1. LEITURAS QUE CONSTITUEM ESSA INVESTIGAÇÃO
1.3 AULA DE LEITURA EM LE
1.3.2 Fatores implicados no planejamento da aula de leitura
Esta seção traz a descrição de alguns aspectos que devem ser levados em consideração não apenas durante o planejamento de uma aula de leitura, como também durante a sua execução. Entre eles estão: necessidades, interesses e habilidades e variedade das atividades.
1.3.2.1 Necessidades, interesses e habilidades
Aebersold e Field (2008) defendem o ponto de vista segundo o qual os alunos são levados em conta não apenas no planejamento do curso, mas também em cada aula. Nessa perspectiva, o que acontece em classe (por exemplo, comentários e reações) serve como um guia de seus interesses, necessidades e habilidades.
As autoras acreditam que, assim como os alunos precisam desenvolver seu conhecimento sobre como abordar um texto na LE, eles igualmente necessitam adquirir confiança em fazer isso. Envolvê-los no processo ajuda nessa questão.
Tão importante quanto considerar informações advindas dos alunos é diferenciar os três termos (necessidade, interesse e habilidades), uma vez que por serem parcialmente semelhantes, por vezes, se confundem.
A discussão a respeito de necessidades linguageiras começou a partir dos anos 70 com as pesquisas do Conselho da Europa. Segundo o Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas (QECRL), em qualquer análise de situação de E/A, os objetivos devem ser definidos em função das necessidades dos alunos, tendo em vista suas características e seus recursos.
Para Richterich (1980), há necessidades objetivas e subjetivas. O quadro abaixo apresenta as características e origem de cada um dos tipos:
Tabela 4 - Necessidades objetivas e subjetivas (características e origem)
Características Origem
Necessidades objetivas
Previsíveis e generalizáveis; Podem ser mais ou menos generalizadas a partir de uma análise de situações típicas da vida;
Necessidades derivadas de diferentes tipos de informação factual sobre os alunos, seu uso da língua em situações reais de comunicação, além de sua proficiência e dificuldades linguísticas atuais;
Necessidades subjetivas
Não generalizáveis ; Imprevisíveis;
Únicas para cada indivíduo.
Necessidades cognitivas e afetivas do aluno em situação de aprendizagem procedem de fatores como personalidades, confiança, atitudes, desejos e expectativas relacionadas à aprendizagem da língua, ao seu estilo cognitivo individual e às estratégias de aprendizagem.
(Adaptado de RICHTERICH, 1980) Para Galisson e Coste (1976), como o conceito de interesse está diretamente associado à psicologia da motivação, muitas vezes a sua definição é confundida com a de motivação. Contudo, quando se relaciona o termo especificadamente ao E/A de línguas, como faz o QECRL (2001), ele passa a estar ligado àquilo que conduz o sujeito a tomar decisões sobre como agir.
Ainda segundo o mesmo documento do Conselho da Europa, ao se aprender uma língua, os interesses costumam ser diversos, o que pode ocasionar situações de conflito, como é o caso de alunos cujo estudo é financiado por alguma instituição: nem sempre os interesses de ambos os lados estarão de acordo.
Quando Aebersold e Field (2008) mencionaram a habilidade como um dos fatores a serem considerados durante o planejamento, as autoras estavam se referindo ao nível de
proficiência dos alunos. Este costuma variar não apenas entre classes, mas também dentro de uma mesma turma. Daí a necessidade de adequar a aula para que não fique nem muito fácil, nem demasiadamente difícil, o que influenciaria na motivação dos alunos em dela participar.
A habilidade, segundo Cuq (2003), vai além do conhecimento sobre a língua, implicando também saberes declarativos e processuais. No primeiro tipo, conhecido ainda apenas como saberes, o aluno é convidado a participar da cultura e da língua do outro, não que alguém precise transformar-se em um falante nativo para aprender uma LE, mas que a pessoa saiba se comportar na nova língua. O segundo tipo, também chamado de saber fazer, corresponde à capacidade de usar de forma consistente e adequada a LE, em outras palavras, é o saber usar a língua do outro sem desrespeitá-lo, estando aí incluso o uso da comunicação não-verbal (olhares, proxêmica, cinética).
