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sobre os modos de apreensão

6. Acontecimento,(estética(e(cotidiano:(sobre(os(modos(de(apreensão(

6.3. Fazer(artístico(e(acontecimento(estético(

A definição de acontecimento situa-o em um campo de máxima imprevisibilidade e, portanto, máximo efeito sobre os sujeitos. O que nos parece curioso é a incansável busca de tais sujeitos pelos imprevistos no ambiente artístico. Se levarmos em conta as afirmações de Lévi-Strauss de que a música e o mito são arquétipos dos percursos humanos vividos, teremos a hipótese de que esse constante submeter-se aos percursos míticos e artísticos remete a uma necessidade humana de experimentar frequentemente os simulacros narrativos que estão dentro de nós mesmos. Citando Lévi-Strauss:

Acreditamos que a verdadeira resposta se encontra no caráter comum do mito e da obra musical, no fato de serem linguagens que transcendem, cada uma a seu modo, o plano da linguagem articulada, embora requeiram, como esta, ao contrário da pintura, uma dimensão temporal para se manifestarem. Mas essa relação com o tempo é de natureza muito particular: tudo se passa como se a música e a mitologia só precisassem do tempo para infligir-lhe um desmentido. Ambas são, na verdade, máquinas de suprimir o tempo. Abaixo dos sons e dos ritmos, a música opera sobre um

irremediavelmente diacrônico porque irreversível, do que ela transmuta, no entanto, o segmento que foi consagrado a escutá-la numa totalidade sincrônica e fechada sobre si mesma. A audição da obra musical, em razão de sua organização interna, imobiliza, portanto, o tempo que passa; como uma toalha fustigada pelo vento, atinge-o e dobra-o. De modo que ao ouvirmos música, e enquanto a escutamos, atingimos uma espécie de imortalidade (Lévi-Strauss, 2010, p. 35).

O antropólogo vai mais adiante, descrevendo o ato de compor como aquele que dá e tira, na medida certa, informações que não só mantêm o elo cognitivo com o ouvinte, mas também o surpreendem em uma ação de imprevisibilidade.

A missão do compositor é alterar essa descontinuidade sem revogar-lhe o princípio; quer a invenção melódica cave lacunas temporárias na grade, quer, também temporariamente, tape ou reduza buracos. Ora ela perfura, ora obtura. E o que vale para a melodia vale também para o ritmo, já que, através desse segundo meio, os tempos da grade fisiológica, teoricamente constantes, são saltados ou redobrados, antecipados ou retomados com atraso (Lévi-Strauss, 2010, p. 36).

As duas citações apresentam um ponto de vista para o que move o sujeito a colocar-se disponível para esse objeto de simulação ao qual denominamos artefato estésico. A obra de arte apresenta-se diante do sujeito como um mundo a ser descoberto, uma vida a ser vivida e um percurso a ser percorrido, assemelhando-se ao efeito de reconhecimento e purificação catártica conhecido desde Aristóteles.

Um curioso manual de preparação de filmes de terror chegou-nos às mãos. Imaginando o cinema como uma instância de realização e releitura do mito moderno, trazemos aqui algumas das regras propostas para a realização de um "bom filme de terror" e observamos como a manipulação do imprevisível ocupa o centro de importância nesse gênero cinematográfico.

Como Fazer um Filme de Terror

(criado por Rafael Bemerguy, Sabrina L. Furtado, Maluniu)

Se você tem uma queda por filmes de terror, é só uma questão de tempo até você querer fazer o seu. Aqui você encontra algumas ideias de como começar. Arrume uma ideia assustadora para o filme. Faça algo bom e que as pessoas não consigam saber o que vai acontecer. E quando acontecer, faça algo que seja tão assustador quanto possível. Pode ser mais aterrorizante OUVIR um barulho que VER um fantasma ou monstro.

! Encontre um lugar para fazer as filmagens. Boas histórias se

passam na floresta (principalmente à noite), em chalés, construções de madeira, casas abandonadas, etc. Certifique- se de ter autorização para filmar no local escolhido antes de iniciar as filmagens.

! Para dar um tom de suspense, acrescente músicas

assustadoras, sinistras e que causem desconforto. Use esses tipos de música quando algo surpreendente (for) acontecer.

! Torne algo completamente banal o centro da trama (um saco

de papel, um telefone, uma privada, uma campainha, uma TV, um vídeo). Se você fizer direito, será muito assustador!

