4 ESCRAVIDÃO E JUSTIÇA EM MORRO DO CHAPÉU
4.2 Fazenda Sanhem: escravizados, agregados e Poder Senhorial
O primeiro caso de prática criminal escrava que analisaremos é instigante e complexo.
O conflito que deu origem a esse processo ocorreu entre um cativo chamado Manoel e um
liberto – Antonio Francisco Pereira, vulgo Francisco Chapada, como a partir de agora o
denominaremos. Outros personagens também aparecem nessa história, por razão de suas
atuações durante o julgamento, ou mesmo por estarem envolvidos nos motivos que levaram o
crime a acontecer.
Esse processo crime teve início no ano de 1871 e foi finalizado apenas em 1877.
Durante os seis anos que esteve em aberto, ocorreram três julgamentos, e esse caso foi
encaminhado para o Tribunal da Relação, onde ocorreu o último veredicto, proferido pelo
Doutor Juiz de direito da comarca de Morro de Chapéu, Antonio José de Castro Senna.
Manoel escravo foi acusado de ter assassinado o liberto Francisco Chapada com um
tiro de espingarda que o atingiu abaixo do peito. O crime ocorreu na fazenda Sanhem,
localizada no distrito de Ventura
213, e cujo dono é o Tenente Manoel de Miranda Montezuma.
Segundo os depoimentos das principais testemunhas, a ação criminosa em questão
ocorreu da seguinte maneira: por volta do meio dia de sábado, dois de setembro de 1871,
Cândida de Tal, mulher de Manoel de Tal, ambos moradores da fazenda Sanhem, de
propriedade do tenente Manoel de Miranda Montezuma, como já dissemos, estava em sua
casa, quando de repente assustou-se com um tiro que ouviu. Uma hora depois ela passou a
escutar gritos. Com medo, demorou-se e apenas pela tarde se dirigiu com sua filha Maria para
a roça, local de onde vinham os gritos.
Foi quando mãe e filha encontraram dentro de uma poça de sangue Antonio Francisco
Pereira, mais conhecido na comunidade como Francisco Chapada. Este lhes pediu ajuda,
implorando por água, e estava gravemente ferido. Não podendo socorrê-lo, talvez por medo,
mãe e filha correram para contar o acontecido ao tenente Manoel de Miranda Montezuma.
Ao tomar conhecimento do ocorrido, Tenente Montezuma mandou seu filho Joaquim
chamar algumas pessoas para buscarem a vítima. Chegando ao local, encontraram Francisco
Chapada ainda vivo. Perguntaram-lhe quem o tinha ferido e receberam como resposta ter sido
Manoel, cativo do tenente, pois a vítima afirmou ter visto Manoel lhe dar um tiro e sair
correndo agachado. Francisco Chapada foi levado para a casa de Montezuma, onde acusou
novamente o escravizado, dessa vez diante de seu senhor, e faleceu horas depois.
Esse relato traduz com verossimilhança os depoimentos que levaram, em um primeiro
momento do processo, a condenação de Manoel escravo a galés perpétuas
214. Sendo o réu um
cativo e, dessa maneira, não possuindo representação jurídica, foi indicado o Alferes Antonio
José de Almeida do Ó como curador. Trabalhando na construção da defesa de Manoel, o
defensor apelou da sentença para o Tribunal da Relação, sediado em Salvador, fato que
desencadeou uma intensa disputa judicial com direito a réplica e tréplica, e fez com que esse
processo se arrastasse durante vários anos.
Manoel escravo foi preso dias depois de ocorrido o crime, na localidade denominada
Breginho, próxima ao distrito de Ventura, pelo inspetor de quarteirão Vitoriano Dias de
213 O Ventura, ou Comércio do Ventura e posteriormente Distrito, era um dos espaços mais importantes para a economia morrense. Lá foram descobertos na segunda metade do século XIX diamante e, tempos depois, após o declínio da produção diamantífera, carbonato. Sobre essas informações, ler o trabalho de SAMPAIO, Moiseis de Oliveira. O coronel negro: coronelismo e poder no norte da Chapada Diamantina (1864-1919). (Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em História Regional da Universidade do Estado da Bahia, 2009). 214 O condenado a galés perpétuas se tornava propriedade do estado, tendo como punição o trabalho em obras públicas sob o peso de correntes.
