• Nenhum resultado encontrado

3.1 – FAZENDAS, POSSES E CONCESSÕES DE TERRAS DEVOLUTAS

3 – COLONIZAÇÃO E RUPTURA: O DECLÍNIO DA PRÁTICA DO USO COMUM DA TERRA EM FRAIBURGO

3.1 – FAZENDAS, POSSES E CONCESSÕES DE TERRAS DEVOLUTAS

As regiões compreendidas pelo domínio das florestas de araucárias podem, pela predominância desta espécie, dar a impressão de possuir uma certa homogeneidade. Porém estas são formadas por diversos tipos de submatas, constituídas por espécies características em diversas áreas de ocorrência. Ao elaborar um mapa fitogeográfico do Estado de Santa Catarina no ano de 1978, Roberto Klein dividiu a floresta de araucárias em 4 grupos distintos, onde as submatas são distinguidas pela predominância de espécies arbóreas diferentes.

São estas subdivisões: a) floresta de araucária na Bacia Iguaçu-Negro e na parte superior das bacias dos afluentes do rio Uruguai; b) floresta de araucária na bacia Pelotas-Canoas; c) floresta de araucária do extremo-oeste; d) núcleo de pinhais da zona da mata pluvial atlântica508. Estas subdivisões da floresta de araucária, existentes, em muitos casos, ao redor de pequenas formações de campo, podem ser observadas no mapa da Figura 10, apresentado a seguir:

507

LAGO, Paulo Fernado. Op. Cit., p. 287.

508

FIGURA 10: Mapa da localização das florestas de araucária das bacias Pelotas e Iguaçu.

Fonte: Mapa fitogeográfico de Santa Catarina (cobertura original). Itajaí, 1978. 1 mapa. In: KLEIN, Roberto. Op. Cit. Autor: Marlon Brandt.

Na região entre o Vale do Rio do Peixe e Curitibanos predominam as formações “a” e “b” da floresta de araucárias. Na formação “a”, encontram-se na submata principalmente a imbuia, a sapopema e a erva-mate, além de outras espécies. Ao leste, a formação “b” é caracterizada por uma maior densidade de araucárias em manchas, muitas vezes interrompidas pelos campos. A maior concentração destes agrupamentos encontra-se ao longo dos rios, vales e encostas, enquanto nos terrenos ondulados predominam os campos e os capões. Diferente do

grupo “a”, a erva-mate torna-se escassa, sendo possível encontrar esta espécie principalmente nas áreas de transição entre estes grupos509.

As diferenciações físicas existentes na região do planalto provocaram uma utilização também variada no que cabe ao uso comum da terra. É possível dizer que estas diferenciações naturais tenham também influenciado no seu perfil de ocupação, da mesma forma que o interesse econômico da região tenha sido espacialmente desigual em diferentes períodos, conforme já foi observado no Capítulo 1 em relação aos fazendeiros que ocupavam os campos e os pequenos e médios sitiantes das regiões de florestas.

Se nas regiões onde abundavam os ervais eram estes que se constituíam como uma das principais fontes de renda dos moradores caboclos do planalto, nas regiões onde esta rareava, servindo apenas “para o gasto”, ou seja, para o consumo próprio, seria a criação de animais que desempenharia este papel, não apenas em relação aos grandes proprietários de terra, mas também aos pequenos e médios sitiantes que viviam na região que atualmente compõe Fraiburgo.

Esta região, como foi abordada nos capítulos anteriores, passou a ser ocupada oficialmente ainda na segunda metade do século XIX, sendo possível imaginar que antes do chamado “mundo oficial” já existissem naquelas paragens outras famílias vivendo da posse. São poucas as informações sobre a região ao longo do século XIX, pelo fato desta se constituir em uma frente de expansão da fronteira da economia tropeira, abrigando uma parcela significativa de pequenos e médios sitiantes vivendo no regime da posse. A partir de então aquelas terras passam a sofrer, além do próprio crescimento vegetativo, o ingresso de novos moradores, da mesma forma que paulatinamente se estabelecem grandes fazendas de gado, aproveitando as manchas de campos nativos que se abriam ante as imensas florestas de araucárias.

