5. CONTEXTUALIZANDO O REINADO DE AFONSO X (1252-1284)
5.1. EL FECHO DEL IMPÉRIO
Dois foram os acontecimentos principais que marcaram não só o início, mas todo reinado de Afonso X: o projeto de Cruzada contra África e a eleição do monarca como Imperador do Sacro Império Romano, conhecido com o El Fecho Del Império. Ambos ocupariam boa parte da atividade política do monarca entre 1259 e 1264. Foi em 1256 que teve início o projeto do império, com a chegada de uma embaixada de Pisa em Castela para oferecer ao rei castelhano a possibilidade de ser Imperador dos Romanos, uma oferta tentadora que irá influenciar todo o reinado positiva e negativamente. Em retribuição à oferta, os embaixadores de Pisa receberam uma série de privilégios comercias e a promessa de ajuda militar do monarca. Neste momento, Afonso X rivalizava com Ricardo da Cornualha que também concorria ao título. Em seu empenho de ser bem-sucedido, Afonso X enviou 500 cavaleiros e balesteiros em auxílio de Pisa em seu enfrentamento com a cidade Guelfa de Florença. Essa interferência “internacional” do monarca exigia o
desembolso constante de grandes quantidades de dinheiro189, o que traria drásticas
consequências ao reino: consumiu suas reservas e empobreceu seus habitantes, produzindo um descontentamento geral.
Segundo Carlos Estepa Diez, a política imperial de Afonso X é aquela que tem relação com as aspirações do monarca ao trono do império no plano político e também
ideológico. Seus contemporâneos designavam como “fecho del Império”. Trata-se de um
período de 20 anos, desde a oferta imperial realizada pela comuna de Pisa em 1256 até a entrevista entre Afonso X por Gregório X em Beaucaire (no reino de França) em 1275, que marcaria o fim de suas pretensões. O autor defende que, para a maior parte dos estudiosos do tema, a pretensão afonsina ao império não foi outra coisa senão uma
quimera, uma meta absurda que tinha pouco a ver com a realidade política do momento190,
e que, conforme veremos adiante, teria drásticas consequências.
No entanto, sua atuação diplomática da Noruega até Itália rendeu-lhe uma fama internacional. Os principais propagandistas de sua fama foram poetas e intelectuais que vieram à sua corte de todos os pontos da Europa, ingleses, provençais e florentinos, como,
189 JIMÉNEZ. Op.Cit. P 10.
190 DIEZ, Carlos Estepa. La política imperial de Alfonso X: Esbozo de uma posible ideologia alfonsina. In VEJA, Maria Jose Hidalgo de la (ed.). LA HISTORIA EM EL CONTEXTO DE LAS CIENCIAS HUMANAS Y SOCIALES. Salamanca, 1989. p.207
por exemplo, Brunetto Latini, mestre de Dante Alighieri, que afirmava não existir pessoa
por sua linhagem ou prestígio mais digna ao trono do império que Afonso X 191.
Há que se levar em conta que o século XIII foi de contradições entre tradições e tendências em relação ao que é ou deve ser um império. Evidentemente, há o fenômeno das monarquias que consolidam seu poder, incluindo um corpo teórico de legitimação,
que incluíam no caso castelhano as Cantigas de Santa Maria. O império poderia ter uma
conotação universal e poderia também ser uma expressão territorial ou um exercício de poder sobre determinados territórios. Sobre essa questão particular, Afonso X participava
do pensamento dos juristas napolitanos e franceses que sugeriam – Rex est imperator in
regno suo -. Talvez através desta lógica particular se explique a obsessão do monarca ao
título de imperador, conforme ressalta o Prof. Jimenez192.