Souza. Este, um representante da justiça, foi responsável por encaminhar o cativo à delegacia
da Villa de Nossa Senhora da Graça do Morro do Chapéu, onde foi interrogado a respeito dos
fatos envolvendo o assassinato de Francisco Chapada.
No seu primeiro depoimento, que ocorreu no ano de 1871, Manoel disse ter trinta e
dois anos de idade, nascido no distrito de Ventura, onde viveu por uns cinco anos até ser
levado para a fazenda Sanhem. Manoel era filho de Joaquim e Thomasia, ambos também
escravizados de Montezuma. Afirmou ser solteiro e não saber ler e nem escrever, e tinha
como profissão ou meio de vida a lavoura.
Além de ter respondido a essas questões básicas de qualquer interrogatório, Manoel
nos ofereceu outras informações muito importantes nesse seu primeiro depoimento. Ele
afirmou possuir uma roça na fazenda de seu senhor e também ter a liberdade de viajar nos
finais de semana sem o seu consentimento.
Essas últimas afirmações permitem que compreendamos melhor o desenrolar desse
processo e também dão suporte para refletirmos sobre as práticas escravistas em Morro do
Chapéu. Quando Manoel afirma que tinha liberdade de viajar sem o consentimento de seu
senhor nos finais de semana, o cativo destacava uma informação que era considerada
importante para a construção de seu álibi, pois, ao defender-se da acusação, afirmou que no
dia em que aconteceu o crime estava arrancando feijão pela manhã em sua roça, acompanhado
de seu senhor moço Joaquim e de Bárbara, cativa de outro filho do Tenente.
Ainda no seu depoimento, informou que, nesse mesmo dia, após ter concluído a tarefa,
saiu da fazenda Sanhem e viajou para o local conhecido por Maçambão. Ficou ali por uns dias
até se dirigir para as Caraíbas
215, de onde saiu em direção ao local denominado Breginho,
onde acabou sendo preso. Ao ser questionado durante o interrogatório sobre o porquê de seu
senhor não ter conhecimento de sua viagem, Manoel respondeu que havia contado somente
para Bárbara e Joaquim, chegando a dizer em suas próprias palavras que eles eram os “[...]
únicos que sabiam de sua verdade
216”.
Quando interrogado sobre o motivo do crime, Manoel negou ter sido o autor, mas
admitiu conhecer Francisco Chapada e, no decorrer do seu depoimento, acabou confessando
que há algum tempo havia brigado com a vítima por causa de certa quantia de dinheiro. Essa
desavença teria ocorrido após réu e vítima trabalharem juntos levando uma carga de farinha
do distrito de Ventura para a fazenda Sanhem.
215 Caraíbas era o nome pelo qual era conhecida a atual cidade de Irecê (BA).
216 BAHIA,Secretaria da Justiça da. PROCESSO CRIME contraManoel Escravo. Vítima: Antonio Francisco Pereira. Arquivo do Fórum Clériston Andrade, Morro do Chapéu, Bahia, Brasil, 1871. Caixa Crime 1870-1871.
Segundo Manoel, Francisco Chapada quis levar vantagem financeira no
empreendimento que realizaram. Este teria sido o motivo que os levou a um conflito de
interesses. Ao relatar durante o depoimento a discussão que tiveram, Manoel deixou escapar
uma informação que merece destaque, ele disse que jogou o dinheiro em cima do barco de
Francisco Chapada e disse à vítima que “[...] se fosse forro como ele, resolveria o problema
dando-lhe uma surra
217”.
Pela declaração de Manoel em seu primeiro depoimento, verificamos que a vítima era
um liberto. Provavelmente, antes de conseguir a alforria, tivesse pertencido também a
Montezuma, pois até o momento de sua morte, Francisco Chapada manteve relações com o
Tenente, trabalhando em uma roça que possuía na fazenda Sanhem.
Ao refletirmos sobre essas informações, supomos que, assim como Manoel, Francisco
Chapada também tivesse a autonomia de trabalhar para si e, dessa forma, tenha acumulado
pecúlio, prática costumeira que passou a ser legitimada a partir da Lei de 1871. Através deste
pecúlio acumulado, conseguiu sua alforria passando da condição de escravizado a liberto e
agregado. Sobre a importância da aprovação dessa lei para as relações estabelecidas entre
senhores e cativos, Sharyse Piroupo Amaral diz que:
Pois, como mostrou Sidney Chalhoub, a Lei de 1871, ao legitimar a
formação do pecúlio e a compra da alforria pelo escravo, tirou dos senhores
a principal base da política de dominação paternalista, que visava tanto a
obediência do escravo, quanto a formação de dependentes
218.
