7.1 O QUE É VALIOSO EM SI MESMO
7.1.2 A felicidade como o bem supremo
Em Crítica da Razão Pura, Kant já havia dito que, embora os impulsos sensíveis e as inclinações possam influenciar a vontade, eles não são capazes de produzir um dever108. Este tem de ser apresentado pela razão, para que a ação possa ser considerada livre e autônoma, doutro modo ela seria determinada por princípios heterônomos. Em sua filosofia moral, Kant afirmou repetidas vezes que ter a felicidade como um fim não é um dever. Isso porque ele considerava que a ―felicidade é uma alegria empírica e não significa nada além da satisfação dos desejos de cada um, sejam eles desejos naturais ou intelectuais‖ (BORGES, 2003a, p 204). Como ―só a experiência pode nos ensinar o que nos traz alegria‖ (KANT, MS, 6:215), ele considerava que ―a razão não pode nos ensinar o que é a felicidade, porque não podemos dar-lhe uma definição
a priori, independente da experiência‖ (BORGES, 2003a, p 205).
Contudo, pode-se perceber que, algumas vezes, o que Kant afirmou que os agentes morais devem não ter como fim último, é a felicidade própria, o que, conforme defendido no terceiro capítulo do presente texto, é a manifestação do egoísmo, a manifestação de um estado da vontade voltado ao próprio bem estar. Em A Metafisica dos
Costumes, por exemplo, Kant, censurou a doutrina eudemonista que,
segundo ele, defende que a felicidade do próprio agente é um motivo legítimo para agir. Quando assim é, tudo o que agente faz tem em vista
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Citação retirada das Notas manuscritas de Kant em seu Handexemplar da
Critica da Razão Prática. Essas notas podem ser encontradas, traduzidas para o
português, em apêndice, ao final da tradução da Critica da Razão Prática, feita por Valerio Rohden. Cf. KANT, Immanuel. Notas Manuscritas de Kant em seu
Handexemplar da Crítica da Razão Prática. In: Crítica da Razão Prática. 2 ed.
Trad. Valerio Rohden. São Paulo: Martins Fontes, 2008; pp 259-265..
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o seu próprio bem estar, e Kant conclui corretamente, a partir de seu pressuposto de que os agentes morais devem agir por dever, que quem age buscando a felicidade resultante do cumprimento do dever não a alcança pois não age com vistas ao fim correto.
Porém, o agir por dever, isto é, agir tendo como fim último o cumprimento do dever, não é a única opção ao agir com vistas ao próprio bem estar como fim último. Como tenho defendido, o agente pode, e deve. agir com vistas ao bem do ser universal, tendo o bem como fim último das suas ações e tomando o bem de cada um, inclusive o seu próprio, de acordo com sua importância em relação com todo. Assim, também considero válida a conclusão de Kant, de que aquele que intenta seu próprio bem como fim último das suas ações, não o alcança, pois o bem, a felicidade, depende do agir moralmente correto, e quem coloca seu bem acima do bem de todos os demais seres existentes, não vive para o fim correto e, por conseguinte, não obtém o bem estar ou a felicidade oriunda da correta observância da lei moral.
A felicidade, no sentido censurado por Kant, é tomada como o prazer na gratificação dos desejos, como sensações agradáveis, acerca das quais Kant afirmou que o que importa não é sua fonte, mas ―somente quanto e quão grande deleite elas pelo máximo de tempo lhe proporcionam‖ (KANT, KpV, 5:23). Como Kant entendia que cada pessoa encontra satisfação em coisas diferentes, ele defendeu que a felicidade dos outros também não é o fim a ser buscado. Nessa perspectiva, ―pode-se ser feliz com a riqueza, beleza, prazeres intelectuais, uma vida contemplativa, nenhum tendo prioridade em relação ao outro na definição de felicidade ou de vida virtuosa‖ (BORGES, 2003a, p 205). Kant acreditava que a felicidade é obtida de acordo com as suscetibilidades de cada um aos diferentes prazeres possíveis. Ele não considerou que isso mostra que a felicidade não advém, especificamente, da satisfação de alguns desses desejos. Se a felicidade fosse encontrada em algum deles, todos seriam felizes simplesmente por ele, mas como isso não ocorre, Kant concluiu que a felicidade é encontrada em diferentes formas por pessoas diferentes. Assim, ―a felicidade de cada pessoa depende de suas fontes particulares de prazer, e o que conta como objeto de prazer para alguém pode não ser um objeto de prazer para uma outra pessoa. Além disso, o que produz prazer e desprazer pode mudar com o tempo‖ (BORGES, 2003a,
p 208)109. Em Fundamentação da Metafísica dos Costumes Kant
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afirmou ser ―uma lástima que o conceito de felicidade seja um conceito indeterminado, de forma que, ainda que todo ser humano queira alcançá-lo, ele não pode nunca dizer de forma determinada e consistente consigo mesmo o que ele realmente quer e deseja‖ (KANT, GMS, 4:419). Em Crítica da Razão Prática encontramos que a ―felicidade é o estado de um ser racional no mundo para o qual na totalidade de sua existência tudo acontece segundo seu desejo e vontade e depende, consequentemente, da harmonia da natureza com a finalidade total do agente, assim como do fundamento de sua vontade‖ (KANT, KpV, 5:124). Esse tipo de felicidade, portanto, pode ser entendido como um mero contentamento ou bem estar físico.