Além do envio de tropas para Itália, Afonso X se empenhou para conseguir o apoio dos príncipes alemães a quem competia à eleição do imperador. O título servia para o rei reforçar sua autoridade sobre seus próprios reinos e exercer um papel hegemônico na Península. Além disso, o rei tinha outras razões para reivindicar tal título: sua mãe era Beatriz da Suábia (1202-1235) neta do imperador germânico Frederico Barba Ruiva, filha de Irene Angelina Princesa de Constantinopla e de Filipe, Duque da Suábia e Rei da Germânia e dos Romanos, fato que favorecia Afonso X como candidato a imperador do Império Romano Germânico, e que explica e justifica os esforços desempenhados pelo monarca para tentar atingir tal objetivo:
Desde el comienzo de su reinado Afonso X mostro de forma muy explícita uma de sus principales líneas de actuación: conseguir la restauración, al menos por la vía de facto, del viejo Imperio Hispánico que em el siglo anterior ostentara ino de su más ilustres predecessores, Afonso VII “ el imperador”. 193
Esta ascendência do rei irá também marcar as narrativas de milagres nas Cantigas
de Santa Maria. Na CSM 28, por exemplo, a Virgem desce do céu e com seus poderes
divinos salva Constantinopla do ataque dos pagãos:
Todo logar mui ben póde | seer defendudo o que a Santa María | á por séu escudo194
191 JIMÉNEZ. Op.Cit. P. 10.
192 Ibid. P. 115
193 Ibid.
Segundo Lênia Mongelli tratava-se de:
um tema caro no imaginário medieval, principalmente em tempos de Cruzadas e Reconquista, e povoou a temática de muitas novelas de cavalaria. Na versão de Afonso X, tão importante quanto a proteção de Maria, que abriu mão de seu manto sobre a cidade e garantiu a vitória dos
cristãos é a conversão do Soldan beyçudo e Barvudo e pelo batismo.195
Nesta mesma cantiga, um mouro impressionado pelo milagre da Virgem, se converte ao cristianismo, segundo a autora, trata-se do princípio bíblico de que a Deus agrada o arrependimento. O narrador desta CSM é situado apenas como um porta-voz, segundo Mongelli trata-se de uma estratégia ou recurso literário que visava encarecer a
importância e a longevidade da matéria narrada ao atribui-la a outrem.196
Há outras cantigas que se referem a imperadores em Constantinopla, como a CSM 342, por exemplo, em que o imperador Manuel I de Constantinopla manda construir uma igreja, após a Virgem sinalizar o local. Possivelmente era através destas Cantigas que a maior parte das pessoas na Idade Média tomava conhecimento da História. Ainda assim, em uma carta, dirigida em 1273 por Afonso X a seu filho o infante D. Fernando, o
monarca queixa-se dos nobres, acusando-os de atrapalhar suas aspirações imperiais197,
fator este que contribuiu ainda mais para o aumento da tensão entre o monarca e a nobreza
castelhana, conforme é possível observar nas próprias Cantigas de Santa Maria, como na
CSM 19 onde o rei critica a agressividade e instintos de vingança pessoal dos guerreiros. Nesta cantiga 3 cavaleiros perseguem seu inimigo até uma igreja e o golpeiam em frente ao altar. Como punição, a Virgem os faz queimar tanto no corpo como nas armas, até que os cavaleiros imploram por misericórdia. Arrependidos de seus pecados, passam a usar cintas como penitência pelo resto da vida em exílio na Sicília. Destacamos a última cobra da cantiga:
Demais lles mandou que aquelas espadas con que o mataran fossen pecejadas e cintas ên feitas, con que apertadas trouxéssen as carnes per toda Cezilla198
195 MONGELLI. Op. Cit. P. 305.
196 Ibid. p. 304.
197 DIEZ. Op.Cit. P. 210.
A CSM 19, exemplifica o tom de muitas das Cantigas de Santa Maria, que destoam das canções de gesta onde se cantava bravura heroica dos guerreiros. Aqui a Virgem pune a vingança pessoal, numa tentativa do monarca de divulgar a importância da fidelidade a Virgem; nesse sentido a transformação de espada em uma cinta, possivelmente de castidade, é de um grande simbolismo.
Acreditamos que Afonso X perseguiu até o fim de seu reinado o título de imperador, para justificar sua proeminência sobre os demais monarcas da Península. O Prof. Jimenez reforça: “el monarca castellano habría utilizar el Imperio para fortalecer su
poder em cuanto monarca feudal”199. Isso nos permite interpretar el fecho del Imperio
como algo presente na monarquia feudal de Afonso X, embora não reste dúvida de que ele não conseguiu apoio de sua nobreza para tal feito, da mesma forma que não conseguiu a submissão da nobreza às suas pautas de poder régio, como a substituição dos foros locais pelo foro real.