Oriana Maria Mattos e Silva, Luiz José C. Pereira, Reinaldo Martinelli, Heonir Rocha
uma série de parâmetros subjetivos e objetivos são analisados. Entre as medidas objetivas está a condição de emprego. Embora objetivo, é um parâmetro difícil de ser avaliado, já que uma série de outros fatores não diretamente relacionados à condição de saúde têm in-fluência sobre ele: circunstâncias psicossociais, con-cepções culturais, preconceitos contra o paciente dialisado, incapacidade de adequação às exigências de jornada de trabalho etc.
O desemprego, entre portadores de Insuficiência Renal Crônica (IRC) em programa de diálise regular, é um problema extremamente freqüente em nosso meio.
O presente estudo foi feito com o objetivo de detectar que fatores relacionados à doença e seu tratamento seriam importantes na determinação do desemprego nesses pacientes, já que uma pequena proporção deles encontra-se trabalhando ou estudando ativamente.
P a c i e n t e s e M é t o d o s
Foram estudados, retrospectivamente, 62 pacientes portadores de Insuficiência Renal Crônica (IRC), de ambos os sexos, em programa de diálise regular em Salvador-BA. Desses, 28 faziam parte do programa de CAPD do Hospital Universitário Professor Edgard San-tos/Universidade Federal da Bahia (HUPES/UFBA) e Com o objetivo de analisar os fatores relacionados à terapia dialítica que podem influenciar a reabilitação psicossocial, 62 pacientes, divididos em dois grupos (empregados e desempregados) foram estudados. Sexo, tipo e duração de diálise, hipertensão, médias dos níveis séricos de uréia, creatinina, hemoglobina e necessidades transfusionais foram examinados. Os grupos fo-ram homogêneos com relação a sexo, idade e tempo em diálise. Necessidade de transfusões sangüíneas foi a variável mais fortemente associada ao risco de desemprego (OR=7,3, 1,69-37,4) e CAPD foi a que menos significativamente associou-se àquele risco (OR=0,19, 0,05-0,7) Houve associação significante de requerimentos transfusionais e médias de hemoglobina e uréia com CAPD. Nossos dados mostram que anemia é um importante fator de risco para o desem-prego e que CAPD associa-se a melhor reabilitação psicossocial.
Disciplina/Serviço de Nefrologia - FAMED, Hospital Universitário Professor Edgard Santos, Universidade Federal da Bahia, Salvador - Bahia.
Correspondência: Dra. Oriana Maria Mattos e Silva Hospital Universitário Prof. Edgard Santos Laboratório de Nefrologia, 1118 - 6° andar Rua João das Botas, s/n - Canela 40110-160, Salvador - Bahia - Brasil
Tel.: (071) 245-6611 - ramal 226 - Fax: (071) 245-7110
CAPD, hemodiálise, qualidade de vida, emprego CAPD, hemodialysis, rehabilitation, employment
As terapias de substituição renal têm como obje-tivo não apenas o prolongamento da vida dos pacien-tes com insuficiência renal crônica como também ma-ximizar a qualidade desta sobrevida, permitindo o retorno a seus estilos de vida prévios, com a máxima reabilitação psicossocial.1
As duas principais modalidades de diálise-hemo-diálise e diálise-hemo-diálise peritoneal ambulatorial contínua (CAPD) - têm se mostrado equivalentes quando com-paradas em relação à sobrevida.2,3 Alguns estudos, en-tretanto, têm sugerido que a qualidade de vida é ligei-ra a modeligei-radamente melhor nos pacientes em CAPD.4 Quando se fazem medidas de qualidade de vida,
33 do programa crônico de hemodiálise do Instituto Cardio Pulmonar-BA. Foram admitidos no estudo os pacientes que faziam parte de um destes dois pro-gramas em qualquer momento durante o primeiro semestre de 1992. Os pacientes foram divididos em dois grupos de acordo com estarem ou não emprega-dos (estudantes e mulheres trabalhando em casa foram considerados como empregados). Como o número de pacientes foi pequeno, não foi possível pareá-los por sexo, idade ou doença renal.
Foram analisados: sexo, tipo de tratamento dia-lítico, presença de hipertensão ao início do tratamento dialítico (definida como níveis de PA maiores que 140 X 90 mmHg ou uso de antihipertensivos), necessidade de tratamento antihipertensivo após o início do pro-grama de diálise, médias dos níveis séricos de uréia e de hemoglobina e a necessidade de transfusões san-güíneas. Considerou-se a necessidade de transfusões um índice mais preciso da gravidade da anemia, já que maiores médias de hemoglobina poderiam ser man-tidas às custas de transfusões sangüíneas. As variáveis contínuas foram sumarizadas como média ± desvio pa-drão (SD) das medidas obtidas mensalmente durante o primeiro semestre de 1992.
