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1 O CAMINHAR COM DELEUZE E FOUCAULT: OS SUJEITOS, AS

1.2 Ferramentas conceituais: verdade, sujeito, discurso, poder

O filósofo Foucault nos ajudou a desconstruir a premissa moderna que associa poder a opressão, e saber a verdade e liberdade (COSTA, 2007, p.98). Ele evidenciou em seus trabalhos as relações de identidade entre saber e poder, e, voltou sua luta não mais contra as forças de opressão, mas ao saber que é produto delas e gere mecanismos que consolidam a dominação. Para Foucault, a verdade não é o resultado de uma operação pura do intelecto, ela não é uma, mas são várias; as verdades são deste mundo, produzidas num jogo de correlação de forças (FOUCAULT, 1995). E devem ser situadas historicamente, uma vez que diferentes épocas históricas possuem epistemes próprias e produzem diversificadas formas de verdade que circulam no interior das sociedades.

Como Foucault (1999) nos explica, as sociedades e culturas em que vivemos são dirigidas por uma poderosa ordem discursiva que define o que deve ser dito e o que não deve ser dito. Os sujeitos também se constituem e são constituídos dentro dessas tramas ao longo da sua história. Ao tentar delimitar um objeto de pesquisa, devemos considerar que ele não está no exterior do sujeito, para ser observado, investigado e explicado; o sujeito também se constrói no e como objeto de pesquisa.

No texto As palavras e as coisas, Michel Foucault (2000) define redes discursivas como regimes de verdade que já estão presentes e são partilhadas por comunidades linguìsticas. Para Costa, ―nesta concepção a centralidade da linguagem passa a ser evidente‖

(COSTA, 2007, p.99). O filósofo se preocupou com a política do verdadeiro: processo pelo qual determinados discursos vêm a ser considerados verdadeiros pela sociedade, que os aceita, autoriza e os faz circular (FOUCAULT, 2000, p.23). Nesse sentido, Veiga-Neto nos ajuda a compreender que, quando analisamos a escola, os currículos, a pedagogia, a didática, a função da escola, os papeis dos professores e das professoras,

não estamos falando de ―coisas‖ que já estavam simplesmente aì, à espera daquilo que temos a dizer sobre elas. O que estamos fazendo é entrando numa rede discursiva precedente que, antes, já as havia colocado no mundo na medida em que havia atribuído determinados sentidos a ela. (VEIGA-NETO, 2007a, p.43)

Nessa perspectiva, e considerando a noção foucaultiana de regime de verdade, compreendemos que quando o sujeito fala, escreve, sinaliza, nem sempre significa que ele é autor da própria palavra. Não podemos jamais inaugurar qualquer discurso (FOUCAULT, 1999), pois inúmeras vozes antes de nós já o enunciaram. Ou como explica Costa, ―discursos poderosos impregnam as vozes e fazem desaparecer o sujeito singular que fala. Poder falar, assim, não significa necessariamente, conscientização e, muito menos, garantia de autonomia e emancipação‖. (COSTA, 2007, p.100). Assim, o que nós pesquisadores podemos fazer é questionar os modos como são produzidos os discursos que se apropriam da linguagem dos sujeitos e problematizar aquilo que Foucault chama de economia política da verdade – que faz as vozes e as palavras terem ou não poder, dependendo de quem as produz, onde, quando e como. (COSTA, 2007, p.101).

Foucault (2012, p. 56) diz que os discursos ―são práticas que formam sistematicamente os objetos de que fala‖. A suposta realidade se constrói dentro de tramas discursivas. Essa realidade ou as muitas realidades não existem a priori, elas se constituem nos discursos. O próprio sujeito é um efeito das linguagens, dos discursos, dos textos, das representações, das enunciações, dos modos de subjetivação, dos modos de endereçamentos, das relações de poder-saber. (PARAÍSO, 2014).

A preocupação de Foucault foi estudar a construção da noção de sujeito e as maneiras pelas quais nos constituímos como sujeitos (FOUCAULT,1995). Para ele, o sujeito é um artifício da linguagem, uma produção discursiva, um efeito das relações de poder-saber. Paraíso (2014, p.31) nos ajuda a compreender que nesse entendimento, o sujeito passa a ser então aquilo que dele se diz. E para compreender a constituição desse sujeito devemos analisar os modos de subjetivação, ou seja, ―as formas pelas quais as práticas vividas constituem e medeiam certas relações da pessoa consigo mesma‖ (PARAÍSO, 2014, p.31).

Quando indivíduos ou grupos descrevem ou explicam algo em uma narrativa ou discurso, percebemos que a linguagem utilizada produz uma realidade, criando esse objeto e sua forma. Quando narramos pessoas, coisas ou processos, explicando como estão constituídos, como funcionam, que atributos possuem, estamos utilizando de uma posição de poder para representa-los. E em muitos casos essas representações adquirem status de ―realidade‖ ou verdade, dependendo das relações de poder onde são produzidas (COSTA, 2007, p.102).

Isso significa dizer que compreendemos toda teorização que existe sobre a escola, a educação, a inclusão, como um conjunto de discursos, de saberes, que, ao mesmo tempo que explica como estas coisas funcionam e o que são, também fabrica estas identidades. Foucault (2000) explica que estas narrativas formam o conjunto de conhecimentos produzidos pela modernidade com o objetivo de tornar administráveis os objetos sobre os quais falam. Para Costa (2007, p.102), ―conhecer o que deve ser governado é parte da estratégia que permite a regulação e o controle dos indivíduos, grupos, processos e práticas‖.

Quando nos propomos a conhecer algo, nós descrevemos, nomeamos, relatamos, desde uma posição localizada em um espaço e em um tempo, dentro de relações de poder que tornam os discursos sempre hierárquicos. Por essa razão, não importa aos teóricos pós- estruturalistas os sistemas de codificação da língua. O mais relevante é compreender como esses códigos, palavras, línguas, são utilizadas para constituir a realidade e significa-la.

Nesse entendimento, o poder é uma ferramenta importante presente nas relações entre os sujeitos. Para Foucault (1995, p.242) poder é uma relação estratégica e não uma propriedade. O poder é relacional, e não pode ser apreendido e descrito como algo fundamental; não se capta o poder em si, mas podemos perceber as relações que manifestam o poder, pois todas elas estão numa ordem discursiva que institui uma verdade sobre o sujeito ou sobre as coisas.