2 A QUESTÃO URBANA NO BRASIL: TRAJETÓRIAS HISTÓRICAS E
3.1 A favela e seus becos: para onde sobe e desce a cidade?
Até aqui buscamos demonstrar que a habitação é o centro da questão social
dentro de uma cidade. No entanto, o padrão burguês de moradia influenciou e
alte-rou o modo de vida, a dinâmica familiar, a ideia do espaço público e privado e a
for-ma de ocupar o solo.
Na época da escravidão no Brasil, início do século XVI até final do século XIX,
se tinha pouca segregação espacial: o escravo vivia na mesma moradia que seu
senhor ou nos seus arredores e a vida social e comercial se desenvolvia nos
espa-ços públicos. Com a problemática transição do trabalho escravo para o trabalho livre
assalariado, bem como a incipiente industrialização, a cidade foi mudando a sua
forma e ocupação.
As famílias passaram a consumir mercadorias e o lar também sofrera
mudan-ças funcionais com os pequenos inventos da época, como os telégrafos e Código
Morse, máquinas de costura, fotografia etc.
Desse modo, o trabalhador livre passava um tempo trabalhando nos lares e
estabelecimentos e precisava residir em algum lugar. As terras, agora, passaram a
ter valor e a depender do poder aquisitivo das famílias, estas se nucleariam próximo
a outras famílias na mesma condição social, dando o surgimento aos bairros.
A rua passou a ser espaço de circulação de mercadorias e passagem de
pe-destres e veículos, um lugar perigoso, um lugar de ninguém. O lar passou a ser um
espaço íntimo, protegido, frequentado de forma limitada por parentes e amigos. Os
negócios passaram a ser tratados em ambientes apartados da intimidade do lar.
[...] A casa se afasta da rua e dos vizinhos, ganhando e murando seu lote ao
redor. Dentro há uma espécie de zoneamento dos cômodos segundo
fun-ções e ocupantes precisos- sala disso, sala daquilo, quarto disso, quarto
daquilo. Dentre os cômodos da casa uma nova região é demarcada: a sala
de visitas, lugar que se abre para receber um público previamente
selecio-nado. A vida social burguesa se retira da rua para se organizar à parte, um
meio homogêneo de famílias iguais a ela. (ROLNIK, 1992 apud ALVES,
1992, p. 50).
No entanto, esse projeto burguês não inclui à todos. Morar bem e de forma
confortável se torna um privilegio daqueles que podem comprar o lote e mantê-lo.
Mas para onde vai essa grande maioria? As famílias com baixos ou nenhum salário
são transferidas para regiões periféricas, acidentadas, à beira de córregos e rios, à
margem de vias expressa e férrea, em terrenos proibidos, distante dos serviços
es-sências à saúde pública como coleta de lixo, saneamento básico.
As favelas existem no Brasil há um século. Preteceille e Valadares (2000)
es-clarecem que o nome favela advém e uma planta leguminosa e do Morro da Favella
“[...] que do nome próprio ‘Morro da Favella’ passou-se ao substantivo ‘favela’, o qual
serviria desde então para denominar os casos cada vez mais frequentes de terra
invadia e/ou ocupada ilegalmente por moradias precárias e população pobre [...]”
(PRETECEILLE; VALADARES, 2000, p. 377). Inclusive as autoras demonstram que
alguns teóricos consideram que o começo da favelização no Rio de Janeiro
iniciou-se nos anos de 1930, já outros, em número menor, consideram como marco desiniciou-se
processo, os anos de 1920.
Kowarick (1993) justifica que a favela se apresenta como formula de
sobrevi-vência para a população pobre, pois significa economia nos gastos de habitação que
pesam no orçamento familiar, como também aquela área que tende a se localizar
próximo aos centros de emprego, que proporciona que a população economize
tam-bém nas despesas com transporte. Logo o processo de favelização termina por
con-tribuir com o acesso as condições mínimas exigíveis para a vida na cidade.
A identificação desses espaços ficou caracterizada como:
[...] ocupação ilegal situado nas encostas de morros ou em bairros
relativa-mente centrais, com moradias precárias, sem infraestrutura nem serviços
urbanos. O favelado, morador de favela, passou a simbolizar o migrante
pobre, semianalfabeto, biscateiro, incapaz de se integrar e se adaptar ao
mercado de trabalho da cidade moderna, industrial. A expressão “favela é
igual a pobreza” logo se tornou consenso, compartilhado pelo meio
acadê-mico e político, e difundido pela mídia. (PRETECEILLE; VALADARES,
2000, p. 377).
As autoras citadas, também mostram que a primeira vez o Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística - IBGE realizou a contagem da população residente em
favelas foi em1950, quando se definiu oficialmente o conceito de favela como sendo
os aglomerados humanos que possuíssem total ou parcialmente algumas
caracte-rísticas comuns: mais de cinquenta unidades formando agrupamentos prediais ou
residenciais com predominância de casebres e barracões , sem licenciamento e
fis-calização, sem ou parcialmente sem, rede sanitária, luz, telefone ou água encanada,
além de ser uma área não urbanizada. Atualmente o próprio IBGE denomina esses
territórios como: Aglomerado Subnormal.