Embora não seja intento da pesquisa realizar a tarefa de inventariar os “primeiros” ocupantes da região, faz-se necessário, ao levantar as escassas fontes disponíveis, ao menos realizar algumas considerações a respeito das fazendas e famílias, nem sempre “pioneiras”, porém com um maior número de informações

509

disponíveis, que se instalavam na região. Documentação, diga-se de passagem, não apenas oficial, mas também obtida através da memória de antigos moradores.

Muitas destas fazendas deram origem a localidades como Taquaruçu, Faxinal dos Carvalhos, Liberata, Baía, Barra e Butiá Verde. Apesar das fontes não serem abundantes em relação as localidades ou as fazendas, uma vez que muitas constituíam-se por posse, grande parte das informações são obtidas de forma secundária, a partir de transições de imóveis nos anos seguintes ou constando em algum traslado em processos, envolvendo em muitos casos divisões de terra por herança. Dentre as fontes levantadas, é possível constatar que já existiam ocupações oficiais na região na década de 1850, como era o caso da localidade de Butiá Verde. A destruição pelos revoltosos sertanejos dos registros de terra, da mesma forma que as avarias realizadas em outros documentos no ano de 1914, durante a Guerra do Contestado impede, no entanto, que se esclareçam maiores dúvidas em relação a titularidade, transmissão e confrontações de algumas áreas.

No ano de 1919 deu entrada no Fórum do município de Campos Novos um pedido de ação de usucapião, movido por Benedito Ludgero de Deus e seus irmãos “sobre um terreno situado no lugar Butiá Verde”, também conhecido na época como do “Nascimento”. Nos autos da ação é possível constatar que a família Deus vivia há mais de sessenta anos “mansa e pacificamente” naquelas terras que pertenciam parte a Campos Novos parte a Curitibanos. O documento também apresenta algumas informações sobre a região, como os limites da fazenda no ano de 1855, quando aquelas terras pertenciam a Candido José da Silva, cuja confrontação oeste eram terras devolutas, terras de Rodrigo Rodrigues Pereira ao sul e Pedro Oliveira ao leste, confrontando-se ao norte com “caminho que de São João segue para o Guarda Mor”. Na seguinte ação consta que tais terras foram adquiridas no ano de 1885 pelo pai dos suplicantes, João Baptista de Deus, que faleceu em 1895, sendo então partilhada pelos seus filhos510. Partilha dos bens que ocorreram em duas ações, nos anos de 1895 e 1897, na Comarca de Curitibanos, embora em tais processos não seja possível determinar a área da propriedade511.

510

Ação de Usucapião movida por Benedito Ludgero de Deus, no ano de 1919. Op. Cit.

511

Inventário amigável dos bens de João Baptista de Deus, no ano de 1895. Comarca de Curitibanos. Arquivo do Museu do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Ação de Sobrepartilha particular dos

Porém alguns documentos dão conta que existiam terras compondo a Fazenda Butiá Verde, pertencentes a João Baptista de Deus já no ano de 1855, obtida mediante concessão do Estado. É o que informa, por exemplo, um contrato do ano de 1926, referente a legalização de terras ocupadas por posseiros na Fazenda Butiá Verde, questão que será retomada adiante. Neste contrato, que também possui uma cópia no inventário de Joaquim Dias de Morais, de 1939, morador do Faxinal dos Carvalhos e posseiro daquelas terras, consta que a Fazenda Butiá Verde foi legalizada “perante a justiça civil da comarca de Campos Novos, registro esse que pertence a João Baptista de Deus”512.

Parte das terras da família Deus são alvo de uma ação de manutenção de posse movido por Benedito Ludgero de Deus e outros contra a Empresa Povoadora e Pastoril Theodore Capelle e Irmãos no ano de 1924. Na folha 5 dos referidos autos consta que “os supplicantes são senhores a justo título e possuidores ha mais de oitenta annos por si e seus antecessores de um terreno [...] conhecido pelo nome de Fazenda do Butiá Verde”. Adiante, o documento apresenta o traslado de uma procuração, do ano de 1919, no mesmo ano em que moveram a ação de usucapião, que fazem Benedito Ludgero de Deus e seus irmãos, nomeando o Coronel Henrique Rupp Júnior como advogado “para promover a ação de legalização de um registro de terras que elles outorgantes possuem e são proprietários sitas no logar denominado Butiá Verde”513.

