Questões comentadas pelo professor
9. FCC - AJ TRT6/TRT 6/Administrativa/2018
Vou falar da palavra pessoa, que persona lembra. Acho que aprendi o que vou contar com meu pai. Quando elogiavam demais alguém, ele resumia sóbrio e calmo: é, ele é uma pessoa. Até hoje digo, como se fosse o máximo que se pode dizer de alguém que venceu numa luta, e digo com o coração orgulhoso de pertencer à humanidade: ele, ele é um homem.
Persona. Tenho pouca memória, por isso já não sei se era no antigo teatro grego que os atores, antes de entrar em cena, pregavam ao rosto uma máscara que representava pela expressão o que o papel de cada um deles iria exprimir.
Bem sei que uma das qualidades de um ator está nas mutações sensíveis de seu rosto, e que a máscara as esconde. Por que então me agrada tanto a ideia de atores entrarem no palco sem rosto próprio? Quem sabe, eu acho que a máscara é um dar-se tão importante quanto o dar-se pela dor do rosto. Inclusive os adolescentes, estes que são puro rosto, à medida que vão vivendo fabricam a própria máscara. E com muita dor. Porque saber que de então em diante se vai passar a representar um papel é uma surpresa amedrontadora. É a liberdade horrível de não ser. E a hora da escolha.
Mesmo sem ser atriz nem ter pertencido ao teatro grego – uso uma máscara. Aquela mesma que nos partos de adolescência se escolhe para não se ficar desnudo para o resto da luta. Não, não é que se faça mal em deixar o próprio rosto exposto à sensibilidade. Mas é que esse rosto que estava nu poderia, ao ferir-se, fechar-se sozinho em súbita máscara involuntária e terrível. É, pois, menos perigoso escolher sozinho ser uma pessoa. Escolher a própria máscara é o primeiro gesto involuntário humano.
E solitário. Mas quando enfim se afivela a máscara daquilo que se escolheu para representar o mundo, o corpo ganha uma nova firmeza, a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo. A pessoa é.
Se bem que pode acontecer uma coisa que me humilha contar.
É que depois de anos de verdadeiro sucesso com a máscara, de repente – ah, menos que de repente, por causa de um olhar passageiro ou uma palavra ouvida – de repente a máscara de guerra de vida cresta-se toda no rosto como lama seca, e os pedaços irregulares caem com um ruído oco no chão. Eis o rosto agora nu, maduro, sensível quando já não era mais para ser. E ele chora em silêncio para não morrer. Pois nessa certeza sou implacável: este ser morrerá. A menos que renasça até que dele se possa dizer “esta é uma pessoa”.
(Adaptado de: LISPECTOR, Clarice. “Persona”, em Clarice na cabeceira: crônicas. Rio de Janeiro, Rocco Digital, 2015)
Mantendo-se o sentido e a correção, o termo sublinhado pode ser substituído pelo que se encontra entre parênteses em:
a) A menos que renasça até que dele se possa dizer “esta é uma pessoa”. (Sem que) b) É, pois, menos perigoso escolher sozinho ser uma pessoa. (conquanto)
c) Se bem que pode acontecer uma coisa que me humilha contar. (No entanto, seguido de vírgula) d) Bem sei que uma das qualidades de um ator está nas mutações... (Por mais que)
e) ... a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo. (conforme) RESOLUÇÃO:
Letra A: “Sem que” indica meramente negação. Já “a menos que” indica negação somada à ideia de condição. Item incorreto.
Letra B: O conector “pois”, posicionado após o verbo, indica uma conclusão - e “conquanto”, concessão.
Alternativa incorreta.
Letra C: “Se bem que” e “no entanto”, no contexto em questão, podem ser aplicadas como adversativas, sendo, portanto, nosso gabarito.
Letra D: O verbo “está” impede o uso adequado de “por mais que”, que condiciona o subjuntivo do verbo
“esteja”. Além disso, “bem sei que” traz uma ideia afirmativa, enquanto que “por mais que” indica uma concessão. Então, item incorreto.
Letra E: “Como” introduz ideia de comparação, porém “conforme” produz uma ideia conformativa. Item incorreto.