Zaluar e Alvito (2006, p. 11) justificam que as imagens da precariedade
urba-na das favelas fizeram dela “[...] o lugar da carência, da falta, do vazio a ser
preen-chido pelos sentimentos humanitários, do perigo a ser erradicado pelas estratégias
políticas que fizeram do favelado um bode expiatório dos problemas da cidade [...]”
(p. 13). Os autores reforçam que desde o início do século XX, os morros da cidade
do Rio de Janeiro19 já eram tidos como locais perigosos pela própria segurança
19 Zaluar e Alvito (2006) consideram que ao falar de favela é situar a história do Brasil desde a virada
do século XX e particularmente da cidade dicotomizada por interesses conflitantes, o Rio de Janeiro
na República. “[...] Pode-se dizer que as favelas tornaram-se uma marca da capital federal, em
decor-blica.
Além disso, a pesquisa denuncia que o primeiro censo realizado nas favelas
cariocas, em 1950 mesmo produzindo um documento público e oficial, terminou por
reforça numa visão estereotipada do “favelado”:
O preto, por exemplo, via de regra não soube ou não pode [sic] aproveitar a
liberdade adquirida e a melhoria econômica que lhe proporcionou o novo
ambiente para conquistar bens de consumo capazes de lhe garantirem nível
decente de vida. Renasceu-lhe a preguiça atávica, retornou a estagnação
que estiola [...]como ele todos os indivíduos de necessidades primitivas,
sem amor próprio e sem respeito à própria dignidade – priva-se do essencial
à manutenção de um nível de vida decente, mas investe somas relativas
elevadas em indumentária exótica, na gafieira e nos cordões carnavalescos
[...]. (ZALUAR; ALVITO, 2006, p. 13).
Este discurso traz toda uma conotação de culpabilização aos negros, pela
condição social em que usufruíam de liberdade. Entretanto, quais as condições
ofe-recidas a esse segmento recém liberto para obtenção dos meios de sobrevivência?
No processo de transição de mão de obra escrava para mão de obra assalariada,
não foram criadas condições de reparação a essa população. Será que os negros
teriam outra opção de moradia na cidade?
Já muitos estudos como os de Espinheira (2000), afirmam que a percepção
predominante nas décadas de 1960 e 1970 que assegurava serem as favelas um
fator de risco, de natureza físico/ecológico gerador de marginalidade, tem sido
supe-rado por uma compreensão de que violência, pobreza e marginalidade são
fenôme-nos multicausais e não se relacionam diretamente com o território.
Maricato (2001) cita Gilberto Freyre e lembra a sua clássica obra Sobrados e
Mocambos que a invasão de terras já era uma pratica comum no Brasil há cem
anos, e é parte integrante do nosso processo de urbanização. O que muda, a partir
da década de 1980, a partir da crise de 1979, é que parte das invasões passou a
serem resultados de movimentos coletivos, sociais e organizados.
[...] Trata-se de uma nova prática, de novos sujeitos, distintos da população
submissa que faz sua invasão em silencio para passar despercebida e
es-perar pelo favor dos que lhe permitirão ali permanecer, alimentando a
rência (não intencional) das tentativas dos republicanos radicais e dos teóricos do embraquecimento -
incluindo-se aí os membros de várias oligarquias regionais – para torná-la uma cidade europeia.
Ci-dade desde o início marcada pelo paradoxo, a derrubada dos cortiços resultou no crescimento da
população pobre nos morros, charcos e demais áreas vazias em torno da capital. Mas isso também
se deveu à criatividade cultural e política, à capacidade de luta e de organização demonstradas pelos
favelados nos 100 anos de sua história. E a capital federal nunca se tornou europeia, graças à força
que continuaram a ter nela a capoeira (ou pernada ou batucada), as festas populares que ainda
reu-niam pessoas de diferentes classes sociais e raças, as diversas formas e gêneros musicais que
uni-am o erudito e o popular, especialmente o suni-amba.” (ZALUAR; ALVITO, 2006, p. 7).
ção de clientelismo. Os novos sujeitos reivindicam direitos. O direito à
mo-radia, o direito à terra. Rejeitam até mesmo o conceito de “invasão”, pois
en-tendem que têm direito à “ocupação” da terra que está ociosa.
(MARICA-TO, 2001, p. 154).
Já na década de 1990 essa atitude evolui do direito à moradia para o “direito à
cidade”, e as invasões organizadas se fazem em áreas centrais, nos edifícios
aban-donados há muitos anos (MARICATO, 2001).
Os dados obtidos a partir do censo do IBGE realizado em 201020 apontam
que o número de pessoas que moram em assentamentos irregulares dobrou. Em
1991, 4,48 milhões de pessoas (3% da população) residiam nessas áreas e em 2010
chegou-se a 6,53 milhões (3,9%). Foram contabilizados 6.329 aglomerados
subnor-mais em 323 municípios do país, sendo que 88,2 % destas moradias concentram-se
na região urbana, ou seja, regiões com mais de 1 milhão de habitantes. Das regiões
metropolitanas destacam-se São Paulo, Rio e Belém totalizando 43,7% de moradias
situadas em assentamentos subnormais. Vale ressaltar que a cidade de Campo
Grande, segundo dados do IBGE (2010) foi considerada a capital com menor
pro-porção de população em moradias desse tipo - 0,2% dos habitantes.
