• Nenhum resultado encontrado

PARTE I ENQUADRAMENTO TEÓRICO

4. ENVELHECIMENTO E MAUS-TRATOS

4.4. Fatores de risco/determinantes

É essencial compreender a perspetiva do cuidador informal e os aspetos positivos e negativos associados à prestação de cuidados (Figueiredo, 2007). De

31

considerar que o mau trato predomina quando o stress é negativo para o bem estar do cuidador (Ekwall & Hallberg, 2007).

Segundo Figueiredo (2007)como aspetos motivadores mais comuns podem estar presentes: a) a nível interpessoal - proporcionar pequenos agrados; ver a pessoa idosa feliz, manter a sua dignidade e autoestima; aumentar a proximidade com a pessoa idosa e melhorar as relações familiares; experimentar expressões de apreço pela pessoa idosa, família, amigos e profissionais, e amor e afeto pela pessoa idosa; b) a nível intrapessoal - cuidar bem da pessoa idosa; desenvolver significados e valores familiares; retribuição da amabilidade passada; expressão da religiosidade; desenvolvimento de sentido de realização, de competência e de dever; desenvolvimentos de tolerância e paciência; redução de culpa.

A teoria bifatorial de Herzberg pode ser útil para a compreensão da relação entre o nível de satisfação/insatisfação e o stress positivo/negativo gerado nos cuidadores informais (Ekwall & Hallberg, 2007). O autor da teoria distingue necessidades motivadoras e higiénicas (Ekwall & Hallberg, 2007). As necessidades motivadoras são intrínsecas, dependem da satisfação na realização das tarefas no trabalho. O papel do efeito motivador é profundo e inclui sentimentos de crescimento individual, reconhecimento profissional e autorrealização (Gouveia & Batista, 2007). As necessidades higiénicas são extrínsecas, estão fora do controlo da pessoa, e abrangem as condições externas como o salário, os benefícios sociais, as condições de trabalho, as políticas, a segurança (Gouveia & Batista, 2007). Herzberg verificou ainda que quando as necessidades higiénicas são ótimas elas apenas evitam a insatisfação mas não conseguem elevar a satisfação por muito tempo (Gouveia & Batista, 2007). Percebe-se então que as condições higiénicas são básicas para o cuidador e as necessidades motivadoras essenciais para uma boa relação de cuidado.

Os determinantes de mau-trato são inconsistentes de um estudo para o outro mas alguns são comuns e muitas vezes classificados de acordo com três categorias: caraterísticas do cuidador, caraterísticas da pessoa idosa e qualidade da relação (Walsh & Yon, 2012).

Segundo Brozowski & Hall (2004) nas investigações é possível identificar alguns padrões entre a vítima, o agressor e o tipo de abuso. As caraterísticas das pessoas idosas são as que mais predizem o abandono e o abuso financeiro. Já o abuso físico e psicológico estão mais relacionados com a qualidade da relação e as caraterísticas dos agressores (as cited in Walsh & Yon, 2012, p. 109).

32

A literatura sugere também que os fatores de risco associados às caraterísticas dos cuidadores são mais preditivos de maus-tratos que os associados com as caraterísticas das pessoas idosas (Anetzberger, 2000). O contexto envolvente que estimula o mau trato também se revela importante (Anetzberger, 2000).

Os agressores podem ser da família ou membros não familiares, mas na maioria das vezes são filhos adultos, parceiros íntimos ou cônjuges (APAV, 2013a; Walsh & Yon, 2012).

A maioria dos estudos ressalta a forte associação entre maus-tratos às pessoas idosas e a presença de doença mental e dependência química dos cuidadores (Bristowe & Collins, 1989; Krug et al., 2002; Minayo, 2003; Sanmartín et al., 2001). Revelam também maior propensão para apresentarem perturbações de personalidade e problemas relacionados com o álcool (Homer & Gilleard, 1990; O´Leary, 1993; Reay & Browne, 2001). Quanto à exploração financeira constata-se que normalmente é a ganância que motiva uma proporção substancial de exploração. Situações de membros da família desempregados ou que tenham problemas financeiros também podem ser motivos para que tomem a gestão do dinheiro da pessoa idosa (Welfel, Danzinger, & Santoro, 2000).

