5.2 DIAGNÓSTICO SITUACIONAL DO ALEITAMENTO MATERNO
5.2.3 Fatores que interferem no funcionamento do Banco de Leite
As afirmativas que apresentaram problemas atinentes ao BLH com suas respectivas frequências podem ser observadas no Quadro 3.
Categoria Problemas Frequencia
Fatores que interferem no funcionamento do Banco de Leite Humano
Escassez de atividades educativas, para puérperas, de apoio e incentivo ao aleitamento materno e doação do leite humano
55
Déficit de recursos humanos 10
Inexistência de espaço físico exclusivo para ordenha da
puérpera 8
Deficiência no treinamento de profissionais e alunos sobre a importância da amamentação e do uso do leite humano pasteurizado
7 Falta de interação entre as equipes do Alojamento
Conjunto e da UTI Neonatal e a equipe do Banco de Leite 7 Falta de uma equipe exclusiva para realizar ordenha e
orientações no Alojamento Conjunto 7
Pouca divulgação dos serviços oferecidos pelo Banco de
Leite para a população interna e externa à instituição 6 Falta de orientação para acompanhantes sobre estímulo ao
aleitamento materno 1
Quadro 3- Fatores que interferem no funcionamento do Banco de Leite Humano apresentados pelos participantes
Dentre os problemas elencados no Quadro 3, a escassez de atividades educativas,para puérperas, no que se refere ao apoio e incentivo ao aleitamento materno e doação do leite humano assumem posição de destaque. Neste sentido, observa-se o reconhecimento dos pesquisados quanto à importância desse tipo de prática educativa e da orientação para a doação do leite.
Convém ressaltar, que, durante o período puerperal, a mulher carece de orientações não só sobre essa prática mas também sobre pontos que guardam relação com o aleitamento materno, dentre os quais, os cuidados físicos, psíquicos e emocionais. Chama-se atenção para
o fato de que o processo da amamentação ocorre em um contexto no qual a lactante vivencia diferentes situações.
Toma (2010) enfatiza que a amamentação não é apenas um instinto humano. Essa prática sofre influência do meio e, diante disso, são importantes as orientações e o apoio dados às mulheres nos serviços de saúde, ensinando-lhes as técnicas e procurando fortalecer sua autoconfiança.
A necessidade de se realizar atividades a fim de sensibilizar as puérperas para a doação de leite foi uma das respostas que surgiu com certa representatividade, revelando que os entrevistados reconhecem a importância da doação do leite humano para o funcionamento de um banco de leite, dada a demanda de receptores que procuram esse setor.
Acho que o banco de leite deveria envolver-se mais com as pacientes da enfermaria principalmente com a coleta de leite, pois fica muito difícil para a equipe da enfermaria fazer esse trabalho. P.26
Seria bom que tivesse pessoal especializado para agir com maior empenho [...] para quando saírem de alta hospitalar [...] fazerem doação. P.02
Deveríamos incentivar a doação do leite materno, para que usássemos menos as fórmulas lácteas. P.28
Nesses relatos, os profissionais demonstraram estar atentos à captação de leite humano interna e externamente à instituição. No Alojamento Conjunto, por exemplo, eles percebem a necessidade de as puérperas serem estimuladas, caso tenham leite em excesso, a doar seu leite ao BLH para pasteurização, evitando assim, o uso de outros complementos diante da falta do LHP.
Vale salientar que as mulheres aptas a serem doadoras são sadias, apresentando, inclusive, secreção láctea superior à exigida pelos seus filhos e dispondo-se a doar o excedente por livre e espontânea vontade (BRASIL, 2008). Acrescenta-se que essas mães, por sua vez, além de deverem ser estimuladas a repetir tal ato, devem ser informadas pelos profissionais de saúde sobre a importância do seu gesto para as crianças, sobretudo os prematuros que estejam em UTI neonatal, cujas mães não podem amamentá-las por algum motivo.
Neste sentido, há uma preocupação governamental e não-governamental em realizar campanhas em prol do aleitamento matermo e da captação de leite humano. O Ministério da Saúde, através da Portaria N. 1.893, de 2 de outubro de 2003, Art. 1º, instituiu 1º de outubro como o Dia Nacional de Doação de Leite Humano, quando se realizam, nos Bancos de Leite
de todo o Território Nacional, ações para sensibilizar a Sociedade sobre a importância da doação do leite materno. A campanha também enfatiza proteção e promoção do aleitamento natural. Como exemplo, cita-se a distribuição de cartazes e folders, além da escolha de uma mulher com destaque na sociedade e que esteja amamentando, para ser a madrinha da doação no ano em curso (BRASIL, 2011).
