• Nenhum resultado encontrado

Fenomenologia da procissão da Folia de Reis

2. Estudo da festa

2.4 Fenomenologia da procissão da Folia de Reis

A estrutura da Folia de Reis, como ocorre em outras expressões populares, é vivida pela comunidade do lugar por onde ela passa em procissão. Uma festa-ritual ou ritual-festa comandada por lideres populares.

A palavra processio, “marchar para adiante”, designa um ritual móvel que se inicia e se encerra em locais sagrados, nesse caso, como veremos, o espaço sagrado pode ser em algum momento associado à casa do mestre, mas a melhor hipótese é que a casa do mestre, como um sacerdote, só é assim considerada, pela presença do estandarte que ali está guardado; as pessoas que buscam curas, ou algum auxílio espiritual e vão até ali se aconselhar com o mestre vão sempre sobre a jura do estandarte, e muitos fazem nós nas fitas penduradas (esperando que as mesmas se desfaçam por si mesmas, com isso levando o problema embora).

No Brasil, a folia se transformou em uma manifestação religiosa que agrega vários elementos culturais através do vestuário, das músicas, da dança e da criação do espaço espetacular de presentificação do sagrado:

A Folia de Reis é um espaço camponês simbolicamente estabelecido durante um período de tempo igualmente ritualizado, para efeitos de circulação de dádivas – bens e serviços – entre um grupo precário de moradores do território por onde circula. Isto não pretende ser uma definição, coisa sempre evitada aqui, mas uma proposta de explicação sobre a qual pretendo trabalhar (...). (Brandão, 1981, p. 36)

A ideia de Brandão de que há um espaço onde existem trocas simbólicas e dádivas é muito importante para entender o que estamos descrevendo aqui. A procissão, por exemplo, sempre se inicia na casa do mestre e representa a chegada dos três reis magos a Belém. O que ajuda a constituir um padrão, no qual a comunidade estabelece seus locais de exceção da vida cotidiana.

12 ibidem

62 | P á g i n a O cortejo inicia-se sempre na meia-noite de 24 para 25 de dezembro e permanece até 6 de janeiro. O Reisado é guiado por uma bandeira – símbolo muito importante para a folia – com a imagem dos três Reis, que vai abrindo o caminho durante a procissão. A bandeira, utilizada também para fazer pedidos aos Santos Reis, dando-se um laço nos seus enfeites, é “passada” dentro de um grupo familiar, de geração a geração. No caso da Folia do mestre Zé Reis, ela foi passada por sua mãe e pertence à família há mais de 150 anos.

Quando em procissão, os foliões só podem entrar numa casa se o dono “aceitar a bandeira”. Assim que chegam a uma casa, começam a cantar versos que pedem licença para entrar. Assim que é aceita a chegada da folia, a bandeira é entregue ao dono da residência, que cuida para que ela seja guardada em um cômodo seguro. Logo depois, guiados pelo mestre, os foliões iniciam um conjunto de orações, e então se pode iniciar a festa, com comida, bebida e canções, muitas vezes improvisadas, como repentes que recontam a saga de Jesus.

No caso do morador ser devoto de Santos Reis, a folia deve esperar que o palhaço, personagem característico do Reisado, previamente preparado com três correntes na entrada, adentre a residência e inicie um conjunto de manobras para “alegrar o dono da casa” com rimas e traquinagens. Caso o dono se alegre, o palhaço pode passar pela primeira corrente e assim, sucessivamente, pelas outras duas. A seguir, o palhaço faz uma série de orações diante do presépio – não podendo, com isso, usar sua máscara durante todo o período de permanência na casa –, logo após, libera a entrada dos foliões.

Um grupo de folia é formado por muitos participantes, entre eles o mestre ou embaixador, que carrega a bandeira; três ou mais palhaços; cantadores e pelo menos seis músicos com instrumentos variados. Às vezes, pede-se para os foliões que cantem para pessoas já falecidas ou para pessoas com problemas de saúde. Neste caso, entra em ação a capacidade de improvisação do mestre-folião, que precisa criar ali mesmo orações e rimas específicas para cada situação, mas existe também uma variada possibilidade de cantos dentro da tradição.

O palhaço ou “bastião” (corruptela de “bastão”) tem uma importância fundamental no Reisado. Ele representa, simultaneamente, os soldados de Herodes e

63 | P á g i n a também aquele que vai enganá-los, despistando-os do caminho seguido por Maria, José e Jesus. O palhaço traz em si, portanto, um paradoxo característico desse ritual, que apesar de religioso e “sério”, inclui brincadeiras, comportamentos festivos, atitudes lúdicas (que, para os participantes, são conduzidas “com muito respeito”).

O palhaço porta uma máscara que representa os Reis Magos, feita de materiais variados, como veludo ou, tradicionalmente, pele de animais. Na folia de Zé Reis os palhaços também portam coroas e trazem um espelho colado na máscara, na altura da testa, cuja função é espantar os maus-espíritos.

Como nos conta Zé Reis, “são três palhaços ou mais, eles vão caminhando ao lado e atrás da Folia para ninguém interromper os foliões ou entrar sem estar preparado e interromper”.

O palhaço é também performer de várias danças, por exemplo, o corta-jaca, em que ele se movimenta com o bastão como se fosse atacar alguém, enquanto vai curvando as pernas até aproximar do chão a parte anterior dos joelhos. “São danças muito difíceis, e as pessoas têm que pagar uma esmola para os palhaços pelas gracinhas que eles fazem. Eles também têm que aprender muitas rimas para falar na hora da folia”13, acrescenta Zé Reis.