Este conflito em que estiveram envolvidos estes dois personagens do processo, a
vítima um forro, o acusado um cativo, permite muitas considerações a respeito das relações
escravistas intraclasses em Morro do Chapéu. A partir de uma investigação aprofundada sobre
as informações contidas nos depoimentos, foi possível até mesmo conhecermos práticas
econômicas e relações de trabalho estabelecidas no cotidiano da sociedade morrense. Moiseis
Sampaio, historiador que se debruçou sobre esse tema, diz:
A maioria dos escravos e agregados da região também exercessem variadas
atividades, dadas às condições gerais de sobrevivência. Ser vaqueiro, não
impedia que a mesma pessoa fosse pedreiro, agricultor e principalmente
garimpeiro. Mesmo porque a policultura de subsistência e a pecuária
217
BAHIA,Secretaria da Justiça da. PROCESSO CRIME contraManoel Escravo. Vítima: Antonio Francisco Pereira. Arquivo do Fórum Clériston Andrade, Morro do Chapéu, Bahia, Brasil, 1871. Caixa Crime 1870-1871. 218 AMARAL, Sharyse Piroupo do. Escravidão, Liberdade e Resistência em Sergipe:
extensiva não consumiam todo o tempo dos trabalhadores na maior parte do
ano, podendo o mesmo se dedicar a outras atividades em seu tempo livre
219.
O pensamento do pesquisador, citado acima, serve para corroborar a ideia que aqui
desenvolvemos. Ou seja, a de que as relações intraclasses na região de Morro do Chapéu eram
marcadas por uma proximidade muito grande entre os indivíduos devido à forma como se
organizava aquela sociedade. Homens livres, cativos e libertos trabalhavam juntos nas mais
diversas atividades trabalhistas, disputando muitas vezes as mesmas oportunidades de
emprego ou se unindo para realizar determinada tarefa, como no caso apresentado do
escravizado Manoel e Francisco Chapada.
Todavia, essa proximidade não se resumia a relações de trabalho, pois relações
afetivas e sociais das mais diversas também eram estabelecidas entre esses indivíduos,
desencadeando diversos conflitos como este que agora analisamos. Divergências de opiniões
acerca de direitos e deveres durante a realização de algum trabalho poderiam gerar intrigas e
conflitos mais sérios resultando até mesmo num crime mais grave, como o assassinato.
Estudar esse confronto ocorrido entre escravizado e liberto, que desencadeou a morte
do segundo e teve como início uma disputa sobre quem deveria ganhar mais dinheiro por uma
atividade comercial realizada, permite constatarmos o quanto foram múltiplas e variadas as
relações escravistas, indo muito além daquelas que envolviam apenas senhor e escravizado.
No cotidiano da sociedade morrense, cativos, libertos, homens livres pobres e senhores de
escravizados viviam de forma muito próxima, dividindo os mesmos espaços sociais, muitas
vezes trabalhando juntos no mesmo local e até na mesma função.
Em Morro do Chapéu a lógica que orientava a exploração da mão de obra escravizada
não seguia os mesmos padrões que seguiam os grandes “plantations”, esses são apresentados
pela historiografia dita tradicional como um padrão em que um grande número de cativos era
vigiado por feitores e administradores, enquanto trabalhavam. Tendo, muitas vezes, apenas a
liberdade de se locomover espacialmente pela propriedade de seu senhor. Entretanto, vale
ressaltar que estudos recentes apontam que essa realidade da casa-grande
220não era a regra, e
sim a exceção.
Não só tomando como ponto de partida o caso de Manoel, mas também de outros
escravizados de Morro do Chapéu, cuja vida foi investigada a partir de outros processos
219 SAMPAIO, Moiseis de Oliveira. O coronel negro: coronelismo e poder no norte da Chapada Diamantina (1864-1919). Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em História Regional da Universidade do Estado da Bahia, Bahia, 2009, p. 23.
