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3. A CIDADE E AQUELE QUE A HABITA

3.2 FAVELA E PERIFERIA

Este tópico dá fundamento para a compreensão do espaço a ser trabalhado, uma vila periférica, percebida pelos moradores da cidade como uma “favela”. O termo “favela” surgiu no Brasil no começo do século XX para descrever um bairro popular localizado no Morro da Providência, no Rio de Janeiro, e é até hoje utilizado para representar espaços em que há grande aglomeração de casas (ou “barracos”), dispostos em espaços afastados dos centros urbanos e cuja disposição revela a baixa renda dos habitantes.

Pesquisadores brasileiros datam a primeira favela do país de 1881, na cidade de Santos: o Quilombo do Jabaquara, que abrigava ex-escravos. Em linhas gerais, os aglomerados subnormais, ou favelas, são entendidos pelo IBGE como:

Cada conjunto constituído de, no mínimo, 51 unidades habitacionais carentes, em sua maioria, de serviços públicos essenciais, ocupando ou tendo ocupado, até período recente, terreno de propriedade alheia (pública ou particular) e estando dispostas, em geral, de forma desordenada e densa (IBGE, 2010, p. 1).

De acordo com a pesquisa Radiografia das favelas brasileiras, de Renato Meirelles e Celso Athayde (2014), diferente do que se espera do senso comum, 94% da população “favelada”26 se considerava feliz em 2013, 81% dos moradores gostam do lugar onde vivem e 66% não abandonariam sua comunidade. Em termos práticos, observa-se nestes locais um senso

26 Termo utilizado pelos autores.

comunitário que desafia a lógica urbana. O estudo confirma ainda que as favelas movimentam até 63 bilhões de reais por ano no Brasil.

O Censo de 2010 mostra que mais de 11 milhões de pessoas viviam nas 15 mil favelas do país. As maiores favelas se encontravam no Rio de Janeiro (Rocinha e Rio das Pedras) e Distrito Federal (Sol Nascente). Uma margem de 88,6% destas comunidades faziam parte de 20 grandes regiões metropolitanas.

Em 2013, 72% da população das favelas era negra (MERELLES; ATHAYDE, 2014).

Um dos primeiros estudos globais sobre o tema foi promovido pelo Programa de Assentamentos Humanos das Nações Unidas (UN-Habitat), em 2003. De acordo com a pesquisa, o termo favela (no inglês, slum) é usado desde o aparecimento de regiões periféricas na cidade de Londres, identificadas como um lugar separado de tudo que era decente e um refúgio para o crime e a marginalidade, onde se propaga o vício e o uso de drogas (UN-HABITAT, 2003, p. 9). Com o tempo, o termo foi sendo moldado, a fim de melhor responder ao entendimento dos movimentos sociais. Termos como

“vizinhança deteriorada”, “guetos”, “morro” e “comunidade” passaram a ser usados com mais frequência.

Ainda no estudo de 2003 (UN-HABITAT, p. 11), percebeu-se a dificuldade de encontrar uma definição para o que seria, ou não, uma “favela”, uma vez que: as favelas são complexas para serem definidas por parâmetros únicos; o que pode ser entendido por favela em uma cidade pode não ser entendido em outra; as favelas mudam com muita frequência e o espaço da favela está vulnerável a mudanças em sua jurisdição.

Por isso, optou-se por definir “favela” a partir de características comuns que aparecem como um padrão em determinados pontos da cidade, quais sejam, a falta de serviços básicos; a existência de casas com estrutura inadequada e em condição ilegal; alta densidade demográfica; pobreza e exclusão social e tamanho mínimo de área ocupada.