O abuso muitas vezes resulta da continuação de um padrão familiar disfuncional (Ferreira-Alves, 2005). Um cuidador com história de violência tende a manter o mesmo padrão (Erlingsson, Carlson, & Saveman, 2003). Da mesma forma, uma pessoa idosa que tenha sido vítima de mau trato no passado tende a voltar a ser (Krug et al., 2002; Reis, 2000).

No que concerne à especificidade de género a maioria dos estudos consideram que as mulheres idosas, proporcionalmente, são mais abusadas que os homens (Minayo, 2003; Penhale, 1999). No estudo de Pillemer & Finkelhor (1988) homens e mulheres assumem a mesma proporção de maus-tratos, contudo o grau de gravidade foi notavelmente maior nas mulheres.

As pessoas idosas mais vulneráveis são as dependentes física ou mentalmente, e que necessitam de cuidados intensivos nas AVD´s (as cited in Minayo, 2003, p. 789). Entretanto alguns estudos vêm desmistificando a ideia de que as situações de maus- tratos tendem a piorar, quanto mais a pessoa idosa for dependente e mais tempo exigir atenção e dedicação (Krug et al., 2002; Minayo, 2003).

Em particular, nas situações de demência verifica-se uma maior probabilidade de abuso (as cited in Ferreira-Alves, 2005, p. 32), nomeadamente quando estas pessoas idosas apresentam atitudes agressivas e comportamentos disruptivos para com os

33

cuidadores, o que conduz a violência física (McDonald & Collins, 2000; Pillemer & Suitor, 1992).

Relativamente à autonegligência existem vários fatores de risco e que estão sobretudo relacionados com as caraterísticas da pessoa idosa: sintomas depressivos clinicamente significativos, défice cognitivo, sexo masculino, baixos rendimentos, idade avançada, viver sozinho (Abrams, Lachs, McAvay, Keohane, & Bruce, 2002), comorbilidade, problemas de saúde mental, abuso de álcool (Day et al., 2013) e apoio social reduzido (Tierney et al., 2004).

Alguns modelos teóricos retratam uma pessoa idosa dependente e um cuidador sobrecarregado, em que o nível de stress do cuidador constituí um fator de risco de mau trato. Atualmente as pesquisas não descuram o efeito do stress, mas entendem-no no contexto global da qualidade da relação como efeito causal (Krug et al., 2002).

A pessoa idosa está mais em risco quando vive com o próprio cuidador (Krug et al., 2002; Pillemer & Suitor, 1992), se existem dificuldades financeiras por parte do cuidador (Krug et al., 2002) ou mesmo a dependência em relação à pessoa idosa para habitação e assistência financeira (Ferreira-Alves, 2005, p. 26; Krug et al., 2002, p.131). Segundo Kleinschmidt (1997) e Reay & Browne (2001) a relação transforma-se em violenta se o cuidador se isola socialmente, possui laços débeis com a pessoa idosa ou foi vítima de violência dela no passado. A qualidade da relação anterior dos envolvidos também prevê a forma positiva ou negativa como o cuidador vê a sua tarefa, como ato de dedicação amorosa ou como castigo, o que pode determinar estados de depressão e comportamentos violentos (Krug et al., 2002; Penhale, 1999; Willamson & Shaffer, 2001).

Antes a ênfase era colocada apenas nos fatores individuais e interpessoais como fatores de risco de mau trato. Atualmente reconhece-se nas normas sociais e na cultura um importante papel (Krug et al., 2002).

O abuso pode surgir devido às expetativas da sociedade que espera que a família cuide das pessoas idosas (as cited in Erlingsson et al., 2003, p. 196). Pode ainda resultar de atitudes ageistas. O facto de as pessoas idosas serem vistas como menos capazes e dependentes torna-as um alvo mais fácil de exploração e mau trato (Krug et al., 2002).

A nível comunitário, o isolamento social da família surge como um dos aspetos mais significativos na previsão de mau trato (Ferreira-Alves, 2005; Krug et al., 2002; Pillemer & Suitor, 1992). As comunidades heterogéneas e com pouca coesão social,

34

caracterizadas por problemas de tráfico de droga, desemprego, pobreza ou pouco apoio institucional estão mais associados à violência (Krug et al., 2002).

Documentos relacionados