Existe uma história que foi construída em torno da dor da diferença: a criança que não se sente bem igual às outras, por alguma marca no seu corpo, na maneira de ser [...] Eles também sentem a dor dentro do olhos. Ela lida com algo que dói muito: não é a diferença, em si mesma, mas o ar de espanto que a criança percebe nos olhos dos outros [...] O medo dos olhos dos outros é sentimento universal. Todos gostaríamos de olhos mansos ... a diferença não é resolvida de forma triunfante, como na história do Patinho Feio. O que muda não é a diferença, são os olhos...
(Rubens Alves, 2002)
O espetáculo começa a recolher-se e é dada a hora de proferirmos acerca dessa experiência memorável que foi dissertar sobre o Corpo como sentido, criação e significado da criança com Síndrome de Down: uma proposta de formação docente na Educação Infantil, no sentido de que as aprendizagens foram extremamente significativas, primeiramente enquanto formação humana, logo, profissional, de tal modo que as experiências adquiridas estão para além de todas as palavras que possam ser expressas aqui.
Foi realmente uma travessia de grandes descobertas, de encantamentos, de percursos ora claros, ora escuros, de momentos às vezes leves, outras vezes fatigantes, situações indiferentes, mas por diversas vezes acolhedoras. E nessa relação díspar me vi em um eterno encontro de paixão e des(paixão) – peço licença para usar essa expressão - na certeza de que a caminhada era árdua, mas que valeria a pena. E como valeu!
Com a feitura deste trabalho, procuramos dentro da abordagem qualitativa, pelo viés da pesquisa-ação colaborativa, desenvolver uma relação dialógica e dialética,
167 promovendo o encontro de vozes e o encontro com o corpo, construindo essa cadeia discursiva, em uma relação de sentidos e significados à prática docente.
Dentre os desafios e limites enfrentados, destacamos esse primeiro contato com o filósofo e fenomenólogo Merleau-Ponty (1999, 2005, 2006) na qual só vim ter familiaridade como aluna da pós-graduação. Era uma literatura densa e complexa, então como dissertar sobre aquilo que você ainda está conhecendo? Falar de criança, infância, inclusão, corpo e Educação Infantil era um verdadeiro deleite, mas como articular esses conceitos frente a essência da subjetividade que a fenomenologia nos incitava, em uma proposta de formação, era sim um grande desafio.
A partir das reflexões sobre as análises realizadas, percebemos que tínhamos um grande caminho pela frente, provocarmos (des) construções de determinados conceitos, entendimentos o que sabemos que não é uma tarefa que acontece do dia para noite, pois falamos das marcas de nossas histórias, de nossas aprendizagens, de nossas vivências ao longo da vida, no entanto, tínhamos que provocar um sentimento de inquietação.
A começar pelas concepções de corpo, não desmerecendo qualquer conceito apresentado, mas no propósito de ampliar olhares e que pudéssemos materializar os objetivos elencados em nossa pesquisa frente a problemática apresentada. Não tinha como falar de corpo sem vivê-lo, e precisávamos trazer isso na prática de modo que fosse perceptível para nossos interlocutores que a criança com/sem deficiência tem suas singularidades e particularidades.
Era preciso romper com a ideia de que por conta do padrão hegemônico que a sociedade instituiu frente à normalidade, a deficiência vem antes da criança, pois esta ainda é vista sob uma ótica biológica. Com isso, apresentamos vivências de que a criança não pode ser concebida de forma fragmentada, somos seres históricos, social e cultural e materializados frente as nossas experiências vividas que passam pelo nosso corpo e a criança com Síndrome de Down não é diferente, ela é também sujeito de sua aprendizagem mesmo frente as suas limitações, mas que sua corporeidade seja apresentada por completo por meio de ideias, percepções, sensações, afetos e pensamentos.