! Arrume uma reviravolta para o enredo (coloque-a no meio ou

no fim da trama).

! Está provado que um momento repentino de suspense sem

violência explicita é mais assustador pois a imaginação do público acha mais assustador. A mente encontra o resultado mais assustador possível. Muito mais assustador que uma “festa” sangrenta. Pense em “Amigo Oculto”, com Robert De Niro. É assustador por causa do suspense e não pelo sangue ou pelo realismo deste.

! Antes da parte mais assustadora, coloque uma cena normal

ou calma. Então, faça com que algo assustador aconteça de repente. Ninguém estará esperando e isso vai fazer as pessoas pularem do assento. Não faça nada óbvio demais, como por exemplo: Alícia está andado pela floresta quando o assassino mascarado sai dos arbustos e a mata. Deixe que o momento pegue a plateia pelo pescoço, como por exemplo: A árvore se torna uma criatura viva e devora Alícia, ou o assassino mascarado está na casa da moça disfarçado de alguém que ela conhece esperando por ela, daí ele a mata.

Disponível em: <http://pt.wikihow.com/Fazer-um-Filme-de-Terror, consultado em 23/07/2014>.

Para além do caráter quase anedótico e amadoresco do manual apresentado, podemos observar como a imprevisibilidade perpassa toda a construção da narrativa. O autor do blog propõe ao diretor a manipulação do espectador, dando-lhe cenas de total previsibilidade, cortadas por momentos de grande suspense. Mostra-nos como esse jogo de saber e acontecer, pervir e sobrevir ocupa o centro da atenção nesse gênero. Podemos facilmente transpor tal tipo de fundamentos para outros gêneros; não nos ocorre que haja, na previsibilidade completa e cotidiana, espaço para as obras de arte, a não ser que o propósito dela seja a própria discussão da rotina.

Contudo, cabe ao sujeito, espectador ou ouvinte, preparar-se para tal recepção artística. Quantas vezes o suspense e o terror não se tornam risíveis? Isso se dá em virtude da recusa do espectador a entrar no "jogo dos sentidos". A respeito disso, destacamos a seguir um breve manual sobre a boa conduta dos ouvintes nas salas de concerto. Como já dissemos, não

estamos julgando aqui a coerência dos discursos apresentados como exemplos, apenas analisando semioticamente o sentido resultante de tais discursos. Não nos ocorre dizer se essa será a forma correta ou incorreta de portar-se em uma sala de concertos, mas inferir as implicações de tal postura na cena social:

Assistindo a concertos: uma etiqueta

[...] É importante contextualizar o ambiente do concerto, para, então, compreender (e aceitar!) as regras de comportamento em um hall sinfônico, sala de música de câmara ou teatro de ópera.

Devido à dinâmica própria da música clássica, é comum a alternância de volumes altos (fortíssimo) e baixos (pianíssimo). [...] Ou seja, para apreciar ao máximo a arte musical, é importante manter o silêncio. Se não, você perde uma parte significativa da beleza da coisa e os músicos perdem a concentração necessária. [...] É cada vez mais difícil manter o silêncio em salas de concerto. Aos tradicionais pigarros, tosses e papéis de bala, somaram-se os famigerados telefones celulares.

Disponível em: <http://www.vivamusica.com.br>. Acesso em: 21/01/2011.

Como vemos, há necessidade de inserção voluntária do sujeito em um percurso narrativo simulado a fim de prover os acontecimentos inesperados no âmbito da obra musical. Por outro lado, ruídos, tosses e telefones celulares são vistos como antisujeitos para a plena conjunção do sujeito com o objeto artístico em questão. Há, por trás disso, valores propostos por um destinador que promove a cena enunciativa em questão e instaura o simulacro apto a receber o potencial do objeto estético proposto.

Para tal objeto estético, artefato estésico, propomos um modo distinto de apreensão:

Acontecimento Estético

menos intenso menos único menos marcante espera do inesperado

escapatória da vida prática e cotidiana menos-mais

Tabela 10: Acontecimento estético

A cifra tensiva do acontecimento estético encontra-se atenuada por uma ação de menos-mais que garante um mínimo de controle ao sujeito esteta (compositor, intérprete, músico), como ilustra o gráfico 3:

Gráfico 3: Acontecimento estético