2.2 Sustentabilidade
2.2.2 Ferramentas e Abordagens de sustentabilidade
Muitas abordagens e ferramentas de sustentabilidade vêm nos últimos anos promovendo uma releitura nas técnicas de concepção, projeto e produção industrial de bens, para conter as questões relativas à sustentabilidade (BYGGETH, BROMAN E ROBERT, 2007). Na sequência, apresentam-se diferentes abordagens e ferramentas levantadas na literatura.
Logística reversa: Segundo Shibao, Moori e Dos Santos (2010), as atividades de logística reversa são resumidas em quatro funções básicas: 1) Controle do fluxo de materiais e do fluxo de informações do ponto de consumo à origem; 2) Movimentação dos produtos na direção: consumidor produtor; 3) Busca da melhor utilização dos recursos; 4) Segurança na destinação após descarte. Em termos práticos, a logística reversa tem como objetivo principal reduzir a poluição do meio ambiente e os desperdícios de insumos, assim como a reutilização e reciclagem de produtos.
Figura 9- Processo da Logística Reversa. Fonte: Shibao, Moori e Dos Santos (2010).
Na figura 9 é ilustrado o processo da logística reversa com sua respectiva comparação com a logística tradicional. Evidentemente, quando se fala que o produto deve retornar a sua origem, não se pretende dizer que ele deve ser devolvido exatamente ao ponto em que foi fabricado, mas sim voltar para a empresa que o produziu. A empresa, por sua vez, dará o destino que lhe for mais conveniente, pode ser recuperá-lo, reciclá-lo, vendê-lo para outra empresa ou, até mesmo, jogá-lo no lixo.
A logística reversa, diz respeito ao fluxo de materiais que voltam à empresa por algum motivo tal como: devolução de produtos com defeitos, retorno de embalagens, retorno de produtos e/ou materiais para atender à legislação. A atividade principal é a coleta dos produtos a serem recuperados e sua distribuição após reprocessamento (SHIBAO, MOORI e DOS SANTOS, 2010).
Berço ao berço: A visão de que resíduos são matéria-prima,refere-se à ideia central para a proposta Berço a Berço, uma oposição à visão tradicional ‘berço ao túmulo’. Mcdonough e Braungart (2002) montaram um sistema de certificação para empresas que redesenham seus processos baseadas na segurança e produtividade regeneradora da natureza, mimetizando o fluxo de nutrientes que ocorre naturalmente utilizando, analogamente, o metabolismo tecnológico (MAGNAGO, AGUIAR E PAULA, 2012).
Sob a abordagem de design berço ao berço, os produtos que resultam em materiais que fluem para a biosfera (do conteúdo do produto ou da embalagem) são considerados "produtos de consumo". Os materiais recuperados após o uso podem ser considerados "produtos de serviço ". A abordagem berço ao berço, centra-se em uma transição ideológica de "menos ruim" para "mais bom". As abordagens conhecidas eco-eficientes convencionais se esforçam para minimizar os danos infligidos no mundo, concentrando-se esta abordagem na ecoeficácia, estimulando às empresas a fazer as coisas certas para uma melhoraria contínua no desenvolvimento de produtos, indústria e economia (TOXOPEUS, DE KOEIJER e MEIJ, 2015).
Sustainable Value Analysis Tool (SVAT): Consiste em uma análise qualitativa de um
formulário multidimensional de valor que permite avaliar profundamente o sistema. A principal motivação para o desenvolvimento foi a constatação que durante o projeto de produtos poucas organizações se preocupam em adicionar valor nos aspectos social e ambiental. O maior objetivo desta ferramenta é identificar oportunidades de criação de valor sustentável ao longo do ciclo de vida do sistema produto-serviço. Desta maneira o desenvolvimento da ferramenta auxilia às empresas de fabricação a integrar a sustentabilidade no desenvolvimento do sistemas produto-serviço e também ajudar os pesquisadores a entender os desafios e os principais fatores desse processo (YANG et al., 2013)..
De acordo com Yang et al. (2014), os elementos de valor a serem analisados pela empresa na SVAT estão identificados na Figura 10.
Figura 10- Elementos de valor na SVAT. Fonte: adaptado de Yang et al. (2014).
No processo da SVAT, se analisa primeiramente todo o ciclo de vida ou processo de desenvolvimento de produto com o propósito de encontrar os elementos de valor durante este ciclo, conforme mostrado na Figura 11. Esta análise é feita da seguinte maneira: definir proposta de valor no início de vida do produto (BOL-VP), na metade de vida do produto (MOL-VP) e no final de vida do produto (EOL-VP); mapear valor não capturado no início de vida do produto (BOL-VU), na metade de vida do produto (MOL-VU) e no final de vida do produto (EOL-VU).