Os respondentes, quando se referiram ao número de funcionários que atuam tanto no Banco de Leite como nas Unidades de Internamento, apontaram como insuficiente o quantitativo de profissionais nessas unidades, como pode ser observado a seguir:
É necessário aumentar o número de funcionários nesse setor para que possam promover palestras educacionais. P.19
Necessidade de RH para o suporte do atendimento à mulher com incentivo ao aleitamento materno. P. 01
Essas falas passam a ter coerência quando se concebe que o cuidado de saúde dispensado ao usuário guarda relação com o número e a capacitação de funcionários destinados para a assistência. Esses elementos são imprescindíveis para uma assistência de qualidade.
Com relação a isto, Oliveira, Collet e Viera (2006) mencionam que, apesar do progresso em referência à política pública de saúde do SUS, ainda enfrentam-se problemas relativos aos profissionais, destacando-se, dentre eles, o baixo investimento na qualificação dos trabalhadores, as precárias condições de trabalho, a alta carga de horário e o baixo salário. As mesmas autoras defendem que, como os profissionais de saúde se submetem a muitas tensões no seu cotidiano, faz-se necessário, para a humanização da assistência, cuidar também dessas pessoas, ter um número de trabalhadores suficiente para atender à demanda da população e oferecer melhores condições de trabalho e salários dignos.
Quanto à saúde das pessoas que trabalham no BLH, o Ministério da Saúde preconiza que se disponibilizecondições para uma periódica avaliação, de modo que elas sejam, inclusive, submetidas obrigatoriamente a exames no ato da admissão e anualmente, com o objetivo de prevenir, rastrear e diagnosticar agravos à saúde, como também detectar doenças profissionais ou danos irreversíveis à saúde dos trabalhadores que atuam naquele setor (BRASIL, 2005).
Outro problema ressaltado foi a inexistência de um espaço físico destinado à ordenha do leite humano.
Seria interessante que houvesse um espaço reservado para ordenha da puérpera dentro da unidade. P. 39
Os respondentes deixaram implícito seu entendimento quanto à necessidade de um lugar tranquilo que ofereça privacidade e conforto à mulher lactante, por ocasião da ordenha. Nessa linha de pensamento, considerando que a produção do leite humano está ligada a estímulos neurossensoriais, a privacidade da mulher em ambiente adequado, durante a ordenha, favorecerá a produção de leite.
Os depoentes, em declaração dos problemas vivenciados no contexto do aleitamento materno, trouxeram à tona o déficit no número de profissionais e alunos treinados sobre a importância da amamentação e o uso do LHP.
É necessário todos os funcionários serem treinados e orientados na ordenha e coleta do leite materno. Como funcionava antes. P. 32
Falta capacitação para os profissionais da instituição quanto à importância e manejo do aleitamento. P.53
As afirmativas levam a considerar que os respondentes associaram a capacitação dos funcionários como sendo de valia para o funcionamento do BLH.
Toma (2010, p.123), reforçando os Dez Passos para o sucesso do aleitamento materno, enfatiza que o Passo 2 - “Treinar toda a equipe de cuidados de saúde, capacitando-a para implementar a referida norma”- refere-se a uma atividade primordial para a condução do processo de ser um Hospital Amigo da Criança. A amamentação, como bem se vê, é uma prática que requer profissionais preparados e envolvidos, como também serviços de saúde estruturados para esse fim.
O enfermeiro, por exemplo, que desempenha suas ações junto à mulher e ao neonato assume posição relevante no contexto da amamentação. Cabe a esse profissional prestar cuidados diretos aos atores do aleitamento - mãe e filho -, como também supervisionar as atividades desenvolvidas pela equipe voltadas para a referida prática.
A falta de interação das equipes do Alojamento Conjunto e da UTI Neonatal com a equipe do Banco de Leite Humano foi reconhecida pelos profissionais como um problema existente no cotidiano da instituição.
