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1 INTRODUÇÃO

2.6 FATORES QUE INLUENCIAM PARA O AUMENTO DO ENDIVIDAMENTO

Diversos acontecimentos podem afligir, direta ou indiretamente, uma pequena ou vasta gama de trabalhadores quanto ao que diz respeito a como e quando se utilizar e gastar seus recursos. Os fatores externos e os efeitos sociais por eles provocados podem alterar seus comportamentos e planos em meio ao que se tem. Dentre os fatores, de forma geral, encontram-se os momentos de crises econômicas e financeiras, as altas taxas de juros e os momentos de aceleração inflacionária, que trazem como consequência a diminuição e realocação interna da produção diante do fechamento de inúmeras fábricas e aumento dos preços de produtos e serviços. Por serem algo tão amplo, os brasileiros e empresas de pequeno porte não priorizam, de imediato, certa atenção e preocupação com relação a isto, até o momento em que aparecem os riscos, comprometendo seus negócios e planejamentos.

Ainda há outras razões pelas quais as pessoas se endividam, presentados por Araújo (2014, p. 18):

• Diminuição da renda e a não adaptação das finanças; • Desemprego, sem ter o patrimônio mínimo de sobrevivência; • Despesas com saúde familiar;

• Gastar o salário sem ao menos recebê-lo;

• Falta da capacidade para administrar as finanças pessoais e/ou familiar; • Gastar toda a renda mensal, sem poupar nada;

• Falta de compreensão e companheirismo entre os membros da família.

Os endividados gastam o que não possuem e acreditam ter uma capacidade financeira futura, para honrar suas dívidas, que não existe. Vale ressaltar que, em alguns casos, as dívidas podem vir de um planejamento financeiro predestinando ao seu surgimento, à chamada “dívida boa”, que foi destinada a uma necessidade que estava prevista, dentro de um orçamento futuro, com um capital já comprometido para o gasto e feito de forma consciente.

Com relação à inflação, o Departamento de Educação Financeira do Banco Central (2013) fala que muitas pessoas gastam imediatamente sua renda recebida, em virtude de o dinheiro se

acabar com o tempo. Em tempos de hiperinflação é difícil se lembrar dos preços dos produtos, visto que o valor dos mesmos se altera a todo instante, levando o consumidor a comprar, em grande quantidade, um produto que se encontra em menor valor. Assim, o consumidor se encontra perdido, sem ter uma melhor referência para saber se determinado bem estava caro ou não, tornando-se quase impossível de se planejar neste ambiente.

O consumidor atento perceberá de cara o aumento dos preços em alguns setores da economia, tornando-se mais generalizados, aumentando a inflação. Dentre as consequências prováveis, além da desvalorização da moeda do país, há também o aumento do desemprego, elevação dos empréstimos e oferta de crédito e uma visão negativa da economia brasileira pelo mercado internacional, diminuindo os investimentos no setor produtivo.

Em pesquisa dirigida aos consumidores, a Fecomércio (2016) aponta alguns motivos que concorrem para o aumento no endividamento, conforme a Figura 04:

Figura 04 - Motivos do desequilíbrio financeiro dos consumidores (%)

Para Santos (2014), há outros fatores que também podem ser apontados para o aumento do endividamento e inadimplência: o consumo excessivo, já abordado anteriormente, e o materialismo. Conforme Santos (2014, p. 241):

O materialismo refere-se à situação na qual as posses materiais atuam como um importante fator para o estabelecimento e manutenção de estados mentais positivos, como apego aos objetos funcionando como bem-estar para as pessoas. O consumo excessivo, por sua vez, leva a comportamento de compras descontroladas, inclusive além do que permite sua vida financeira ou renda.

Assim, determinadas situações, além das mencionadas, convertem-se em fatores determinantes para este desequilíbrio financeiro e boa parte destas está ligada à falta de ações e hábitos da própria família ou indivíduo, tal como é retratado por Santos (2014) na Figura 05:

Figura 05 – Fatores determinantes do desequilíbrio financeiro

Fonte: Santos (2014, p. 259).

Uma conjunção de fatos leva as pessoas ao descontrole, sobretudo frente ao fácil acesso ao crédito, na forma de empréstimos e financiamentos, muitas vezes com o intuito de pagar outras dívidas. Diante disto, torna-se importante utilizar práticas de controle e planejamento financeiro, além de um estudo de como anda o mercado, a economia, os preços e parcelamentos dos produtos e fazer projeções de como estará futuramente, em relação ao que possui e terá. Calhau (2015), em seu site Educação financeira para todos, afirma que:

Não é hora de pegar novos empréstimos, gastar acima do que se ganha ou agir de forma perdulária com o dinheiro. É muito importante ter uma reserva financeira e ser flexível quanto aos hábitos de consumo nesses momentos. Muita gente, que era rica por longos anos, não soube se preparar para isso e hoje não tem mais nada. Famílias dizimaram em pouco mais de uma década patrimônios acumulados por gerações. Muitas não deram atenção aos momentos econômicos de crise e, quando foram reagir, já era tarde.