Figura 11. Ferramenta SVAT. Fonte: adaptado de Yang et al. (2014).
Nesta ferramenta se descreve, em cada fase do desenvolvimento de produtos, a proposta de valor de acordo com as dimensões ambientais, econômicas e sociais e as intercepções entre estas dimensões, que são: econômico-ambiental, econômico-social, social-ambiental e econômico-ambiental-social. Logo, deste processo se realiza a identificação de valor não capturado em todo o processo de desenvolvimento de produtos, tendo em conta os valores que se consideraram e também de acordo à estrutura das dimensões sustentáveis, da mesma maneira da proposta de valor. Depois, analisa-se o valor não capturado, e se explora as oportunidades de valor, finalmente, avalia-se as oportunidades de valor (YANG et al., 2014).
Design for Environment (DFE): O princípio do DFE pode ser evidenciado por
intermédio da aplicação de uma ferramenta proposta para realização de diagnóstico de reciclagem do produto, ainda na fase de projeto. Conforme com Junior Giannetti e Almeida (2003), o DFE é uma ferramenta da Ecologia Industrial e deve examinar todo o ciclo de vida do produto para propor alterações no projeto de forma a minimizar o impacto ambiental do produto desde sua fabricação até seu descarte.
No entanto, esta ferramenta necessita das informações contidas na lista de materiais do produto, também conhecida como Bill of Materials (BOM), permitindo diagnosticar quais são as partes mais críticas do produto e possibilidades de mudança ainda na fase de projeto, melhorando assim o aspecto de reciclagem do produto no final de sua vida (AGUIAR et al., 2016).
Ecodesign: Rossi et al. (2016) definem que conforme a ISO 2011, o ecodesign consiste
em uma abordagem que considera e integra os aspectos ambientais no processo de desenvolvimento do produto, por meio da aplicação de estratégias que visam reduzir o impacto ambiental negativo durante as fases do ciclo de vida do produto. Considera-se a função do produto, sua segurança, performance, custo, aceitação no mercado, qualidade, legislação e regulamentos. Para BOKS (2006), o Ecodesign desempenha um papel importante no PDP. Este autor apresenta os fatores de sucesso que geram os relacionamentos desta abordagem no PDP, conforme apresentado no Quadro 2.
Quadro 2- Fatores de sucesso para a integração de ecodesign no desenvolvimento de produtos
Área de interesse Fatores de sucesso
Gestão
Compromisso e apoio são fornecidos
São estabelecidos objetivos ambientais claros
As questões ambientais são abordadas como questões comerciais
Consideração as dimensões estratégicas de ecodesign em vez de apenas dimensões operacionais
Ecodesign não só é tratada a nível operacional, mas também a nível estratégico
As questões ambientais são incluídas ao estabelecer a estratégia de tecnologia de uma empresa
Relação com clientes Adoção de um forte foco no cliente
Treinamento de clientes em questões ambientais Relação com
fornecedores
Estreita relação com fornecedor
Processos de desenvolvimento
Consideração de problemas ambientais no início do PDP Integração de questões ambientais no PDP existente
Introdução de pontos de controle ambientais, revisões e marco ambiental no PDP
Uso de princípios, regras e padrões de design ambiental específico da empresa
Ecodesign é realizado em equipes multifuncionais Ferramentas de suporte são aplicadas
Competência
Educação e treinamento são fornecidos ao pessoal de desenvolvimento de produtos
Um especialista ambiental apoia as atividades de desenvolvimento
São utilizados exemplos de boas soluções de design
Motivação
Uma nova mentalidade enfatizando a importância das questões ambientais é estabelecida
Presença de um campeão ambiental
Os indivíduos são estimulados a participar ativamente na integração do ecodesign.
Fonte: adaptado de BOKS (2006)
Quality Function Deployment for Environment (QFDE): Os pioneiros Masui et al.
(2003) enfatizam que o QFDE auxilia na tomada de decisões com a incorporação do contexto ambiental, possuindo o intuito de tratar simultaneamente estas informações ambientais em conjunto a forma tradicional de tratamento das informações de requisitos de qualidade do produto. Assim, o principal foco da aplicação do QFDE consiste em estimular o crescimento da consciência ambiental na etapa de projeto do produto, tornando possível identificar pontos de melhoria ainda em uma fase conceitual da ideia.