Alvito (2006) realizou uma pesquisa de campo na favela do Acarai, no Rio de
Janeiro estudando os aspectos de honra, da hierarquia e da reciprocidade,
conside-rando as relações entre localidades, a favela e as instituições locais, bem como as
relações de vizinhança no interior da favela. A seguir traremos alguns aspectos
im-portantes que nos ajudam a compreender a representação do morar e sobreviver
numa cidade.
20 A região Sudeste ainda concentra metade (49, 8%) das moradias situadas nesses aglomerados
subnormais do País, destacando os Estados de São Paulo (23%) e Rio de Janeiro (19%). Seguidas
da região Nordeste tinha 28, 7% do total, a Norte 14, 4%, a Sul 5, 3% e a Centro Oeste 1, 8%.
O Censo de 2010 ainda revela o perfil do morador de favelas que tem a idade média de 27, 9 anos
sendo que na faixa de 0 a 14 anos correspondia a 28, 3% do total nas favelas, em contrapartida nas
áreas urbanas regulares essa proporção era de 21, 5%. Na faixa de 60 anos ou mais, era de 6, 1%
nos aglomerados e de 11, 1% nas urbanizadas regulares. Esses dados revelam uma alta
concentra-ção da populaconcentra-ção jovem. Vale destacar que o porcentual de pessoas que se declaram pretos e
par-dos nas favelas chegou a 68, 4%, ante 46, 7% no Censo de 1990. Esse percentual é muito maior
comparado às aéreas urbanas regulares dos municípios.
Em relação ao número de moradores por domicilio, os dados apresentaram serem mais altos do que
nas áreas urbanas regulares, que fica em média de 3, 2 moradores por domicilio. A região Norte
che-gou a apresentar 4, 5 moradores por domicilio, no Estado do Amapá, enquanto no Estado de São
Paulo foi de 3, 6 moradores por domicílio.
O IBGE sinaliza a insuficiência dos investimentos em habitação e saneamento para atender a
cres-cente demanda de pessoas que se deslocaram para morar na cidade em busca de oportunidades de
trabalho.
Em seus achados, Alvito (2006) esclarece sobre as micro áreas no território,
ou seja, os pedacinhos da favela e a forma como ela são nomeadas. Ora o nome é
neutro, ora referenciam uma característica geográfica, ou uma famosa área de lazer,
ou um famoso ritmo musical, um santuário, ou resquícios de atividades econômicas
de uma determinada área. O autor mostra que “[...] as micro áreas servem muitas
vezes de suporte para representações acerca das diferenças existentes no interior
de uma única favela [...]” (ALVITO, 2006, p. 192). E afirma que dentro dessas micro
áreas existem áreas com mais pobres e propõe uma divisão básica entre as micro
áreas “mais para fora” e “ mais para dentro” das favelas. Enfatiza-se que quanto
mais distante “do asfalto”, essas regiões interiores seriam menos valorizadas.
Isso significa que dentro de lotes subvalorizados nas favelas, ainda assim
existe uma valorização da terra pela proximidade de serviços e de áreas mais
urba-nizadas. A ilegalidade21 aliada a precariedade contribui para a existência de
progra-mas de governo prol remoção dessas habitações.
Dessa mesma localidade, plural e heterogênea podem ser identificados
dife-rentes tipos de famílias pobres, aquelas que se concentram abaixo da linha dos
ní-veis de renda e aquelas que se concentram abaixo de uma linha de indigência,
apresentando uma pobreza extrema e absoluta. Entretanto, apesar da carência
ma-terial prevalente, há sempre valores atitudinais e relações de solidariedade humana
que essas famílias vulneráveis trocam entre si, se ajudando mutuamente.
A favela é um ambiente dinâmico onde se operam as relações sociais, onde
se promovem modos de vida, formas básicas interpessoais humana se apresenta
um grau de sustentabilidade próprio dentro da cidade, apesar de apresentar muitos
dos níveis altos de exclusão, vulnerabilidades e pobreza que incidem na cidade.
21 BUENO (1998) conceitua nos seus aspectos jurídicos e urbanísticos o que seriam as ocupações e
favelas esclarecendo que são áreas ocupadas espontaneamente ou de forma organizada por
pesso-as de baixa renda onde não se estabelece nenhuma relação jurídica formal entre os ocupantes e os
proprietários das áreas privadas ou públicas. Há uma insegurança jurídica com possibilidade de
con-flito fundiário, bem como a expulsão através de ações judiciais de reintegração de posse. O
usucapi-ão utilizada de forma individual ou coletiva, segundo o autor, tem sido o instrumento mais indicado
para regularização das favelas situadas em áreas particulares. Outro recurso é o Direito de Superfície
No documento
UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR
(páginas 56-62)