Para Brown (2007) é a habilidade dos alunos que influenciará: O papel do professor na sala de aula;
O nível de linguagem que o professor usa; A autenticidade dos documentos;
O nível de fluência e precisão cobrados dos alunos; A criatividade dos alunos;
As técnicas escolhidas pelo professor;
Os objetivos a serem a alcançados em cada atividade.
Com base na análise das necessidades, interesses e habilidades é possível estabelecer objetivos para o curso todo e para cada aula, seja ela de leitura ou não. Importante ainda é salientar que esses três aspectos são importantes, mas não suficientes para determinar os objetivos, pois estão também envolvidos outros aspectos como política(s) da instituição, conteúdo, variedade etc.
1.3.2.2 Variedade das atividades
Segundo Aebersold e Field (2008), é exatamente a variedade que mantém o interesse dos alunos. Para elas, a
Variedade em aulas de leitura é virtualmente ilimitada. O segredo de usar variedade em atividades é equilibrar o velho e o novo, ou o conhecido e o desconhecido, para manter os alunos mentalmente trabalhando em direção aos objetivos da aula (idem, p. 191) 16.
De acordo com as autoras, principalmente nos níveis iniciais, é necessário mais tempo para que os alunos se sintam seguros quanto ao que precisam fazer, essencialmente nos casos em que o professor dá instruções na LE. Daí a necessidade da repetição elaborada em forma de sequência de atividades. Aebersold e Field (idem) sugerem formas de fazer essa variação acontecer em sala:
Considerar estilos de aprendizagem diferentes; Usar vários modelos (oral, visual, gestual etc); Variar a estrutura das atividades;
Usar diferentes formas de interação (pares, grupos etc). Farrell (2003) adiciona outras duas sugestões a essa lista;
Enfatizar (e depois reforçar) diferentes aspectos do processo de leitura; Variar as proporções de leitura e releitura.
Certamente, a variedade das atividades ajuda a evitar a monotonia e a manter o interesse e a motivação. Mas não é apenas dessa forma que se faz variação, há ainda a necessidade de variar textos e conteúdos.
Para Farrell (2003), ainda que o manual didático já traga alguns textos, é importante que material suplementar de leitura também seja selecionado dependendo do nível de necessidade dos alunos e do propósito da aula. Segundo esse autor, o objetivo de uma aula de leitura é sempre o prazer da leitura. Embora seja difícil, não é impossível sentir prazer ao ler algo escolhido por uma terceira pessoa17. É ai então que outros textos podem ser usados para apoiar e enriquecer técnicas e estratégias que professores utilizam a cada aula.
16 Trecho original: Variety in reading classes is virtually unlimited. The secret to use variety in activities is to
balance the old and the new, or the known and the unknown, in order to keep students mentally working toward the objectives of the class.
17 Os manuais são, via de regra, escolhidos pelos professores, antes mesmo que eles conheçam seus alunos. Daí
Sabe-se da necessidade de incorporar às aulas textos interessantes. Como então descobrir quais os que interessam aos alunos? Farrell (idem, p. 17-8) lista algumas perguntas que podem ajudar nessa tarefa:
Com que frequência você lê? (na língua estudada ou na sua própria língua) Por que você lê? Como a leitura faz você se sentir?
A leitura o ajuda? Em caso afirmativo, como? Você lê em casa? Com que frequência? Que tipos de livros, revistas, jornais você lê?
Como você sabe se gostará do livro que está comprando na livraria (ou examinando na biblioteca)?
Você tem um livro, revista ou jornal favorito? Por quê? Você tem um autor favorito? Por quê?
A partir de informações obtidas por meio de perguntas como essas, é possível trazer para a sala de aula textos relacionados aos interesses dos alunos. Lembramos que, após o levantamento desses interesses, será necessário ainda fazer uma nova seleção, pois nem sempre as preferências de todos de um mesmo grupo são semelhantes. E o professor tem ainda a opção de trazer textos diferentes em uma mesma turma.