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A favela e seus becos: para onde sobe e desce a cidade?

No documento UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR (páginas 56-62)

2 A QUESTÃO URBANA NO BRASIL: TRAJETÓRIAS HISTÓRICAS E

3.1 A favela e seus becos: para onde sobe e desce a cidade?

Até aqui buscamos demonstrar que a habitação é o centro da questão social

dentro de uma cidade. No entanto, o padrão burguês de moradia influenciou e

alte-rou o modo de vida, a dinâmica familiar, a ideia do espaço público e privado e a

for-ma de ocupar o solo.

Na época da escravidão no Brasil, início do século XVI até final do século XIX,

se tinha pouca segregação espacial: o escravo vivia na mesma moradia que seu

senhor ou nos seus arredores e a vida social e comercial se desenvolvia nos

espa-ços públicos. Com a problemática transição do trabalho escravo para o trabalho livre

assalariado, bem como a incipiente industrialização, a cidade foi mudando a sua

forma e ocupação.

As famílias passaram a consumir mercadorias e o lar também sofrera

mudan-ças funcionais com os pequenos inventos da época, como os telégrafos e Código

Morse, máquinas de costura, fotografia etc.

Desse modo, o trabalhador livre passava um tempo trabalhando nos lares e

estabelecimentos e precisava residir em algum lugar. As terras, agora, passaram a

ter valor e a depender do poder aquisitivo das famílias, estas se nucleariam próximo

a outras famílias na mesma condição social, dando o surgimento aos bairros.

A rua passou a ser espaço de circulação de mercadorias e passagem de

pe-destres e veículos, um lugar perigoso, um lugar de ninguém. O lar passou a ser um

espaço íntimo, protegido, frequentado de forma limitada por parentes e amigos. Os

negócios passaram a ser tratados em ambientes apartados da intimidade do lar.

[...] A casa se afasta da rua e dos vizinhos, ganhando e murando seu lote ao

redor. Dentro há uma espécie de zoneamento dos cômodos segundo

fun-ções e ocupantes precisos- sala disso, sala daquilo, quarto disso, quarto

daquilo. Dentre os cômodos da casa uma nova região é demarcada: a sala

de visitas, lugar que se abre para receber um público previamente

selecio-nado. A vida social burguesa se retira da rua para se organizar à parte, um

meio homogêneo de famílias iguais a ela. (ROLNIK, 1992 apud ALVES,

1992, p. 50).

No entanto, esse projeto burguês não inclui à todos. Morar bem e de forma

confortável se torna um privilegio daqueles que podem comprar o lote e mantê-lo.

Mas para onde vai essa grande maioria? As famílias com baixos ou nenhum salário

são transferidas para regiões periféricas, acidentadas, à beira de córregos e rios, à

margem de vias expressa e férrea, em terrenos proibidos, distante dos serviços

es-sências à saúde pública como coleta de lixo, saneamento básico.

As favelas existem no Brasil há um século. Preteceille e Valadares (2000)

es-clarecem que o nome favela advém e uma planta leguminosa e do Morro da Favella

“[...] que do nome próprio ‘Morro da Favella’ passou-se ao substantivo ‘favela’, o qual

serviria desde então para denominar os casos cada vez mais frequentes de terra

invadia e/ou ocupada ilegalmente por moradias precárias e população pobre [...]”

(PRETECEILLE; VALADARES, 2000, p. 377). Inclusive as autoras demonstram que

alguns teóricos consideram que o começo da favelização no Rio de Janeiro

iniciou-se nos anos de 1930, já outros, em número menor, consideram como marco desiniciou-se

processo, os anos de 1920.

Kowarick (1993) justifica que a favela se apresenta como formula de

sobrevi-vência para a população pobre, pois significa economia nos gastos de habitação que

pesam no orçamento familiar, como também aquela área que tende a se localizar

próximo aos centros de emprego, que proporciona que a população economize

tam-bém nas despesas com transporte. Logo o processo de favelização termina por

con-tribuir com o acesso as condições mínimas exigíveis para a vida na cidade.

A identificação desses espaços ficou caracterizada como:

[...] ocupação ilegal situado nas encostas de morros ou em bairros

relativa-mente centrais, com moradias precárias, sem infraestrutura nem serviços

urbanos. O favelado, morador de favela, passou a simbolizar o migrante

pobre, semianalfabeto, biscateiro, incapaz de se integrar e se adaptar ao

mercado de trabalho da cidade moderna, industrial. A expressão “favela é

igual a pobreza” logo se tornou consenso, compartilhado pelo meio

acadê-mico e político, e difundido pela mídia. (PRETECEILLE; VALADARES,

2000, p. 377).

As autoras citadas, também mostram que a primeira vez o Instituto Brasileiro

de Geografia e Estatística - IBGE realizou a contagem da população residente em

favelas foi em1950, quando se definiu oficialmente o conceito de favela como sendo

os aglomerados humanos que possuíssem total ou parcialmente algumas

caracte-rísticas comuns: mais de cinquenta unidades formando agrupamentos prediais ou

residenciais com predominância de casebres e barracões , sem licenciamento e

fis-calização, sem ou parcialmente sem, rede sanitária, luz, telefone ou água encanada,

além de ser uma área não urbanizada. Atualmente o próprio IBGE denomina esses

territórios como: Aglomerado Subnormal.