Através de consultas no registro de imóveis, foi possível conferir algumas transações de imóveis envolvendo a Fazenda Butiá Verde pertencente aos herdeiros de João Baptista de Deus, como Maria Buena do Espírito Santo, José de Deus e Floripa Bueno de Deus, no ano de 1918514. Já em um outro registro de terras, do ano de 1923, encontra-se a transmissão do espólio de João Baptista de Deus a seu

bens de João Baptista de Deus, no ano de 1897. Comarca de Curitibanos. Arquivo do Museu do Tribunal de Justiça de Santa Catarina.

512

Escritura Pública de Contrato entre Artur Formighieri, Ernesto Formighieri, Ângelo Preto, Aníbal Formighieri e moradores de Taquaruçu, Passa Três e Faxinal dos Carvalhos, no dia 22 de fevereiro de 1926. Livro de notas n. 69. Cartório Primeiro Tabelionato de Notas e Protestos Ortigari, Curitibanos, Santa Catarina.Inventário de Joaquim Dias de Morais, 1938. Comarca de Curitibanos.

513

Ação de Manutenção de Posse movido por Benedito Ludgero de Deus e outros contra a Empresa Povoadora e Pastoril Theodore Capelle e Irmão, no ano de 1924. Acervo do Arquivo Histórico Municipal Waldemar Rupp, Campos Novos, Santa Catarina, fl. 5-7.

514

Registros número 167, livro 3, de 19 de julho de 1917; 214, de 24 de setembro de 1918; 247, de 1º de outubro de 1918. Cartório do Registro de Imóveis do Município de Curitibanos, Santa Catarina.

filho Benedito Ludgero de Deus, referindo-se ao processo de partilha dos bens do finado515.

Confrontante a esta fazenda, existia outra grande gleba de terras, de propriedade do Coronel Zacharias de Paula Xavier, de Curitiba, também denominada Fazenda Butiá Verde. Diferente das terras pertencentes a família de Deus, esta possuía posse legítima datada do final do século XIX. Zacharias de Paula Xavier era irmão do também Coronel Artur de Paula, que atuou em favor do Paraná na disputa pelas terras situadas entre Timbó e Canoinhas516.

Durante o conflito do Contestado, pela proximidade com a região do Taquaruçu, não maior que 20 quilômetros, sua fazenda desempenhou um importante papel estratégico no desenrolar dos primeiros anos da guerra. Servia tanto ao acampamento de tropas quanto ao sustento dos sertanejos que arrebanhavam o gado da fazenda, como era o caso do piquete de Venuto Baiano, uma das lideranças sertanejas, que, conforme o jornal “O Dia”, de 16 de janeiro de 1914, percorreu, junto com 36 homens, as terras da fazenda Butiá Verde campeando gado para levar ao reduto517. Incursões que são também mencionadas pelo Capitão Vieira da Rosa, “nos sertões de Botiá Verde, em continuas e fructuosas explorações”. Os sertanejos iam “levando para o reducto as ultimas cabeças de gado alli existentes, resto de uma fazenda de mil e quinhentas rezes”518, comentando em outra passagem que

da fazenda outrora povoadissima de Zacharias de Paula nada mais existia, e nos arredores o silencio era completo, e impressionante. [...]. O jagunço passara por alli; naquelles ermos caçavam os últimos porcos alçados, e na falta desses animais contentavam-se com o levar palmito de botiá e o mel das abelhas silvestres.

Fazenda que segundo Vieira da Rosa possuía também uma posição estratégica para o combate aos sertanejos, pois

515

Registro número 873, livro 3, de 1923. Cartório do Registro de Imóveis do Município de Curitibanos, Santa Catarina.

516

O Dia. Florianópolis, ano 14, n. 7.414, 14 de janeiro de 1914, p. 1

517

O Dia. Florianópolis, ano 14, n. 7.416, 16 de janeiro de 1914, p. 1.

518

VIEIRA DA ROSA, José. Reminiscencias da Campanha do Contestado – subsídios para a História. In: Jornal Terra Livre, Florianópolis, nº 55, ano 1, 2 de outubro de 1918, p. 1

dali irradiavam caminhos e carreiros em todas as direcções e, situado num campestre limpo, estava protegido naturalmente o nosso acampamento, sendo difficil senão impossível uma sorpresa por parte do inimigo.

