PARTE I – E NQUADRAMENTO T EÓRICO
1.1. Cancro coloretal
1.1.1. Fatores de risco
As taxas de incidência e mortalidade apresentam uma tendência de crescimento nos países industrializados, onde o consumo per capita de carnes, gorduras saturadas e hidratos de carbono é elevado, considerando-se a segunda causa de morte e a terceira neoplasia maligna mais comum, que atinge igualmente homens e mulheres (Cotrim & Pereira, 2007). Na opinião de Habr-Gama (2005), o CCR apresenta uma incidência variável nos diferentes países, inclusive entre as diferentes populações de um mesmo país. As taxas de incidência nos países economicamente mais ricos e industrializados, como a América do Norte, a Austrália e a Nova Zelândia, apresentam-se mais elevadas pelo facto de se verificar um elevado consumo de carnes, gorduras, hidratos de carbono e refinados. Por outro lado, Bresalier (2006) considera que as taxas de incidência na europa são intermédias e mais reduzidas na Ásia e na América do Sul.
Nas últimas décadas, vários estudos têm sido realizados no sentido de compreender com precisão as causas etiológicas do CCR, no entanto, estas continuam desconhecidas. Na opinião de Murphy (2000), a etiologia do cancro é seguramente multifatorial. Todavia, estudos epidemiológicos mais recentes indicam que o risco individual de desenvolver CCR é variável de acordo com a dieta, o estilo de vida global, a predisposição genética e as alterações intestinais das pessoas. Estes fatores, referidos por diversos autores (A. Miranda & Leitão, 1994; Forno, 2009), contribuem significativamente para o desenvolvimento do CCR.
Neste sentido, a Figura 1 evidencia o risco da população vir a ter CCR, comparativamente com os indivíduos que apresentam fatores de risco para a mesma doença.
Figura 1. Risco da população ter CCR (Adaptado de M. Gomes, Silva & Pena, 2007)
A incidência do CCR está relacionada com áreas interregionais, incluindo as diferenças entre grupos populacionais da mesma região, mas com estilos de vida diferentes. Assim sendo, pensa-se que o meio ambiente desempenha um papel importante no aparecimento desta doença. Por outro lado, as migrações de grupos populacionais e as mudanças rápidas na incidência dos países que adquirem certos hábitos alimentares e práticas ocidentais, fundamentam este facto.
No dizer de vários autores, existem hoje evidências, aparentemente irrefutáveis, de que esta doença está associada a fatores nutricionais, ambientais e história familiar (G. Silva & Pereira, 1999). Neste sentido, de entre os fatores determinantes de CCR, a alimentação tem vindo a adquirir uma importância crescente. A dieta é um fator de risco muito importante para este tipo de cancro. Uma dieta com alto conteúdo em fibras reduz a probabilidade de desenvolvimento do cancro do cólon. Uma dieta com alto conteúdo em alimentos fumados e picantes aumenta a probabilidade de desenvolvimento do cancro do cólon. As evidências atuais sugerem que uma dieta, na qual menos de 30% das calorias provêm das gorduras, reduz o risco de cancro do cólon (Bulman, 2002). Deste modo, a grande vantagem de uma alimentação rica em fibras é que reduz o tempo de contacto das substâncias nocivas ao organismo com a mucosa do intestino (cólon), estimulando o seu funcionamento e, consequentemente, aumenta o volume das fezes facilitando, assim, o número de dejeções fisiológicas (Ravasco, Grillo & Camilo, 2002). Para estes autores, parece haver uma
evidência segura de que as dietas ricas em gorduras favorecem o desenvolvimento da flora bacteriana, contendo organismos capazes de degradar os sais biliares em elementos carcinogénicos para a mucosa intestinal. A concentração de ácidos biliares está aumentada em indivíduos com uma alimentação rica em gorduras, pelo que os doentes com CCR apresentam concentrações elevadas destes ácidos (Cotrim & Pereira, 2007). Neste sentido, Bulman (2002) considera que uma alimentação rica em carne e gorduras propicia um risco elevado para desenvolvimento de CCR, tal como uma alimentação vegetariana garante a proteção contra este tipo de cancro. Ora, uma alimentação rica em frutas e vegetais não só diminui o risco de cancro do cólon, como também diminui a fixação de carcinogéneos pelo efeito antioxidante e consequente inibição das nitrosaminas. O mesmo se passa com alimentos ricos em caroteno (vitaminas A e C), que têm efeito antioxidante na quimioprevenção de CCR.