O QFDE proposto permite identificar aspectos do projeto dentro de suas quatro fases. Os resultados das fases I e II são a identificação de componentes e itens, que permitem focar no desenho do produto e considera-o ambientalmente. Depois desta identificação, os engenheiros do projeto melhoram o desenho do com a finalidade de avaliar as mudanças em aspectos ambientais antecipadamente. Nas fases III e IV, os engenheiros examinam a possibilidade de melhorias nos desenho para cada componente, buscando identificar sempre melhorias à partir dos desenhos (MASUI et al., 2003).
Cadeia de suprimentos verde: A cadeia de suprimentos engloba todas as atividades associadas ao fluxo e transformação de bens do estágio de matérias-primas (extração) até o usuário final, bem como os fluxos de informação associados. A gestão da cadeia de suprimento sustentável se define como a gestão de materiais, informações e fluxos de capital, bem como a cooperação entre as empresas ao longo da cadeia de suprimentos, considerando os diferentes propósitos das três dimensões do desenvolvimento sustentável (econômico, social e ambiental), tanto dos clientes como dos requisitos das partes interessadas.
Nas cadeias de suprimentos sustentáveis, os membros devem cumprir os critérios ambientais e sociais, permanecendo dentro da cadeia de suprimentos, enquanto se espera que a competitividade seja mantida atendendo às necessidades dos clientes e aos critérios econômicos relacionados. (SEURING e MÜLLER, 2008).
Figura 12- Estímulos para cadeia de suprimentos sustentável. Fonte: adaptado de Seuring e Müller (2008).
Na Figura 12 são apresentados avanços externos que são colocados em empresas focais pelas agências governamentais, clientes e partes interessadas ou stakeholders. Essas pressões, bem como os incentivos, podem levar à ação de empresas focais. Na sua relação com os
fornecedores, são observáveis várias barreiras e incentivos que dificultam ou fortalecem o gerenciamento sustentável da cadeia de suprimentos. Com base nesses desencadeantes, são identificadas duas estratégias, a primeira é rotulada como "gerenciamento de fornecedores de riscos e desempenho", em que um dos principais receios das empresas que seguem essa estratégia é a perda da reputação se os problemas relacionados forem levantados. Já a segunda estratégia é denominada "gestão da cadeia de suprimentos para produtos sustentáveis", esta geralmente exige a definição de padrões baseados no ciclo de vida para o desempenho ambiental e social dos produtos, que são então implementados em toda a cadeia de suprimentos (SEURING e MÜLLER, 2008).
Análise de Ciclo de Vida (ACV): O ACV é um quadro para quantificar o impacto ambiental de produtos ou serviços ao longo de suas fases do ciclo de vida (NBR ISO 14040, 2009). Vários instrumentos baseados nessa metodologia existem para apoiar o cálculo do impacto. Esta categoria de metodologia inclui ferramentas de software comercial, usadas direta e indiretamente (RAHDARI e ROSTAMY, 2015). Desta maneira, a ACV tem dentro dos seus objetivos analisar os impactos oriundos dos processos produtivos, identificando as causas e consequências de seus impactos.
Figura 13- Processo da avaliação do ciclo de vida. Fonte: NBR ISO 14040 (2009).
De acordo com a norma NBR ISO 14040 (2009), a estrutura da avaliação do Ciclo de Vida de produtos apresentada na Figura13, deve incluir em seu desenvolvimento e aplicação, a
definição do objetivo e do escopo do estudo, uma análise do inventário, uma avaliação de impacto ambiental e a interpretação dos resultados.
As etapas da ACV são basicamente, a definição dos objetivos que consiste em limitar o estudo e escolher a unidade funcional, a análise do inventário de entradas e saídas de energia e materiais relevantes para o sistema em estudo, a avaliação do impacto ambiental associado às entradas e saídas de energia e materiais ou avaliação comparativa de produtos ou processos que avalia os impactos devidos às emissões identificadas e ao consumo de recursos naturais, assim como interpreta os resultados da avaliação de impacto com a finalidade de implantar melhorias no produto ou no processo.
Quando a ACV é utilizada para comparar produtos, esta última etapa é a que recomenda qual produto seria ambientalmente preferível, além de identificar oportunidades de melhoria de desempenho ambiental no ciclo de vida dos mesmos. De modo geral, a ACV permite criar e gerenciar informações para análise, e também auxilia na tomada de decisão junto aos projetos e fabricação (CHEHEBE, 1997).
Sustainable Value Stream Mapping (Sus-VSM): Value Stream Mapping (VSM) é uma
técnica importante utilizada na fabricação enxuta para identificar os desperdícios, define-se como sendo um fluxo de valor que identifica todas as ações necessárias, tanto de valor agregado como de valor não agregado, para trazer um produto por meio de seus fluxos essenciais, como: o fluxo de produção da matéria-prima até o cliente e o design do conceito para lançamento. O VSM vêm recebendo atenção quando se trata de fabricação verde e sustentável (FAULKNER E BADURDEEN, 2014).
