Franklin Riet-Correa ETIOLOGIA
Febre catarral maligna é uma doença viral de bovinos causada por Herpesvírus da subfamília Gammaherpesvirinae. São conhecidas
duas formas geográfica e epidemiologicamente distintas da enfermidade: a africana (associada ao gnú), causada pelo alcephaline herpesvírus-1 (AHV-1); e a americana (associada ao ovino), causada pelo herpesvírus ovino-2 (OHV-2), diagnosticada na Europa e América. Este último vírus não tem sido cultivado em cultura de células, razão pela qual seu rol na etiologia da enfermidade não foi, ainda, comprovado experimentalmente (12).
EPIDEMIOLOGIA
A enfermidade é, geralmente, uma doença aguda, de morbidade baixa e letalidade de 95%-100%. No entanto, podem ocorrer formas crônicas da doença em aproximadamente 30% dos casos diagnosticados, assim como recuperação clínica em 20%-30% ou até 50% dos casos (11,12). No Brasil a enfermidade foi diagnosticada pela primeira vez em 1924 (15). Posteriormente, tem sido diagnosticada em bovinos de diversos estados: Rio Grande do Norte (5), Rio de Janeiro (13), Bahia e Sergipe (3,7,10), Rio Grande do Sul (2,14), São Paulo (9) e Paraná (1). Apresenta-se com morbidade baixa mas com letalidade de 100%. Ocorre, geralmente, de forma esporádica, afetando 1-2 bovinos, mas podem observar-se, também, surtos afetando até 20% do rebanho (2). Uma característica epidemiológica importante é que ocorre, somente, se há ovinos em contato com bovinos. Os ovinos, assim como o gnú (Chonochaetes taurinus e C. gnu) na África, não são afetados, mas
atuam como reservatórios do vírus. A eliminação do vírus parece ser maior quando os ovinos e o gnú estão próximos ao parto; no entanto, alguns surtos têm ocorrido em bovinos em contacto com carneiros (14). Podem ocorrer, também, surtos em bovinos confinados que não estão em contato com ovinos. Nestes casos a fonte de infecção não foi identificada (3).
Outras espécies de ruminantes selvagens, como búfalos, cervídeos e o bisão americano, podem ser afetadas. No Brasil a doença foi diagnosticada em cervídeos, emCervus unicolor no Rio de Janeiro
(4) e no veado mateiro,Mazama gouazouvira, no zoológico de Cuiabá,
Mato Grosso (6). A doença pode afetar, também, suínos e animais de laboratório. Em um surto recente em suínos, que estavam coabitando com ovinos, foi identificado OHV-2 (8).
SINAIS CLÍNICOS
O período de incubação varia de 2-8 semanas. Os sinais clínicos da forma aguda caracterizam-se por hipertermia, depressão, emagrecimento, lesões ulcerativas na mucosa oral, focinho e narinas, salivação, corrimento nasal e ocular, que pode ser purulento, opacidade da córnea, aumento do tamanho dos linfonodos e sinais nervosos como incoordenação, embotamento, tremores musculares e decúbito. O curso clínico é de 1-15 dias. Nas formas mais agudas da enfermidade, com um curso clínico de 1-3 dias, pode ocorrer gastroenterite hemorrágica. As formas crônicas, que não têm sido diagnosticadas no Brasil, caraterizam-se, principalmente, por lesões oculares que podem levar a cegueira; observa-se panoftalmite bilateral e leucoma (opacidade branca e densa
da córnea), que podem levar, ocasionalmente, a perfuração da córnea e prolapso da íris (12).
PATOLOGIA
As lesões macroscópicas caracterizam-se por hiperemia, hemorragias, crostas e úlceras na mucosa oral e nasal, faringe, esôfago e traquéia. Podem observar-se, também, áreas esbranquiçadas e/ou ulcerações nos pré-estômagos, abomaso e intestino. O fígado e o rim podem apresentar um aspecto moteado com a presença de múltiplas áreas branco-amareladas, de 1-4cm de diâmetro, que representam acúmulo de células mononucleares ao redor dos vasos sangüíneos. Há aumento de volume dos linfonodos, que podem estar congestos ou hemorrágicos. Nas formas mais agudas da enfermidade as lesões podem ser mínimas ou estar ausentes. As lesões histológicas observadas em diversos órgãos, incluindo o sistema nervoso, caracterizam-se por vasculite com degeneração fibrinóide e/ou necrose das paredes dos vasos sangüíneos, com infiltração perivascular de células mononucleares. Nos casos crônicos a principal lesão é arteriosclerose obliterativa generalizada (11,12).
DIAGNÓSTICO
O diagnóstico de febre catarral maligna realiza-se pelos dados epidemiológicos, sinais clínicos e lesões observadas na necropsia. O diagnóstico de certeza é feito pela observação de lesões histológicas características em diversos órgãos, incluindo o sistema nervoso, fígado e rim. Para isso é necessário enviar ao laboratório pedaços desses órgãos fixados em formalina tamponada 10%. Laboratorialmente, o diagnóstico, tanto da forma Americana como da Africana, pode ser realizado, também, por PCR ou ELISA competitivo. O vírus da forma africana pode ser cultivado em cultura de células ou ovos embrionados (12).
