Mapa 6- Carta topográfica do governo de Pernambuco (1766)
3 ASPECTOS INTERNOS DOS DESCAMINHOS: CASOS E CIRCULAÇÃO DE
3.3 Fechando o ciclo: o contrabando ganha as ruas
Agora que já conhecemos as rotas, os casos e as mercadorias que circulavam entre as praças de Bahia e Pernambuco, nos resta tentar esclarecer como estes produtos ganhavam as ruas e iam parar nas mãos dos compradores finais. Durante nossa pesquisa nas fontes primárias, descobrimos que alguns destes comerciantes envolvidos nos circuitos ilícitos estavam associados a falsificadores de selos reais, como nos revelam dois documentos coletados do nosso acervo.
O primeiro caso é do ano de 1770, trata-se de uma carta anônima escrita no Recife endereçada ao secretário de Estado do Reino e das Mercês, o Conde de Oeiras. O denunciador além de falar sobre o comércio ilegal praticado nos portos do sertão afirma que “se introduz aqui inumeráveis fazendas sem despacho pelos mesmos navios da Companhia” 457
continua explicando que “o contrabando leva quantas meias sobras há nesta terra e ouro velho que podem adquirir, para a Bahia e o Rio de Janeiro vai o dinheiro provincial, para se empregarem em fazendas, que se introduzem nesta praça por contrabando” 458
, completa dizendo que as
455 Cf. AHU – PE – Códice 583, fls. 202-203 apud DIAS, Érika. Comunicação entre os poderes do centro e os
locais: uma análise da correspondência trocada entre o secretário da Marinha e Ultramar e o governo da capitania de Pernambuco. In: ALMEIDA, Suely. SILVA, Gian Carlo de Melo. SILVA, Kalina Vanderlei. SOUZA, George F. Cabral. (Orgs.) Políticas e estratégias administrativas no mundo atlântico. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2012. P. 225.
456
Idem.
457 AHU – PE Cx. 128 D. 9737. 458 Idem.
ditas fazendas “chegam a ter selos falsos com que as selam, por se não fazer tão manifesto o contrabando, a quem os compra, e torna a vender” 459
.
Em ofício escrito pela Junta da Companhia sediada em Lisboa no ano de 1778, um caso correlato é denunciado. Afirma-se neste documento a existência em Recife de um homem chamado Manoel Correa de Mendonça que foi preso no ano de 1772, por selar fazendas contrabandeadas na sua casa 460. Podemos inferir através dos dados como se comportavam estas redes mercantis de contrabando que buscavam se agrupar a falsificadores na intenção de fazer com que os produtos ilícitos circulassem livremente na praça mercantil pernambucana e pudessem, por exemplo, ser vendidos sem maiores problemas nas lojas da praça.
Além da venda nas lojas, quando feito em pequeno porte, muito provavelmente estas mercadorias ganhavam as ruas através das bocetas das negras de ganho, apesar da prática ter sido proibida por postura do ano de 1744, a venda desses produtos através dessas intermediárias ainda constituía-se em atitude cotidiana como nos esclarece carta dos oficiais da câmara de Olinda escrita no ano de 1769 e endereçada a Corte.
Nesta carta os oficiais apelam ao Rei pelo relaxamento da medida, pois afirmam ser aquele comércio essencial para a sustentação de famílias por ser o ato de “comprar e vender” o “único recurso que há no Brasil” 461
. O documento esclarece ainda que este tipo de comércio era um hábito da capitania, como os próprios camarários afirmam “estilo da terra” antes da pragmática as pretas cativas vendiam pelas ruas “toda a qualidade de vendas de frutos, legumes, doces” 462
e com o decurso do tempo foram incrementados a este comércio “fitas de seda, fazendas de algodão da Índia, bertanha, aniagem” 463
.
