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Ferramenta analítica: Materialismo histórico-dialético

Mapa 1 – Principais Pontos de Concentração de Pessoas em Situação de Rua em Recife –

3 DA TEORIA À PRÁTICA: PERCURSO TRAÇADO NO CAMPO EMPÍRICO E

3.3 Ferramenta analítica: Materialismo histórico-dialético

Este estudo teve como ferramenta teórico-metodológica o Materialismo Histórico Dialético. Segundo Boron (2006), as análises do marxismo sobrevivem devido a dois fatores principais. O primeiro consiste na incapacidade do capitalismo em resolver os problemas que ele próprio cria, de modo que parcelas significativas da população continuam circulando na pobreza e na exclusão social. O segundo refere-se à “não usual capacidade que este corpus teórico demonstrou para enriquecer-se em correspondência com o desenvolvimento histórico das sociedades e das lutas pela emancipação dos explorados e oprimidos pelo sistema” (BORON, 2006, p.34).

Com o objetivo de delinear uma caracterização dessas pessoas, categorias analíticas foram construídas, a partir dos discursos enunciados nas entrevistas, para analisar a realidade sócio-histórica desses indivíduos, entendendo que o discurso, materializado em concepções teóricas e políticas, constrói a realidade e é construído por esta (FAIRCLOUGH, 2008). Por conseguinte, os dados foram examinados a partir das contradições do sistema capitalista, sobremodo no que se refere à relação dialética do todo com o particular.

Materialismo Histórico-Dialético

Peculiar do próprio materialismo hitórico-dialético, as questões históricas são ferramentas imprescindíveis à compreensão da atualidade, num processo em que o indivíduo é transformador da história, ou seja, que tem potencial para alterar as condições sociais em que está inserido. Este método volta-se à história para realizar análises do presente, visto que os fenômenos acontecem ancorados na história, a qual funciona como um motor regido por contradições e conflitos e, segundo Boron (2006), é condicionada por contradições e necessidades próprias da acumulação capitalista. “De fato, pode-se circunscrever como o

problema central da pesquisa marxiana a gênese, a consolidação, o desenvolvimento e as

condições de crise da sociedade burguesa, fundada no modo de produção capitalista” (NETTO, 2011, p.17, grifo do autor).

No método de Marx, o objeto de pesquisa tem existênica real, concreta, independentemente da vontade e desejos do pesquisador. Este deve ter como objetivo compreender a essência do objeto, que se refere ao modo de funcionamento deste, tanto a dinâmica quanto a estrutura. Essa concretude relaciona-se à característica da dialética proposta por Marx, a qual “expressa as condições sociais”, presentes na luta de classes (BORON, 2006, p.40). “A metodologia dialética é, pois, irreconciliável com a aspiração capitalista de ‘eternizar’ sua sociedade e suas instituições” (BORON, 2006, p.43, grifo do autor). Assim, o materialismo histórico dialético não visa apenas o entendimento da sociedade, mas a transformação da mesma. Segundo Boron (2006, p.49),

Marx não estava interessado em desvendar os mais recônditos segredos do regime capitalista por mera curiosidade intelectual, mas sim sentia-se urgido pela necessidade de transcendê-lo, dada a radical impossibilidade de construir, dentro de suas estruturas, um mundo mais justo, humano e sustentável.

No processo de pesquisa, o pesquisador não age com neutralidade e passividade, visto que este é implicado em todas as etapas da investigação, com um papel ativo, “para apreender não a aparência ou a forma dada ao objeto, mas a sua essência, a sua estrutura e a sua dinâmica (mais exatamente: para apreendê-lo como um processo)”, de modo que “o sujeito deve ser capaz de mobilizar um máximo de conhecimentos, criticá-los, revisá-los e deve ser dotado de criatividade e imaginação” (NETTO, 2011, p.25, grifo do autor).

No prefácio da 2ª edição de O Capital, Marx (2011, p. 28, grifo do autor) afirma que a investigação tem de apoderar-se da matéria, em seus pormenores, de analisar suas diferentes formas de desenvolvimento e de perquirir a conexão íntima que há entre elas. Só depois de concluído esse trabalho é que se pode descrever, adequadamente, o movimento real. Se isto se consegue, ficará espelhada, no plano ideal, a vida da realidade pesquisada, o que pode dar a impressão de uma construção a priori. (...) O ideal não é mais do que o material transposto para a cabeça do ser humano e por ela interpretado. Todavia, a implicação na pesquisa não descarta a objetividade, imprescindível ao rigor necessário da pesquisa científica. Não se trata de criar leis imutáveis, mas tendências ancoradas na análise densa da história, a qual é um processo, em constante mudança. Assim, as instituições, os fenômenos e os indivíduos devem ser analisados enquanto produtos históricos.

O método de Marx “é o produto de uma longa elaboração teórico-científica, amadurecida no curso de sucessivas aproximações ao seu objeto” (NETTO, 2011, p.28). Na análise do objeto, é imprescindível iniciar-se do mais concreto ao nível dos conceitos e das abstrações. Abstração, para Marx, consiste num recurso imprescindível ao pesquisador. Trata- se de uma “capacidade intelectiva que permite extrair de sua contextualidade determinada (de uma totalidade) um elemento, isolá-lo, examiná-lo; é um procedimento intelectual sem o qual a análise é inviável” (NETTO, 2011, p. 44). A abstração prepara o pesquisador para o entedimento das múltiplas determinações do objeto. No caso deste estudo, para compreender as principais dificuldades que as pessoas em situação de rua enfrentam para saírem dessa circunstância, é necessário esforço analítico para não interpretar o fenômeno a partir de um único viés.

Nesse processo, portanto, torna-se possível a construção de categorias para o entendimento da realidade, as quais exprimem o modo desta se apresentar. As categorias partem do real, da objetividade para, mediante abstrações, chegar à teorização, através da articulação da análise diacrônica com a sincrônica, tendo a história como fio condutor.

O materialismo histórico-dialético “não é um conjunto de regras formais que se ‘aplicam’ a um objeto que foi recortado para uma investigação determinada nem, menos ainda, um conjunto de regras que o sujeito que pesquisa escolhe, conforme a sua vontade para ‘enquadrar’ o seu objeto de investigação” (NETTO, 2011, p.52, grifos do autor). Ao contrário, é a dinâmica e a estrutura do objeto que guiam a pesquisa, num processo de interconexão indissociável entre teoria e metodologia.

Através dessa indissociável conexão, há três pressupostos básicos no processo de pesquisa: totalidade, contradição e mediação. A totalidade não se trata de soma de partes, visto que é composta por totalidades de complexidade menor. A contradição é o que torna a totalidade interativa, através de suas múltiplas possibilidades de configurações. Por fim, é a mediação que liga todos os níveis de complexidade das relações da totalidade.

Nesse sentido, Fairclough e Graham (2002) argumentam que o método de Marx permanece fundamental para analisar a fase atual do sistema capitalista, o qual influencia diretamente a realidade das pessoas em situação de rua.