Deve realizar-se o diagnóstico diferencial com a rinotraqueíte bovina infecciosa, que apresenta sinais clínicos similares mas que tem alta morbidade e baixa letalidade; doença das mucosas, que não apresenta lesões oculares e sempre apresenta diarréia; e com febre aftosa, que não tem lesões oculares e é de letalidade baixa ou inexistente. Febre catarral maligna pode ser confundida, também, com intoxicação por
Ramaria flavo-brunnescens, mas nesta última, que ocorre somente no
outono, observa-se claudicação severa e perda dos pêlos da vassoura da cola. Casos de fotossensibilização secundária com lesões oculares e da língua, que não apresentem lesões em outras regiões da pele, são muito
similares a febre catarral maligna, devendo, em muitos casos, serem diferenciados pelas lesões histológicas.
CONTROLE E PROFILAXIA
Não se conhece tratamento ou medidas eficientes de controle. Como profilaxia a única medida recomendável é a de evitar a introdução de ovinos provenientes de áreas nas quais ocorre a doença.
REFERÊNCIAS
1. Baptista F.Q., Guidi P.C. 1988. Febre catarral maligna no estado do Paraná. A Hora Veterinária, 45: 33-37.
2. Barros S.S., Santos M.N., Barros C.S.L. 1983. Surto de febre catarral maligna em bovinos no Rio Grande do Sul. Pesq. Vet. Bras. 3: 81-86.
3. Barros C.S.L. 1998. Febre catarral maligna. In: Lemos R.A.A. (ed). Principais enfermidades de bovinos de corte do Mato Grosso do Sul. Universidade Federal do Mato grosso do Sul, Campo Grande, p. 218-225.
4. Costa C.H.C., Pires A.R. 1989. Surto de febre catarral maligna em cervídeos (Cervus unicolor). Anais. Encontro Nacional de Patologia
Veterinária, 4, Pirassununga, SP, p. 13.
5. Dobereiner J., Tokarnia C.H. 1959. Ocorrência da coriza gangrenosa dos bovinos no município de Serra Negra do Norte, Rio grande do Norte. Arq. Inst. Biol. Animal, Rio de Janeiro 2: 65-82.
6. Driemeier D., Brito M.F., Bezerra P.S., Silva L.B.C., Barros L.A. 1996. Descrição de um surto de febre catarral maligna em veado mateiro Mazama gouazoubira no zoológico de Cuiabá MT. Anais.
Congresso Brasileiro de Medicina Veterinária, 24, Goiania, nr. 466. 7. Figueiredo L.J.C., Castelo Branco M. B., Oliveira A.C. 1990.
Aspectos clínicos e epidemiológicos da febre catarral maligna. Anais. Congresso Mundial de Buiatria, 16, Salvador, BA, p. 666-671.
8. Loken T., Aleksandersen M., reid H., Pow I. 1998. Malignant catarrhal fever caused by ovine herpesvirus- 2 in pigs in Norway. Vet. Rec. 143: 464-467.
9. Marques L.C., Alessi A.C., Thomaz B.V., Marques J.A., Guerra L. 1986. Surto de febre catarral maligna em bovinos no estado de São Paulo. Arq. Bras. Med. Vet. Zootec.38: 719-729.
10. Oliveira A.C., Figueiredo L.J.C., Resende A.M. 1978. Casos de febre catarral maligna ocorridos em Riachão do Jacuípe, Bahia.
Descrição clínica e anatomopatológica. Anais. Congresso Brasileiro de Medicina Veterinária, 16, Salvador, p. 130.
11. O’Toole D., Li H., Roberts S., DeMartini J., Cavender J., Williams B., Crawford T. 1995. Chronic generalized obliterative arteriopathy in cattle: a sequel to sheep-associated malignant catarral fever. J. Vet. Diagn. Invest. 7:108-121.
12. O’Toole D., Li H., Miller D., Williams W.R., Crawford T.B. 1997. Chronic and recovered cases of sheep-associated malignant catarrhal fever in cattle. Vet. Rec. 140: 519-524.
13. Sampaio F.A., Sampaio A.A., Dacorso Filho P. 1972. Surto de febre catarral maligna em Campos, RJ. Anais. Congresso Brasileiro de Medicina Veterinária, 18, Brasilia, p. 275.
14. Riet-Correa F., Mendez M.C., Schild A.L., Brod C.S., Bondan E.F. 1988. Laboratório Regional de Diagnóstico. Doenças diagnosticadas no ano de 1987. Gráfica da Universidade, Pelotas, p.14-16.
15. Torres S. 1924. Oca, mal do chifre ou coriza gangrenosa dos bovinos. Boltm. Soc. Bras. Med. Vet. 1: 144-159.
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