Resposta: C
10.
FCC - TJ TRT6/TRT 6/Administrativa/"Sem Especialidade"/2018O jornalismo pode ser qualificado, embora com certo exagero, como um mal necessário. É um mal porque todo relato jornalístico tende ao provisório. Mesmo quando estamos preparados para abordar os assuntos sobre os quais escrevemos, é próprio do jornalismo apreender os fatos às pressas. A chance de erro, sobretudo de imprecisões, é grande.
O próprio instrumento utilizado é suspeito. Diferente da notação matemática, que é neutra e exata, a linguagem se presta a vieses de todo tipo, na maior parte inconscientes, que refletem visões de mundo de quem escreve. Eles interagem com os vieses de quem lê, de forma que, se são incomuns textos de fato isentos, mais raro ainda que sejam reconhecidos como tais.
Pertenço a uma geração que não se conformava com as debilidades do relato jornalístico. O objetivo daquela geração, realizado apenas em parte, era estabelecer que o jornalismo, apesar de suas severas limitações, é uma forma legítima de conhecimento sobre o nível mais imediato da realidade.
O que nos remete à questão do início; sendo um mal, por que necessário? Por dois motivos. Ao disseminar notícias e opiniões, a prática jornalística municia seus leitores de ferramentas para um exercício mais consciente da cidadania. Thomas Jefferson pretendia que o bom jornalismo fosse a escola na qual os eleitores haveriam de aprender a exercer a democracia.
O outro motivo é que os veículos, desde que comprometidos com o debate dos problemas públicos, servem como arena de ideias e soluções. O livre funcionamento das várias formas de imprensa, mesmo as sectárias e as de má qualidade, corresponde em seu conjunto à respiração mental da sociedade.
Entretanto, o jornalismo dito de qualidade sempre foi objeto de uma minoria. A maioria das pessoas está de tal maneira consumida por seus dramas e divertimentos pessoais que sobra pouca atenção para o que é público.
Desde quando os tabloides eram o principal veículo de massas, passando pela televisão e pela internet, vastas porções de jornalismo recreativo vêm sendo servidas à maioria.
O jornalismo de verdade, que apura, investiga e debate, é sempre elitista. Está voltado não a uma elite econômica, mas a uma aristocracia do espírito. São líderes comunitários, professores, empresários, políticos, sindicalistas, cientistas, artistas. Pessoas voltadas ao coletivo.
A influência desse tipo de jornalismo sempre foi, assim, mediada. Desde que se tornou hegemônico, nos anos 1960-70, o jornalismo televisivo se faz pautar pela imprensa. Algo parecido ocorre agora com as redes sociais.
A imprensa, que vive de cobrir crises, sempre esteve em crise. O paradoxo deste período é que, no mesmo passo em que as bases materiais do jornalismo profissional deslizam, sua capacidade de atingir mais leitores se multiplica na internet, conforme se torna visível a perspectiva de universalizar o ensino superior.
(Adaptado de: FILHO, Otavio Frias. Disponível em: www.folha.uol.com.br) É um mal porque todo relato jornalístico tende ao provisório. (1° parágrafo)
Entretanto, o jornalismo dito de qualidade sempre foi objeto de uma minoria. (6° parágrafo) Os elementos sublinhados acima introduzem, no contexto, respectivamente, noção de a) causa − finalidade
b) finalidade − concessão
c) consequência – temporalidade d) causa − oposição
e) concessão – consequência
RESOLUÇÃO:
Letra A: “Porque” indica causa. “Contudo”, por sua vez, impõe uma ideia adversativa, contrariando a
“finalidade” expressa na alternativa. Item incorreto.
Letra B: “Porque”, como dito anteriormente, não expressa finalidade nem “entretanto” expressa concessão. Alternativa incorreta.
Letra C: “Porque” não indica consequência, mas sim a causa, como visto anteriormente. “Entretanto”
também não expressa temporalidade.
Letra D: Item correto, pois “porque” introduz causa e “entretanto”, uma oposição à ideia descrita no parágrafo anterior.
Letra E: “Pois” e “Entretanto” não podem indicar respectivamente concessão e consequência. Alternativa inadequada.
Resposta: D