Embora pesquisas sejam essenciais para se alcançar o sucesso na implantação de programas/projetos de inclusão digital, continuam a existir conflitos de interesses e esforços duplicados dos grupos dominantes, como também visões equivocadas das metáforas de desenvolvimento e tecnologia (BADILLA-SAXE, 2006). Não é fácil incluir os excluídos, principalmente quando se desconhece ou não se quer conhecer a forma como foram excluídos (DEMO, 2002), ainda mais quando a pretensão dos opressores "é transformar a mentalidade dos oprimidos e não a situação que os oprime, e isto para que, melhor adaptando-os a esta situação, melhor os dominem." (FREIRE, 1987, p. 60).
"não serve ao opressor, pelo fato desse não suportar que todos os oprimidos passem a dizer: Por quê?"(id.). essencial para se iniciar tanto o processo de uma conscientização crítica, como o de fluência tecnológica defendido por Resnik (2006a).
A conscientização, para Freire (1987, p. 114), "prepara os homens, no plano da ação, para a luta contra os obstáculos à sua humanização". Ele distingue dois tipos de consciência individual: a mágica/ingênua e a crítica. A primeira encara os fatos de forma superficial, sem base, capta-os, mas tem medo de entendê-los à sua maneira, pois tem um poder superior que a domina de fora e por isso se submete com docilidade.
"É próprio dessa consciência, o fatalismo, que leva ao cruzamento dos braços, impossibilidade de fazer algo diante do poder dos fatos, sob os quais fica vencido o homem" (FREIRE apud LIMA, 2005, p. 82). Enquanto a consciência crítica não se satisfaz com os acontecimentos da forma como lhes são postos, tenta compreender o motivo de sua existência e a problemática que o cerca, se for o caso, e com isso luta por soluções, fundamentadas no diálogo e na pesquisa.
Existem iniciativas de incluídos que incentivam a pergunta - Por quê? - como a de estudiosos do MIT1, que buscam uma metáfora alternativa à concepção linear para pro- mover o desenvolvimento. Dr. Seymur Papert, do Grupo Epistemology and Learning (Aprendizagem e Epistemologia), pauta-se na teoria denominada de Construcionismo, apoiada na construção do conhecimento por interesse individual. Também como parti- cipante do Lab Med destaca-se Bakhtiar Mikhak, do Grupo- Learning Webs- (Redes de Aprendizagem), que tenciona potencializar o Construcionismo por meio do seu pro- jeto - Learning Independence - (Independência na Aprendizagem), mobilizando vários setores que interferem no desenvolvimento sustentável de um país, em direção a uma visão mais construtiva para a sociedade. Seu propósito fundamental é quebrar o ciclo de dependência dos excluídos para com os incluídos.(RESNIK, 2006a).
Resnik (2006a), do Grupo- LifeLong Kindergarten (Jardim de Infância para toda vida), é outro estudioso do MIT. Ele defende o argumento de que a aprendizagem deve ser uma constante dos seres humanos e que esses devem sempre buscar soluções cri- ativas para seus problemas e necessidades. Relata experiências de crianças, inclusive a sua, que encontraram soluções simples usando a tecnologia para resolver suas ne- cessidades, problemas pessoais e da coletividade. Por tal razão, acredita que o uso criativo da tecnologia melhora a qualidade de vida de um país. Ressalva que o sistema educacional predominante não se interessa por essas mudanças.
1Massachusetts Institute of Technology - Centro Universitário de Educação e Pesquisa. É um dos
O educador Paulo Freire alerta para a noção de que é importante "saber a ser- viço de quem e de quê, a informática estará agora maciçamente na educação brasi- leira" (FREIRE apud CALADO, 2001, p.27). A proposta de Resnik (2006b) é difundir idéias sobre o aprendizado e, embora ele tenha ciência das barreiras e dificuldades, é otimista e acredita que as transformações acontecerão ao longo das próximas gera- ções, pois a tecnologia ajuda na difusão destas idéias e os jovens serão seus principais difusores e aliados.
