Segundo Marcos Bernandes de Mello, “fato jurídico é o resultado do fato concreto da vida que, por ser previsto em hipótese normativa, acaba por ingressar no mundo jurídico, atribuindo-lhe determinados efeitos”. 79
Nas palavras de Pontes de Miranda, “para que os fatos sejam jurídicos, é preciso que as regras jurídicas – isto é, as normas abstratas – incidam sôbre eles, desçam e encontrem os fatos, colorindo-os, fazendo-os ‘jurídicos’. Algo como a prancha da
79 Cf. MELLO, Marcos Bernardes de. Teoria do fato jurídico: plano da existência. 16. ed. São Paulo:
42 máquina de impressão, incidindo sôbre fatos que se passam no mundo, posto que aí os classifique segundo discriminações conceptuais”.80
Com efeito, quando o fato repercute no campo do direito, qualquer que seja a sua origem, é que toma o conteúdo e a denominação de fato jurídico. 81
Nessa concepção, segundo Fredie Didier Jr. e Pedro Henrique Pedrosa Nogueira, a partir da ideia de fato jurídico como produto da incidência da norma jurídica sobre seu suporte fático, separa-se o mundo dos fatos do mundo jurídico. O mundo é o conjunto formado pela totalidade dos fatos: o nascer, o morrer, o chover, o dormir etc. O mundo jurídico é o conjunto delimitado pelos fatos que adquiriram relevância para o direito, em razão da incidência. O direito seleciona fatos e estabelecer a causalidade jurídica, não necessariamente coincidente com a causalidade dos fatos; pela juridicização do fático, o direito adjetiva os fatos para serem considerados jurídicos e assim tecerem o mundo jurídico.82
Classificam-se os fatos jurídicos de acordo com o suporte fático para a incidência da norma. Os fatos jurídicos lato sensu podem ser fatos da natureza ou atos humanos. Quando a hipótese de incidência ou o suporte fático tem como elemento um ato humano, pode entrar no mundo jurídico como ato jurídico, negócio jurídico, ato ilícito ou ato-fato.83
O fato jurídico stricto sensu é aquele decorrente de fato não humano que possua efeito jurídico previsto. Já os atos que exteriorizam manifestação da vontade humana tornam-se jurídicos quando incidente a norma que o prevê.
80 PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado de Direito Privado. Vol. I. Rio de Janeiro:
Borsói, 1954. p. 4.
81 PEREIRA, Caio Mario da Silva. Instituições de Direito Civil. Vol. I. Rio de Janeiro: Forense, 1980. p.
396.
82 DIDIER JR., Fredie; NOGUEIRA, Pedro Henrique Pedrosa. Teoria dos fatos jurídicos processuais.
Salvador: Juspodivm: 2011. p. 27.
83 CUNHA, Leonardo Carneiro da. Negócios jurídicos processuais no Processo Civil Brasileiro. In
CABRAL, Antonio do Passo; NOGUEIRA, Pedro Henrique (coord). Negócios processuais. Salvador: Juspodivm: 2015. p. 28.
43 A processualidade ao fato jurídico pode ser compreendida pela incidência de normas processuais no respectivo fato. Segundo Fredie Didier Jr. e Pedro Henrique Pedrosa Nogueira, “os fatos jurídicos lato sensu processuais podem ser definidos como os eventos, abrangendo manifestações de vontade, condutas e fenômenos da natureza, contemporâneos a um procedimento a que se refiram, descritos em normas jurídicas processuais”. 84
Continuam os autores, decompondo analiticamente a definição proposta:
“(a) o univero dos fatos processuais não está adstrito aos atos processuais, pois ganham relevo também os fenômenos da natureza e as condutas avolitivas, positivas ou negativas, relacionadas ao processo; (b) todo fato processual há de pressupor um procedimento a que se refira, ainda quando sua ocorrência seja eá de pressupor um procedimento a que se refira, ainda quando sua ocorrência seja exterior, isto é, fora da ‘sede’ processual. Essa contemporaneidade entre o fato e o procedimento não significa simultaneidade, por ser possível a não concidência, cronologicamente falando, dos dois elementos (v.g., a cláusula compromissória e o posterior ajuizamento da ação, a cessão do direito litigioso quando já pendente o processo); (c) o fato jurídico decorrerá da incidência de uma norma jurídica processual”. 85
Consideram, então, que no processo é possível cogitar de fatos processuais, em sentido amplo: (a) lícitos, dentro dos quais se inserem (a.1) fatos jurídicos stricto sensu processuais, (a.2) atos-fatos jurídicos processuais, (a.3) atos jurídicos stricto sensu processuais e (a.4) negócios jurídicos processuais, e (b) ilícitos processuais.86
Segundo Marcos Bernandes de Mello, “todo fato jurídico em que, na composição de se suporte fáctico, entram apenas fatos da natureza, independentes de ato humano como dado essencial, denomina-se fato jurídico scricto sensu”. 87
84 DIDIER JR., Fredie; NOGUEIRA, Pedro Henrique Pedrosa. Teoria dos fatos jurídicos processuais.
Salvador: Juspodivm: 2011. p. 27.
85 DIDIER JR., Fredie; NOGUEIRA, Pedro Henrique Pedrosa. Teoria dos fatos jurídicos processuais.
Salvador: Juspodivm: 2011. p. 28.
86 DIDIER JR., Fredie; NOGUEIRA, Pedro Henrique Pedrosa. Teoria dos fatos jurídicos processuais.
Salvador: Juspodivm: 2011. p. 38.
87 MELLO, Marcos Bernandes de. Teoria do fato jurídico: plano da existência. 18 ed. São Paulo: Saraiva,
44 No plano do Direito Processual, também há fatos jurídicos stricto sensu processuais, conforme demonstram Fredie Didier Jr. e Pedro Henrique Pedrosa Nogueira:
“A morte é o exemplo característico, mas não o único. O evento morte referido a um procedimento existente (v.g. falecimento de uma das partes, ou do advogado de uma delas), gera um fato jurídico processual do qual surgem situações jurídicas processuais (v.g. direito à suspensão do processo, conforme o art. 265 do CPC- 1973; NCPC, art. 288, I). A força maior (CPC-1973, art. 265, V, CPC; NCPC, art. 288, V), o parentesco (CPC-1973, art. 134, IV; NCPC, art. 124, IV), a confusão (CPC-1973, art. 267, X; NCPC, art. 472, X) e a calamidade pública, de que pode servir de exemplo umenchente de grandes proporções (CPC-1973, art. 182, parágrafo único; NCPC, art. 190, parágrafo único) também são exemplos”. 88
Portanto, caracterizam-se o fatos jurídicos stricto sensu processuais por serem decorrentes de eventos afora da conduta humana, mas que produzem efeitos imediatos ou mediatos no processo.
Passando ao suporte fático que contenha ato humano, pode-se classifica-lo juridicamente como ato jurídico, ato-fato jurídico e negócio jurídico, conforme explanado a seguir.