Em Planeta Favela, Mike Davis (2006) propõe uma classificação das favelas, que enquadra todas as experiências deste tipo de conglomerado ao

redor do mundo. Este modelo analítico ignora especificidades locais para 2. Informal a. Invasores a.1 Com autorização

a.2 Sem autorização

a. Loteamentos clandestinos a.1 Ocupado pelo proprietário a.2 Sublocação (UN-HABITAT, 2015/2016, p. 8 e 9). Entre 2000 e 2015, o número de habitantes de favelas aumentou 16.500 pessoas por dia. Segundo o Slum almanac (Idem, p.

11), os moradores das favelas costumam passar por pelo menos uma de cinco privações que reforçam sua condição de pobreza ou “situação de risco”: a insegurança de permanecer em sua casa (incerteza do despejo, devido à irregularidade da moradia); a falta de saneamento básico; a falta de água limpa; a pouca durabilidade das casas (devido à estrutura precária) e a falta de espaço digno de moradia (quando mais de 3 pessoas vivem no mesmo quarto).

27 Como será discutido mais profundamente no tópico seguinte, o modelo brasileiro tende a seguir um tipo de favelização periférica, ainda que casos como o Rio de Janeiro concentre também favelas no centro da cidade (23 contra 77 na periferia). No caso do grupo de vilas que forma a favela disposta na Caximba, as casas encontram-se em locais informais, de periferia, em loteamentos clandestinos e invasões.

Esta situação reforça outros problemas crônicos, como a falta de privacidade, a falta de serviços básicos, a distância dos equipamentos urbanos e a dificuldade de deslocamento para regiões centrais da cidade.

Em geral, a ideia de precariedade está associada à insegurança, efemeridade e fragilidade; as ideias de pobreza e vulnerabilidade também. Assim, surgem diversos conceitos para classificar as possíveis relações de precariedade, como favelas, loteamentos irregulares, ocupações irregulares, ocupações em área de risco, áreas sem aprovação da prefeitura, áreas impróprias para habitação.

(IPARDES, 2010, p. 18)

O Plano Nacional de Habitação de Interesse Social divide os

“assentamentos precários” nas categorias (IPARDES, 2010, p. 18)28:

a. Favelas: Aglomerados de domicílios dispostos de forma desordenada, geralmente densos e carentes de serviços públicos essenciais, ocupando terreno de propriedade alheia (pública ou particular).

Assentamentos que carecem de direito de propriedade e constituem aglomerações de moradias de qualidade abaixo da média. Sofrem carências de infraestrutura, de serviços urbanos e de equipamentos sociais e/ou estão situados em áreas geologicamente inadequadas e ambientalmente sensíveis.

b. Cortiços: Habitações coletivas, constituídas por edificações subdivididas em cômodos alugados, subalugados ou cedidos a qualquer título, superlotadas e com instalações sanitárias de uso comum dos moradores dos diversos cômodos.

c. Conjuntos habitacionais degradados: Conjuntos habitacionais construídos pelo setor público que se encontram atualmente em situação de irregularidade ou degradação, demandando ações de reabilitação ou adequação.

d. Áreas ocupadas por moradores de baixa renda, sem aprovação do poder público ou sem atender às condições exigidas no processo de aprovação, geralmente caracterizadas pela autoconstrução das

28 Dados compilados pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES), retirados do Ministério das Cidades.

unidades habitacionais e pela ausência ou precariedade de infraestrutura urbana básica.

Independente de sua caracterização, as favelas têm recebido, no Brasil, a atenção de políticas públicas separadas em dois polos: aquelas que promove a retirada e o reassentamento das famílias e aqueles que procuram a renovação do lugar para garantir a permanência das famílias no local (LIBÂNIO, 2016, p.

767). No centro do problema está a questão da habitação. A dualidade da aproximação do poder público se reflete também na angústia dos moradores:

lutar pela regularização ou se cadastrar para o reassentamento. O próximo capítulo procura compreender como o Brasil trata a questão habitacional e as políticas que lança mão para resolver a questão. Além de analisar o recorte espacial deste trabalho: a “Ocupação 29 de Outubro”.