220 BARICKMAN, Bert Jude. E se a casa-grande não fosse tão grande? Uma freguesia açucareira do Recôncavo Baiano em 1835. Afro-Ásia, v.29/30, p.79-132, 2003.
crimes, percebemos que não havia na região um efetivo controle social sobre os cativos. As
normas de controle social, posturas e a própria legislação não permitiam que os escravizados
circulassem pelas cidades, vilas e arraiais portando armas de fogo. Todavia, como aponta o
pensamento de Fátima Pires,
As posturas municipais sugerem tentativas de disciplinarização da vida
social, mas, parece claro, que as suas normatizações se mostravam mais
sintomáticas das transgressões do que efetivamente reguladoras das
chamadas “práticas costumeiras
221”.
Os resultados obtidos nessa pesquisa estão em consonância com o que diz a autora
citada. Pois identificamos, em vários depoimentos e processos, cativos que através de suas
“práticas costumeiras” desrespeitavam as leis e normas de controle social. O que nos leva a
crer que, por vezes, a lei foi utilizada para contrapor costumes da população. Todavia, os
processos crimes aqui analisados mostram que não havia em Morro do Chapéu, nesse
período, uma efetiva administração do poder judiciário.
O escravizado Manoel acusou seu companheiro de empreitada, o forro Francisco
Chapada “[...] de querer levar vantagem
222”. Ao pensarmos a respeito dessa questão, supomos
que talvez Francisco Chapada possa ter acreditado que, por ter sido alforriado e dessa forma
ascendido socialmente à condição de liberto, alcançando um status social superior ao do
cativo, deveria exigir uma porcentagem maior nos lucros, proposta que não foi bem aceita
pelo escravizado.
Manoel, sentindo-se injustiçado e não podendo lutar por seus direitos pelas vias da
justiça, pode ter buscado outra forma de reaver aquilo que lhe parecia justo, seja o acerto de
questões financeiras ou mesmo de questões relacionadas à honra. Talvez para o escravizado
essa tenha sido uma forma de fazer justiça com as próprias mãos. Essa pode ter sido uma
interpretação feita pelo júri e demais indivíduos que participaram do primeiro julgamento,
que, dessa maneira, tiveram argumentos para corroborar a acusação feita contra ele e
condená-lo.
No segundo interrogatório feito a Manoel, ele foi inquirido a comentar a respeito do
seu envolvimento com a escravizada Bárbara, também pertencente ao Tenente e moradora da
fazenda Sanhem. Admitiu que, tanto ele quanto Francisco, no passado haviam se relacionado
221
PIRES, Maria de Fátima Novaes. Fios da vida: tráfico internacional e alforrias nos Sertoins de Sima – BA (1860 – 1920). São Paulo: Annablume, 2009, p. 23.
222 BAHIA,Secretaria da Justiça da. PROCESSO CRIME contraManoel Escravo. Vítima: Antonio Francisco Pereira. Arquivo do Fórum Clériston Andrade, Morro do Chapéu, Bahia, Brasil, 1871. Caixa Crime 1870-1871.
afetivamente com ela, mas que havia sido há muito tempo, e que eles não tinham mais relação
com a cativa. Apesar de ter dito isso, Manoel mencionou em outros momentos que possuía
muita amizade com a referida Bárbara.
Durante o julgamento, algumas testemunhas, ao depor, afirmaram que viram o
escravizado brigando com a vítima durante uns festejos no distrito de Ventura, uma semana
antes de o crime ter ocorrido. Manoel tentou se explicar dizendo que era amigo de Francisco
Chapada, embora tenha admitido à ocorrência do que chamou de uma pequena cisma entre
eles. Tentou justificá-la, dizendo que o único motivo foi terem relembrado uma antiga intriga.
Ao perguntarem “[...] se elle respondente era inimigo ou amigo da vítima?
223”,
Respondeo que pelo contrario se davão muito, e que no sabado passado ao
acontecimento, elles foram juntos ao Ventura, e lá estavão, que ali então é
que tiverão huma pequena cisma por cauza do aluguel de hum animal, um
que eles tinhão conduzido huma carga delles dois, e elle (Francisco) queria
que lhe pagasse o aluguel todo do cavallo, e elle (Manoel) não quis pagar se
não metade, mas essa mesma cisma já tinha sido a tempos
224.
O que Manoel quis dizer quando citou a amizade que existia entre ele e a vítima? É
necessário ter cuidado para que não se passe a acreditar que o conceito contemporâneo de
amizade tenha o mesmo significado daquele período. Analisar a partir desse pressuposto é
cometer um grave anacronismo. Contudo, considerando o relato feito pelo escravizado sobre
sua relação com Francisco Chapada, acreditamos na existência de uma parceria entre eles. Já
que, além de trabalharem juntos e morarem no mesmo local, réu e vítima iam juntos a
festejos, etc. Convivendo em outros espaços sociais além daqueles em que trabalhavam.
