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Fernando e Robson

No documento Centralidade do trabalho (páginas 114-117)

4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS

4.5 ALEMÃES E AÇORIANOS: EXISTEM DIFERENÇAS?

4.5.1 Fernando e Robson

Neste subcapítulo serão apresentadas as relações encontradas a partir das trajetórias profissionais dos entrevistados Fernando e Robson. Em função das trajetórias individuais, estabeleceram-se semelhanças e diferenças nos sentidos e centralidade do trabalho para ambos.

A primeira diferença bastante significativa com relação à trajetória profissional que estes dois entrevistados mencionam diz respeito ao trabalho na infância. Para Fernando ele acontecia, mas de forma não obrigatória e com incentivo aos estudos. Já para Robson o trabalho na infância era obrigatório e, por diversas vezes, este entrevistado relata que seus pais, talvez por serem comerciantes (conforme sua crença) não gostavam do trabalho que faziam.

Com relação ao entendimento sobre o trabalho dos pais, foi possível perceber que os entrevistados apresentaram desacordo em prosseguir com a profissão dos mesmos, o que era possível para ambos. No entanto, para Fernando

isso foi acontecendo gradualmente, ou seja, ao começar seus estudos na área de informática, o entrevistado passou a perceber que, a partir daqueles conhecimentos, soube que não gostaria de seguir nos negócios da família (administrar a granja). Já para Robson esse fato parece ter acontecido desde cedo, quando ainda pré- adolescente o entrevistado demonstrou compreender as lógicas comerciais e, a partir da experiência dos pais, demonstrou não gostar daquela atividade (ser comerciante). Porém, na atualidade, Robson ressignificou esta impressão a respeito da profissão de seus pais e, a partir do conhecimento efetivo de cargos comerciais, além da noção de outras possibilidades em trabalhar nesta área, o entrevistado passa a reconhecê-la como prazerosa e satisfatória

No que diz respeito à escolha profissional dos entrevistados, é possível entender que, embora a influência dos pais seja muito significativa para tal, para Robson esta influência foi direta e bastante explícita, no sentido de seus pais sugerirem o que o filho poderia exercer profissionalmente: ser funcionário público. Já para Fernando, esta influência apareceu de outra forma, mas também explícita, ou seja, por meio do incentivo aos estudos, especificamente na época da graduação, não importava para os pais de Fernando qual curso ele escolheria, o que importava era que ele cursasse a universidade. Além disso, os pais de Fernando o impediram de trocar de curso pela segunda vez, pois, Ciências da Computação já era o segundo curso de Fernando e, então, seus pais solicitaram que ele o concluísse. Além disso, é importante ressaltar que a ideia, tanto de Fernando, quanto de seus pais, era que ele seguisse com a administração dos negócios da família e, dessa forma, não importava qual curso de graduação ele escolheria.

Outro aspecto interessante com relação à trajetória profissional de Fernando e Robson pode ser percebido pelo fato de Fernando, desde muito cedo, ter planejado suas ações, ou seja, ao deparar-se com a realidade da cidade pequena e da empresa que trabalhou ainda como estagiário, passou a refletir constantemente sobre seu futuro e, isso, acontece até a atualidade, uma vez que ele demonstra interesse em planejar sua aposentadoria, por exemplo. Já Robson demonstrou que suas conquistas estiveram relacionadas ao fato de errar e aprender com os erros e, a partir disso refletir e perceber que algumas atitudes suas poderiam ser diferentes. É importante destacar aqui, que não se quer dizer que Fernando não tenha errado, o que se quer dizer é que Fernando antecipa mais os fatos e reflete à respeito das possibilidades antecipadamente, enquanto Robson é mais espontâneo

e demonstra agir de acordo com o que pensa e, se sua atitude o leva à erros, este arca com as consequências e aprende com elas.

Com relação aos sentidos atribuídos ao trabalho, foi possível perceber que tanto Fernando quanto Robson apresentam alguns sentidos em comum, são eles: remuneração, utilidade, relacionamento interpessoal e prazer.

No que diz respeito à centralidade do trabalho, ambos entrevistados apresentam o trabalho como uma das facetas da vida muito importante. Tanto Fernando quanto Robson demonstram que o trabalho é o organizador das demais atividades do cotidiano e, a partir dele, viabilizam o conforto da família, e também, organizam-se para ter tempo com a mesma. Este aspecto pode ser constatado também por meio da Escala de Valores, onde ambos pontuam o valor máximo tanto para o item “profissional” quanto para o item “familiar”. Além disso, os dois entrevistados explicitam a necessidade de fazer outras atividades além do trabalho, tais como esportes. Robson demonstra que entre estas outras atividades está incluída a convivência com amigos e parentes, enquanto que Fernando demonstra a necessidade de prosseguir com os estudos e aperfeiçoamento. Estas constatações a respeito da centralidade do trabalham confirmam que

A existência social, todavia, é muito mais que trabalho. O próprio trabalho é uma categoria social, ou seja, apenas pode existir como partícipe de um complexo composto, no mínimo, por ele, pela fala e pela sociabilidade (o conjunto das relações sociais). As relações dos homens com a natureza requer, com absoluta necessidade, a relação entre os homens. Por isso, além dos atos de trabalho, a vida social contém uma enorme variedade de atividades voltadas para atender às necessidades que brotaram do desenvolvimento das relações dos homens entre si. (LESSA, 2002, p. 27)

Neste sentido, é possível perceber que Fernando e Robson, em função de suas relações sociais e das necessidades que delas surgem, buscam outras atividades além do trabalho e, portanto, voltam a ele para poder viabilizá-las e organizá-las, assim como apontado por Lessa (2002).

Sendo assim, foi possível relacionar os principais aspectos a respeito da relação de Fernando e Robson com seus trabalhos e a centralidade que atribuem a eles e, a partir da discussão presente em toda esta pesquisa, foi também possível constatar, conforme os fundamentos marxistas de trabalho, que somente o ser humano é capaz de trabalhar da forma como trabalha, ou seja, atribuindo sentido às suas atividades e, a partir disso, consegue se reconhecer no mundo enquanto ser

social. Os entrevistados relacionados neste subcapítulo da análise dos resultados demonstram tal característica.

No documento Centralidade do trabalho (páginas 114-117)