Relativamente à dieta, as recomendações sugeridas pelo Comité para os Aspetos Médicos dos Alimentos do Departament of Health (1991), aconselham o aumento do consumo de fruta e vegetais na dieta da população em geral e, em particular, nos doentes com ostomia (Bulman, 2002).
Um tipo de alimentação com baixo teor de fibras torna mais lenta a passagem das fezes no cólon, aumentando potencialmente o contacto com os carcinogéneos de origem endógena ou exógena (Pinho & Rossi, 1999).
Ainda no que diz respeito à dieta, alguns estudos apontam que uma adequada ingestão de frutas e vegetais pode reduzir o risco de CCR (Bingham et al., 2003; IARC, 2003) e alimentos ricos em ácidos gordos ómega-3, como o peixe, podem contribuir para a prevenção do CCR (Ralph, Chapman, Xu & O’Connell, 2006; Zandonai, Sonobe & Sawada, 2012). Contrariamente, o consumo de carnes processadas está associado ao CCR (Cross & Sinha, 2004; Norat et al., 2005), pelo que a dieta constitui-se um estilo de vida que interfere com o desenvolvimento de CCR (S. Figueriredo, 2013).
De acordo com as recomendações da American Cancer Society (1996), os aspetos dietéticos devem assentar numa alimentação com poucas gorduras e muita fibra, incluindo cereais integrais, frutas e vegetais, consumindo preferencialmente vegetais crucíferos, como os grelos, as couves e os brócolos,
que contribuem substancialmente para a redução do risco de cancro do cólon. Nesta perspetiva, Murphy (2000) refere algumas recomendações, como sejam:
Reduzir de 40% para 30% a ingestão calórica diária de gorduras saturadas e insaturadas; aumentar a ingestão de fibras, frutos frescos e vegetais: repolho, brócolos, couve-de-bruxelas, couve-rábano, couve-flor, pão integral e cereais; consumir alimentos ricos em vitamina C: citrinos, morangos, groselha, repolho, tomate e nozes; comer alimentos ricos em vitamina A: pêssego, melão, damasco, vegetais verdes e amarelos (cenoura, espinafre, abóbora, espargo e batata doce); consumir alimentos ricos em vitamina E: vegetais oleosos, soja, semente de girassol e folhas de alface. (p.137)
Para além da dieta alimentar, a predisposição genética desempenha um papel determinante para estratificar a frequência e o risco de aparecimento de CCR entre familiares. Os familiares próximos de uma pessoa com CCR têm maior probabilidade de vir a desenvolver a doença, ou ainda se o familiar teve a doença ainda jovem, assim como os familiares com história de CCR, o risco ainda é maior. No dizer de Bulman (2002), alguns estudos realizados por Varma (1991) apontam que a predisposição genética é responsável por 7% a 20% dos casos de CCR.
Relativamente ao fator socioeconómico, considerado como um fator de risco para o aparecimento de CCR, vários estudos realizados referem existir uma relação direta no seu aparecimento. As populações com maior poder económico consomem alimentos com maior concentração de gorduras de origem animal, o que não acontece com as populações com baixo poder económico que, por sua vez, consomem maior quantidade de fibras de origem vegetal.
A idade também tem influência no aparecimento de CCR, uma vez que 90% dos casos surge a partir dos 50 anos em ambos os sexos e com maior frequência nos países industrializados (Murphy, 2000).
A frequência real com que ocorre o CCR torna obrigatório, para os médicos, um conhecimento mínimo da sua evolução e tratamento. A facilidade com que, em muitas circunstâncias, pode ser realizado um diagnóstico criterioso, traduz-se por efeitos favoravelmente significativos, que justificam ainda mais a importância de todos os médicos investigarem criteriosamente esta doença. Por outro lado, o aumento significativo dos números justifica que, para além do diagnóstico
precoce, é preciso apostar em campanhas de sensibilização e informação, promovendo o rastreio nacional junto dos portugueses a partir dos 50 anos de idade. Assim, no dizer da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia, a prevenção constitui a melhor arma para a diminuição da incidência e mortalidade de CCR (C. Marques, 2004).