Deveria ter um melhor entrosamento com a equipe da instituição, a equipe do banco participa muito de curso, deveria repassar. P.06
Acho que o funcionamento do banco não deve estar restrito ao banco em si. A participação de toda a equipe (das unidades da maternidade e do banco) deve ser constante, contínua e em conjunto. P.33
Diante das respostas, ressalta-se que os participantes acham necessários uma maior participação e um entrosamento entre as equipes do BLH, do Alojamento e da UTI Neonatal, com vistas a melhorar a qualidade da assistência prestada à mãe e ao RN, nos referidos setores. Assim sendo, todos os profissionais poderão socializar suas experiências e atualizações, podendo também compartilhar dos problemas que afetam o BLH e contribuir com mudanças e melhorias no setor, enfatizando sempre a distribuição do LHP.
Dentre as questões inerentes a recursos humanos no Banco de Leite Humano, a falta de uma equipe exclusiva para realizar a ordenha e dar as orientações no Alojamento Conjunto também foi considerada um problema pelos respondentes.
É necessário maior apoio no banco de leite nas enfermarias, em virtude de mães com excesso de leite, mamas ingurgitadas... P. 24
[...] é necessário visitas contínuas da equipe do banco de leite com as puérperas identificando ou prevenindo problemas que dificultam a amamentação. P.27
Falta de pessoal do banco envolvido com a ordenha do leite materno dentro da própria instituição. P.25
De acordo com os relatos, os profissionais do Banco de Leite deveriam ser responsáveis pela assistência prestada no contexto do aleitamento materno na instituição na qual o estudo foi realizado. Sobre isto, entende-se que as ações desenvolvidas devem ser de responsabilidade de todos aqueles que trabalham em uma instituição materna e infantil, uma vez que a assistência à mulher no ciclo gravídico puerperal e ao RN inclui a prática da amamentação. Portanto, cabe à equipe do BLH atuar juntamente com outros profissionais no apoio, na promoção e no incentivo ao aleitamento materno junto às puérperas.
A pouca divulgação dos serviços oferecidos pelo Banco de Leite para a população interna e externa à instituição foi apontada como meio de inviabilizar a doação do leite humano para o BLH. Os funcionários relataram a necessidade de se intensificarem as propagandas junto à mídia e à sociedade, visando a aumentar o estoque de LHP.
[...] falta uma maior divulgação do serviço oferecido pelo banco de leite e mais campanhas para captação de doadoras, sendo feito este trabalho também com as mães internadas [...] P.22
Deve intensificar as propagandas junto à sociedade e estruturas a fim de aumentar o estoque [...] P.44
Diante disso, achou-se importante um planejamento de divulgação na mídia local, para esclarecimento da população e conscientização da doação do leite humano.
Conforme se revelou pelas respostas dadas, para os pesquisados, o estoque de LHP não atende satisfatoriamente à demanda de solicitações do alimento, o que exige uma tomada de decisões no sentido de se adotarem estratégias que aumentem o número de doações e consequentemente mais RNs venham a ser beneficiados.
É importante divulgar para a população que o Banco de Leite tem a função também de prestar assistência a mulheres com problemas de mamas puerperais, no intuito de minimizar os desconfortos causados nesse período.
Dentre os respondentes, apenas um afirmou como problema, no âmbito do aleitamento materno, a falta de orientações, para acompanhantes da puérpera, sobre amamentação. Embora com uma frequência mínima, concorda-se com essa observação, uma vez que a família como um todo, de alguma forma, participa do processo. Particularizando o aleitamento, a puérpera é susceptível às interferências de outrem, principalmente no início do processo da amamentação, pois mitos e tabus advindos de antigas práticas ou de experiência não bem sucedida tendem a interferir nesse ato.
Falta um acompanhamento das acompanhantes, pois são elas quem às vezes desestimulam o aleitamento materno. P.09
Enfatizando a importância dessa fala, o acompanhante, que na maioria das vezes é um familiar próximo da puérpera, é fundamental no processo da amamentação, pois é quem convive com esta, apoiando-a e incentivando-a nesse momento. Daí a real necessidade de se
ter um olhar direcionado para esse ator, planejando orientações individuais e em grupos, com o intuito de esclarecer dúvidas que possam existir.
De modo geral, os resultados obtidos dos questionários evidenciaram problemas inerentes ao RN, à mãe e ao BLH, que congregados denotaram necessidades de replanejamento das atividades desenvolvidas pela equipe do BLH, incluindo a distribuição do LHP, implementação de medidas para captar doação de leite humano e reestruturação do quadro de recursos humanos.