Zaluar e Alvito (2006, p. 11) justificam que as imagens da precariedade

urba-na das favelas fizeram dela “[...] o lugar da carência, da falta, do vazio a ser

preen-chido pelos sentimentos humanitários, do perigo a ser erradicado pelas estratégias

políticas que fizeram do favelado um bode expiatório dos problemas da cidade [...]”

(p. 13). Os autores reforçam que desde o início do século XX, os morros da cidade

do Rio de Janeiro19 já eram tidos como locais perigosos pela própria segurança

19 Zaluar e Alvito (2006) consideram que ao falar de favela é situar a história do Brasil desde a virada

do século XX e particularmente da cidade dicotomizada por interesses conflitantes, o Rio de Janeiro

na República. “[...] Pode-se dizer que as favelas tornaram-se uma marca da capital federal, em

decor-blica.

Além disso, a pesquisa denuncia que o primeiro censo realizado nas favelas

cariocas, em 1950 mesmo produzindo um documento público e oficial, terminou por

reforça numa visão estereotipada do “favelado”:

O preto, por exemplo, via de regra não soube ou não pode [sic] aproveitar a

liberdade adquirida e a melhoria econômica que lhe proporcionou o novo

ambiente para conquistar bens de consumo capazes de lhe garantirem nível

decente de vida. Renasceu-lhe a preguiça atávica, retornou a estagnação

que estiola [...]como ele todos os indivíduos de necessidades primitivas,

sem amor próprio e sem respeito à própria dignidade – priva-se do essencial

à manutenção de um nível de vida decente, mas investe somas relativas

elevadas em indumentária exótica, na gafieira e nos cordões carnavalescos

[...]. (ZALUAR; ALVITO, 2006, p. 13).

Este discurso traz toda uma conotação de culpabilização aos negros, pela

condição social em que usufruíam de liberdade. Entretanto, quais as condições

ofe-recidas a esse segmento recém liberto para obtenção dos meios de sobrevivência?

No processo de transição de mão de obra escrava para mão de obra assalariada,

não foram criadas condições de reparação a essa população. Será que os negros

teriam outra opção de moradia na cidade?

Já muitos estudos como os de Espinheira (2000), afirmam que a percepção

predominante nas décadas de 1960 e 1970 que assegurava serem as favelas um

fator de risco, de natureza físico/ecológico gerador de marginalidade, tem sido

supe-rado por uma compreensão de que violência, pobreza e marginalidade são

fenôme-nos multicausais e não se relacionam diretamente com o território.

Maricato (2001) cita Gilberto Freyre e lembra a sua clássica obra Sobrados e

Mocambos que a invasão de terras já era uma pratica comum no Brasil há cem

anos, e é parte integrante do nosso processo de urbanização. O que muda, a partir

da década de 1980, a partir da crise de 1979, é que parte das invasões passou a

serem resultados de movimentos coletivos, sociais e organizados.

[...] Trata-se de uma nova prática, de novos sujeitos, distintos da população

submissa que faz sua invasão em silencio para passar despercebida e

es-perar pelo favor dos que lhe permitirão ali permanecer, alimentando a

rência (não intencional) das tentativas dos republicanos radicais e dos teóricos do embraquecimento -

incluindo-se aí os membros de várias oligarquias regionais – para torná-la uma cidade europeia.

Ci-dade desde o início marcada pelo paradoxo, a derrubada dos cortiços resultou no crescimento da

população pobre nos morros, charcos e demais áreas vazias em torno da capital. Mas isso também

se deveu à criatividade cultural e política, à capacidade de luta e de organização demonstradas pelos

favelados nos 100 anos de sua história. E a capital federal nunca se tornou europeia, graças à força

que continuaram a ter nela a capoeira (ou pernada ou batucada), as festas populares que ainda

reu-niam pessoas de diferentes classes sociais e raças, as diversas formas e gêneros musicais que

uni-am o erudito e o popular, especialmente o suni-amba.” (ZALUAR; ALVITO, 2006, p. 7).

ção de clientelismo. Os novos sujeitos reivindicam direitos. O direito à

mo-radia, o direito à terra. Rejeitam até mesmo o conceito de “invasão”, pois

en-tendem que têm direito à “ocupação” da terra que está ociosa.

(MARICA-TO, 2001, p. 154).

Já na década de 1990 essa atitude evolui do direito à moradia para o “direito à

cidade”, e as invasões organizadas se fazem em áreas centrais, nos edifícios

aban-donados há muitos anos (MARICATO, 2001).