Todo ser humano quer o seu bem estar físico. Isso Kant viu e reconheceu. Mas, não é isso que o torna plenamente satisfeito, não é a simples satisfação física que constitui o todo daquele estado que denominamos felicidade para os seres humanos. Ela inclui uma satisfação consigo mesmo, com sua própria conduta moral. Como poderia um agente moral ser feliz sem aprovar a si mesmo, sem aprovar sua própria conduta? Isso Kant também reconhecia. Conforme ele, ―o homem refletido, quando venceu as incitações ao vício e está consciente de ter cumprido o seu dever, bastante vezes penoso, se encontra numa situação de tranquilidade de espírito e de satisfação, a que pode bem chamar-se felicidade‖ (KANT, MS, 6:377). Kant caracterizou este estado mental como um estado em que ―a virtude é sua própria recompensa‖ (KANT, MS, 6:377). Mas, com isso, certamente, ele queria dizer que a satisfação mental oriunda da virtude é a recompensa da virtude, que o bem estar oriundo da aprovação da razão às ações da vontade é a recompensa do agir correto.
Como antes foi dito, Kant entendia que a ideia de perfeição moral é a ideia de consagração dos poderes do agente à realização do bem. O bem é apresentado em A Religião nos Limites da Simples Razão, como uma felicidade moral, como a existência e persistência de uma intenção que não se afasta do bem. Em Crítica da Razão Pura Kant já havia dito que
a felicidade isoladamente, está longe de ser para a nossa razão o bem perfeito. A razão não a aprova (por mais que a inclinação a possa desejar) se não estiver ligada com o mérito de ser feliz, isto é, com a boa conduta moral. Por outro lado, a moralidade por si só e com ela o simples mérito
para ser feliz também não é ainda o bem perfeito (KANT, KrV A 813/B 841).
Assim, o bem supremo é entendido por Kant – como ele já o tinha definido em Crítica da Razão Pura – como ―a felicidade, na sua exata proporção com a moralidade dos seres racionais, pela qual estes se tornam dignos dela, constitui sozinha o bem supremo de um mundo onde devemos nos colocar totalmente de acordo com as prescrições da razão pura‖ (KANT, KrV, A 814/ B 842). Também por isso, ele defendeu que ―é preciso agir tendo por fim o merecimento de ser feliz‖ (DUTRA, 2002, p 33).
Kant estava certo ao defender que o valor moral, pertence às ações da vontade e não ao objeto das ações. Mas, é preciso lembrar que uma coisa é o valor moral de uma ação, outra é o valor para os seres envolvidos, isto é, o valor das consequências da ação. Uma ação que não for útil, isto é, uma ação que não tenda para a realização do bem, não pode ser considerada moralmente correta, isto é, ela não tem valor moral. A lei moral ordena que se faça aquilo que for útil, porque isso tende a resultar no maior bem possível. Contudo o fundamento dessa prescrição, o motivo para que a razão recomente isso se encontra no valor intrínseco daquilo que ela quer realizar, a saber, o bem do ser universal. Porém, como disse Brito, Kant propôs, em sua teoria, que ―a finalidade da razão, enquanto busca a realização de uma boa vontade como sua exclusiva finalidade, não almeja a felicidade, mas consiste numa potência prática capaz de influenciar a atividade volitiva na direção do bem supremo‖ (BRITO, 2015, p 39). Mas, o que pode ser um bem que não seja um bem para um ser sensível? O que pode ser um bem em si, o bem supremo, que não seja um estado mental de satisfação? O que pode ser um bem para um ser moral sensível além de um estado consciente de bem estar físico e moral, isto é, a felicidade, entendida como o bem estar físico e moral.?