Occupamos o local da antiga casa amplo espaço que outrora fora cercado de mangueirais com grossos palanques de cernes diversos, em que apoiamos as nossas trincheiras e rede de arame, do que achamos nos escombros dez rolos estragados pelo fogo, mas que se prestavam para uma defeza accessoria519

Além de indicar que esta propriedade se localizava em um ponto importante, com a existência de vários caminhos interligando as localidades, a leitura deste documento também torna possível tomar conhecimento da existência de campos e terrenos limpos que, da mesma forma que na região oeste e noroeste de Curitibanos, de acordo com Vieira da Rosa, eram propriedade de ricos fazendeiros520. Existiam também na fazenda mangueiras destinadas ao aprisionamento e invernagem dos animais, o que não deve ser visto, contudo, como um indício de que os animais não fossem criados soltos, tanto pelo costume quanto pela amplitude das terras que compunham o imóvel.

No ano de 1917 as terras que compunham a fazenda do Coronel Zacharias de Paula são vendidas aos fazendeiros Albano e Frederico João Burger, residentes em Lages521. No acordo referente a venda do imóvel, registrado no tabelionato de Curitibanos na mesma época da transmissão das terras, é possível obter algumas informações interessantes a respeito da propriedade e da forma como estas foram adquiridas pelo Coronel522.

519

VIEIRA DA ROSA, José. Reminiscencias da Campanha do Contestado – subsídios para a História. In: Jornal Terra Livre, Florianópolis, nº 78, ano 1, 29 de outubro de 1918, p. 2.

520

VIEIRA DA ROSA, José. (nº 6, 1818). Op. Cit., p. 1.

521

Registro número 138, livro 3, de 11 de janeiro de 1917. Cartório do Registro de Imóveis do Município de Curitibanos, Santa Catarina.

522

O agrônomo Thomas Burke confunde informações e não cita as fontes obtidas sobre as fazendas Butiá Verde, da família Deus e de Zacharias de Paula Xavier, considerando que estas seriam apenas uma. Ao mencionar sobre a ocupação da região de Fraiburgo, comenta o autor que “‘Butiá Verde’, com uma área de 696.960.000 m², fora adquirida por usucapião em 1920 por Benedicto de Deus e outros, passando depois para Zacaria de Paula, residente em Curitiba”. BURKE, Thomas Joseph. Op. Cit., p. 7. Ora, a ação de usucapião foi movida apenas em 1923 e já se referia a propriedade de Zacharias de Paula Xavier como confrontante, da mesma forma que a ação de sobrepartilha movida por Benedito Ludgero de Deus. Ação de Sobrepartilha Particular dos bens de João Baptista de Deus,

A Fazenda Butiá Verde ou Campos do Nascimento, como consta nos documentos, foi adquirida no ano de 1896 de Eugênio Frederico Seiblitz, compondo uma área de 26.944.750 braças quadradas, legitimadas pelo então Governo da Província de Santa Catarina no ano de 1864. Posteriormente foram anexadas outras faixas de terras à fazenda, adquirindo terras de Manoel Vicente Ferreira de Deus, filho de João Baptista de Deus, no ano de 1906 e uma parte de terras localizadas no Taboão, adquiridas de Manoel da Luz Alexandre no ano de 1900. Porém o documento não informa a área nem as confrontações das referidas terras523.

Tão importantes quanto as fazendas registradas em documentos, são aquelas formadas por posses, cuja existência, da mesma forma que o uso e as práticas espaciais que ocorriam nestas, se encontram vivas apenas nas memórias de antigos moradores. Muitas delas seriam oficializadas, sobretudo as de grande extensão, destino que outras tantas não tiveram, sendo incorporadas à medida que novas relações baseadas na mercantilização da terra se faziam sentir de modo cada vez mais intenso na região.

Vizinhas às terras do Coronel Zacarias de Paula Xavier encontrava-se a Fazenda Liberata. Segundo Thomas Burke esta fazenda teria sido formada no ano de 1870 por Generoso Ribeiro de Andrade e Porfírio José de Oliveira524. Embora constituída inicialmente pela posse, legalizando suas terras anos mais tarde e adquirindo terras de terceiros, são relativamente abundantes os depoimentos dos descendentes da família Andrade, muitos deles realizados entre os anos de 1973 e 1974 pelo Padre Tomás Pieters.