Para a determinação do risco de desemprego foi utilizado o cálculo da Odds Ratio e de seu Intervalo de Confiança a 95%. Para a comparação das variáveis en-tre os grupos estudados (empregados e desemprega-dos), foram usados o teste t de Student para os dados quantitativos e o x2 com correção de Yates e o teste exato de Fisher para as variáveis qualitativas. Consi-derou-se estatisticamente significante os valores de p inferiores a 5%.5
R e s u l t a d o s
Dos 62 pacientes estudados, 36 eram do sexo masculino, 26 do sexo feminino, com idade média de 41,23 ± 16,26 anos; tempo médio de diálise de 17,76 ± 19,29 meses (tabela 1).
Quando analisamos os dois grupos de pacientes (empregados e desempregados), não houve diferença significante entre a distribuição de sexo, idade e tem-po de diálise. Embora não houvesse sido tem-possível o pareamento quanto a essas variáveis, houve homoge-neidade entre os dois grupos (tabela 2).
Os valores médios das concentrações séricas de uréia e de hemoglobina, assim como a necessidade de transfusões sangüíneas, estão mostrados na tabela 3.
Os pacientes do grupo de desempregados tiveram médias de uréia e do número de transfusões
signi-ficantemente maiores que o grupo de pacientes empregados.
O cálculo da Odds Ratio revelou que houve um aumento significante do risco de desemprego para os pacientes com maior número de transfusões san-güíneas (OR = 7,33, 1,64-37,4), enquanto que os pa-cientes em CAPD tiveram uma redução significante do risco de desemprego (OR = 0,19, 0,05-0,7) quando comparados com pacientes em hemodiálise. Não hou-ve associação significante entre o risco de desemprego e as demais variáveis estudadas (tabela 4), embora houvesse uma tendência ao aumento do risco de de-semprego para os pacientes que faziam uso de anhipertensivos após o início do tratamento e que ti-nham médias de hemoglobina inferiores a 7 mg%.
Tabela 1 Alguns dados demográficos
HD CAPD TOTAL
Sexo
Masculino 19 17 36
Feminino 14 12 26
Total 33 29 62
Idade
Média ± SD 42,09 ± 15,1 40,24 ± 17,69 41,23 ± 16,26 Tempo de diálise
Média ± SD 23,09 ± 21,3 11,69 ± 7,82 17,76 ± 19,29 HD - hemodiálise; tempo de diálise em meses; idade em anos.
Tabela 3
Características dos dois grupos estudados Desempregados Empregados
Uréia (mg/dl) 141,45 ± 36,64 123,14 ± 30,24 p=0,05 Média ± SD
Hemoglobina (mg/dl) 8,04 ± 1,7 9,01 ± 2,18 p=0,06 Média ± SD
N transfusões mensais 1,25 ± 1,55 0,43 ± 1,25 p=0,04 Média ± SD
Tabela 2
Características dos dois gupos estudados Desempregados Empregados
Sexo masculino 25 10 p = 0,26
Idade (anos) 43,45 ± 18,23 37,29 ± 11,39 p = 0,16 Tempo de diálise 17,57 ± 17,35 18,29 ± 17,01 p = 0,18 (meses)
J. Bras. Nefrol. 1995; 17(1): 47-50 49 O. M. M. e Silva et. al - Risco de desemprego em pacientes em diálise
Enquanto se pode inferir dos achados deste tra-balho que a necessidade transfusional, refletindo ane-mia severa e/ou sintomática e incapacitante, funciona realmente como um fator limitante para a disposição e capacidade de trabalho,7 o mesmo não se pode afirmar para a redução dos riscos observada entre os pacientes em CAPD. Fatores inerentes a esses pacientes que podem influir no seu grau de disposição e capacidade para o trabalho e que muitas vezes funcionam como critério de seleção para CAPD não foram avaliados neste estudo. Por exemplo: concepções culturais, grau de instrução, personalidade independente, grau de motivação e a própria necessidade de adequar o mé-todo de diálise à vida profissional prévia, o que pode ter levado a vícios de seleção. O pareamento destas variáveis ou o uso de uma análise multivariada elimi-naria esta dúvida.