Os dados obtidos a partir do censo do IBGE realizado em 201020 apontam

que o número de pessoas que moram em assentamentos irregulares dobrou. Em

1991, 4,48 milhões de pessoas (3% da população) residiam nessas áreas e em 2010

chegou-se a 6,53 milhões (3,9%). Foram contabilizados 6.329 aglomerados

subnor-mais em 323 municípios do país, sendo que 88,2 % destas moradias concentram-se

na região urbana, ou seja, regiões com mais de 1 milhão de habitantes. Das regiões

metropolitanas destacam-se São Paulo, Rio e Belém totalizando 43,7% de moradias

situadas em assentamentos subnormais. Vale ressaltar que a cidade de Campo

Grande, segundo dados do IBGE (2010) foi considerada a capital com menor

pro-porção de população em moradias desse tipo - 0,2% dos habitantes.

Alvito (2006) realizou uma pesquisa de campo na favela do Acarai, no Rio de

Janeiro estudando os aspectos de honra, da hierarquia e da reciprocidade,

conside-rando as relações entre localidades, a favela e as instituições locais, bem como as

relações de vizinhança no interior da favela. A seguir traremos alguns aspectos

im-portantes que nos ajudam a compreender a representação do morar e sobreviver

numa cidade.

20 A região Sudeste ainda concentra metade (49, 8%) das moradias situadas nesses aglomerados

subnormais do País, destacando os Estados de São Paulo (23%) e Rio de Janeiro (19%). Seguidas

da região Nordeste tinha 28, 7% do total, a Norte 14, 4%, a Sul 5, 3% e a Centro Oeste 1, 8%.

O Censo de 2010 ainda revela o perfil do morador de favelas que tem a idade média de 27, 9 anos

sendo que na faixa de 0 a 14 anos correspondia a 28, 3% do total nas favelas, em contrapartida nas

áreas urbanas regulares essa proporção era de 21, 5%. Na faixa de 60 anos ou mais, era de 6, 1%

nos aglomerados e de 11, 1% nas urbanizadas regulares. Esses dados revelam uma alta

concentra-ção da populaconcentra-ção jovem. Vale destacar que o porcentual de pessoas que se declaram pretos e

par-dos nas favelas chegou a 68, 4%, ante 46, 7% no Censo de 1990. Esse percentual é muito maior

comparado às aéreas urbanas regulares dos municípios.

Em relação ao número de moradores por domicilio, os dados apresentaram serem mais altos do que

nas áreas urbanas regulares, que fica em média de 3, 2 moradores por domicilio. A região Norte

che-gou a apresentar 4, 5 moradores por domicilio, no Estado do Amapá, enquanto no Estado de São

Paulo foi de 3, 6 moradores por domicílio.

O IBGE sinaliza a insuficiência dos investimentos em habitação e saneamento para atender a

cres-cente demanda de pessoas que se deslocaram para morar na cidade em busca de oportunidades de

trabalho.

Em seus achados, Alvito (2006) esclarece sobre as micro áreas no território,

ou seja, os pedacinhos da favela e a forma como ela são nomeadas. Ora o nome é

neutro, ora referenciam uma característica geográfica, ou uma famosa área de lazer,

ou um famoso ritmo musical, um santuário, ou resquícios de atividades econômicas

de uma determinada área. O autor mostra que “[...] as micro áreas servem muitas

vezes de suporte para representações acerca das diferenças existentes no interior

de uma única favela [...]” (ALVITO, 2006, p. 192). E afirma que dentro dessas micro

áreas existem áreas com mais pobres e propõe uma divisão básica entre as micro

áreas “mais para fora” e “ mais para dentro” das favelas. Enfatiza-se que quanto

mais distante “do asfalto”, essas regiões interiores seriam menos valorizadas.

Isso significa que dentro de lotes subvalorizados nas favelas, ainda assim

existe uma valorização da terra pela proximidade de serviços e de áreas mais

urba-nizadas. A ilegalidade21 aliada a precariedade contribui para a existência de

progra-mas de governo prol remoção dessas habitações.

Dessa mesma localidade, plural e heterogênea podem ser identificados

dife-rentes tipos de famílias pobres, aquelas que se concentram abaixo da linha dos

ní-veis de renda e aquelas que se concentram abaixo de uma linha de indigência,

apresentando uma pobreza extrema e absoluta. Entretanto, apesar da carência

ma-terial prevalente, há sempre valores atitudinais e relações de solidariedade humana

que essas famílias vulneráveis trocam entre si, se ajudando mutuamente.

A favela é um ambiente dinâmico onde se operam as relações sociais, onde

se promovem modos de vida, formas básicas interpessoais humana se apresenta

um grau de sustentabilidade próprio dentro da cidade, apesar de apresentar muitos

dos níveis altos de exclusão, vulnerabilidades e pobreza que incidem na cidade.

21 BUENO (1998) conceitua nos seus aspectos jurídicos e urbanísticos o que seriam as ocupações e

favelas esclarecendo que são áreas ocupadas espontaneamente ou de forma organizada por

pesso-as de baixa renda onde não se estabelece nenhuma relação jurídica formal entre os ocupantes e os

proprietários das áreas privadas ou públicas. Há uma insegurança jurídica com possibilidade de

con-flito fundiário, bem como a expulsão através de ações judiciais de reintegração de posse. O

usucapi-ão utilizada de forma individual ou coletiva, segundo o autor, tem sido o instrumento mais indicado

para regularização das favelas situadas em áreas particulares. Outro recurso é o Direito de Superfície

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