A procissão dura dias. Muitas vezes os foliões não têm como atender todas as casas que pedem para recebê-los, tamanha a quantidade de residências já visitadas. Cabe aqui entrar na questão da criação do espaço simbolicamente constituído em sagrado. Mesmo quando a folia caminha na cidade, pode-se notar como o ambiente sofre transformações, e não só pelo aspecto festivo dessa manifestação que, por vezes, parece um rito pagão.

É nisso que reside sua principal característica: como criadora de um espaço sagrado, extracotidiano e ativador dos arquétipos que permeiam nosso imaginário, a folia representa uma manifestação, de origem muito primitiva, de reatualização do mundo sagrado:

o homem toma conhecimento do sagrado porque este se manifesta, se mostra como algo absolutamente diferente do profano (...) a partir da mais elementar hierofania – por exemplo, a manifestação do sagrado num objeto qualquer”

64 | P á g i n a (como o estandarte dos foliões) até a hierofania suprema, que é, para um cristão, a encarnação de Deus em Jesus Cristo, não existe solução de continuidade. Encontramo-nos diante do mesmo ato misterioso: a manifestação de algo da ‘ordem do diferente’ – de uma realidade que não pertence ao nosso mundo – em objetos que fazem parte integrante do nosso mundo ‘natural’, profano. (Eliade, 2001, p. 37)

Quando falamos em “fé”, portanto, estamos diante de um re-fundar do mundo. A Folia de Reis exemplifica esse olhar de reatualização da realidade que pertence a categorias ausentes no mundo profano. Para acessarmos essa sur-realidade14, é necessário que nos abandonemos à deriva e que estejamos presentes sem procurar racionalizar a manifestação de algo que possa nos aparecer ou parecer.

O aspecto de reatualização do mundo é intenso na folia, graças à sua periodicidade e à sua característica de festa que conduz à introspecção e ao transe. “A cada festa periódica, reencontra-se o mesmo tempo sagrado – aquele que se manifestara na festa do ano precedente ou na festa de um século atrás: é o tempo criado e santificado pelos deuses por ocasião de suas gestas, que são justamente reatualizadas pela festa. Em outras palavras, reencontra-se na festa a primeira aparição do Tempo Sagrado, tal qual ela se efetuou ab origine” (Eliade, 2001, p. 48).

Assim, pode-se notar com clareza na Folia de Reis a formação do espaço sagrado como um momento de magia em que o performe (folião) e o “público” presente se elevam para um espaço-tempo extracotidiano renovador, não-estabelecido, estado de comportamento restaurado, no qual, através da intervenção do performer, do seu olhar ou toque, de uma escolha por ele definida, um objeto ou lugar, representifica-se e se inaugura, na presença dicotômica de um intérprete que desce ao nível da experiência da vida.

Lembramos que os foliões não realizam um mero espetáculo folclórico, mas sim um rito de extrema importância e profundidade em suas vidas. Jaime (Griô do Ponto de Cultura Reis da Folia) nos ajuda a entender essa busca quando conta que, certa vez

estava em uma apresentação em Santo André, e quando chegamos não tinha lugar para estacionar o ônibus. Então fomos procurar uma rua pelas redondezas para parar e descer com o material. Assim que saímos do ônibus, um dos músicos tocou o bumbo, e imediatamente saiu de uma casa próxima um senhor feliz, agradecendo aos Santos Reis por terem atendido suas preces e terem mandando a Folia para curar sua filha. Enquanto isso, os coordenadores do

65 | P á g i n a evento apressavam a Folia para ir ao local da apresentação, ao que retrucou o mestre que o compromisso da Folia era com aquele senhor e que, se eles não pudessem esperar, iam tocar para aquele senhor e iam embora. Então os coordenadores voltaram e explicaram para as pessoas que estavam esperando para ver a apresentação. A Folia foi até a casa do senhor e tocou. Até a filha do senhor não acreditava, e seu pai sempre lhe dizendo para acreditar. É ter fé que os Santos Reis não falham. Foi muito bonito”. (Figueiredo, 2009, p. 44)

Essa vivência direta do participante do ritual é fundamentalmente uma forma de ser-no-mundo, que não pode ser trocada por qualquer outra manifestação menos contundente.

A representificação ocorre pelo fato de as pessoas estarem integralmente envolvidas por um símbolo que integra, numa intencionalidade comunitária, seus estados de consciência, elevando todos ao estado numinoso, de contato com o sagrado.

Como aponta Eliade, o sagrado e o profano são modos de ser no mundo, e com estas possibilidades de, a partir da intencionalidade de um grupo, podermos instaurar um topos heterogêneo, temos também a possibilidade de reatualizar a vivência primeira de simbolização do mundo, onde o homo-religiosus teve seu aparecimento e, com ele, o nascimento do mundo.

Damos aqui nosso testemunho. Em uma das apresentações da Folia de Reis, na área externa do teatro municipal de Diadema (Teatro Clara Nunes), tivemos a presença de uma fiel de Santos Reis que pediu para segurar a bandeira. Era uma apresentação da folia da Shirley Braz. O clima de festa e brincadeira mudou, e passou a prevalecer um ambiente de solenidade.

O público “comum”, que estava observando apenas como entretenimento, ficou em silêncio quando o mestre da folia avisou que iria “tocar diferente”, pois ali se tratava de uma questão de fé e o canto seria específico (era para um falecido); neste momento, toda a comunidade, mesmo os que não conheciam a Folia de Reis passaram a agir com seriedade, deixando de falar em voz alta e cochichando para não interromper o rito. Uma mudança imediata de comportamento, apenas com a indicação do mestre de que seria um momento especial.

Depois de encerrar o canto e a festa retomar o seu ritmo, ainda prevalecia um ambiente mais calmo, como se tivesse mantido a folia durante um tempo de mais de uma hora, após o termino da apresentação, ainda existia a presença de solenidade.

66 | P á g i n a