iii terCeira Parte
3. DO matERIal HUmaNO
3.4. FECHANDO O CíRCULO HERMENêUTICO E ABRINDO-O AS CONTRADIçõES
3.4.1. O Fechamento do Círculo: O que há de se considerar
Nas entrevistas apresentadas encontramos o testemunho de famílias, que ao longo de gerações, construíram suas histórias de vida juntamente com a história da UFRGS. A cada mudança de status por que passou a Universidade, de Escolas Livres à Universidade de Porto Alegre, do Rio Grande do Sul à Federal, à medida que os funcionários eram absorvidos dentro dos novos quadros, famílias foram se reunindo, envolvendo irmãos, cônjuges, primos, tios, sobrinhos, pais e avôs.
prova material de um patrimônio pessoal. E, mesmo subjetivada, essa memória – tida como individual – está de certa forma ligada a sua trajetória na instituição e se constroi no coletivo, algo que se destaca nos relatos dos entrevistados quando esses apontam a indicação de familiares como natural, comum, como uma prática quase hereditária, o que nos reporta a questão das cátedras. De modo que, como escreve Meirelles (2011: 47),
É, portanto, através da prática articulatória que esse conteúdo disperso – em tese – toma sentido, passando a constituir, então, momentos discursivos. Contudo, a articulação entre esses diferentes momentos discursivos, resulta vis-à-vis, em uma modificação de sua identidade original com vistas à produção de equivalências entre elementos diferenciados dentro de uma mesma cadeia discursiva. Sendo assim, o resultado da prática articulatória, é, terminantemente, o discurso.
Pois, como nos assevera Mendonça (2003: 141),
[...] a produção de sentido ocorre obrigatoriamente a partir da articulação de momentos no interior de um sistema discursivo, ou seja, a prática articulatória é uma prática auto- referenciada porque todos os momentos da construção discursiva são internos à própria totalidade estruturada (discurso). Isto quer dizer, por óbvio, que o que esta além dos limites do sistema discursivo não pode produzir qualquer sentido nesse sistema.
É o caso, por exemplo, do termo latino “Cathedra”, cuja origem está no vocábulo grego, significando assento ou cadeira, de modo que, o termo passou a ser usado no sentido de cadeira enquanto disciplina, ensinada por um professor que tenha alcançado o mais alto grau na hierarquia docente. Sendo, portanto, no âmbito da universidade um lugar de poder que se concentra na figura do professor catedrático.
A “Cathedra” chega ao Brasil pelas mãos de D. João VI quando cria as cadeiras de Anatomia e Cirurgia no Rio de Janeiro e de Cirurgia na Bahia. Anos depois, D. Pedro I sanciona a Carta de Lei de 1827, instituindo os primeiros cursos jurídicos em São Paulo e Olinda. Cinco anos após, através do estatuto regulamentador dos cursos, estabelece que os professores dos cursos jurídicos no Brasil gozassem das mesmas “honras” dos catedráticos de Coimbra. Honraria essa que associava ao poder judiciário (onde os juízes gozavam da perpetuidade no cargo), à função do magistério, dessa associação instituída na Carta de 1827, se estabelece no Brasil, a ideia de vitaliciedade nas instituições de ensino superior (Fávero, s/d: 1). De modo que, é interessante observar como expõe Fávero (s/d: 2), que “embora tais vantagens devessem ser adquiridas mediante concursos de títulos e provas, na prática, isso nem sempre ocorreu”.
A reforma do Ensino Superior de 1931, conhecida como Reforma Francisco Campos, ratificou o professor catedrático como o mais alto posto na hierarquia universitária, prevendo sua contratação sem concurso desde que tivesse reconhecida a sua capacidade científica e intelectual através de obras publicadas, inventos ou descobertas de relevância. Seguindo o artigo de Fávero, a indicação
de professores era feita por um catedrático, onde o candidato era submetido a uma comissão composta de cinco membros. Aprovados, os novos professores que se mantivessem por dez anos no cargo poderiam ser reconduzidos mediante provas de títulos, passando a gozar de vitaliciedade no cargo. Todos os demais professores (auxiliares ou assistentes) eram escolhidos pelos catedráticos, escolha essa que poderia recair entre os mais destacados alunos ou por indicação de terceiros.
Esta foi a estrutura hierárquica e de poder criada nas universidades brasileiras, pois, através das cátedras, estabeleceram-se feudos sob controle dos professores catedráticos, personalidades máximas, respeitados e cultuados. Sob esta estrutura se fez uma cultura de vitaliciedade e indicações, mesmo com a substituição das cátedras pelos departamentos com a Lei de Diretrizes e Bases de 1961 e, mais especificamente, no âmbito das Universidades Federais, pelo Decreto-Lei nº 252 de 1967.
No entanto, as mudanças foram mais nominais do que reais, e foi mantida a estrutura de poder centrada no domínio do conhecimento pessoal e, portanto, privado, exercendo a administração de uma organização que mantém relações com o estado e através de convênios lhe presta serviços. Neste sentido, essa estrutura histórica foi responsável pela formação de uma cultura institucional repassada por gerações, que se mostra na aceitação da prática das indicações como algo natural, hereditário. Os filhos e netos dos primeiros servidores não viveram essa época, mas a receberam como uma memória coletiva, o que nos remete a Halbwachs (2004: 31), quando este escreve que “acontece com muita frequência que nós atribuímos a nós mesmos [essas lembranças e memórias], como se elas não tivessem sua origem em parte alguma senão em nós, [são] ideias e reflexões, ou sentimentos e paixões, que nos foram inspirados por nosso grupo”. E, parafraseando o referido autor, como estamos tão afinados com aqueles que nos cercam, vibramos com eles sem saber por que estamos vibrando e somos, senão, um eco de um tempo outro que não é, necessariamente, o nosso.