CAPÍTULO III − VIOLÊNCIA, MAUS-TRATOS E NEGLIGÊNCIA CONTRA A
3.2 Fatores de risco e consequências psicossociais
Para além dos estudos empíricos sobre as ocorrências de violência, maus-tratos e negligência contra as pessoas idosas, torna-se necessário indicar as condições que estão na base de tais atos e quais os mecanismos que a sociedade estabeleceu para que seja
66 possível efetuar uma denúncia. Além disso, do ponto de vista dos próprios idosos, é importante delimitar quais os desdobramentos psicológicos e sociais da vitimização.
Através de estudos qualitativos em vários países, como Austrália, Brasil, Chile, Costa Rica, Quênia, Singapura, Espanha e Suíça, a OMS (WHO-CIG, 2008) afirma que é de suma necessidade que se elabore um instrumento de medida adequado, que cubra as dimensões principais dos maus-tratos aos idosos. Tal instrumento poderia ser um passo crítico para a prevenção e detecção deste lamentável agravo que acomete os idosos de todo o mundo. Até o presente momento, a elaboração de um instrumento universal, aplicável a todos os contextos culturais e geográficos, ainda não foi possível. Não obstante, a organização acredita que tal instrumento deve ser elaborado com o esforço de todos os pesquisadores interessados pela temática, de modo a se tornar o ponto de partida para aumentar a consciência sobre os maus-tratos contra as pessoas idosas, no âmbito das sociedades e das equipes de saúde.
No que concerne às consequências da violência na vida dos idosos, a observação de sintomas é importante para se detectar os agravos que são imputados à saúde. De acordo com Elsner, Pavan e Guedes (2007), mesmo sabendo que a ausência de sinais e sintomas não assegura a inexistência de violência contra os idosos, existem alguns indicadores que servem de guia, quando se suspeita de uma dessas situações.
Os indicadores físicos mais comuns, nos casos dos idosos vitimados, são: perda de peso, desnutrição ou desidratação, sem uma patologia de base que justifique (tais como marcas, hematomas, queimaduras, lacerações, úlceras de pressão e ferimentos); palidez, face abatida, olheiras, evidência de descuido e má higiene da pele; vestuário inadequado, sujo, inapropriado para a estação; ausência ou estado ruim de conservação de próteses; evidência de administração incorreta de medicamentos; e evidência de traumas ou relatos de acidentes inexplicáveis (Elsner, Pavan & Guedes, op. cit.).
67 Os autores relatam que, após ter sofrido episódios de violência, o idoso pode demonstrar: passividade, resignação, tristeza, desesperança e falta de defesa; ansiedade, agitação, medo e exacerbação de quadro depressivo; relatos contraditórios, receio de falar livremente e relutância em manter qualquer tipo de contato verbal ou físico com o cuidador; e busca ou mudança frequente de profissionais e/ou centros de atenção médica. Existem ainda os indicadores sexuais, que são formados por: conduta sexual incompatível com a personalidade prévia; comportamento diferente e inapropriado diante da presença de certas pessoas (comportamento exibicionista, comentários fora de lugar); conduta agressiva, isolamento e autoagressão; infecções recorrentes, dor, hematomas e sangramento na região anal e genital; dificuldade para a marcha e dor abdominal sem causa aparente; e vestuário íntimo rasgado ou manchado de sangue.
Entre os indicadores de violência financeira ou patrimonial, observam-se as retiradas de quantias de dinheiro que são incomuns, atípicas ou acima dos recursos financeiros do idoso; mudanças no testamento ou em títulos de propriedades para deixar a casa ou bens para “novos amigos e parentes”; ausência ou venda de bens sem o conhecimento do próprio idoso ou de familiares; o idoso não consegue encontrar as jóias ou pertences pessoais; atividade suspeita em contas de cartão de crédito; nível de assistência incompatível com a renda e os bens do idoso (Elsner, Pavan e Guedes, op. cit.).
O relatório da OMS (WHO-CIG, 2008) aponta os indicadores relativos às pessoas que cuidam dos idosos, que podem constituir riscos para a ocorrência de violência, maus-tratos e negligência: o cuidador aparece cansado ou estressado; parece excessivamente preocupado ou despreocupado com a saúde do idoso; censura o idoso por atos como incontinências; comporta-se agressivamente; trata o idoso como uma criança ou de modo desumano; tem histórico de abuso de substâncias químicas ou de abusar de outras pessoas; não quer ou evita que o idoso seja entrevistado; responde aos questionários de
68 modo defensivo, evasivo ou hostil; e tem estado cuidando do idoso por um longo período de tempo e em horário integral, sem descanso.
Quanto às características dos agressores, Gaioli e Rodrigues (2008) resumem os seguintes sinais de vulnerabilidade e risco: os agressores vivem na mesma casa que a vítima; são filhos dependentes financeiramente de pais com idade avançada; os idosos são dependentes das famílias dos seus filhos para a sua manutenção; os idosos são doentes mentais; abuso de álcool e drogas praticado pelos filhos ou pelo próprio idoso; isolamento social dos familiares ou do idoso; história de agressão anterior contra o idoso e história de violência na família.