Entretanto existe associação significativa entre CAPD e menor necessidade transfusional, maiores ní-veis de hemoglobina e menores médias de uréia su-gerindo que a CAPD pode gerar condições que propi-ciem maior capacidade e disposição para o trabalho.
Em concordância com os nossos achados, estudos têm sugerido que pacientes em CAPD têm melhores índi-ces de qualidade de vida que pacientes em hemo-diálise.4,6
A tendência ao aumento do risco de desemprego observada entre os pacientes que necessitavam de antihipertensivos e que tinham médias de hemo-globina inferiores a 7mg% poderia ter alcançado sig-nificância estatística, caso um maior número de pa-cientes fosse estudado, já que seus intervalos de con-fiança foram bastante largos e mal incluíram o valor
1 da Odds Ratio.
Em resumo, o estudo mostra que a necessidade de tranfusões foi o principal fator associado ao desempre-go entre esses pacientes e que os pacientes em CAPD têm melhor readaptação psicossocial.
S u m m a r y
In order to analyse factors related to dialysis the-rapy that could influence rehabilitation, 62 patients, di-vided into two groups (employed and unemployed) were studied. The variable gender, type and duration of dialysis, hypertension, mean serum levels of urea, creatinine, hemoglobin and the requirement for blood transfusion were examined. Groups were homoge-neous regarding gender, age and duration of dialysis therapy. Requirement for blood tranfusion was the variable most strongly associated with the risk of
un-Tabela 4 Riscos para desemprego
Odds Ratio IC
Sexo masculino 1,83 0,55 - 6,20
CAPD 0,19 0,05 - 0,70
Normotensão 0,49 0,07 - 3,44
Uso de antihipertensivos* 3,25 0,94 - 11,58 Médias de Uréia > 160mg/dl 1,61 0,38 - 7,18 Médias de hemoglobina < 7g% 2,14 0,45 - 11,46 Necessidades transfusionais 7,33 1,64 - 37,4
* Necessidade de drogas antihipertensivas após início do tratamento
Quando comparou-se os dois tipos de diálise (he-modiálise e CAPD) observou-se que houve associação significante entre CAPD e menores necessidades de transfusões sangüíneas (p<0,03), maiores médias de hemoglobina (p<0,003) e menores médias de uréia (p< 0,00009).
D i s c u s s ã o
O estudo revela que apenas a necessidade de transfusões sangüíneas esteve associada a um aumento significante do risco de desemprego e que os pacien-tes em CAPD encontram-se em menor risco de de-semprego quando comparados aos pacientes em hemodiálise.
Estudos têm mostrado que dentre as terapias de substituição renal o transplante é a modalidade de tratamento que oferece melhor qualidade de vida, e in-clusive, maior probabilidade de emprego.4, 6 Quando se compara hemodiálise com CAPD, os pacientes em CAPD têm maior probabilidade de estarem empregados, com chances de até 2,6 vezes mais que pacientes em programas crônicos de hemodiálise.4 Chama a atenção entretanto que, para qualquer uma das modalidades de tratamento, a proporção de pacientes trabalhando é bem menor do que a proporção dos que estariam ap-tos para o trabalho.6 Estes dados sugerem que fatores outros não diretamente relacionados com a condição de saúde e com o tratamento interferem nessa ativida-de, fazendo com que condição de emprego, avaliada como parâmetro isoladamente, não seja considerada como uma boa medida de qualidade de vida.
A anemia tem sido claramente responsabilizada co-mo um dos grande fatores de limitação para os pa-cientes com insuficiência renal crônica. Estudos sobre qualidade de vida e eritropoetina têm estabelecido que a correção da anemia associa-se significativamente com o aumento dos índices de qualidade de vida.7
employment (OR=7.3, 1.69 - 37.4) and CAPD was the one least significantly associated with that risk (OR = 0.19, 0.05 - 0.7). There were significantly associations between blood transfusion requirement, mean hemo-globin, mean urea and CAPD. Our data show that ane-mia is an important risk factor for unemployment CAPD, however, is associated with better psychosocial rehabilitation.
R e f e r ê n c i a s
1. Burkart J: Adequacy of Peritoneal Dialysis. Dialysis &
Transplantation. 1993; May:234-243 .
2. Maiorca R, Cancarini CG, Brunori G, Cambrini C, Manili L: Morbity
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5. Fletcher R, Fletcher S, Wagner E: Epidemiologia Clínica. 2 ed, Porto Alegre, R.S., Artes Médicas, 1991.
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