios 1 e 2 e tem sido o estandarte dos proprietários durante os 18 anos de direção da empresa ‘A’. Eles começaram com uma dívida de trinta mil reais (estágio 1), passaram muitas dificuldades por causa da falta de crédito e para formar uma carteira de clientes, mas não desistiram de seus objetivos (estágios 1/2). Hoje estão com quatro lojas e sonhando com a inauguração da quinta:
Eu acho que eles são muito obstinados. Eles querem, então, eles vão lutar por aquilo (US 65 – E4).
Embora os proprietários-dirigentes tenham trabalhado no comércio antes de assumir a empresa ‘A’, o dirigente afirmou que, no estágio 1, eles sofreram muito por causa da falta de experiência em gestão e na atividade de compra e venda de roupa; “bateram muito com a cabeça na parede” até aprender. A influência positiva da experiência dos dirigentes foi aumentando à medida que a empresa evoluía e as dificuldades eram vencidas (estágios 2, 3, 4, 5). O processo era simples: experimentar, verificar o resultado e aprender com os erros e acertos daquela ação:
Eles foram testando o que dava certo e o que não dava certo. Por exemplo: vestir a roupa do dálmata e do Teletubbies era uma coisa que ninguém fazia. Tinha gente que passava na frente e dava risada, mas tinha gente que respeitava (US 83 – E4). A influência do conhecimento gerencial para continuidade da empresa é maior e mais evidente nos estágios 4 e 5. Foi nesses estágios que os dirigentes tomaram a decisão de abrir duas filiais com prédio próprio e fechar uma que não alcançou os resultados esperados. São decisões ousadas e difíceis que demandaram mais do que confiança dos dirigentes.
Outra prova do aumento do conhecimento do proprietário-dirigente é identificada quando ele comenta sobre o fechamento da filial no ano de 2007: “Foi a soma de várias ações que influenciaram o resultado final; a historinha dos 4Ps: preço, ponto, propaganda e produto, realmente, é verdadeira”.
Outro comentário importante do dirigente é sobre a necessidade de mudança na estrutura organizacional da empresa: “Agora não é possível ficar mais na loja. Ela cuida das compras e eu cuido de outras coisas”. Foi preciso se afastar das atividades operacionais e se dedicar mais às atividades gerenciais.
De acordo com a gerente que está há14 anos na empresa, o investimento contínuo é possível porque o proprietário-dirigente realiza uma boa administração dos recursos financeiros. A gerente também comentou que o dirigente sabe que errou ao abrir uma loja no centro da cidade; a empresa é respeitada e forte nos bairros:
Você tem que saber quanto você pode comprar e quanto daquela compra vai se transformar em lucro. Eu acho que uma boa administração das contas a receber e a pagar faz uma diferença enorme, é o que dá poder aquisitivo para investir em mais lojas, em mais funcionários, em mais mídia, em mais melhorias dentro da loja... (US 67 – E4).
As habilidades dos dirigentes, que são complementares, contribuíram para a continuidade da empresa ‘A’.O aperfeiçoamento das habilidades de comprar e vender, pela proprietária-dirigente, e em finanças, pelo dirigente, ajudou a empresa a evoluir de uma dívida, no estágio 1, para a abertura de uma filial no estágio 3. Os dirigentes são bem conscientes da importância dessas atividades e, por isso, são rigorosos: com a quantidade e qualidade dos produtos comprados, com o atendimento ao cliente e com a melhoria dos controles financeiros.
A habilidade de liderança a partir do estágio 3 também influenciou positivamente. Os dirigentes comunicam-se eficazmente com os colaboradores e conseguem o comprometimento para realização dos objetivos da empresa.
Os motivos pessoais (todos os estágios) e a oportunidade de negócio (estágio 3) contribuíram para a continuidade da pequena empresa. Para manter o desejo de independência, os dirigentes consideram que é preciso reinvestir sempre na empresa.
Os valores dos dirigentes que balizam as decisões têm influenciado positivamente o desempenho da empresa. A preocupação dos dirigentes em ser honestos e honrar os compromissos assumidos com clientes e colaboradores só traz benefícios para a empresa. Mesmo quando a empresa realiza a troca de um produto por mau uso do cliente, a dirigente tem visto que essa ação tem dado frutos positivos.
A humildade dos proprietários tem evitado que a empresa entre na zona de conforto e os dirigentes fiquem acomodados e corram riscos desnecessários:
Eu sempre falo isso: eu não quero ficar na zona de conforto. Porque eu acho que essa zona é muito perigosa. Não sei se porque um dia eu já estive lá e vi que é muito duro... Você tá num padrão de vida, de repente... Eu percebi que do mesmo jeito que a gente sobe, a gente desce (US 45 – E2).
O ambiente familiar e decente também é cultivado na empresa. Desde o estágio 3, a dirigente decidiu adotar uniforme para evitar que as funcionárias se vistam de forma vulgar e constranjam os clientes da loja.
O apoio familiar teve grande importância para a continuidade da empresa nos estágios 1 e 2, com destaque para a colaboração do tio e da mãe da proprietária.
O quadro 21 descreve a importância dos fatores da categoria dirigente para continuidade da empresa ‘A’.