Por esse motivo, é possível pensarmos que, estando na condição de réu em
julgamento, acusado de assassinato, talvez Manoel possa ter procurado argumentar e defender
a existência de algum tipo de ligação afetiva entre ele e a vítima, especialmente quando diz
que “[...] se davão muito
225”. Essa pode ter sido uma tentativa de evitar que o fato de ter
ocorrido uma antiga desavença entre eles, relembrada uma semana antes do crime, pudesse
ser utilizado para justificar sua condenação.
Não pretendemos afirmar se Manoel foi ou não o responsável pelo assassinato de
Francisco Chapada, pois até mesmo a justiça na época encontrou muitas dificuldades para
223 BAHIA,Secretaria da Justiça da. PROCESSO CRIME contraManoel Escravo. Vítima: Antonio Francisco Pereira. Arquivo do Fórum Clériston Andrade, Morro do Chapéu, Bahia, Brasil, 1871. Caixa Crime 1870-1871. 224
BAHIA,Secretaria da Justiça da. PROCESSO CRIME contraManoel Escravo. Vítima: Antonio Francisco Pereira. Arquivo do Fórum Clériston Andrade, Morro do Chapéu, Bahia, Brasil, 1871. Caixa Crime 1870-1871. 225 BAHIA,Secretaria da Justiça da. PROCESSO CRIME contraManoel Escravo. Vítima: Antonio Francisco Pereira. Arquivo do Fórum Clériston Andrade, Morro do Chapéu, Bahia, Brasil, 1871. Caixa Crime 1870-1871.
isso, já que primeiramente o condenou e depois o absolveu. Porém, durante a análise desse
processo encontramos muitos indícios que nos levam a crer que o escravizado tenha mesmo
cometido o crime.
Nos depoimentos das pessoas que encontraram a vítima, existem relatos de que ela foi
atacada em sua própria roça, porém arrastou-se mesmo estando gravemente ferida até a roça
do acusado, onde foi encontrada em uma poça de sangue. Supondo a veracidade do que foi
dito, houve realmente um grande esforço por parte de Francisco Chapada para incriminar o
cativo, lembrando que, ao ser encontrado ainda com vida, ele disse para as testemunhas do
processo e, posteriormente, para Montezuma, que Manoel teria sido o seu agressor. Algumas
informações que constam nos depoimentos do réu não foram contestadas pela justiça, embora
outras tenham sido sim, como veremos adiante.
O escravizado Manoel possuía uma roça, posse que nem todos os homens livres
pobres com os quais convivia poderiam ter. Conseguiu também de seu senhor a liberdade de
trabalhar para si, além do direito de viajar nos finais de semana sem o consentimento dele. O
processo de desenvolvimento de uma autonomia dentro do sistema escravista por parte dos
cativos ocorreu no Brasil de maneira lenta e gradual. Contudo, de forma constante, muitos
benefícios foram sendo conquistados ao decorrer do tempo por parte dos escravizados. É
necessário que os historiadores dedicados ao estudo da escravidão tenham ciência desse fato.
Como aponta Vieira Filho,
Por vezes, essa autonomia se corporifica apenas na concessão de uma
mobilidade espacial maior, ou na possibilidade de montar uma casa
independente da do senhor, casar e/ou constituir família, ou mesmo de
negociar sua produção, caracterizado na historiografia como o “viver sobre
si”, mas já eram grandes conquistas
226.
Esses tipos de regalias foram grandes conquistas para os escravizados, pois permitiu a
eles acumular e gerir recursos financeiros, mostrando também nesse caso a amplitude das
relações escravistas, que superavam aquelas delimitadas pelo cativeiro. No caso de Manoel,
devido a essa mobilidade espacial, foi possível para esse cativo construir laços sociais e
econômicos com muitos outros indivíduos, além daqueles com quem convivia na propriedade
de seu senhor.
Esse caso difere muito dos encontrados em outros espaços em que ocorreu a
exploração de mão de obra escravizada, estudados pelas pesquisas clássicas dessa temática,
226 VIEIRA FILHO, Raphael Rodrigues. Os Negros em Jacobina (Bahia) no século XIX. Tese (doutorado) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2006, p. 33.