Administrar bem os recursos e ser cauteloso nas decisões traz mais segurança e menos riscos em vista ao que se irá obter. Brito (2002, apud ARAÚJO, 2014, p. 18) apresenta alguns passos iniciais para a diminuição das dívidas:

• Tomar ciência do “quanto” você efetivamente deve; • Fazer orçamento pessoal, no mínimo, para seis meses; • Estabelecer uma ordem de prioridade de pagamentos; • Selecionar dívidas passíveis de renegociação;

• Cancelar novos compromissos, ainda não efetivados; • Cortar ou diminuir despesas desnecessárias ou adiáveis; • Definir as mudanças de hábito, para evitar novas dívidas;

• Priorizar a concentração num só credor, de dívidas que estejam pulverizadas entre vários credores;

• Dar conhecimento das dívidas a familiares mais próximos; • Examinar alternativas de obtenção de novos rendimentos.

É necessário se adaptar a um novo padrão de hábitos, mesmo que temporário. O endividamento pessoal, o crediário sem fim e compras de longo prazo alteram a condição do indivíduo, levando o mesmo a trabalhar por uma obrigação, com o intuito de saldar as dívidas em virtude do consumo compulsivo e não planejado, em vez do contrário, em que o consumo deveria ser uma recompensa merecida pelo esforço do trabalho.

Calhau (2015) expõe que as pessoas devem estar preparadas para as possíveis turbulências que poderão passar, não pelo fato de já se esperar por algo ruim, mas de estar pronto, caso venha a acontecer alguma contingência. Seja em momentos de crises de ampla escala, ou problemas familiares e internos na empresa ou vida particular, deve-se se preparar com responsabilidade. A ENEF (2010, p. 48) reforça que:

A recente e grave crise econômico-mundial traz oportunidade para expor a todos os cidadãos a importância da educação financeira. Os desafios que se colocam a todos passam pela manutenção do nível de emprego e renda até o comportamento dos consumidores em relação a seu endividamento, que, em algumas circunstâncias, tendem ao consumo descontrolado e à aquisição de endividamento que não respeita seu poder aquisitivo, o que resulta em dificuldades para gerenciar o orçamento financeiro. Nesse sentido, é importante que o crédito e os juros sejam usados pelas pessoas de forma consciente, como recursos de ajuste e alcance do equilíbrio entre receitas e

despesas, evitando que seu uso seja estimulado por propaganda, vaidade e outros apelos sociais que possam levar as pessoas ao consumo inconsequente.

Em virtude destas turbulências, algumas pessoas acabam se utilizando do crédito fácil, e apostando em alternativas de riscos, caso não haja conhecimento e controle para este crédito.

2.6.1 Índice de endividamento pessoal

Para as empresas, a Matemática Financeira e a Contabilidade Gerencial utilizam indicadores capazes de identificar a saúde financeira da mesma, avaliando a natureza e perspectivas das dívidas. Estes cálculos podem ser aplicados na vida particular do indivíduo, sem fugir de sua realidade. O cálculo mais comum, dentre as diversas maneiras existentes, é calcular quanto de sua receita/renda líquida permanece comprometida com o pagamento das parcelas de dívidas e gastos mensais.

Segundo Navarro (2012), “Para calcular a importância de seus compromissos financeiros, basta dividir o total das dívidas mensais pela receita líquida do mesmo período. O resultado será um coeficiente que, multiplicado por 100, indicará a exata porcentagem das dívidas em relação ao que você ganha”.

O primeiro passo consiste em calcular a renda mensal que possui. Pegar o salário líquido (descontado de INSS e IR) e acrescentar outras rendas extras que possui no mês, como: comissões, biênio, 13º proporcional, etc. O próximo passo é somar as dívidas. Por no papel todas as parcelas de compromissos financeiros que são pagas mensalmente, como: financiamento de carro, imóvel, empréstimo consignado etc. Com estes dados em mãos, o indivíduo poderá calcular o índice que é construído, segundo Navarro (2012), da seguinte fórmula:

Quadro 03 – Fórmula para o cálculo da % das dívidas em relação à renda

Fonte: Navarro (2012)

Tudo pode influir no resultado, pois há muitos coeficientes e situações a considerar, como: idade, número de filhos, renda e outras variáveis que podem influenciar na

interpretação dos cálculos e dados. Em uma análise feita com diversos autores e trabalhos de consultoria, Navarro (2012) montou um parâmetro a se seguir para avaliar o nível de endividamento.

Até 30% ou um terço da renda – Parcela administrável pela maioria da população. No entanto, não se acomode. O ideal é não ter dívidas, portanto lute para extingui-las e passe a investir o terço antes comprometido;

Entre 30% e 35% – Importante trabalhar para reduzir as dívidas, mantendo- as dentro do máximo administrável e da filosofia do item anterior;

Entre 35% e 40% – O aperto financeiro não permite nenhuma mudança estrutural ou nas receitas, o que é perigoso. É necessário reduzir as dívidas imediatamente, ou corre-se o risco de inadimplência e problemas em caso de emergências;

Acima de 40% – Com quase metade da renda comprometida, fica quase impossível honrar todos os compromissos financeiros e o efeito “bola de neve” dos empréstimos e financiamentos pode transformar a situação em um verdadeiro caos. Reavalie toda a sua situação financeira e reduza suas dívidas!

Deve-se analisar que o fato de um indivíduo estar com dívidas não significa, necessariamente, em alguns casos, algo ruim. Tudo irá depender da composição da dívida, do real motivo que fez a pessoal atribuir tal ação, principalmente se o gasto foi de forma consciente e planejada.