Sob o ponto de vista dos mecanismos de denúncia, registra-se um baixo índice de informações, que foi anunciado no início dos estudos sobre maus-tratos, realizados nos Estados Unidos, em 1981 e recentemente relatado pelo National Centre on Elder Abuse (NCEA, 2006). A mesma constatação foi feita pelos estudos de Queiroz (2009) e Faleiros (2007). Esta constatação pode servir para endossar a existência do que o NCEA (1998) denominou de Teoria do Iceberg, tal como demonstrada na Figura 2.
Figura 2 − Esquema ilustrativo da Teoria do Iceberg. Fonte: NEAS (1998)
69 O iceberg significa uma grande massa de gelo flutuante, que se deslocou de uma geleira marítima, que contém uma pequena parte visível na superfície e uma grande massa encoberta e dentro do mar. De maneira análoga, a Teoria do Iceberg busca explicar os índices de casos de violência e maus-tratos contra idosos: no topo da Figura 2, que representa a pequena parte visível, encontram-se os casos relatados; uma grande área encoberta, subdividida em outra maior, corresponde aos casos não-relatados e identificados, enquanto que uma parte menor e mais profunda significa os casos não- identificados e, portanto, não-relatados. A figura demonstra o baixo índice de informações dos casos de maus-tratos relatados nos Estados Unidos.
No Brasil, segundo o Ministério da Saúde (Brasil, 2001a), as fontes oficiais sobre violências e acidentes, são: os boletins de ocorrências policiais, os boletins do Departamento Nacional de Estrada e Rodagem (DNER); as comunicações de acidentes de trabalho (CAT); os sistemas de informação hospitalares; os sistemas de informação de mortalidade do Ministério de Saúde; e o sistema nacional de informações tóxico- farmacológicas.
Alves (2001) traz uma importante contribuição para a melhoria do levantamento de dados, a partir das conclusões do relatório do Ligue-Idoso, que é uma referência no Rio de Janeiro para as denúncias sobre violência contra a pessoa idosa. Além de atender ao telefone e registrar as denúncias, o serviço tem se preocupado com o encaminhamento aos órgãos competentes. O encaminhamento obedece a uma classificação prévia do conteúdo dos telefonemas. A classificação é elaborada pelas próprias assistentes sociais, junto com a coordenadora do programa e organiza-se da seguinte forma:
a) Denúncias de maus-tratos: envolvem conflito familiar, conflito de vizinhança, conflito entre casal, conflito interpessoal, agressão física, ameaça de morte, negligência asilar, negligência hospitalar, discriminação, abandono e apropriação de bens.
70 Cada um desses tipos de maus-tratos é definido segundo suas características: (i) conflitos são entendidos como "brigas, xingamentos (sic), discussão e humilhação, sem agressão física"; (ii) abandono é o nome que se dá "quando o idoso é abandonado em hospitais, instituição asilar, residência ou nas ruas por familiares"; (iii) apropriação de bens, "quando o denunciante ou o próprio idoso declara que algum membro da família, vizinho, empregado ou procurador, apropriou-se de seus rendimentos, de seu imóvel ou de qualquer outro bem que possua, sem o seu aval"; (iv) negligência asilar, "quando o denunciante relata: que o responsável técnico pela instituição não possui título de qualificação profissional na área de saúde; que a instituição não possui instalações físicas adequadas; que há inexistência sistemática de operacionalização dos serviços de substituição dos utensílios de cama, mesa e banho; que há inexistência de quadro de funcionários qualificados para atender às necessidades básicas do idoso, tais como saúde, alimentação, higiene e repouso; e que a instituição asilar pratica lesões físicas e agressões verbais"; (v) negligência hospitalar, "quando o denunciante relata que o idoso não vem recebendo o atendimento adequado por parte da equipe da unidade de saúde, no que se refere aos horários de medicação e enfermagem"; (vi) discriminação, "quando o idoso relata que lhe foi negado o direito de abrir crediários, seguros de saúde e seguro de vida, restringindo assim o exercício de cidadania”;
b) Denúncias de desrespeito: descumprimento das leis que amparam o idoso, com referência a transportes, atendimento em repartições públicas, bancos, supermercados, ingressos para a casa de cultura, internações e atendimentos hospitalares, pagamento de impostos e utilização de espaços públicos;
c) Denúncias previdenciárias: problemas na revisão de cálculos de aposentadorias e pensões, interrupção de pagamento de benefícios, andamento de
71 processos iniciais de aposentadoria e pensão, recadastramento de beneficiários, liberação de pagamento de benefícios e pagamento bloqueado de benefícios;
d) Denúncias de desaparecimento;
e) Ouvidoria: situações de atendimento imediato, sem que haja demanda de encaminhamento formal do Ligue-Idoso ao órgão competente. Destina-se a orientar e esclarecer o idoso ou o denunciante quanto aos seus direitos e reivindicações junto aos órgãos de competência (Alves, op. cit.).
O registro dos casos de violência no Brasil e em todo mundo é necessário para que se alcance uma base quantitativa de informação confiável, de modo a possibilitar o desenvolvimento de políticas públicas e sociais para a prevenção e o tratamento dos abusos contra idosos. Mas além da compilação dos registros, a partir das fontes institucionais, torna-se essencial incluir, entre as evidências empíricas, o senso comum, as crenças, as opiniões dos próprios atores sociais, que são as vítimas da violência, assim como a veiculação midiática dos atos cometidos.
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