Conforme o depoimento de Sebastião Andrade dos Santos, da família Andrade, também bisneto de Porfírio de Oliveira, sua família era oriunda do Rio Grande do Sul, cuja vinda para a região foi motivada pela existência de terras devolutas disponíveis, conhecida pela sua família através do contato com moradores

no ano de 1895. Op. Cit.; Ação de Sobrepartilha particular dos bens de João Baptista de Deus, no ano de 1897. Op. Cit.

523

Escritura Pública de Compra e Venda de Bens de Raiz entre Zacharias de Paula Xavier e sua mulher e Albano Burger e Frederico João Burger, no dia 10 de janeiro de 1917. Livro de notas n. 39. Cartório Primeiro Tabelionato de Notas e Protestos Ortigari, Curitibanos, Santa Catarina.

524

que viviam na localidade, então conhecida como Butiá Verde525. “Era o tempo em que se achava terra [...] no sertão era um tempo em que saíram campear o lugar da casa”, como se referia Margarida Ribeiro, filha de Generoso Ribeiro.

Porém estas terras já eram ocupadas, não por outros fazendeiros ou sitiantes, mas por “bugres”. A existência de indígenas naquelas terras despertou temor na família, visto que no século XIX não eram raros os conflitos contra os indígenas na região. Sebastião Andrade dos Santos comentou que para evitar tensões e conflitos com os indígenas, que habitavam terras próximas ao rio Mansinho, nas posses da fazenda, seu bisavô procurou manter um contato amistoso, com troca de objetos, que este deixava na beira do rio. A princípio os índios não recolhiam os objetos, mas com o tempo passaram a deixar também mel, caça e trabalhos artesanais. Contato que não resultou apenas na troca de objetos. Aquele grupo possuía, segundo o seu depoimento, uma índia muito velha chamada Liberata, que seria a cacique do grupo, pois seu marido havia falecido. Como uma forma de homenagear a índia, o nome da fazenda passou a se chamar Liberata. Consta que quando a índia faleceu os demais indígenas que habitavam o local foram embora, possivelmente rumo a região da Serra do Espigão526.

A legalização destas terras, ou ao menos uma parte, ocorreu no dia 8 de maio de 1926, quando o Estado de Santa Catarina concedeu o título de legitimação de posse da Fazenda Liberata a Porfírio José de Oliveira, João Batista Ribeiro, Heliodoro Dias de Andrade, Bento Dias de Morais e Francisco Dias de Morais. Com uma área de 81.552.070 m², a fazenda confrontava-se ao norte com terras devolutas e a Fazenda Butiá Verde, dos irmãos Burger, ao sul, com a Fazenda Espinilho e terras devolutas, ao leste com a posse Faxinal dos Carvalhos, e ao oeste com terras da Brazil Development e Fidencio Ribeiro e Companhia527. Porfírio José de Oliveira, apesar de possuir terras sob o regime de posse, havia adquirido legalmente outras

525

SANTOS, Sebastião Andrade dos. 56 anos. Depoimento, 4 de setembro de 2006. Fraiburgo: Entrevistador: Marlon Brandt.

526

Idem.

527

Registro número 1.163, livro 3, de 8 de maio de 1926. Cartório do Registro de Imóveis do Município de Curitibanos, Santa Catarina.

glebas de terras, também localizadas próximas à Liberata, no ano de 1919, em Butiá Verde, onde parte destas terras pertenceram a João Baptista de Deus528.

Parte das terras compreendidas entre a fazenda Liberata e Butiá Verde eram também conhecidas pela população como Campo da Dúvida. Existiam nestas fazendas, de acordo com Thomas Burke, uma certa imprecisão em suas divisas, já na época em que estas pertenciam a família Burger, acarretando em tensões e conflitos529. Já para Willy Frey, além da indefinição destes limites, o nome também poderia ter se originado da existência de parte destas terras permanecerem devolutas e da reivindicação de posseiros por pequenas áreas530.

Existe outra versão mais difundida entre os antigos moradores para este nome, aqui apresentada por um pequeno semanário que circulou na década de 1960 no recém-criado município de Fraiburgo, denominado “o Eco”, que comenta o seguinte sobre as origens do nome:

[...] aqui, exatamente onde está o Cemitério Municipal de Fraiburgo, constam que certa vez, foram encontrados dois cadáveres de homens cujos corpos haviam sido perfurados por balas, com suas