Outro documento confirma essa dinâmica mercantil, em ofício do ano de 1778 da Junta da Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba ao governador de Pernambuco, declara a junta saber que “os ricos e poderosos dessa terra (Pernambuco), trazem duas, três escravas a vender pelas ruas em bocetas” 464
continuam afirmando que “cada uma é uma loja, os melhores gêneros e fazendas, as quais recebem dos navios que vão a este porto” concluindo o documento a Junta faz questão de destacar que “por ordem de sua majestade é proibido andar-
459 Idem. 460 AHU – PE Cx. 128 D. 9737. 461 AHU – PE Cx. 107 D. 8312. 462 Idem. 463 Idem. 464 AHU – PE, Cx. 128 D. 9737.
se vendendo desta forma pelas ruas” 465
. O apelo feito pela câmara, bem como, a denúncia da Junta da Companhia Geral são demonstrativos da persistência desse comércio, que ligava os principais homens de negócio da praça pernambucana a estas intermediárias de cor.
Respondendo a este ofício também no ano de 1778, o governador José Cesar de Meneses, confirma a afirmação da Junta lisboeta. Declara a autoridade que tal costume era praticado na Praça, e pelo que havia apurado não era coisa moderna. De acordo com os dados colhidos por ele, os governadores que o haviam precedido e os ministros que os auxiliavam nunca haviam impugnado tal ação, afirma ainda que “as câmaras concedem licenças as escravas que vendem dessa forma pelas ruas” 466
. Acreditava o governador que isso ocorria, pois “nem o artigo 18 da pragmática de 1749, que proíbe vender fazendas pelas ruas em caixas ou trouxas nas cidades ou vilas desse Reino nem a declaração feita ao mesmo inciso no alvará de 21 de abril de 1751” 467
determinavam expressamente que tal proibição se estendia as conquistas. A falta de uma legislação específica para a colônia acabava neste caso criando uma brecha para a continuidade daquele procedimento na capitania pernambucana.
Também encontramos relatos na historiografia que compravam o costume local de mulheres de cor, andarem pelas ruas a vender uma infinidade de produtos, inclusive contrabandos. A historiadora Suely Almeida se dedica em artigo intitulado “Histórias de gentes sem qualidade: Mulheres de cor na Capitania de Pernambuco no século XVIII”, a recompor as tramas comerciais que essas intermediárias estavam envolvidas. Sobre os produtos que transitavam por entre cestos, bocetas e tabuleiros nas ruas do Recife irá afirmar a autora que:
Tanto nos tabuleiros como nas tabernas vendia-se de tudo: comida, bebida, roupas, pólvora, armas, ferramentas, utensílios domésticos, alguns artigos de luxo, como tecidos finos, joias e coisas de toucador. Essas vendas ou tabernas se constituíam em espaços intermediários entre a legalidade e a ilegalidade 468.
Para o contrabando de escravos, nossa hipótese baseada na análise a documentação, é que muito provavelmente antes de vir para a capitania boa parte da escravaria já estava encomendada e negociada, dada a dificuldade de fazer entrar e se esconder uma grande quantidade de pessoas na capitania sem ser notado. Apesar de encontrarmos vários 465 Idem. 466 AHU – PE, Cx. 130, D. 9823. 467 Idem. 468
ALMEIDA, Suely. Histórias de gente sem qualidade: mulheres de cor na capitania de Pernambuco no século XVIII. In: CABRAL, Flávio José Gomes; COSTA, Robson. História da escravidão em Pernambuco. Editora Universitária/UFPE, 2012. P. 52.
documentos que fazem referência ao comércio descaminhado de escravos durante o período da nossa pesquisa, não achamos referência alguma quanto a qualquer tipo de feira de venda de escravos extralegal, ou coisa parecida, o que nos leva a crer que de fato aquele tipo de negociação era feita em sua maioria de forma antecipada.
Quanto as caixas de açúcar e outras mercadorias que saiam de Pernambuco e iam para Bahia, a documentação não oferece maiores detalhes. Isto porque como já dito aqui, a praça comercial da Bahia não estava sujeita ao regime de exclusivo comercial, dessa forma o trânsito de produtos e negócios era feito de maneira mais livre. Além disso, como também já visto anteriormente, as autoridades baianas de maneira geral, pareciam não se importar muito com o trânsito comercial que ligava as duas capitanias, autorizando a introdução das mercadorias oriundas destes negócios sem grandes problemas.