Embora Kant aponte a ideia de dever como fundamento da obrigação moral, não é sem razão que ―na Doutrina da Virtude, são introduzidos dois fins que são também deveres: nossa própria perfeição e a felicidade alheia‖ (BORGES, 2003a, p 208). Assim, ―os fins obrigatórios podem ser fins da razão pura, na medida em que eles caiam sob a designação de ‗minha perfeição própria‘ e ‗felicidade dos outros‘‖
(Wood, 1999, p. 328. Tradução minha. Grifos ‗‘ do autor)110
. No que se refere a perfeição própria, Kant a caracterizou como o desenvolvimento das potencialidades naturais e ―progredir no cultivo da vontade até alcançar a mais pura intenção virtuosa [Tugendgesinnung]‖ (KANT,
MS, 6:387). Essa intenção virtuosa, para Kant, consiste em tomar a lei
como motivo das ações conformes ao dever, obedecendo a lei por dever. Assim, o mandamento ético universal, segundo ele, também pode ser dito assim: ―age em conformidade com o dever por dever‖ (KANT, MS, 6:391). No contexto dessa afirmação Kant deixou claro que a ação exigida é uma ação da vontade, isto é uma intenção (Gesinnung). A perfeição física, como parte da perfeição própria, deve ser buscada como um meio para fomentar os fins propostos pela razão, isto é, a perfeição moral. A perfeição moral consiste em ―cumprir com o seu dever e precisamente por dever‖ (KANT, MS, 6:392); isto significa que ―a lei não seja apenas a regra, mas também o móbil das ações‖ (KANT,
MS, 6:392).
Analisando a questão da felicidade em Kant, Borges percebeu que
a escolha da felicidade dos outros como um fim para a vida moral, junto com a recusa de identificar felicidade com a virtude, leva a um problema para a teoria moral kantiana. Se a felicidade não é definida em termos de virtude (mas em termos de prazer ou desprazer), a felicidade de alguém é aquilo que lhe dá prazer. Se o meu fim moral é promover a felicidade dos outros, devo promover o que lhes dá prazer, guardadas as restrições daquilo que é contrário à lei moral (BORGES, 2003a, p 209).
Mas, se a felicidade for entendida não apenas como felicidade física, mas também como felicidade moral, o dever de promover a felicidade dos outros consiste em promover seu bem, isto é, em fazer a ele somente aquilo que se acredita será bom ou fará bem para ele, e a não realização daquilo que sabe-se ou acredita-se que não é bom ou que não lhe fará
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―The obligatory ends may be ends of pure reason insofar as they fall under the headings ‗my own perfection‘ and ‗others‘ happiness‘‖. Cf. Wood, Allen W. Kant‟s Ethical Thought. Cambridge University Press; Cambridge, 1999.
bem. Isso tanto em sentido físico como em sentido moral, ou seja, não é apenas o seu bem estar físico que deve ser buscado, mas também seu bem estar moral. Isso consiste em empenhar-se também para que os outros se tornem pessoas obedientes a lei moral. É claro que, nesse sentido, é possível que o agente moral deixe de fazer muitas coisas que resultariam no bem ou na felicidade dos outros, e até mesmo fazer coisas que causem dano a alguém ou ao universo em geral. Porém, se a sua intenção for correta, se a sua vontade for boa, em sentido moral ele age perfeitamente. Isso porque se ele conhecesse o verdadeiro resultado de suas ações, ele, se tiver boa vontade ou boa intenção, faria aquilo que realmente resultaria em bem, mas isso é uma questão de ciência e não uma questão de liberdade; isto é uma questão técnico-prática e não uma questão moral-prática. Assim, o único critério para ajuizar o que será bom para os outros é com base naquilo que a razão, com auxílio da experiência, mostra que seria bom para mim se eu estivesse no lugar do outro. Logo, devo querer para os outros aquilo que quero para mim mesmo. Nesse sentido, o próprio Kant, ao afirmar que promover a felicidade dos outros consiste em o agente fazer dos fins deles os seu próprios fins, observou que o agente pode recusar tomar como seus certos fins que os outros acreditam que lhes trará felicidade, quando ele entende que não é o caso111. Contudo, aqui cabe lembrar que querer, escolher, intentar o bem dos outros como fim, significa querer que ele se vá bem, que ele termine bem, ainda que isso implique a não satisfação de seus desejos no momento, e não, necessariamente, que ele se sinta bem momentaneamente.
Outra questão importante acerca da felicidade, na filosofia de Kant, é que ele entendia que, além de não poder ser definida universalmente, a felicidade é algo que está além da vontade do agente (não pode ser realizada por ele), por isso ela não poderia ser um objetivo para a moralidade. Assim ele desvincula a virtude da felicidade. De acordo com sua teoria,
o cumprimento das exigências da lei moral não nos concederá, por si só, nenhuma felicidade, a não ser por uma conexão absolutamente contingente. Para um ser finito, não há, portanto, nenhuma correspondência necessária entre felicidade e moralidade, visto que tal ser não é causa da natureza (BORGES, 2003a, p 207).
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Mas, se considerarmos que o bem de todo o universo é o objeto da lei moral; que ele, como bem supremo, é o objeto que a razão indica que deve ser o fim último buscado ou intentado por todos os agentes morais, não há como negar que sempre que algum agente obedece essa regra, essa obediência resultará no supremo bem. Na suposição de que todos obedeçam, não é necessário esperar a interferência de outro ser para que o maior bem de fato se realize, pois a verdadeira intenção moral, a verdadeira boa vontade implica esforços da vontade para conhecer, para descobrir o que realmente produz o bem, o que realmente leva ao bem supremo.