Para Freire apud Calado (2001), a educação é uma ferramenta fundamental para superar os problemas das injustiças sociais, mas não é o suficiente. É preciso que, aliada a educação, venha a conscientização crítica que busca não apenas compreender os porquês, mas sobretudo vencer a opressão mediante atitudes transformadoras, que começam no cotidiano, indo para a família, depois para a escola, o trabalho e os demais espaços que o cidadão ocupa. Isso corrobora o otimismo de Resnik (2006b).
Idéias dessa natureza apresentam maneira de educar distinta da tradicional, exis- tente em muitas escolas, e que pode colaborar para formação de um sujeito de consci- ência crítica; mesmo que a passos lentos, o importante é não desistir e sempre buscar conhecer as razões que movem os projetos de aprendizagem, como também os seus resultados, independentemente de estarem dentro ou fora do meio escolar. A exclusão deixa de existir quando o usuário "aprende que o computador é um meio de acesso à educação, ao trabalho, ao contato e troca com a sua comunidade, ao pensamento crítico e ao exercício pleno de sua cidadania". (PAIVA, 2006).
Esse aprender demanda uma educação diferente da concepção bancária ainda pre- sente na maioria do sistema educacional brasileiro. Freire (1987) assevera que na concepção bancária "não pode haver conhecimento, pois os educandos não são cha- mados a conhecer, mas a memorizar o conteúdo narrado pelo educador"enquanto que, na prática problematizadora, "o objeto cognoscível, de que o educador bancário se apropria, deixa de ser, para ele, uma propriedade sua, para ser a incidência da refle- xão sua e dos educandos" (p.69). Se a forma como usar as tecnologias for passada para o aluno/usuário de um programa/projeto de inclusão digital alicerçadas na con- cepção bancária, dificilmente se conseguirá fechar a brecha digital, principalmente a de fluidez.
Para Papert (1994) as pessoas aprendem com maior efetividade, quando o que estão buscando construir têm significado para si próprio, mas adverte para a idéia de que "a meta é ensinar a partir do mínimo de ensino" (p.125). A precariedade nesse mínimo de ensino contribui para o aumento da brecha de fluência no Brasil, como
mostra Lima (2005) em sua pesquisa Inclusão Digital e Protagonismo Juvenil: um estudo em dois Centros de Tecnologia Comunitária, cujos sujeitos foram jovens com idade entre 9 a 12 anos. Nos resultados desse estudo revela-se uma das causas que contribui para a permanência da brecha digital na maioria dos projetos/programas de inclusão digital que buscam levar a fluidez tecnológica para seus usuários.
A experiência desenvolvida no Laboratório Social Juventude Inte- rativa e no Telecentro Padre Joseph Allan Black, nos quais muitos usuários eram formados por crianças analfabetas ou apresentavam sérios problemas de leitura e escrita, reflete um sério problema que vem ocorrendo no movimento de inclusão digital brasileiro relaci- onado à baixa qualidade da educação nas escolas públicas de pri- meiro e segundo graus. [...] me deparei com o fato de, por mais que eu quisesse desenvolver mais atividades usando a rede mundial de computadores, isto não ter sido possível pelo fato da maioria dos jovens serem semi-analfabetos e não compreenderem a informação contida nos sites navegados. Destaco também o fato de que alguns deles não puderam produzir seus próprios sites ou desenvolver mais os Blogs em decorrência das dificuldades de escrita da língua portu- guesa. (p.137, 138).
Este estudo evidencia o quanto a educação básica influencia no processo de in- clusão digital do sujeito e a responsabilidade dos grupos incluídos, principalmente os dominantes, no desenvolvimento de sua nação, expondo quem tem ou não interesse de mudanças. Também valida a necessidade e importância de pesquisas nos diversos programas/projetos de inclusão digital, procurando avaliar e mostrar para a sociedade as conseqüências do acesso a essas tecnologias e a sua falta. Vale ressaltar que o usuá- rio desses programas/projetos procura-os, utiliza-os e participa de alguma atividade neles oferecidas por livre e espontânea vontade, o que os torna espaços promotores da aprendizagem e colaboradores do processo de inclusão digital do indivíduo.