Era preciso trazer elementos importantíssimos para nossas oficinas de modo que cada sujeito vivenciasse sua percepção, sua consciência corporal marcada em sua corporeidade. Cada sujeito ali era um corpo singular, imbricados nas relações
168 estabelecidas, e cada experiência vivenciada era diferente sob o ponto de vista do outro, até entendermos que o meu levantar a mão é diferente do seu levantar a mão. Trazer esse conhecimento sobre corpo como sentido é fundar nossas experiências na sensibilidade. Dissertar sobre corpo como criação, é compreender que cada sujeito se (re) cria o tempo todo a partir de seus atos, de suas manifestações. Cada ação que fizermos ela nunca mais será a mesma, pois esta virá carregada de uma nova experiência, com um outro sentido, logo com novos significados.
Urge a necessidade de entender que ler, contar, escrever, narrar, jogar são ações do sujeito humano, mas não acontece sozinhas, acontecem no corpo, assim, não se trata de usar o corpo como instrumento, mas como meio, onde tudo acontece nele, inclusive a aprendizagem. Somos muito mais que imaginamos ser, de que não é preciso mantermos nossos alunos inertes, na conveniência de um corpo disciplinado, perfeito e correto que podemos promover aprendizados eficazes.
Não nos sustentemos em nossas salas de aula, com concepções reducionistas entre o certo e o errado, o bonito e o feio, o eficiente e o deficiente, o normal e o anormal. Precisamos proporcionarmos vivências, considerando suas possibilidades, suas histórias como indivíduo, como também no coletivo, precisamos considerar esse corpo como cheio de propósitos, necessidades físicas, intelectuais, afetivas que está imerso em um determinado contexto, apreendendo novas linguagens, transformando a realidade e adquirindo condições para lidar consigo próprio, com o outro e com o mundo. (MERLEAU-PONTY, 1999).
Foram momentos formativos de grande valia, com experiências intensas e prazerosas, sustentadas pelos ricos ensejos de aprendizagens, não apenas pelos sujeitos que muito corroboraram para essa pesquisa, mas para a pesquisadora ainda verde, que nesse processo muito apreendeu e amadureceu nesse movimento cíclico de construção do conhecimento entre o sentido e o vivido, o pensado e o representado, sempre perseverante na proposta colaborativa ação-reflexão do fazer docente.
Estreitamos essa formação na certeza de que cada oficina realizada deixou sua marca, cada interlocutor presente deixou sua cor, cada palavra dita, cada silêncio calado, cada sorriso dado, foram reveladores e impulsionantes para que possamos daqui em diante tentar fazer diferente.
169 Reconhecemos o compromisso firmado nessa pesquisa e apostamos sim, na formação continuada do professor e esta implica em uma relação dialética entre teoria e prática, entre a ação-reflexão na qual a teoria está vinculada aos problemas que são postos pela experiência prática e essa ação prática deve ser orientada à luz das contribuições teóricas existentes e do seu mundo vivido. (IBIAPINA, 2008).
Trazendo a reflexão da epígrafe na abertura desse capítulo, não nos detemos na deficiência, mas sim no que esse sujeito tem para nos oferecer, uma vez que esse corpo tem muito a nos dizer. Que tenhamos então novos olhares, novos (res) significados em nossa prática e que comecemos por nós, na opulência de vivenciar nesse corpo, a singularidade que há em cada um de nós para poder levar até as nossas crianças com e sem deficiência.
Como possíveis desdobramentos deste estudo, apostamos em sua continuidade como pesquisa de doutorado, que essas mudanças que se materializaram nas percepções de nossos sujeitos, conforme constatamos em nossas análises e que estas possam também ser materializadas em suas práticas e vistas aos nossos olhos, onde nessa relação dialógica e dialética entre fazer ciência e produzir conhecimento, agregando a teoria à prática possamos ganhar mais um elemento no fazer docente: ação-reflexão-ação.
Fechamos sim a roda do espetáculo, mas no acertamento que aqui é apenas o começo de um grande enredo que ainda teremos pela frente ... E como não poderíamos fazer diferente da abertura desta dissertação, peço licença para fechar essa roda de conversa cantando:
Oi, fecha a roda tindolê-lê Oi, fecha a roda, tIndolá-lá
Oi, fecha a roda tindolê-lê, tindolê-lê, TIndolá-lá ...
(Cantiga de Domínio Popular) [...]
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