Sus-VSM é uma ferramenta preliminar para avaliar o desempenho da sustentabilidade econômica, ambiental e social na manufatura. As métricas existentes para avaliação do desempenho de produção sustentável são examinadas para identificar critérios e métricas essenciais a serem incluídos no VSM (método de produção enxuta para identificar desperdícios, analisar o estado atual e projetar o estado desejado da manufatura), promovendo a produção sustentável deste produto e consequentemente realiza a melhoria contínua, resultando no Sus- VSM (FAULKNER E BADURDEEN, 2014).
As métricas a serem avaliadas no desempenho da fabricação sustentável pelo Sus-VSM, são as seguintes: métricas para avaliar a produção sustentável, como os indicadores e índices; métricas econômicas, em termos de valor agregado e custos incorridos, tempos de ciclos, tempos de transição, horários de funcionamento, número de operadores envolvidos, nível de inventário em andamento; métricas ambientais, que podem ser métricas de consumo de água do processo, métrica de uso de matérias-primas, métricas de consumo de energias; métricas
sociais, como métrica de trabalho físico e métrica do ambiente de trabalho. Além disso, os valores das métricas documentadas em um Sus-VSM não serão suficientes para classificar se uma métrica específica é boa ou ruim. Esta avaliação requer comparar e relacionar os valores com o desempenho em outras linhas / sistemas semelhantes, com dados de benchmarks da indústria ou avaliando em relação a um Sus-VSM anterior para a mesma linha (FAULKNER E BADURDEEN, 2014).
Sustainability Balanced Scorecard (SBSC): Apresentada por Figge et al. (2002), baseia-
se no Balanced Scorecard (BSC) proposto por Kaplan, R S e Norton (1992), mas com a inclusão dos aspectos ambientais e sociais nas estratégias da empresa. Utiliza-se para contabilizar fatores de sucesso não monetário, como exemplo os aspectos de sustentabilidade que têm um impacto significativo e financeiro na empresa, ou seja, estes aspectos são atributos para medição e verificação de desempenho das estratégias estabelecidas. O conceito SBSC é um conceito aberto, isso significa que pode usar estratégias corporativas "convencionais", bem como estratégias explícitas de sustentabilidade corporativa como ponto de partida.
Na figura 14, apresenta-se o processo formulado da ferramenta SBSC em que é de grande importância possuir uma gestão baseada no valor dos aspectos ambientais e sociais, estes aspectos devem ser integrados ao sistema geral de gestão da empresa. Este processo deve garantir que o SBSC seja específico da unidade de negócios. No entanto, os aspectos ambientais e sociais de uma unidade de negócios devem ser integrados de acordo com sua relevância estratégica, isso inclui a questão de saber se à introdução de uma perspectiva adicional não comercial é necessária (FIGGE et al., 2002).
Figura 14. Processo de formulação de um SBSC. Fonte: Adaptado de FIGGE et al., (2002)
Responsabilidade Social Corporativa (RSC): RSC é uma abordagem de gestão voltada a contribuição das empresas para o desenvolvimento sustentável. Com base no conceito de gestão de relações com as partes interessadas, Steurer et al. (2005), definiu a RSC como: "conceito pelo qual as empresas integram preocupações sociais e ambientais nas suas operações de negócio e na sua interação com as partes interessadas numa base voluntária" e “não é uma surpresa encontrar a tríplice linha de fundo também no contexto”. A abordagem enfatiza fortemente a necessidade de consulta com as principais partes interessadas da comunidade no desenvolvimento sustentável (KANG et al., 2015).
Figura 15- Vinculo da Responsabilidade Social Corporativa na sustentabilidade.
Fonte: Munck e Souza (2009).
Conforme Munck e Souza (2009) e considerando o vínculo apresentado na Figura 15, a responsabilidade social corporativa em seus escopos econômicos, sociais e ambientais, dependem de três personagens fundamentais: das pessoas, do planeta e do lucro, os quais, se adicionam como parte considerável dos aspectos necessários para se alcançar a sustentabilidade organizacional.
Por conseguinte, a responsabilidade social corporativa constitui uma iniciativa estratégica que fundamenta a sustentabilidade organizacional, a qual é parte integrante e fenômeno consequente da estratégia organizacional responsável por conciliar interesses organizacionais, expectativas sociais e preservação ambiental.