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1. Os espaços económicos da rede: câmbios e mercancia

2.1 Feiras de câmbio

Figura 42 – Feiras de câmbio276.

Nos inícios do século XVI, o desenvolvimento do comércio na longa distância e o aumento exponencial do volume de trocas exigiram mecanismos financeiros, nomeadamente mecanismos bancários, que permitissem agilizar os negócios. A organização de uma rede europeia de pagamentos, através da utilização de letras de câmbio (ver Figura 42), não surgiu, porém, expontaneamente, tendo sido o resultado de uma experiência adquirida nas feiras de Champagne, desde o século XIII, e, em especial, nas de Génova, no século XV, onde a dimensão inter-regional das trocas exigiam já alguma intermediação bancária (BOYER-XAMBEU, DELEPLACE, e GILLARD 1994, 71). Paralelamente, no norte da Europa, as feiras flamengas dos séculos XI e XII, centradas em Bruges, eram o palco de trocas internacionais,

276 Lugares do universo de análise onde se realizavam feiras de câmbio. Informação retirada da base de

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preconizando já o papel que Antuérpia iria assumir no século XVI, depois potencializado com a criação de novos instrumentos bancários (WEE 1963).

Criadas em meados de quatrocentos, as feiras de Lyon têm sido apontadas como o palco da plena transformação da estrutura das feiras, enquanto mercado de produtos, em mercados de dinheiro e de crédito (MARSILIO 2008, 27). No decorrer deste processo, o tempo de “pagos” tornara-se o principal acontecimento, provocando uma alteração profunda nas dinâmicas das feiras. A época de “pagos” consistia num período de tempo, no final de cada feira, no qual se realizavam as sessões de pagamentos, sendo liquidadas as dívidas que subsistissem. A sua liquidação podia realizar-se, quer através de uma promessa de pagamento sobre uma outra praça (gerando uma letra de câmbio), quer fazendo transitar a dívida para a feira seguinte (BRAUDEL 1979b, 71).

As feiras tornaram-se, assim, o suporte da actividade financeira, nas mãos do cambista, denominado “câmbio” ou “banco”, depositário, por excelência, do dinheiro metálico. Intermediários entre os comerciantes e os financeiros, os cambistas facilitavam ainda o intercâmbio de moedas, estabelecendo o seu preço. A sua acção nas operações de movimentação de letras de câmbio e mediação das trocas monetárias era retribuída com a chamada “pena del cambio” ou “los contados”, que podia oscilar entre 3 a 7 o milhar277(RODRIGUEZ GONZALEZ 2000, 679).

Num sentido mais lato, as feiras de câmbio acabaram por ser tornar mercados de crédito, nos quais se faziam transitar grandes quantidades de dinheiro entre praças. A sua realização permitia concentrar num único lugar e num curto espaço de tempo, grandes volumes de capital à disposição dos circuitos de crédito, sob a forma de empréstimos, a serem reembolsados nas feiras seguintes. As principais funções das feiras eram, assim, as de aceitar as letras de câmbio emitidas nas várias praças europeias sobre a feira; renegociar novas letras de câmbio sobre essas praças; e fazer acertos e pagamento em numerário dos excedentes.

Para que o tráfico cambial internacional se pudesse efectuar, era necessária a existência de feiras nas diversas praças europeias, com uma determinada cadência, geralmente trimestral. Um prazo de 6 meses permitiria recuperar o dinheiro movimentado, desde a emissão de uma letra sobre a feira seguinte, após 3 meses, e o

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seu retorno, à praça de origem, igualmente 3 meses depois (RODRIGUEZ GONZALEZ 2000, 682).

Castela Lyon Besançon Antuérpia

Villalón Reis Reis Natal

Páscoa (Rioseco) Páscoa Páscoa

Maio (Medina) Junho

Agosto (Rioseco) Agosto Agosto Setembro

Outubro (Medina) Todos os Santos Todos os Santos

Tabela 15 - Correlação entre as principais feiras de câmbio em meados do séc. XVI (RODRIGUEZ GONZALEZ 2000, 683).

As feiras de Medina del Campo realizavam-se duas vezes por ano, uma em Maio, e outra em Outubro, durando 50 dias cada uma. No século XVI, estas feiras tinham ligação com as de Medina de Rioseco, em Agosto e na Páscoa, e com a de Vilallón, na Quaresma. A feira de Maio de Medina del Campo abria o período de pagamentos a 15 de Julho, negociando-se as novas letras de câmbio para a feira de Antuérpia de Setembro, cujos pagos se abriam a 10 de Novembro. Exista também uma correlação entre os pagamentos de Agosto, de Rioseco, com a feira flamenga de Natal; e a feira de Outubro de Medina com os pagos da Ressurreição (1 de Maio). Por último, os pagos de Vilalón realizavam-se entre meados da Quaresma e a feira de Junho (RODRIGUEZ GONZALEZ 1995, 21).

Na segunda metade do século XV, as feiras de Medina eram já de dimensão nacional. No decorrer do século XVI a sua importância vai aumentando, acabando por absorver as feiras de Villalón e Rioseco, que acabam por se converter em meras feiras de mercadorias (RUIZ MARTIN 1986, 290). Durante o reinado de Carlos V, as feiras de Medina vão ainda sofrer uma profunda alteração na sua essência, com o aumento exponencial da contratação pública, em detrimento da contratação privada (RODRIGUEZ GONZALEZ 1995, 23). As feiras castelhanas passam a representar o espaço, por excelência, da união entre as finanças privadas e as instituições estatais.

Entretanto, em 1535, um decreto do senado genovês estabelecera a realização de feiras de câmbio em Besançon, sob a protecção de Carlos V. Criadas como resposta às feiras de Lyon, as feiras genovesas de Besançon decorreram em Lons-le-Saunier, Montluel, Chambéry e, a partir de 1579, em Piacenza. Nestas feiras não entravam, praticamente, mercadorias, sendo que as as trocas se realizavam sob a forma de

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numerário ou letras de câmbio, por grupos de homens de negócio, os “banchieri di conto” genoveses, milaneses e florentinos. Estes homens constituíam um grupo restrito e privilegiado que fixava o “conto”, ou seja, o curso dos câmbios liquidatários no fim de cada feira. A estas reuniões assistiam os mercadores cambistas e os representantes das grandes firmas (BRAUDEL 1979b, 72).

As feiras genovesas atingiram o seu máximo na transição do século XVI para o XVII, altura na qual todas as grandes transacções internacionais eram negociadas em Piacenza. Aqui, os banqueiros genoveses angariavam fundos para grandes empréstimos, apelando a diversos investidores, de forma a reduzir os riscos dos financiamentos à coroa espanhola. Na verdade, o volume de transacções gerado pela dívida pública da coroa espanhola, assim como as especulações financeiras dos grandes grupos genoveses e florentinos ultrapassava o volume relativo ao comércio internacional. Os asientos castelhanos envolviam uma cadeia de pagamentos tão longa e complexa que podiam ocupar os cambistas ao longo de todo o ano (MARSILIO 2009).

A geografia das feiras de câmbio é um dos mais importantes layers a ter em conta na análise da rede espacial da companhia de Simón Ruiz. São estas as praças que iremos encontrar nos circuitos das letras de câmbio, e cuja conjuntura – largueza, estreiteza, interrupções no seu funcionamento, especializações em determinados produtos financeiros, - nos ajudam a compreender o seu papel nas estratégias da companhia e na forma como esta organiza a sua rede de lugares.